Portugal é grande quando abre horizontes

02
Fev 17

O destacamento de uma companhia de Comandos para a República Centro-Africana, no quadro da MINUSCA, foi uma decisão correcta. É importante que Portugal participe mais activamente e de modo mais visível nas operações de manutenção da paz da ONU. Mostramos assim a vontade que temos de responder às nossas responsabilidades internacionais, enquanto país que reconhece e respeita as regras que hoje servem de base às relações internacionais.

Não fomos apenas e tão só porque a França nos pediu. É verdade que a França tem um interesse histórico – e nem sempre pelas melhores razões – na RCA. E por isso tem advogado, junto dos seus parceiros da UE, no sentido de uma contribuição efectiva dos europeus para a composição da missão da ONU na RCA. Mas isso não seria suficiente para nos levar a participar. E também não o fazemos para tentar obter, em troca, algum favor político ou diplomático de Paris.

Neste momento, em que andam loucos à solta na arena internacional, é essencial falar dos compromissos que o bom relacionamento entre as nações requer. É igualmente necessário reafirmar que uma boa parte desses compromissos passam pelo quadro da ONU. Como também se deve ter presente que os países que podem devem contribuir para a estabilização dos que estão a atravessar um período de crise interna.

Portugal dá, como muitos outros, o bom exemplo.

publicado por victorangelo às 21:15
 O que é? |  O que é? | favorito

05
Out 16

António Guterres será o novo Secretário-Geral das Nações Unidas. É altura de lhe dar os parabéns mais entusiásticos e merecidos, e também de reconhecer o mérito da equipa diplomática portuguesa, em especial o papel desempenhado pelo Embaixador José de Freitas Ferraz e o seu grupo de trabalho.

Mas, de facto, o mérito é de Guterres. Quem conhece bem a ONU, sabe que ele conseguiu ultrapassar dois obstáculos de grande monta: o peso dos interesses e da tradição geoestratégica, que davam o lugar a alguém vindo do Leste da Europa; e questão do género. Na realidade, havia uma pressão enorme – amplamente justificada – para que, desta vez e pela primeira vez, fosse eleita uma mulher. Vencer estas duas enormes barreiras significou que o Conselho de Segurança lhe reconheceu um mérito excepcional. Muito bem!

Por isso, os parabéns também devem ser excepcionalmente calorosos.

publicado por victorangelo às 20:59
 O que é? |  O que é? | favorito

03
Out 16

Passei o dia a discutir alguns dos grandes desafios que a Ásia Central – as cinco antigas repúblicas soviéticas – tem pela frente. E já no final do dia, um jornalista conhecido telefonou-me de Lisboa, a perguntar qual era a minha opinião sobre a prestação de Kristalina Georgieva nas Nações Unidas. A verdade é que estava muito longe desse assunto. Disse-lhe que ainda não tinha informações sobre a matéria. E lembrei que neste momento há muitos especialistas em questões onusianas no panorama intelectual lisboeta. Talvez fosse melhor perguntar-lhes a opinião, sobretudo aos do costume.

E esperar por quarta-feira, pela próxima volta, no Conselho de Segurança.

Já depois disso, soube duas ou três coisas. Que o embaixador do Quénia junto da ONU, o meu antigo colega Macharia Kamau, que também desempenha as funções de presidente do Fundo das Nações Unidas para a Consolidação da Paz, o que lhe dá uma voz grossa, achou que Georgieva pode ter aparecido à última hora, mas ainda “apareceu a tempo e no tempo preciso”. Interessante. E mais. Que os Nórdicos estão a fazer campanha pela nova candidata. Consideraram que a senhora teve um desempenho de qualidade e que é a altura de ter uma mulher no cargo. Uma mulher bastante competente, acrescentam. Finalmente, que os russos acharam bem que ela se exprimisse na sua língua, ao fazer as suas intervenções.

A isto junta-se a geopolítica – o Leste europeu – e o género.

Do outro lado, temos António Guterres. Um candidato que toda a gente sabe que é muito forte.

Veremos o que acontece depois de amanhã.

publicado por victorangelo às 21:10
 O que é? |  O que é? | favorito

29
Set 16

A comunicação social portuguesa tem dado muita atenção à eleição do novo Secretário-geral da ONU, o que se compreende, face à excelente candidatura de António Guterres. E tem participado activamente na exaltação patriótica que a mesma gera. Não seria de esperar outra coisa, de nós, portugueses. Nestas coisas, joga tudo do mesmo lado. O nacionalismo arrebatado faz parte integrante das nossas exaltações colectivas.

Só que na casa da alta política que é o Conselho de Segurança das Nações Unidas o jogo é outro. É tudo mais complexo, sobretudo agora. Reconhece-se a importância do mérito, e aí, nessa questão, o candidato português está no topo da liga. Mas há mais. Chamam-lhe geopolítica. Na realidade, trata-se apenas da leitura que cada membro permanente faz dos seus interesses nacionais. É isso que conta, ao fim e ao cabo, por muito que se fale de transparência. E o Conselho funciona melhor quando consegue encontrar o ponto de equilíbrio desses interesses. Sim, dos interesses dos cinco Estados permanentes.

Mesmo entre os não-permanentes há diferenças de peso e influência. Nesto momento, a Venezuela e a Espanha têm ambas assento no Conselho. Muito bem. Mas não têm a mesma influência. A Espanha conta muito mais, até mesmo junto dos países da América Latina. Os membros permanentes irão procurar ter a Espanha do seu lado. E, ao mesmo tempo, estarão prontos para ignorar a posição da Venezuela. Mais ainda, ficarão politicamente satisfeitos se a Venezuela for ignorada. O isolamento faz parte da política internacional. Envia mensagens e marca pontos.

Não sei o que está a ser discutido nos corredores das relações internacionais. Poderei tentar adivinhar uma ou outra área de possíveis negociações. Que as há, é evidente que sim. E nestas coisas, ganha quem tem mais para oferecer. Directamente, ou por empenho dos padrinhos, dos Estados mais poderosos.

O resto, incluindo o voto na Assembleia Geral, é matéria mais ou menos pacífica. Uma vez decidido no Conselho, o jogo está feito. Não creio que desse lado possa haver qualquer surpresa.

 

publicado por victorangelo às 21:23
 O que é? |  O que é? | favorito

13
Set 16

Começou hoje a Assembleia Geral das Nações Unidas, edição 2016.

Desta vez, a questão da eleição do novo Secretário-geral estará muito presente, nos múltiplos encontros diplomáticos que o evento proporciona. Mas, na realidade, é a posição de cada um dos cinco membros permanentes que conta. Mesmo nas circunstâncias actuais, depois de um processo mais visível do que passado.

É difícil saber, neste momento, qual vai ser a escolha que cada um irá fazer.

Para já, é claro que os Estados Unidos prefeririam Susana Malcorra, que passou vários anos em Nova Iorque, nomeadamente na área que dá prestígio político junto dos grandes, que é a da manutenção da paz. Os britânicos iriam por Helen Clark, que está há vários anos à cabeça do PNUD. Os franceses e os russos, apostam ainda em Irina Bokova, por muito que se diga. E os chineses, que estão muito interessados na América Latina e operações de paz, também iriam por Malcorra.

Esta última não agrada muito ao governo de Londres, embora se estejam já a discutir as condições que poderiam levar a um apoio.

Helen Clark não deverá ter a aprovação dos russos e dos chineses, por muito que ela nos queira fazer crer que sim. Nem estes vêem grande vantagem em aprovar alguém vindo de um país que nada lhes poderá oferecer de verdadeiramente estratégico.

Irina Bokova não deverá passar nem em Londres nem em Washington. A sua candidatura está, aliás, sob uma séria ameaça, que poderá ser concretizada a 26 de setembro, após a próxima ronda de votação informal no Conselho de Segurança.

No meio de tudo isto, aumentam as hipóteses dos outros candidatos mais votados, sobretudo de António Guterres e de Miroslav Lajčák. Mas nada está ainda garantido.

Quanto a Kristalina Georgieva, poderá aparecer depois de 26 de setembro. E a sua aceitação comportar, entre outras possibilidades, uma promessa de suspensão das sanções europeias contra a Rússia. Isso tem algum peso, claro.

 

 

publicado por victorangelo às 21:03
 O que é? |  O que é? | favorito

09
Set 16

Teve hoje lugar a quarta ronda do processo de eleição do Secretário-Geral da ONU. E o Conselho de Segurança mostrou manter a mesma linha de coerência que havia revelado nas votações anteriores. Voltou a preferir António Guterres, com mais ou menos o mesmo tipo de apoio. Diria mesmo que Guterres sai reforçado. É agora um candidato que deve ser levado muito a sério pelos Estados Membros que estão neste momento no Conselho de Segurança bem como pelos membros permanentes.

Ainda vamos ter, próximo do final do mês, uma outra ronda indicativa. A última, antes do processo entrar na fase dos vetos. O período que se segue, entre hoje e essa nova volta, vai ser um período de intensa actividade diplomática, pelo menos para alguns dos candidatos. Susana Malcorra, por exemplo, já começou a fazer concessões aos britânicos, no que respeita às Ilhas Malvinas.

É preciso ter igualmente em conta que a questão até agora tem sido se o candidato deve ou não ser encorajado a manter a sua candidatura. Responder que sim não é o mesmo que votar a favor. No entanto, os valores obtidos por António Guterres não poderão ser ignorados pelos membros do Conselho. 

publicado por victorangelo às 16:52
 O que é? |  O que é? | favorito

29
Fev 16

Tive hoje a oportunidade de dizer publicamente que na eleição do próximo Secretário-Geral da ONU o critério absoluto vai ser o geopolítico. Como é aliás tradição. Só que desta vez, esse critério ainda será mais estreito. É quase certo que o vencedor será alguém originário da Europa do Leste. E os países sabem que assim deverá ser. Por isso, dos sete candidatos anunciados oficialmente seis provêm de estados dessa região. António Guterres é a excepção. É verdade que vem do grupo europeu, mas como acima digo, este ano a definição geopolítica é mais apertada.

O segundo critério será o do género. Não deve ser visto como um crivo absoluto. Mas pesará.

Em terceiro lugar, dar-se-á vantagem ao candidato que possa fazer a ponte entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Existe uma preocupação evidente em relação a Putine. A tendência actual vai no sentido do restabelecimento do diálogo com Moscovo. O candidato da Europa do Leste que tenha mais condições para fazer essa ligação poderá ter mais hipóteses.

E o quarto critério é o da sorte. O processo é complicado. Podem surgir objeções de última hora. E aí ganha o inesperado.

publicado por victorangelo às 22:16
 O que é? |  O que é? | favorito

18
Fev 16

Alguém me perguntava se a corrida para a eleição do sucessor de Ban Ki-moon já teria começado. A resposta teve que ser clara. Alguns e algumas já andam nesta competição há muito tempo. Com muitos recursos, nalguns casos. E fazem-no com subtileza e cuidado, não atacando nenhum dos grandes países. Com diplomacia. Sublinham as respostas às perguntas que lhes vão sendo feitas, algumas delas um verdadeiro campo de minas, pela positiva. Quando os jornalistas os procuram colocar numa prateleira temática bem específica, retorquem de um modo mais genérico, que o Secretário-Geral tem que ter vistas abrangentes e não apenas um tema de agenda. Embora se possa dizer que um ou outro assunto merece sempre, por parte dos membros permanentes do Conselho de Segurança, uma atenção especial. Por exemplo, o relacionado com as operações de manutenção de paz.

publicado por victorangelo às 19:47
 O que é? |  O que é? | favorito

17
Set 15

Voltar à Síria
Victor Ângelo


Os gabinetes dos grandes deste mundo têm pelo menos um ponto em comum com os cafés das aldeias portuguesas: as televisões estão sempre ligadas. Assim são os tempos que vivemos. O que aparece na televisão conta e influencia as tomadas de decisão. É o que está a acontecer com as imagens sobre os refugiados, que a toda a hora nos enchem os ecrãs. A repetição amplifica o problema. E está a obrigar os políticos a refletir de modo diferente sobre as crises no Médio Oriente bem como sobre as ineficiências na cooperação para o desenvolvimento, nomeadamente em África.


Cada desgraça que atravessa o Mediterrâneo vem lembrar-nos que o tempo para superficialidades e remendos acabou. Tem que se ir ao cerne dos problemas, com honestidade e coragem políticas. É preciso equacionar soluções que nos pareciam, até este verão, impensáveis. Grandes tragédias exigem grandeza política. A redefinição da estratégia ocidental em relação à Síria constitui a prioridade absoluta. É aí que se situa o olho da tormenta que destrói vidas e contagia uma vasta área geopolítica, incluindo agora a UE. Passados mais de quatro anos de guerra civil e perante a evidência do fracasso da linha seguida até ao momento, é essencial repensar como acabar com a crise.


Não creio que possam existir dúvidas quanto aos objetivos que contam: restabelecer a paz e, ao mesmo tempo, aniquilar o grupo terrorista conhecido como o Estado Islâmico. É evidente que estamos perante dois intentos muito complexos. Têm, contudo, que ser atingidos. As alternativas seriam a continuação das vidas destroçadas, da morte, da desestabilização da região, dos êxodos e a expansão do terror, da barbárie, dos crimes contra a humanidade e o património histórico. São, também é verdade, duas ambições de alto custo. Mas cuidado, que os custos do medo, do desespero e da destruição são incomparavelmente maiores, para além de serem moral e politicamente inaceitáveis.


Voltarei ao assunto da destruição do Estado Islâmico noutra altura. No que respeita à paz, o governo de Damasco deve ser incluído no processo. Não se trata de fazer tábua rasa das atrocidades perpetradas por Bachar al-Assad e pelo seu círculo de poder. Assad está profundamente ligado às causas do problema e tem responsabilidades gravíssimas. Todavia, o realismo e as exigências da paz impõem que faça agora parte da solução. Quem pensa que o dirigente sírio tem os dias contados ainda terá muitos dias para contar. Por outro lado, a derrota pura e simples de Assad – e do que ele representa – abriria a porta a novas tempestades, desta vez dirigidas contra os alauitas e os seus aliados. Mais ainda: só este tipo de perspetiva terá alguma hipótese de ser legitimado pela ONU. Para os líderes ocidentais, que deste o início da crise foram além da prudência, ao afirmar que recusariam uma solução que incluísse o homem de Damasco, a opção é indigesta, porém inevitável. Há que fazer a pirueta política que a realidade impõe e forçar, em cooperação com a Rússia – com todas as cautelas –, um plano de transição que inclua as várias fações sírias, com exceção do Estado Islâmico e de outros equivalentes.


Não se conseguirá obter a paz de um dia para o outro. Mas há urgência. Um novo ciclo de negociações deve começar desde já, com o beneplácito do Conselho de Segurança. Entretanto, o financiamento da ajuda aos deslocados e refugiados terá que continuar sem hesitações. Essa assistência é um dever moral dos Estados com meios para o fazer e uma obrigação à luz do direito internacional.

publicado por victorangelo às 11:05
 O que é? |  O que é? | favorito (2)

06
Set 15

Quando se analisam grandes movimentos de massas, como os que estão a acontecer na UE, não nos podemos esquecer do efeito “ bola de neve”. Os muitos de ontem, são seguidos hoje por milhares e por várias vezes mais, amanhã. Cada um que parte deixa na retaguarda, três, quatro ou mais potenciais migrantes.


Uma parte da explicação do que está a acontecer terá que ver com o ocorrido em 2014. Nesse ano, a Alemanha acolheu cerca de 200 mil candidatos a refugiados. Um bom número dessas pessoas fez chegar a mensagem, aos familiares, amigos e conhecidos que ficaram para trás, que a Alemanha abrira as suas portas ao acolhimento. Nos campos de desespero, na Turquia e noutros sítios, uma mensagem desse tipo desencadeia novas esperanças e dá força a mais partidas. E assim surgiu a vaga de fundo que estamos a presenciar este Verão.


A resposta que vier a ser dada aos que agora chegam irá influenciar muitos dos que ainda estão nos campos no Médio Oriente. Tendo em conta a resposta humanitária que está em marcha, sobretudo na Alemanha, na Áustria, na Itália, e em mais um ou outro país da União, é de prever que a “bola de neve” continue nos próximos meses. Haverá um afrouxamento com a chegada do mau tempo e da estação outonal. Mas retomará fôlego logo que a Primavera de 2016 dê sinais de luz.


Perante esta constatação, torna-se evidente que a janela de oportunidade para estabilizar a situação na Síria e permitir um retorno ao país corresponde fundamentalmente aos próximos seis meses. A ONU e os amigos da Síria, de todos os bordos, deveriam redobrar os esforços necessários para a resolução da crise. É preciso chegar a um acordo político que respeite todos e cada um dos grupos étnicos existentes no país bem como os direitos humanos de cada cidadão.
Esse acordo terá um impacto indiscutível sobre a situação humanitária. Passa, e há que ter a coragem de o dizer, por uma revisão da posição de certos governos no que respeita a Bachar al-Assad e ao grupo que o apoia. Assad é, indiscutivelmente, uma grande parte do problema. As circunstâncias dos últimos tempos mostraram que terá agora que encarar a oportunidade de ser parte da solução. Não haverá paz na Síria sem um acordo entre todas as facções.


A outra face da medalha diz respeito à liquidação do Estado Islâmico. Ao mesmo tempo que se procurará um acordo político interno, com a garantia da comunidade regional e do Conselho de Segurança, deve passar-se a uma fase superior na luta contra a liderança do Estado Islâmico. Os planos franceses e ingleses de atacar bases do EI no interior da Síria serão, quando ocorrerem, passos significativos no bom sentido. Mas será preciso mais. O EI tem que sofrer golpes definitivos nas próximas semanas e meses.


Assim sim, assim estaremos a tratar da contenção da “bola de neve”.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 18:11
 O que é? |  O que é? | favorito

twitter
Abril 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
15

20

23
27
28

30


<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO