Portugal é grande quando abre horizontes

11
Jul 17

Sou um telespectador acidental, no que respeita aos canais de televisão portugueses. Por várias razões, mas sobretudo pela má qualidade do que se mostra nos nossos ecrãs. Assim, mesmo quando me encontro em Portugal, passo ao lado.

Ontem, num momento de acaso, caí no debate que a RTP 1 chama “Prós e Contras”. Discutia-se Tancos, as Forças Armadas e os diferentes níveis de responsabilidade.

Dos presentes, apenas os dois generais sabiam da poda. O resto era conversa, académica, livresca ou simplesmente fora da substância. Confrangedor. Metiam-se os pés pelas mãos e confundiam-se conceitos básicos. Incluindo, como já vem sendo costume, defesa como se fosse segurança e vice-versa.

Para cúmulo, a moderadora mostrou uma vez mais o pouco jeito que tem para animar discussões que ultrapassem os temas de lana-caprina.

 

publicado por victorangelo às 22:10
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26
Mar 17

Quem advoga a saída de Portugal da zona euro terá as suas razões.

Algumas estarão relacionadas com o oportunismo político, com o acreditar que uma posição desse tipo pode dar votos.

Outras, terão fundamentos ideológicos, ou seja, reflectem uma maneira de ver que pinta a UE como um espaço de capitalismo selvagem e de imperialismo político, uma construção diabólica que haverá que desmantelar. São os aliados “objectivos” de Putin e de todos os que querem destruir a unidade europeia. Não se percebe bem que modelo económico preconizam. Não será certamente o da Venezuela ou da Coreia do Norte. Nem mesmo o da China, ultraliberal que é, do ponto de vista económico. Deve ser, isso sim, o modelo da autossuficiência do Tio Manel, que vive das couves, batatas e nabos que planta e da galinha que esgaravata no quintal das suas penas perdidas.

A esses juntam-se os nostálgicos do escudo, nacionalistas de memória curta e inteligência estreita, que imaginam uma independência económica que nada tem que ver com as relações comerciais e financeiras de agora. Idealizam um passado que foi, na realidade, um passado de muita miséria.

E temos ainda mais uma mão cheia de tolos, que não sendo o sal da vida, dão cor à política portuguesa.

A nossa saída do euro, com a economia que temos, muito virada para o exterior e marcadamente dependente de toda uma série de importações, incluindo de bens alimentares, levar-nos-ia em pouco tempo a uma situação de escassez de produtos, de perda do poder de compra e de agravamento da precariedade social. Secariam, igualmente, as fontes dos investimentos estrangeiros e as remessas dos nossos emigrantes.

Felizmente, uma maioria muito vasta de portugueses entende isso. E por isso, quer continuar a ter o euro como moeda. Somos, afinal, um povo com muito juízo.

 

publicado por victorangelo às 20:09
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12
Jun 16

 

Derrotar e travar o euroceticismo, abrir o futuro

Victor Ângelo

 

 

            Os argumentos a favor da permanência da Grã-Bretanha na UE têm estado excessivamente focalizados nas dimensões económicas. Agora foi a vez da OCDE vir à liça para dizer que o Brexit provocaria uma quebra de 5% do PIB britânico, ao longo dos próximos anos. Vinda donde vem, essa estimativa merece alguma atenção. Reforça, aliás, a posição de outras instituições, como o FMI, que já haviam sublinhado os custos elevados que uma eventual saída da UE poderia acarretar para as famílias no Reino Unido.

            Os prejuízos económicos poderão ser evidentes para os macroeconomistas e para as grandes empresas, bem como para uma parte dos eleitores, mas não devem ser o ponto fulcral da disputa num referendo com fortes matizes nacionalistas. Pesam, é verdade, mas de modo relativo. E acentuá-los em demasia abre espaço aos que dizem que a campanha pelo sim se baseia no exagero e na exploração dos temores. Sem esquecer que muitos cidadãos consideram estas questões da macroeconomia como cortinas de fumo, que escondem os interesses dos poderosos e das multinacionais. Por isso, há que tratá-las com muito cuidado.

            O que está em jogo é uma decisão fundamentalmente política. Ora, a política move-se noutra esfera, para além da sensatez e da contabilidade do deve e do haver. Aqui lembro que Jean Jaurès, o grande líder socialista francês do início do século XX, garantia em 1914, uns meses antes do início da conflagração europeia, que se podia apostar na paz, pois a guerra ficaria demasiado cara. É verdade que a Grande Guerra teve custos incalculáveis, para além das imensas tragédias humanas. Mas foi a escolha política de então, apesar das palavras tão avisadas de Jaurès. Com o Brexit poderá acontecer o mesmo.

            O domínio da política pura e dura jaz no simbolismo e nas opções visceralmente emotivas. É a esse nível que se deve travar o combate para evitar o terramoto anunciado para 23 de junho e as ondas de choque que poderão vir a seguir. Entre outras dimensões, há que dizer que o Brexit assenta em mitos irrealistas e inaceitáveis. É o mito da superioridade britânica em relação aos outros europeus. É a crença confusa na existência de uma maneira de ver e de ser universalista, que foi capaz de criar um império onde o sol nunca se punha e que hoje se sente constrangida pela tacanhez e o provincianismo do resto dos europeus. E é a ilusão que vê na Europa um espaço de submissão e não uma alavanca capaz de multiplicar o alcance de cada um dos estados membros. No fundo, uma parte dos britânicos está prisioneira de uma atitude de desconsideração em relação ao resto da Europa, sobretudo no que respeita aos países do centro e do sul do nosso continente.

            Mais ainda, o argumento político deve poder tratar da imigração sem papas na língua. Os europeus que hoje trabalham na Grã-Bretanha contribuem de modo inequívoco para a economia do país. Em números absolutos, estamos a falar de 1,6 milhões de trabalhadores. Representam, no entanto, apenas 6% da mão-de-obra total. Falar de uma invasão é um exagero. Mesmo no sector da hotelaria e restauração, onde encontramos uma maior proporção de cidadãos vindos de outros países da UE, a percentagem não ultrapassa os 14%. Por muito que os adeptos do Brexit gritem e agitem o papão, não se verifica uma emigração descontrolada de desempregados e mendicantes europeus a caminho do Reino Unido.

            Há ainda um outro ponto em relação ao qual temos de ser francos. Para ganhar o referendo também é preciso um maior empenho da liderança do Partido Trabalhista. Jeremy Corbyn tem a obrigação de ser mais claro no seu apoio à continuidade europeia. Já só lhe restam quinze dias para o fazer. Necessita de mostrar ousadia e visão, e isso não está a acontecer. Tem que saber falar sobre o futuro do seu país e também sobre os nossos interesses comuns, face a outros centros de poder, às ameaças externas e às rivalidades geoestratégicas. E deve combater as tendências xenófobas que os promotores do Brexit estão a alimentar.

            Há aqui uma exigência moral, igualmente. Não podemos deixar que a Europa se fragmente. Nem queremos que o ceticismo ganhe mais peso e espaço. Por outro lado, a UE precisa de continuar a ouvir as perspetivas britânicas à volta de uma mesma mesa, redonda e comum. Trata-se muitas vezes, é verdade, de uma voz diferente. Mas isso realça as nuances, traz uma outra filosofia política para a discussão, matiza as diversas posições, e tem o efeito de enriquecer a substância do projeto comum. Gerir e valorizar as diferenças, bem como dar esperança e segurança, são as provas de maturidade que os líderes europeus têm que saber resolver.

 

(Texto que esta semana publico na Visão on line)

 

publicado por victorangelo às 09:50
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05
Fev 16

Numa longa discussão sobre a situação em que o nosso país se encontra, acabei por reconhecer que sou um mau exemplo enquanto português. Explico como cheguei a essa conclusão: a querela sobre os feriados deixa-me indiferente, incluindo, vejam bem, a relativa ao 1º de dezembro. Não consigo arder com esse tipo de questões. Sobretudo numa altura em que outros países, similares ao nosso, andam sobretudo preocupados com a sua posição futura em relação à economia do conhecimento, com a resposta à globalização crescente das oportunidades e das ameaças e com as questões da segurança interna e nacional. Para que discute feriados, estes temas parecem mundanos. E talvez o sejam, no contexto de um país como o que temos.

publicado por victorangelo às 21:52
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10
Set 15

Cheguei a Riga já depois do fim do famoso debate nas televisões portuguesas. Mas, pelo que tenho ouvido, parece que António Costa passou melhor este importante teste. E acrescento que assim não poderia deixar de ser. Jogava ao ataque, não tinha contas de governação recente para prestar e à sua frente estava um oponente que não percebe o impacto nefasto das lengalengas, das explicações intermináveis que nada esclarecem. As pessoas querem respostas directas e claras. É assim que se faz política nos dias de hoje. Grandes conversas não levam água a nenhum moinho, não convencem. Nem dão a impressão de sinceridade. Só servem para aumentar a desconfiança e os anticorpos.

 

publicado por victorangelo às 20:12
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27
Jul 14

 

 

Copyright V. Ângelo

 

Foi você que disse hoje, num comício político-partidário, que a culpa da situação portuguesa é da Europa?

 

Aconselho-o a ter juízo e a olhar mais à sua volta. Isto de atirar as culpas para os outros é um truque fácil.

publicado por victorangelo às 17:48
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20
Mar 13

A experiência empírica mostra várias coisas, no que respeita a uma política de salários:

 

- Que a prática generalizada de salários baixos não aumenta a competitividade da economia; o que de facto contribui para uma melhor competitividade é o grau de motivação dos trabalhadores, o seu empenho cívico, o nível de educação geral e profissional, a tecnologia, a modernidade e as técnicas dos meios de produção, a qualidade da organização das empresas, bem como a simplicidade burocrática da administração pública, os custos energéticos, etc.

 

- Que o custo do trabalho representa, numa economia moderna, cerca de apenas um terço do custo total do bem ou serviço produzido.

 

- Que elevar a média dos salários tem um impacto positivo em termos da economia nacional, da aplicação ao trabalho e da paz social.

 

- Que o salário continua a ser o melhor instrumento de redistribuição de riqueza. 

publicado por victorangelo às 17:42
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23
Fev 13

Voltando às questões de segurança, parece-me fundamental sublinhar que seria um erro pensar que, num país como o nosso, as respostas devem ser acima de tudo militares. A parte militar é uma componente da resposta. Tem que estar preparada, é verdade, para três dimensões fundamentais, que indico de modo resumido: a de soberania, que, no nosso caso, tem muito a ver com o mar e, também, em certa medida, com o espaço aéreo; a de protecção contra as ameaças de tipo militar, que devem ser claramente definidas; e a dimensão internacional, de projecção de Portugal no exterior. A reforma do sector da defesa deve ser feita nessas bases.

 

Por outro lado, existem as facetas não-militares da segurança nacional. No nosso caso, passam pela definição do papel e organização dos serviços de inteligência, pela coordenação e reorganização das polícias, pela articulação entre as polícias e os militares, bem como por uma definição clara das parcerias de segurança com os países estrangeiros do espaço político a que pertencemos. Sem esquecer, claro, que só estaremos verdadeiramente numa posição de força se a economia crescer, se modernizar e gerar as mais-valias necessárias. Com uma economia insuficiente e subdesenvolvida a nossa capacidade de financiar a segurança nacional, incluindo a defesa, ficará sempre aquém do que seria ideal. Chama-se a isso “fragilidade nacional”.

 

Ou seja, a problemática da nossa segurança é bem mais complexa do que parece. Não se compadece com simplificações nem com vistas unidimensionais. Preciso, isso sim, de uma reflexão diferente da que tem estado a ser efectuada. Mais compreensiva. E actual. 

publicado por victorangelo às 22:08
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15
Jan 13

Chatham House é um dos think tanks mais importantes no Reino Unido. Tenho dois ou três amigos que trabalham nessa instituição, em Londres, e posso assegurar-vos que se trata de gente de uma inteligência excepcional e de uma experiência do mundo rara. Chatham House organisa ume certo número de debates de alto nível, ao longo de cada ano. As discussões têm lugar segundo a Chatham House Rule, a Regra da casa, que estabelece que quando uma reunião, ou conferência, é realizada com a aceitação dessa regra, os participantes têm toda a liberdade de utilizar a informação que for partilhada, mas não podem mencionar o nome de quem a deu nem a sua filiação institucional, como também não estão autorizados a revelar os nomes dos participantes nessa reunião.  

 

É uma regra que é muito frequente em muitos outros debates, noutras instituições. Muitas vezes, em Bruxelas, tenho a oportunidade de participar em discussões que seguem a Chatham House Rule. O objectivo é o de criar um ambiente que, se for respeitado por todos, permite a cada um de dizer o que pensa e divulgar informação, que doutro modo o não faria.

 

Apercebi-me hoje que em Portugal tudo isto é novidade.  

 

E continuo a ver que estamos todos com muita vontade de malhar em quem não está de acordo connosco. O que faz lembrar a velha canção do Ó Malhão, Malhão! Ou seja, andamos todos a pensar num Portugal de outrora, dos rurais, das danças folclóricas e do mal-dizer. Sem ofensa, claro!

 

  

publicado por victorangelo às 22:13
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12
Dez 12

Alguém com poder dizia, no seguimento da discussão sobre as reformas das polícias, que o objectivo do governo é o de repartir os recursos existentes pelas duas grandes forças de segurança interna, a PSP e a GNR. Duas instituições que merecem o respeito de todos nós, acrescente-se de imediato. 

 

Responderia que começar a reestruturação pelo prisma dos recursos não me parece ser a melhor maneira de proceder. Como também não chega dizer que uns tratam dos meios urbanos e os outros do resto e das estradas.

 

Os serviços precisam de ser organizados com base numa análise muito fina e objectiva das ameaças, em seguida, da eficiência que se pretende melhorar, dos resultados a atingir e das economias de escala que precisamos de obter. Tudo isso tendo em conta que nada pode mudar da noite para o dia, que nesta área a melhor maneira de proceder é a que se baseia numa execução gradual das mudanças. Até por que existem muitas susceptibilidades que será necessário ter em conta.

Sem esquecer, claro, as lições aprendidas por outros, em países europeus semelhantes ao nosso. É que nestas coisas, como em muitas outras, não é totalmente necessário inventar a pólvora.

publicado por victorangelo às 19:22
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