Portugal é grande quando abre horizontes

24
Set 16

Nesta altura do ano, as minhas caminhadas diárias passam pela esplanada da Torre de Belém. E mesmo agora, já tarde em setembro, a zona está cheia de turistas. Neste momento, são sobretudo gente da terceira idade, vinda até Lisboa nos navios de cruzeiros. E todos os dias lá estão cerca de duas dezenas de gente nossa, cigana, os homens a tentar impingir aos turistas paus para tirar selfies, uns sticks de plástico barato, e as mulheres, xailes de fibras artificiais, fabricados num qualquer país da Ásia, e comprados aos quilos, num qualquer canto mais escuro do mercado informal em que os nossos concidadãos ciganos se movimentam bem. Quando recentemente indaguei como ia o negócio, um dos homens disse-me que este tipo de turistas dos cruzeiros não compra paus nem panos. Mas a verdade é que ele e os outros e outras lá estão, persistentemente. Por vezes, nem deixam os turistas tirar as suas fotos em paz, tal é a ânsia de vender. Ainda hoje assisti a uma cena dessas, com o velho turista a implorar que o deixassem em paz, para poder tirar uma ou duas fotografias à Torre. Por vezes, a PSP aparece no local. E nessa altura, pode tirar-se toda a fotografia que se quiser, na maior das tranquilidades. Os meu amigos vendedores desaparecem da esplanada, num segundo, como que levados por uma rabanada de vento frio. Nessa altura, não há pau nem xaile para ninguém.

publicado por victorangelo às 21:58
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20
Jul 16

Estive ontem em Ansião e Penela, no centro de Portugal. São ambas as localidades sedes de município. E até parecem ser geridas com algum cuidado. Mas o que mais me impressionou foi a sua dimensão bastante reduzida bem como a vida parada que se vive nessas terras. Pacato é uma coisa, falta de animação é outra bem diferente. Quem por aí fica acomoda-se e aceita. Ou então, dorme aí mas vai trabalhar o seu quotidiano em Pombal ou em Coimbra.

 

publicado por victorangelo às 22:21
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04
Jul 16

A questão das possíveis sanções da Comissão Europeia a Portugal traz muitos e variados ânimos exaltados. No que me respeita, já aqui escrevi que não creio que a proposta de sanções que a Comissão venha a fazer vá muito além de um aviso e de um par de recomendações. E, contrariamente ao que por aí se diz, convém lembrar que nestas coisas quem te avisa teu amigo é. O aviso deve ser visto como um lembrar das fragilidades da nossa economia e ainda, como um apelo a que não esqueçamos que sem credibilidade externa não haverá investimentos vindos de fora e sem investimentos não teremos nem mais emprego nem mais recursos para financiar a nossa enorme ambição social. Acreditar que Bruxelas toma posição por razões de desconforto político, por não se sentir bem com um governo que tem uma base de apoio não-ortodoxa, não me parece ser a melhor resposta. Só serve para desviar a nossa atenção dos verdadeiros desafios que temos pela frente.

                                                                  

 

publicado por victorangelo às 23:44
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20
Jun 16

Brexit 

A campanha à volta do referendo tem sido muito dura e extrema. Era de esperar que assim fosse. Um referendo divide o eleitorado entre o Sim e o Não, sem as matizes e as hesitações que se encontram nas eleições partidárias. Por outro lado, um dos partidos mais visíveis na campanha para o referendo é o UKIP – UK Independence Party –, um partido xenófobo radical. Tem sido uma voz forte na campanha. As divisões dentro do Partido Conservador também levaram a um exagero de posições, já que cada lado procurou dramatizar o que estava em causa. 

O assassinato de Jo Cox exemplificou, de modo trágico, a violência verbal a que temos assistido. Mas não pode ser visto como uma falha da cultura política britânica. O que é na verdade uma derrapagem da cultura política do Reino Unido é a xenofobia, o ataque contra os direitos dos imigrantes, o menosprezar de outros europeus, sobretudo os provenientes de países mais pobres. 

Os resultados do referendo poderão de algum modo ser influenciados pelo homicídio de Jo Cox por um tresloucado apoiante do Brexit. Mas não sei se isso será suficiente para inverter a tendência que dá a vitória aos que querem a Grã-Bretanha fora da UE. Também não sei se as sondagens estão correctas. As casas de apostas pensam que as sondagens não estão a reflectir o que possa vir a acontecer. 

Economia

Os argumentos económicos começam agora a ter um pouco mais peso, a merecer mais atenção por parte do eleitorado.

Cerca de 50% das exportações britânicas vão para a UE.

Cerca de 7% das exportações da UE vão para o Reino Unido.

Para o RU, o comércio com a UE representa 3 vezes o que é feito com os EUA, 9 vezes o que tem lugar com a China, 42 vezes mais do que o comércio com a Austrália. 

Libra pode desvalorizar 15% em relação ao USD. 

As bolsas já estão a perder valor, mesmo antes do referendo. 

Frankfurt e Luxemburgo poderão ganhar mais relevo enquanto centros financeiros. Mas não vai ser de imediato. Estas coisas, que são altamente especializadas, levam tempo a ser transferidas. Seria, se acontecesse, uma transferência progressiva, que demoraria três a cinco anos, pelo menos. 

Não creio que haja vontade política, na EU, para dificultar, para tornar mais complicada as actividades de Londres nos mercados financeiros europeus. A preferência é a de não mudar radicalmente o sistema financeiro tal como tem existido até agora.           

É provável, no entanto, que as exportações britânicas para a Europa sejam penalizadas com novas taxas. 

Impacto político

 

Na Holanda, na Dinamarca, certamente, que poderão pensar em organizar os seus próprios referendos.

No reforço dos movimentos populistas, nomeadamente em França, na Alemanha, na Hungria e na Polónia.

No entanto, uma vitória do Brexit não será o início do fim.

publicado por victorangelo às 08:54
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16
Jun 16

Desde inícios de 2016, os mercados europeus de capitais - as principais bolsas no espaço da UE - já perderam mais de 14% do seu valor. Uma boa parte dessa perda teve lugar nos últimos dez dias, após ter ficado claro que a saída do Reino Unido da União Europeia poderá vir a acontecer. Só a bolsa de Londres viu desaparecer no vazio, ou evaporar-se no buraco escuro que sempre ameaça as operações financeiras, cerca de 30 mil milhões de libras, nas duas últimas semanas. Há quem diga que a quebra já está feita e que pouco mais haverá ainda a perder. Penso que não. Defendi essa posição hoje em Genebra. E acrescentei que uma desvalorização a curto prazo da libra, se o voto for pela saída, poderá acrescentar mais 15% de prejuízos a quem esteja exposto a essa moeda. E mais haverá.

publicado por victorangelo às 19:00
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15
Jun 16

Estando prevista para amanhã ao fim do dia uma manifestação dos estivadores, penso que é altura de se começar a pensar no desenvolvimento a sério dos outros portos nacionais de mercadorias, em alternativa ao porto mercantil de Lisboa. Com o tempo, fará cada vez menos sentido ter um porto comercial no centro da cidade capital, com tudo o que isso implica de trânsito de camiões e de comboios de mercadorias, para além das questões estéticas e de ordenamento urbano. Essa zona ribeirinha deve ser aproveitada para a navegação de recreio, para os cruzeiros e para as actividades de lazer. A prazo, Setúbal, por exemplo, poderá receber uma boa parte do tráfego. Sem esquecer, claro, Sines e Leixões.

publicado por victorangelo às 22:30
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08
Jun 16

Alguns dos meus amigos portugueses ainda não entendem – nem querem ver – a fragilidade que caracteriza o sistema bancário do nosso país. Mais ainda, parecem não querer acreditar que uma boa parte dessa crise, visível já ou que se anuncia, resulta de gestão irresponsável, e mesmo danosa, de muitos dos que têm estado à frente dos bancos nacionais. Várias formas de compadrios, incluindo políticos e maçónicos, estão na origem da precaridade financeira actual.

O mais interessante é ver como a comunicação social passa ao lado da questão. Não é, contudo, uma surpresa. Os nossos grupos informativos, donos dos jornais e das televisões, estão também eles profundamente endividados e sinceramente gratos por haverem beneficiado da generosidade irresponsável, compadre e amiga dos bancos que temos.

No fundo, estas coisas estão um bocado ligadas. O enredo é grande e propositadamente silencioso.

publicado por victorangelo às 20:14
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29
Mai 16

Depois de uma muito prolongada greve e de um acordo estranho, conseguido na sexta-feira e tratado de modo superficial e ingénuo pela nossa comunicação social, que não dá para entender bem este enredo mal contado, caberia agora ao governo ordenar a efectivação de um estudo independente sobre o funcionamento dos principais portos comerciais da parte continental de Portugal.

Esse tipo de análises é prática corrente noutros países desenvolvidos. São normalmente encomendadas a centros de estudos universitários ou a grupos de personalidades de reconhecido prestígio e independência, gente sénior e sem ambições de carreira ou enfeudamentos partidários. Permitem fazer um diagnóstico do sector e propor um conjunto de melhorias que serão, depois, submetidas à decisão política.

Os portos constituem uma componente estratégica da economia nacional. Sobretudo no nosso caso, em que uma das apostas do futuro deveria passar pelo bom funcionamento das infra-estruturas portuárias.

publicado por victorangelo às 14:57
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22
Mai 16

A China e o seu estatuto perante a EU no quadro da Organização Mundial do Comércio 

Economia de mercado? 

12 de maio no Parlamento Europeu: os MEPs votaram contra a atribuição à China do estatuto de economia de mercado. 

O voto é meramente indicativo, não é vinculativo. 

Mas a Comissão Europeia não é favorável à mudança de estatuto da China e vários estados ir-se-ão opor ao novo estatuto. Irão continuar a aplicar medidas anti-dumping contra a China.  

A minha sugestão: o câmbio de estatuto poderia ser limitado a certos sectores, como o do aço (330 000 empregos na EU), das indústrias químicas, cerâmicas, etc. 

Receio da uma concorrência desleal e da perda de muitos empregos na Europa: embora ninguém saiba ao certo quantos empregos possam estar em risco: fala-se de 200 000 a 3,5 milhões…Ou seja, não há uma ideia clara, vive-se nas nuvens do medo.  

Entretanto as empresas chinesas e os consórcios de investidores chineses já adquiriram este ano, até 11 de maio, 111 mil milhões de USD em empresas estrangeiras. 

Em 2015, haviam investido 107 mil milhões de dólares em todo o ano

Em 2006, 21 mil milhões de dólares gastos pelos chineses em aquisições de empresas em todas as partes do mundo.

Em 2000, apenas 1,7 mil milhões de dólares. 

Este ano o destino das aquisições chinesas tem sido o seguinte: Suíça, EUA, Hong Kong, Alemanha e França, por ordem decrescente do valor dos investimentos 

Exemplos:   ChemChina comprou este ano a sua rival suíça Syngenta por 43 mil milhões de dólares. 

                   Em 2015, um consórcio chinês comprou o aeroporto de Toulouse, que é a base de Airbus.

publicado por victorangelo às 21:14
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21
Mai 16

Não sou nem pretendo ser o primeiro-ministro de Portugal. A minha ambição política actual não chegaria nem para ser o motorista do primeiro-ministro. No entanto, se alguém me perguntasse hoje qual seria a questão número um, fosse eu o chefe do governo, a principal preocupação a que deveria dar uma atenção muito especial, creio que responderia de um modo muito claro: o sistema financeiro nacional. Os bancos nacionais estão profundamente enfraquecidos, com carteiras cheias de créditos mal-parados, com custos fixos elevados, uma actividade comercial ao ralenti e sem capacidade para financiar ou acompanhar o crescimento da economia nacional. Até a Caixa Geral de Depósitos, que muitos gostam de ver como uma instituição de todos nós, está a acumular prejuízos significativos e a viver de ficções contabilísticas. Precisa, rapidamente, de uma importante injeção de capital.

Nas praças bolsistas mais importantes da Europa sabe-se que a situação da banca privada portuguesa é frágil. Ninguém com juízo compra ações de bancos portugueses.

Entretanto, em Lisboa, quem tem poder finge que não vê.

 

publicado por victorangelo às 21:04
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