Portugal é grande quando abre horizontes

08
Jun 15

Gastei a tarde toda a planificar a minha próxima viagem de carro de Bruxelas a Lisboa. Queria passar pela Normandia e ficar um fim de tarde e uma noite em São Sebastião, no País Basco. Para além do trabalho que tive, que não foi pouco, apercebi-me que os principais hotéis em França e no Norte de Espanha, nos últimos dias deste mês, já estão esgotados. Mesmo os mais caros, como o famoso Maria Cristina, em São Sebastião, que pede por uma noite, nesta estação que ainda não é a mais cara, quase 800 euros.

Nunca tinha encontrado tantas dificuldades de marcação. Fiquei, por isso, a matutar se ainda haverá crise, por esses cantos da Europa.

publicado por victorangelo às 21:22
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18
Abr 15

Estes encontros anuais dos ministros das Finanças, que têm sempre lugar nesta altura do calendário em Washington, no FMI, são conhecidos com as Reuniões da Primavera. A de 2015 terminou hoje. E pelo que sei, com três grandes preocupações globais, a esconderem-se por detrás das palavras dos comunicados oficiais: a fragilidade da recuperação económica, após a crise que vem de 2007-8; os grandes desequilíbrios de crescimento, ou seja, a desigualdade em termos de performance económica, quando se compara as diferentes regiões do globo; e as altas taxas de desemprego, em muitas e variadas partes do mundo.

A estas três inquietações junta-se, na nossa velha Europa, a questão da Grécia. As negociações com o governo grego estão praticamente num ponto morto. A UE, o Banco Central Europeu, o FMI e os principais credores repetiram, ainda hoje, que a bola está no campo grego. Que cabe ao governo de Atenas propor um programa que possa ser considerado credível. E acrescentam que uma declaração de insolvência teria consequências imprevisíveis.

Não será bem assim. Nestas coisas, é sempre possível desenhar um modelo que extrapole e clarifique as consequências mais prováveis. E esse modelo já existe. Tem-se uma ideia clara do que poderá acontecer se a insolvência vier a acontecer. Não se tem é coragem de olhar a sério para o futuro que o modelo nos deixa antever. Ora, governar passa por se ter a coragem de preparar os riscos futuros.

 

publicado por victorangelo às 20:09
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23
Dez 14

Um banco – ING, parece-me importante dizer qual é o banco, sem que isso seja entendido como qualquer tipo de publicidade disfarçada – interrogou estes dias os seus clientes, na Bélgica, sobre a crise económica. A sondagem pode não ser perfeita, do ponto de vista técnico. Mas é claramente indicativa da opinião dominante num país da UE que tem um nível de vida acima da média. Assim, 82% dos respondentes disseram pensar que a crise ainda vai durar dois anos, no mínimo. Isto revela que quase todos pensam que até agora não há luz ao fundo do túnel. Manifestam, por isso, uma preocupação de longo termo, para uma situação que já dura há mais ou menos seis anos. Apenas 12% acredita que a crise estará ultrapassada dentro de dois anos. E, mais interessante, só 4% dos inquiridos vê a crise como já estando resolvida, neste momento em que vivemos.

Estes números deveriam guiar o discurso político. Quer ao nível nacional quer ao nível europeu. Penso, no entanto, que as mensagens vindas dos dirigentes partidários e das instituições estão muito longe de responder à inquietação de mais 80 e tal por cento dos cidadãos. Os discursos vão num sentido e o desassossego dos eleitores vai noutro.

publicado por victorangelo às 20:33
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12
Mar 14

De regresso aos círculos europeus, depois de uma longa viagem, noto que o pouco de boa vontade que ainda restava, no que diz respeito à crise económica que define a situação nalguns dos países da UE, Portugal incluído, mirrou bastante nas últimas semanas. Há hoje menos paciência para tentar compreender o que se passa em Portugal, por exemplo, e ainda menos quando se tenta falar de novos pacotes, de medidas de ajuda, de reestruturações, de coesão europeia.

 

Na véspera de eleições, os cidadãos do centro da Europa não querem ouvir falar de solidariedade para com os “países periféricos”. Quando muito, haverá algum interesse pela Ucrânia e a sua possível associação à UE. Esse interesse terá que ver com duas coisas: uma certa admiração pela coragem dos que passaram muitas semanas na praça Maidan; e um certo desagrado em relação a Putin, ao que ele poderá representar como vestígio da Guerra Fria e da ameaça que as memórias colectivas ainda associam à Rússia.

publicado por victorangelo às 20:19
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03
Set 13

A rentrée inicia-se de uma maneira curiosa. Neste início de Setembro, quem olha para o nosso país, a partir do exterior, vê duas coisas: uma certa serenidade, depois de um Verão que havia começado mal, do ponto de vista da instabilidade política; e um início de recuperação económica, graças à habilidade e criatividade de muitos dos portugueses.

 

Como recomeço das actividades, não é mau. Mas quando se entra mais a fundo no assunto, os de fora continuam a pensar que a classe política portuguesa é incapaz de – ou seja, não quer – levar a cabo as grandes medidas de reforma estrutural, quer ao nível do Estado quer ainda das grandes empresas do sector público. E pensam também que as tensões políticas continuarão a agravar-se nos próximos 12 meses.

 

Instados a dar uma opinião sobre a necessidade de um segundo resgate, acham que será necessário mas temem que certos parceiros europeus não aceitem que tal aconteça. Para esses parceiros, o esforço terá de vir de dentro, do lado de Portugal.

 

publicado por victorangelo às 22:29
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29
Jul 13

Os bancos portugueses estão numa situação periclitante. Os resultados negativos do primeiro semestre, que agora estão a vir a público, são apenas uma indicação do estado calamitoso em que a banca nacional se encontra. Cada novo anúncio de resultados revela, caso a caso, prejuízos de centenas de milhões.

A verdade é que não há actividade económica digna desse nome, sem contar com o crédito mal parado e as dívidas incobráveis.

 

Por outro lado, o negócio de comprar obrigações e títulos do tesouro portugueses aumenta a fragilidade estrutural da banca nacional, por se tratar de operações que são, tecnicamente, de alto risco. Mesmo que isso permita recolher uns juros interessantes, no curto prazo, a verdade é que os bancos internacionais acham que não revela boa gestão comprar dívida soberana de países como Portugal e olham para os bancos que o fazem como sendo imprudentes. Quer dizer, bancos com os quais não é conveniente fazer transacções de peso.

 

 

publicado por victorangelo às 21:48
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08
Jul 13

Viajei esta tarde ao longo da Via do Infante, desde a fronteira com Espanha, e na auto-estrada do Algarve para Lisboa. Ao longo do trajecto, pensei várias vezes na auto-estrada de Lisboa para Évora, sempre deserta. A que vinha do Algarve, hoje, tinha um vazio equivalente.

publicado por victorangelo às 22:21
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05
Jul 13

Almocei em Estremoz, numa passagem rápida pela cidade. No restaurante cinco estrelas com preço de duas estrelas éramos dois na sala. Disseram-me que à noite haverá mais gente. Assim o espero. É que a economia não pode estar parada nem continuar a fingir que turbina.

 

Ao fim e ao cabo, é a economia que conta. Será difícil entender isso? 

publicado por victorangelo às 21:09
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02
Jun 13

Peguei no carro e como estava um dia lindo fui dar uma volta por Waterloo, Lovaina-a-Nova e Gembloux, a pequena cidade do sul da Bélgica que se tornou célebre, no passado, pela qualidade da sua Faculdade de Agronomia. São localidades bem organizadas, com um forte poder de compra, rodeadas de campos agrícolas bem cultivados e altamente produtivos. Viajar por essas terras faz esquecer a crise. A expressão “crise” não faz parte do vocabulário corrente dos habitantes dessas zonas. Haverá, nalguns casos, desemprego ou travagem económica. Mas, para o comum dos cidadãos, essas questões não surgem nas conversas do dia-a-dia nem são uma preocupação absorvente.

 

Ao regressar a casa, pensei quão distante estamos aqui de Portugal. 

publicado por victorangelo às 20:14
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17
Out 12

A entrevista de Francois Hollande, sobre a Europa, que hoje foi divulgada em cinco jornais europeus de referência, precisa de ser estudada com cuidado. Nestas coisas, nunca é bom chegar a conclusões com base na aparência das palavras ditas. Voltarei, por isso, ao assunto. O que é verdade, desde já, é que a entrevista mostra existirem profundas divergências entre Paris e Berlim, no que respeita às soluções a preconizar para resolver as diferentes crises europeias. E que a cimeira da próxima semana não vai conseguir resolver. Será mais uma cimeira inconsequente. Isto é, logo à partida, uma má notícia para certos países, entre os quais Portugal. 

 

Também é uma má notícia perceber-se que os políticos portugueses não conseguem ter uma posição estratégica comum, que lhes permita negociar com clareza e medida com o resto da Europa. Para dizer a verdade, até parece mesmo que não têm posição alguma, quando se trata de abordar os nossos interesses num contexto europeu. 

publicado por victorangelo às 22:29
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