Portugal é grande quando abre horizontes

03
Mai 17

O jornal diário belga “La Libre”, que é uma instituição no círculo da imprensa francófona do país, acaba de realizar um inquérito sobre a tradicional questão que tem dividido a política, a Direita contra a Esquerda e vice-versa.

O resultado revela de certa maneira aquilo que a candidatura de Emmanuel Macron tem estado a mostrar, não apenas em França mas noutras sociedades europeias. Para uma parte do eleitorado, a classificação de Esquerda ou de Direita perdeu o sentido que tinha. Já pouco significaria. Assim, mais de 64% dos inquiridos acham que a clivagem entre os dois campos está ultrapassada. Os novos desafios não se enquadram nem à esquerda nem à Direita.

Será que a agenda política nestes países terá perdido uma boa parte da sua dimensão classista? Será que ser progressista ou conservador tem hoje um outro significado? Ter-se-á entrado num período da nossa história em que as posições se definem noutros termos?

A verdade é que se diria que os debates sobre os comportamentos sociais, incluindo as novas formas de organização das famílias, ou sobre a imigração, a globalização, a segurança, os direitos humanos, e outras grandes questões internacionais, levam a uma vida política mais complexa que a simples separação entre ser de Direita ou de Esquerda. Hoje, vemos partidos que nalgumas destas matérias seriam tidos como de direita enquanto noutras defendem posições que sempre foram associadas ao lado oposto.

 

 

publicado por victorangelo às 17:26
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25
Out 15

Tudo indica que António Costa irá ser, por algum tempo, primeiro-ministro de Portugal. Está certo. Mas espero que seja um primeiro-ministro sem arrogância. Os resultados de 4 de outubro mostram claramente que apenas um em três portugueses o vê, de facto, com capacidade para ser chefe do governo. Tem que haver modéstia.

Foi um resultado eleitoral desastroso, sobretudo depois de quatro anos de Passos e Companhia. Se os eleitores lhe reconhecessem estofo para o cargo, Costa teria vencido, nas condições excepcionais de então, de um modo esmagador. Foi isso que Mário Soares disse várias vezes, que a vitória só poderia massiva. Não o foi. Uma boa parte dos eleitores não acredita no líder socialista, não entende o que ele quer, não o vê com uma linha clara de actuação. Projecta, isso sim, uma imagem superficial, repetitiva, sem imaginação e pouco aplicada.

O problema vai ser que Costa irá procurar manter-se no poder a todo o custo. Até porque sabe que no dia em que perder o cargo de primeiro-ministro se iniciará o percurso que o levará às segundas linhas. Para manter o poder, será um eterno refém dos seus aliados de circunstância.

Esse é o risco que esta aliança muito especial traz consigo. Um PS a reboque de um líder fraco, ainda mais enfraquecido porque a sua sobrevivência depende dos radicais iluminados que só por equívoco intelectual alguns chamam de Esquerda.

 

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 20:26
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19
Out 15

Sejamos claros. Um partido que inscreve na sua lista de exigências negociais uma série de medidas programáticas absolutamente incomportáveis, do ponto de vista da capacidade da economia portuguesa de hoje, ou seja, um menu de medidas incompatíveis com a boa gestão do orçamento do Estado, só pode ser uma de duas: ou demagogo ou irresponsável. De esquerda, certamente não será, que a esquerda quere-se com os pés bem assentes na realidade.

publicado por victorangelo às 21:39
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02
Set 15

O debate político de ontem à noite, transmitido por um canal de televisão que faz parte dos pacotes pagos – e por isso de acesso reduzido –, lembrou-me uma vez um dos aspectos singulares de Portugal, enquanto Estado da UE. Em que outro país da Europa existe um partido comunista como o PCP e com o seu peso eleitoral?


Fora isso, o debate mostrou que o PCP e o Bloco de Esquerda têm políticas que não permitem pensar numa qualquer aliança com o PS. As discordâncias dizem respeito a questões fundamentais, nomeadamente em matéria de obrigações europeias e de política externa. No caso do PCP são inultrapassáveis. O Bloco pareceu-me ser ligeiramente mais flexível. Mas mesmo assim, não vejo qualquer possibilidade de acordo entre o BE e o PS.


A liderança socialista deveria ter essa impossibilidade em conta e falar claramente sobre o assunto, durante a campanha eleitoral.

publicado por victorangelo às 21:39
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13
Ago 15

O leão Cecil e a cabala global
Victor Ângelo


Não ficaria admirado se alguns obcecados das conspirações vissem a mão maquiavélica de Robert Mugabe na caçada que vitimou Cecil. Para eles, a morte do célebre leão teria sido arquitetada pelo velho ditador, como um novo enredo para aviltar os brancos e os americanos. Esta versão teria os ingredientes de uma boa teoria conspirativa: um político diabólico; um drama que captou a imaginação popular, com um desfecho passível de interpretações; e uma narrativa consistente com a prática habitual do vilão da história. Sem esquecer que Mugabe sempre me pareceu um especialista em estratégias complexas e obscuras. Deste modo, bateria tudo certo…


Cecil poderia fazer as delícias dos espíritos conspirativos neste mês de agosto. No entanto, o caso mais recente diz respeito ao partido trabalhista do Reino Unido. Vários dos seus membros, incluindo antigos ministros, acham que está em curso uma conspiração para manter o partido na oposição por uma eternidade de anos.


A história é simples. Tem que ver com a eleição, que começa este fim-de-semana, do novo líder trabalhista. Jeremy Corbyn, um franco-atirador que votou mais de quinhentas vezes no Parlamento contra a linha oficial do seu partido, é dado como favorito. Ora, o homem é um esquerdista notório, um porta-estandarte de posições extremas, alheias às escolhas habituais da maioria do eleitorado britânico. Se se confirmar a sua seleção como líder – existem outros três candidatos, com ideias bem mais consentâneas com a modernidade do centro-esquerda – a conspiração terá ganho, dir-se-á...
E quem seriam os cérebros do terramoto político que se anuncia? Os senhores da finança aliados aos matreiros patronos da imprensa conservadora e popularucha, gente que se nutre de um ódio visceral antissocialista. Não poderia deixar de ser assim, na fantasmagoria dos que acreditam na maquinação. A cabala, dizem, consiste em financiar, ao preço de saldo de três libras por cabeça, que é quanto custa a inscrição com direito a voto nas eleições internas, uma amálgama de trotskistas e de militantes fanáticos do ar fresco e dos passarinhos dos campos, também conhecidos por “verdes”. Serão esses infiltrados que tornarão a vitória de Corbyn possível. Depois, este e as suas ideias fora da corrente acabarão por colocar os trabalhistas numa posição de marginalidade eleitoral. Tudo isto a favor das hostes de David Cameron e dos interesses que os cabalistas representam.


As teorias conspirativas são sempre assim: os maus e poderosos de um lado, a planear uma intriga mirabolante, e uns paranoicos do outro, que se acham por demais espertos e capazes de ver para além das aparências. No meio estão os simples dos miolos, prontos para engolir mais ou menos cegamente a fantasia.


Cuidado, porém, que a coisa nem sempre é divertida. Ainda recentemente, trabalhadores da saúde perderam a vida no Paquistão, por causa de uma teoria que propagava que as vacinas contra a poliomielite eram uma artimanha do Ocidente para esterilizar o povo. Como também se verificou que a luta contra o ébola na África Ocidental foi prejudicada por haver quem ligasse a pandemia a uma tramoia contra os africanos. Bem mais perto de casa, há por aí quem veja nas nossas dificuldades um conluio de outros, um estratagema urdido no estrangeiro contra nós. Esse é o perigo destas teorias: arranja-se umas narrativas bem articuladas e desvia-se os olhares das verdadeiras interrogações.

 

(Artigo que hoje publico na revista Visão)

 

publicado por victorangelo às 11:55
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24
Mai 15

Curiosamente, numa altura em que a UE é governada ao centro, com uma ligeira tendência centro-direita – mas capaz de combinar, embora nem sempre com a clareza que deveria, o liberal e o social – a política portuguesa parece querer apostar na contracorrente. Ou seja, dir-se-ia pronta a empenhar-se numa viragem na direção de uma esquerda estatizante, economicamente conservadora, protecionista e pequeno-burguesa.

Que fique no entanto claro que não há problema algum numa opção de esquerda, mesmo nesta Europa centrista. Mas que seja uma esquerda arejada e moderna, capaz de fazer funcionar a educação, tendo em conta os desafios da cidadania, da economia digital e da sociedade do conhecimento. Capaz também de fazer funcionar o serviço nacional de saúde, e não apenas uma parte desse xadrez, deixando o resto a fingir que existe. Capaz igualmente de reabilitar as instituições que se ocupam das questões fundamentais de soberania, a começar pela defesa nacional e a segurança interna, a justiça, a representação externa e a língua. E acima de tudo, uma esquerda capaz de promover uma economia que atraia os melhores investimentos privados possíveis, que crie emprego moderno e que seja ágil na resposta à concorrência e aos desafios da rápida modernização dos meios de produção, dos mecanismos de mercado e dos novos tipos de consumo.

Essa é a resposta que deve ser construída.

O resto é saudosismo do passado e poesia sem arte, com palavras ocas e declarações sem significado, a não ser o de embasbacar os bacocos.

publicado por victorangelo às 16:15
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11
Mai 15

Será que os eleitores europeus estão cada vez mais conservadores?

Agora foi a vez da Polónia. Na primeira volta das eleições presidenciais, que ontem tiveram lugar, os dois candidatos da Esquerda, Magdalena Ogórek, que concorreu em nome da Aliança Democrática de Esquerda – o antigo Partido Comunista polaco – e Janusz Palikot, que teve o apoio dos socialistas e sociais-democratas, conseguiram apenas uma mão cheia de votos. A primeira teve 2,4% e Palikot não passou de 1,6%.

Estes resultados fazem da Polónia o país mais à direita da UE. É, igualmente, um dos mais nacionalistas e, ao mesmo tempo, um aliado seguro dos Estados Unidos. Tudo isto é importante se tivermos em conta o peso relativo do país no conjunto das instituições europeias – não digo isto apenas porque o polaco Donald Tusk é o Presidente do Conselho Europeu – bem como a sua influência nas questões de defesa europeias, uma ascendência que é maior do que parece.

publicado por victorangelo às 18:04
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01
Fev 15

Podemos é um movimento popular bem mais genuíno que o Syriza. Nasceu das manifestações espontâneas dos últimos dois anos.

Não é, como a contraparte grega, uma salada russa de pequenos partidos e grupos anarquistas, das mais variadas obediências.

E nisso, o Syriza parece-se mais, na sua génese, com o que está a acontecer em Portugal, em que uma salganhada de personalidades mais ou menos inexperientes e pouco convincentes anda a reunir-se e à procura de uma dinâmica política que teima em continuar nas mãos ineptas dos partidos tradicionais.

Uma vez mais, a Espanha aqui ao lado parece ser uma terra bem distante.

publicado por victorangelo às 20:21
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23
Mai 14

Ser reacionário hoje, no contexto europeu, é pensar que o futuro se constrói pela recriação do passado. É acreditar que a prosperidade passa pelo regresso às velhas fronteiras nacionais, à autarcia económica, ao viver do que a nossa terra dá.

 

E os reacionárias existem, de um lado e do outro do espectro político.

publicado por victorangelo às 19:51
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20
Mai 14

Por onde ando, fora de Portugal, é raro aparecer alguém, nas discussões públicas ou privadas, que fale da direita ou da esquerda. São expressões que não fazem parte do quotidiano da esmagadora maioria dos Europeus. Quando lhes digo que em Portugal essas palavras aparecem frase sim frase não, nas conversas dos intelectuais, dos meio-intelectuais e dos que estão sempre a falar ou a escrever sobre política, ficam a olhar para mim com aqueles olhos que dizem não ser possível.

 

Mas é. Aqui, na nossa terra, somos os campeões da catalogação política. E somos, igualmente, uns doidos pela política.

 

Só não se percebe, contudo, a razão para taxas de abstenção tão altas, quando chega a altura de ir às urnas.

 

E, dentro de dias, a ver como param as modas, vamos ter um novo recorde de abstenção.

publicado por victorangelo às 21:44
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