Portugal é grande quando abre horizontes

09
Jan 17

Hoje foi uma espécie de dia de rentrée, ao nível da política europeia. Terminaram as férias do Natal e do Ano Novo. Bruxelas está cheia de caros de novo. E de conversa.

Falou-se do Movimento 5 Estrelas, os confusos básicos do populismo italiano, que agora querem entrar na família dos partidos liberais europeus. Já não se sentem bem ao lado dos racistas do partido de Nigel Farage, a quem fizeram companhia no Parlamento Europeu durante vários anos.

Espanto, por se saber que Beppe Grillo e os seus Estrelas ou estrelados querem acabar com a Europa, começando por fazer sair a Itália do projecto comum. Se chegarem ao poder, claro.

O outro grande tema do dia foi o Brexit. A libra perdeu valor, uma vez mais, como tem vindo a acontecer desde 23 de junho de 2016. A imagem de Teresa May ficou ainda mais cinzenta: uma imagem de indecisão, de incapacidade de chefia em relação aos seus ministros e de centralização obsessiva dos assuntos de Estado na sua pessoa.

Enfim, um dia de Brexit em que houve de novo muita emoção e pouco realismo. E para complicar a coisa, o Vice-Primeiro da Irlanda do Norte pediu a demissão e voltou a colocar esse território na lista das preocupações que apoquentam Londres.

Azares atrás de azares. Que rentrée tão promissora…                                             

 

 

publicado por victorangelo às 20:30
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21
Jun 16

Bruxelas, uma cidade cosmopolita, que mistura nacionais com gentes das mais diversas origens e crenças, foi alvo de atentados terroristas a 22 de março. Desde então, os seus residentes têm assistido a toda uma série de operações de polícia, algumas bastantes espectaculares e susceptíveis de criar medo, de detenções e mesmo de falsos alertas, como aconteceu hoje na zona comercial mais importante do centro da cidade.

Perante tudo isto, perguntam-me frequentemente, quando me desloco ao estrangeiro, se os residentes de Bruxelas vivem na ansiedade de novos atentados. A minha resposta habitual é clara. Refiro que a vida voltou às rotinas habituais, que as pessoas não passam o tempo a olhar por cima dos ombros, numa atitude de desconfiança de tudo e de todos. Mais ainda. Quem costumava andar de lenço atado à volta da cabeça e com indumentária associada à religião que alguns praticam – são aliás muitos os que seguem essa prática, nesta terra tão diversa – continua a fazê-lo, sem hesitações e também sem sofrer qualquer tipo de intimidação ou de comentário mal-intencionado.

Hoje o diário La Libre, um dos grandes jornais de Bruxelas, inquiriu os seus leitores sobre se “as ameaças terroristas provocam angústias no nosso quotidiano”. Curiosamente, cerca de 1 em cada 4 respondeu que sim. Que se sente menos seguro, quando se encontra em lugares públicos.

Afinal, estas coisas deixam traumas e marcas na população. E será por isso que certos partidos e movimentos de opinião procuram aproveitar esses temores colectivos em benefício das suas causas. O medo tem um valor político. Tal como a normalidade. Mas são valores de tipo diferente.

 

 

publicado por victorangelo às 18:06
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05
Mai 16

A minha passagem pelo aeroporto de Bruxelas correu bem. Apesar da presença massiva da polícia, os controlos são escassos e rápidos. O pessoal de assistência em terra procura ajudar os passageiros a orientarem-se através dos percursos provisórios que entretanto foram abertos.

Pouco a pouco estamos a voltar aos procedimentos normais. É, no entanto, aconselhável viajar sem bagagem, quando tal for possível.

Muitas companhias aéreas reduziram a frequência dos voos para Bruxelas. Irá passar algum tempo mais, antes que voltemos ao número de voos que existiam antes de 22 de março.

publicado por victorangelo às 21:06
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03
Mai 16

Amanhã, bem cedo, vou utilizar pela primeira vez, depois dos atentados de 22 de março, o aeroporto de Bruxelas. Na última viagem, uma semana depois das explosões, saí por Dusseldórfia, na Alemanha, a duas horas e meia de carro de Bruxelas. Desta vez, trata-se de uma ida e volta no mesmo dia a Zurique. O percurso do regresso será fácil, pois quem chega a Bruxelas segue o itinerário normal, sem novidades. A confusão tem sido do lado das partidas. Há controlos a mais, mesmo desnecessários, e pessoal de controlo a menos. Ontem e hoje houve quem estivesse na fila de espera, antes de poder ingressar no aeroporto, duas horas ou mais.

Dizem-me agora que amanhã tudo estará melhor. Veremos.

Entretanto terei que me levantar de madrugada, para não arriscar ver o voo sair, comigo em terra…E decidi não levar o carro para o aeroporto, o que teria acontecido, se as circunstâncias tivessem voltado à normalidade. De táxi, o acesso é mais fácil. E muito mais caro.

publicado por victorangelo às 22:01
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24
Mar 16

Bruxelas continua a viver ao ralenti. O choque foi extremamente violento. Recuperar leva algum tempo. Mas os cidadãos têm sabido manter a serenidade.

Ontem, por exemplo, fui ao teatro, como estava previsto há bastante tempo. A sala estava quase cheia, poucos foram os que tiveram receio e preferiram ficar em casa.

Ora, o teatro, uma instituição muito conhecida, com três peças a correrem cada serão, está situado num bairro marcadamente “estrangeiro”, quase inteiramente muçulmano, Saint Josse, para quem conhece Bruxelas.

Uma boa parte dos espectadores são pessoas de “uma certa idade”, gente que já tem muita experiência da reforma, muitos anos de pensionista. Lá estavam, ontem, como das outras vezes. E os mais jovens também.

Eu olhava para aquela grande sala, e pensava na tragédia que seria se alguém resolvesse lançar alguma coisa no meio daquela gente. É difícil não pensar assim. Estamos todos obcecados pelas hipóteses de mais atentados.

Mas, no final, a vida continua e o espectáculo não pode parar.

Esta sim, esta é que é a normalidade. O terrorismo não é nem nunca será a normalidade, nem nova nem velha. É uma aberração de doentes e criminosos.

 

 

 

publicado por victorangelo às 19:53
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22
Mar 16

De Bruxelas, preocupado mas com calma

Victor Ângelo

 

 

                Esta semana, o meu plano era escrever sobre as ameaças terroristas. Parecia-me lógico, no seguimento das operações policiais de há dias, aqui em Bruxelas, que levaram à detenção do homem mais procurado na Europa, Salah Abdeslam, o bombista de Paris que resolvera não fazer detonar a sua cintura de explosivos. E ainda ontem, no meu programa semanal sobre assuntos europeus, produzido para a Rádio TDM de Macau, tive a oportunidade de referir que seriam de prever novos atentados, nos próximos tempos. Não apenas por causa da captura de Salah, que parece disposto a abrir a boca e a contar umas coisas, que serão certamente de grande interesse para a polícia, mas também porque o famigerado Estado Islâmico está cada vez mais acossado. Quando isso acontece, a sua liderança gosta de lançar a confusão noutras terras, nomeadamente na Europa.

            Não imaginava eu que essa possibilidade de mais atos de terror iria materializar-se tão cedo, ou seja, hoje, ao começo do dia de trabalho nesta cidade que se tornou uma pequena loucura de movimento de gentes e de viaturas nas horas de ponta. O aeroporto nacional, por volta das oito da manhã, de semana, está sempre num rodopio, gente que chega e que sai, muitos em viagens curtas, com regresso ao fim do dia, para ir assistir a uma reunião aqui e acolá. Também o faço muitas vezes. Bruxelas está geograficamente, e não apenas politicamente, no centro da Europa, e o aeroporto é uma placa giratória importante, muita gente jovem e outros no auge da vida ativa a chegar e a partir ao começo do dia.

            Quem decidiu colocar as três bombas no aeroporto, a essa hora, sabia que essa ação teria um efeito máximo. Uma vez mais, o inimigo mostrou capacidade de planeamento e de escolha dos alvos de maior impacto político, mediático e, desta vez, económico.

            E mostrou mais. Ao decidir fazer explodir, uma hora e picos depois, uma outra bomba na estação do metropolitano de Maelbeek, em pleno coração do distrito europeu e numa altura de muita passagem de pessoas, fez-nos lembrar que a união dos europeus, o projeto comum, é um alvo. Enfraquecer a UE, pôr em causa a sua imagem e, acima de tudo, a sua capacidade de resposta em matéria de segurança, interessa a muita gente, e seguramente aos terroristas do Estado Islâmico.

            E alguns idiotas do Brexit também. É verdade e fiquei chocado. Houve logo quem aproveitasse, no Reino Unido, e tentasse tirar partido dos trágicos acontecimentos de Bruxelas para fazer uma vez mais campanha pelo Não, pela saída da UE, dizendo que Bruxelas e a Europa não são terras seguras.

            São, sim senhor. Foi aliás isso que disse a muitos dos meus amigos, espalhados por vários cantos do mundo, que me telefonaram para perguntar se eu estava são e salvo. Estou, sim. Abalado, preocupado, triste perante o sofrimento de tantos, mas determinado e confiante.

            E estaremos todos assim, apesar do terrorismo, se mantivermos um rumo firme na cooperação europeia em matéria de segurança e de política internacional. Há aqui um desafio de liderança, mas é uma batalha que com o tempo pode ser ganha. Nestas coisas, quem perde, mais tarde ou mais cedo, são os terroristas e todos os radicais extremistas e violentos. E seríamos nós, também, se entrássemos em pânico.

 

(Texto que acabo de publicar na Visão on line sobre os dramáticos acontecimentos de hoje em Bruxelas)

publicado por victorangelo às 12:53
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17
Fev 16

            Cameron, um equilibrista sem rede

            Victor Ângelo

 

 

 

            Seria impensável não voltar a escrever sobre o Brexit. Trata-se de longe da questão mais importante da cimeira desta semana do Conselho Europeu. Depois disso, será a corrida para o referendo, previsto para finais de junho. Os eleitores britânicos terão na altura que se pronunciar sobre a permanência ou não do seu Reino na UE.

            Os chefes de estado e de governo deverão aprovar as soluções propostas por Donald Tusk há cerca de quinze dias. São razoáveis, inspiradas por uma vontade de se chegar a um acordo. Respondem, na medida do que é possível quando o que está em jogo é o consenso de 28 estados, às preocupações de David Cameron. E tudo isto deve ser dito de modo claro, pelos dirigentes dos estados membros.

            Não se pode, no entanto, ir mais além e abrir a porta a mais e mais concessões. O Reino Unido já está fora do Euro, de Schengen, das políticas comuns sobre a justiça, a segurança interna e as migrações. Ou seja, quando não lhe convém não aceita o princípio básico do projeto europeu, o da soberania partilhada. Tem, desta vez, que ficar claro que Londres não pode continuar a exigir sol na eira e chuva no nabal. É o momento da verdade. Ou o Reino Unido pega no que está agora em cima da mesa ou então, estaremos conversados. Já se gastou tempo e energia suficientes com um assunto que, à partida, era fundamentalmente um artifício de liderança partidária, um problema interno do Partido Conservador, e que acabou por se transformar numa ameaça muito séria à existência da UE.

            É sabido que muitos no Reino Unido consideram o acordo insuficiente. Dizem que Cameron está apenas a obter uma mão cheia de nada, simples vacuidades. Assim, para começar, iremos assistir este fim-de-semana ao esfrangalhar da unidade no seio do governo britânico. Um número significativo de ministros começará então a fazer campanha pelo Brexit, opondo-se deste modo à posição do primeiro-ministro. Esta cisão, reforçada pela que já existe no seio do grupo parlamentar conservador, e a vitória quase certa do voto pelo abandono da União, no referendo de junho, levam-me a pensar que David Cameron tem os dias contados, enquanto líder do seu partido e do governo.

            A rutura com a UE terá certamente um impacto económico negativo no PIB britânico. Mais grave ainda, uma votação contra a Europa voltará a colocar na ordem do dia a possibilidade da independência escocesa. O partido no poder em Edimburgo é europeísta. Se o campo do Brexit ganhar, os dirigentes da Escócia não perderão a oportunidade de reabrir o debate independentista. E o que foi uma derrota por poucos, em setembro de 2014, poderá tornar-se em breve num sim sem hesitações ao fim do Reino Unido.

            Seria um erro não falar dos riscos para o todo europeu. O mais perigoso, no meu entender, diz respeito à caixa de Pandora que o referendo britânico poderá abrir. Movimentos nacionalistas e partidos populistas, noutros estados europeus, poderão querer tirar vantagem política do precedente que se está a criar. Teríamos assim algumas tentativas oportunistas de referendos aqui e acolá, num jogo de demagogia e de luta pelo poder. Entraríamos, então, numa espiral incontrolável. E que seria aproveitada pelos inimigos, internos e externos, de uma Europa unida.

            Por tudo isto, a cimeira de Bruxelas tem que ser clara no tratamento do Reino Unido. E pôr um ponto final à discussão. Num clima como o atual, não deve haver espaço para mais hesitações. Quanto ao referendo, cabe a Cameron e aos seus compatriotas manter o equilíbrio até junho. E a melhor maneira de o conseguir, diz-nos quem sabe de coisas de circo e de política, é levantar o olhar e fixá-lo no futuro.

 

 (Texto que hoje publico na Visão online)

 

publicado por victorangelo às 17:42
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10
Jan 16

Fiz ontem algo que não fazia há anos: atravessar os bairros de Bruxelas que se encontram junto ou nas imediações da Gare du Midi, do lado oeste da estação ferroviária. São zonas muito populosas e com uma imensidade de pequenos comércios e outras actividades económicas, como por exemplo, dezenas de garagens que compram carros em segunda mão e depois os exportam para África. As ruas, sobretudo numa tarde de Sábado, estão sempre apinhadas de gente. Deambular por ali dá para perceber o que é a imigração para uma cidade como Bruxelas. Encontramos gente vinda do Norte e do resto de África, do Líbano e da Turquia, e de outras terras bem distantes da Europa. Não se vê um belga de origem ou pessoa parecida.

É como passear num gueto de 2016, de um tipo novo.

E fica-se a perceber que a imigração e a questão da integração de pessoas de culturas diferentes são dois dos grandes desafios que a UE tem pela frente. E a matutar que, na realidade, não existem políticas activas que procurem responder a esses desafios. Vive-se, para já, com os olhos fechados, como se os problemas não existissem.

 

 

publicado por victorangelo às 20:36
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29
Dez 15

Em pano de fundo, oiço repetidamente, este serão, o barulho de sirenes. A polícia anda atarefada, em buscas que garantam uma passagem do ano tranquila.

O acesso ao coração da cidade, onde terá lugar a festa popular da chegada do novo ano, vai estar bastante condicionado e ser filtrado de modo sistemático. Os carros particulares terão que ficar estacionados bem longe do centro. Mas as pessoas irão à festa. A segurança apertada, nestes momentos de grandes concentrações de cidadãos, já faz parte da normalidade. Aceita-se sem pestanejar.

A resposta a estas novas ameaças tem sido feita de modo coordenado. Aqui só há uma polícia encarregue da segurança interna. Não há competições nem preocupações de protagonismo. É verdade que nem sempre houve uma ligação correcta entre a polícia federal e as polícias locais. Esse problema está agora resolvido.

Por outro lado, a análise das ameaças é feita por um órgão independente, sem qualquer interferência do poder político. É uma apreciação técnica, com base nas informações provenientes da polícia, da inteligência militar e da Segurança do Estado (Sûreté de l´État). Tudo o que se sabe é posto em cima da mesa e analisado com muita atenção. O resultado é então transmitido ao Primeiro-ministro e aos ministros competentes, para que as decisões estratégicas sejam tomadas.

Entretanto, as responsabilidades individuais e institucionais em matéria de identificação de casos de radicalização estão a ser melhor definidas. Essa é uma das etapas mais urgentes e, ao mesmo tempo, das mais delicadas. Exige, além disso, meios de investigação que neste momento parecem ser insuficientes.

E assim se vão organizando as coisas. É uma questão de eficiência, mas sem pânico.

publicado por victorangelo às 20:28
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28
Dez 15

As festas do Natal já passaram. Como de costume, houve embrulhos e papel de prendas por todos os lados. Nestas paragens não há Natal sem grandes manifestações de consumo. Mas o que mais me agrada é poder andar nas ruas do meu bairro e não ver lixo amontoado, caixas vazias das prendas recebidas, embalagens de todo o tipo, espalhadas por tudo o que possa ser sítio próximo de contentores. As ruas estão limpas, não há nenhum sinal da orgia de compras que definiram os últimos dias. Não existem, aliás, contentores nas ruas.

No bairro onde vivo, o papel é recolhido todos os quinze dias. São duas sextas-feiras por mês. Enquanto não chega o dia, o papel e o cartão é guardado em casa, fica à espera. Chama-se a isto civismo. Educação cidadã.

Imagino que os apartamentos e as casas estarão cheios de papel à espera do camião, no dia certo.

publicado por victorangelo às 20:23
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