Portugal é grande quando abre horizontes

15
Ago 15

Estamos no meio de Agosto. Que este ano cai a um Sábado. Ou seja, este é o fim-de-semana por excelência do período de férias. É igualmente um momento de grandes movimentações. Há muitos anos, lembro-me, muitos e muitos anos atrás, procurei viajar, por razões de extrema urgência, de Bruxelas para Lisboa. Foi-me impossível encontrar um lugar num qualquer voo. É verdade que nesses tempos recuados as ligações ainda eram escassas e não existia a oferta que hoje faz parte do nosso quotidiano.


Ontem a minha viagem era mais curta. Mas poderia ter sido uma experiência definidora. Tratava-se de atravessar a avenida da Ilha da Madeira, no Restelo, de um passeio para o oposto, à altura do supermercado “El Corte…” nos nossos porta-moedas. Um fulano jovem, que conduzia com pressas, estava ao mesmo tempo ao telefone, provavelmente a acertar com a mulher que tralha levariam para férias. Essas conversas são importantes em meados de Agosto. Exigem concentração. Por isso, não deve ter notado este pobre ser a meio da rua, na passadeira. Mas eu notei a pressa do homem. E quase que a senti. Deve ter sido uma coisa de dez centímetros.


Serve isto para desejar a todos uma boa viagem. Por mais curta ou simples que ela seja. Ou uma boa viagem para quem se casa hoje, como está previsto que aconteça logo à tarde. É a minha filha mais velha que embarca nessa viagem.

publicado por victorangelo às 09:11
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22
Jun 11

 

 

Copyright V. Angelo

 


 

Volto dentro de dias a Lisboa. É a migração do verão, como certas aves.

 

A verdade é que não nunca terá sido fácil ser um bicho migratório. Mas assim é a vida. 

 

A propósito, parece que muitos jovens portugueses estão, novamente, a encarar a emigração como uma saída para o futuro. É, de facto, uma saída. 

publicado por victorangelo às 21:06
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14
Fev 11

 

Copyright V. Ângelo

 

 

O que conta é o inesperado. Com carinho.

publicado por victorangelo às 08:45
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17
Fev 10

 

 
 
 
O Sapo e o Elefante
 
Com o tempo, o Sapo convenceu-se que era o rei da poça de água. Outros animais passavam, diariamente, pelo local, para matar a sede. Pouco tempo ficavam, que, na selva, os sítios onde existe o precioso líquido são sempre muito perigosos. Todo o tipo de emboscadas acontecem junto aos pontos de água. Apenas o Sapo vivia na falsa tranquilidade de um sítio que, a qualquer estranho menos experiente, pareceria tão ameno.
 
Um Elefante começou a frequentar o charco com regularidade. Banhava-se demoradamente, deliciava-se na lama, sentia-se bem na frescura da paisagem. Era um Elefante muito ruidoso, de grandes espalhafatos. Muitos dos frequentadores do atoleiro desistiram da frequentação. O bulício provocado pelo gigante tornava o local ainda mais arriscado, pois deixava de ser possível ouvir os ruídos mais subtis dos que vivem da perdição dos outros.
 
O Sapo passou a ver o Elefante como o seu inimigo principal. Não gostava da concorrência. Caiu-lhe mal que o seu pequeno paraíso tivesse sido abandonado pelos outros animais. Ele que era o chefe do pântano! Estava a perder os súbditos.
 
Cada vez que se via reflectido na água vinha-lhe á cabeça comparar-se com o Elefante. Á força de se mirar, começou a convencer-se que era, pelo menos de peito, tão corpulento como o mastodonte. Mas como era de natureza medrosa, não se atrevia a medir-se com a besta.
 
Nas redondezas vivia uma boa de formato grande. Tinha o hábito de caçar antílopes. Mas estes eram cada mais raros, nas margens do charco. O Sapo pensou, e bem, que a jibóia poderia ser um aliado de peso, na cruzada para correr com o Elefante. Uma serpente com razões de queixa é uma ameaça de grande efeito.
 
E o Elefante acabou por ir à procura de outras paragens. O Sapo viveu uns momentos de grandeza, senhor que era de novo deste éden de lama e águas turvas. A boa esperou que as impalas voltassem. Mas esperar é exercício de paciência e a paciência nem sempre mata a fome. Nem o Sapo a matou. Que engolir um Sapo é obra pequena, quando se vive ao lado de uma jibóia de corpo inteiro.
 
 
Copyright V. Ângelo

 

publicado por victorangelo às 21:42
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20
Jan 10

 

Copyright V.Ângelo

 

Fiz centenas de quilómetros na poeira do deserto, visitei vários campos de refugiados, encontrei-me com dezenas de trabalhadores humanitários, vi gente a sofrer nos hospitais de campanha, crianças sem escolas, sem alimentação, mulheres que são violadas quando vão à procura de lenha, polícias corajosos, como o Coronel Ahmat, só ossos, mas uma grande experiência de combate e uma inteligência fina e sensível. Um homem sem medo.

 

Viajei estes dias com um um enorme lenço à volta do pescoço e do nariz, à la palestiniana, tentei proteger-me do pó fino, mas acabei o dia a sangrar do nariz, a tossir e castanho como uma maçã reineta meia podre. A minha figura era tão pouco usual, com o pano aos quadradinhos cor de areia à volta da cara, o nariz a apontar na direcção da estrada, que acabei por dizer aos meus guarda-costas que, se houvesse uma emboscada, os bandidos fugiriam de horror, ao ver-me nessa figura estranha. Um horror, sentado no banco da frente.

 

Mas voltei a encontrar gente de muito valor. Que nos ensinam a ser modestos e atentos aos outros.

publicado por victorangelo às 21:09
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20
Ago 09

 

Ontem e hoje, passei várias horas de Learjet, a atravessar a África Central. Felizmente que o jet é rápido e confortável. A tripulação, dois jovens alemães, um dos quais Negro, que mesmo na Alemanha, o mundo está a mudar muito depressa, é muito flexível, o que me permite voar logo que a missão em determinado país esteja concluída.

 

Hoje começámos o dia em Bangui. Tinha uma reunião com o General comandante das forças expedicionárias da África Central. Um homem dos Camarões, com duas estrelas e muita paciência. Que isto de ser comandante militar em zonas de grupos armados exige sabedoria e calma.

 

Tinha dormido numa residencial, junto à Catedral, no sopé das colinas de Bangui. Um sonho, acordar cedo e ver as árvores de grande porte, duma vivacidade única, que nos dá força e faz desejar todas as belezas do mundo. As colinas estão menos densas do que há 25 anos, quando vivi nesta cidade. Mas continuam a ser povoadas por árvores tropicais que impressionam o viajante de olhos abertos.

 

Como é frequente, a manhã estava azul de linda. As nuvens, como nas nossas vidas, só aparecem ao fim da tarde.

 

Seguimos, depois, muito para Norte. Directamente de Bangui para Abéché. Do Equador e dos rios potentes, para o deserto e as colinas de pedras nuas. O vento sopra desde o início da história em Abéché, e as colinas já não têm solo. A erosão é tal que cada colina é apenas um amontoado de pedregulhos, sem terra que faça a ligação. Parecem pirâmides egípcias.

 

Nesta altura do ano, os wadis --rios temporários, comuns no deserto -- estão semeados de poças de água. Faz bem ver água nestas terras de cascalho e areia.

 

No deserto, a tarefa política era iniciar a plantação de 5 000 árvores. Acácias. Resistem à falta de água. Cada acácia é como um voto de confiança que obtenho das populações locais. Cada árvore é um reabrir da esperança.

 

Houve grande festa. As mulheres locais estavam lindas, nos seus vestidos brancos e lenços vermelhos, as cores da felicidade. Eu estava de fato, pois vinha do meu encontro com o General. Nunca tinha plantado árvores de fato. Digo-vos que não é nada cómodo. Mas consegui enterrar umas plantas de manga, que é um fruto muito apreciado.

 

Umas horas depois, estava em N'Djaména. A discutir geopolítica com os Franceses.

 

No final do dia, consegui arrastar os pés para fora de todas estas ocupações. Que grande vitória.

 

E amaldiçoei o Learjet.

publicado por victorangelo às 21:59
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24
Jul 09

 

A política portuguesa é um mito com duas faces.

 

Uma olha para a Esquerda e diz coisas que parecem modernas, mas num ambiente partidário de má-língua e coscuvilhices, de atrasos culturais e ideológicos. Sem coragem nem planos. Palavras, palavras.

 

A outra, vira-se para a Direita, cheira a privilégios do passado, a água benta e a um Portugal do tempo de Júlio Dinis. É um enjoo.

 

Este é o nosso dilema político. O corpo é o mesmo, estafado e sem energia. As mentes projectam cansaço, falta de ideias, um país rural e abafado, perdido numa língua que não se consegue defender e que se ajoelha perante as ignorâncias dos palradores do resto da comunidade linguística que o não é.

 

Estamos tramados?

 

 

publicado por victorangelo às 13:34
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12
Jul 09

 

Da minha varanda, neste serão fresco de Domingo, o Tejo parece correr com tranquilidade. Não há grande movimento. Mesmo as ruas, entre o grande rio e a minha casa, estão relativamente silenciosas.

 

É altura de escrever a minha peça regular, para a revista que me acolhe. Depois de um fim-de-semana de férias em família, coisa rara, as palavras escritas têm dificuldades em encontrar o caudal habitual. As frases, depois das pessoas, parecem coisa vagas, pesadas e impenetráveis.

 

Tudo muito a contrastar com a calma das águas e deste lado da cidade.

publicado por victorangelo às 21:42
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07
Jul 09

 

A decisão foi de passar a noite de hoje em Salamanca. Uma c idade que sempre associei a Miguel de Unamuno, o grande pensador e comentarista das primeiras décadas do século passado. Bem como a uma aventura de jovem, num regresso da Bélgica com a Christiane, em 1969. Foi nesse ano que visitei Salamanca pela primeira e pela última vez, com todos os sabores de quem tinha 20 anos mal medidos.

 

Hoje, a cidade é outra. Apareceram muitas urbanizações nos arredores do casco urbano. Mas continua a ser uma urbe fundamentalmente académica. O Programa Erasmus traz jovens universitários de toda a Europa. Sentado, esta tarde, na Plaza Mayor, vi desfilar, mesmo neste período em que as aulas estão paradas, jovens com todos os tons de loiro e de castanho. Faz bem ver a juventude. Pensa em termos mais abertos.

 

Jantei no Mencía, que é dos melhores locais da cidade. Estava às moscas. O proprietário, com quem passei o serão a falar da crise, disse-me que a quebra de receitas, em relação ao período homólogo de 2008, é de mais de 40%. Na verdade, queria dizer pelo menos 50%, mas faltava-lhe a coragem para o fazer. Quer acreditar que a situação vai melhorar. Não quer dar um ar de pessimismo à vida. Mas a vida está em crise, e em Salamanca, também. Não há dinheiro para jantares fora de casa, não aparecem turistas, está tudo muito parado.

 

É verdade. Estamos em Julho, e as ruas estão desertas de forasteiros. Os habitantes locais passeiam-se pelas principais artérias. Mas é um passeio sem despesas. É o passeio dos pobres.

 

No final disse-me que apenas o novo homem do Real Madrid não tem razões para se queixar...

 

E assim vai o jogo da vida.

 

 

publicado por victorangelo às 22:20
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04
Jul 09

 

Hoje, cedo, senti uma brisa fresca. Está um lindo dia de Sol. Mas também se consegue apanhar um pouco de frescura, à sombra das árvores que estão na plena força do Verão. Tudo isto é altamente apreciado, quando se vem de vários meses no Sahara e no Sahel.

 

O verde e a brisa dizem-me que é tempo de desaceleração. Por duas semanas.

 

Quem anda aos ventos secos compreende melhor a bênção que sai do verde das árvores frondosas.

publicado por victorangelo às 07:59
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