Portugal é grande quando abre horizontes

01
Abr 15

Convido à leitura do texto que hoje publico na Visão.

 

A frescura do Butão

                Victor Ângelo

 

                A aproximação do aeroporto de Paro, a única porta de entrada para quem viaja de avião para o Butão, dá-nos um primeiro gosto do país: montanhas por toda a parte. É verdade que estamos nos contrafortes dos Himalaias. Paro situa-se a 2400 metros de altitude. Olho pela janela e quase que toco, de um lado e do outro das asas do Airbus, nos imensos paredões de rochedos que fecham o vale que conduz à pista de aterragem. Há poucos pilotos habilitados para voar para esta terra. E serão todos da companhia de aviação local, que mais nenhuma se aventura por estas paragens.

                Sempre foi um país de difícil acesso. Mas isso não impediu um outro alentejano, o jesuíta Estêvão Cacela, de o visitar, no ano de 1627, na companhia de João Cabral, um padre beirão. Foram os primeiros europeus por aqui. Cacela escreveu uma longa carta sobre a viagem, dizendo que o lugar era místico, inspirava paz, tranquilidade e felicidade. Quatrocentos anos depois não terá mudado muito. Só que já ninguém se lembra desses missionários. Agora, Portugal traz de imediato à conversa dos butaneses dois outros nomes: Cristiano Ronaldo e Nani. Mencionei Mourinho, mas percebi de imediato que o nome não passa bem, numa cultura em que prima a cortesia e que recusa todo o tipo de agressividade e de autoadmiração.

                O respeito pelos outros e pela natureza, a disciplina social e o fervor religioso, à volta de um budismo fortemente marcado pela mitologia hinduísta, são outras das características que definem a cultura local. Mas o traço mais evidente tem que ver com a proteção da identidade nacional, que se manifesta na maneira de vestir em público e na deferência em relação ao rei. Compreende-se. Apertado entre a China, a norte, e a Índia, dos três lados restantes, com um território que é cerca de metade do nosso e uma população que não ultrapassa as 800 mil almas, o Butão precisa, para se manter independente, de ser diferente e de possuir um forte sentimento de orgulho nacional. Consegue fazê-lo. Comete mesmo a proeza de não ter relações diplomáticas com a China, apesar da longa fronteira comum. É verdade que isso se faz à custa de um alinhamento diplomático estreito com a Índia. Mas, em política externa, tem que haver realismo, e na escolha entre os dois vizinhos, há um que não ocupou o Tibete, uma região que tem uma cultura gémea da butanesa.

                Percorrer as estradas e os trilhos do Butão é descobrir um modo de vida que, ao combinar o tradicional e o moderno, se desenrola em grande harmonia com a natureza. A Constituição, revista em 2008 para democratizar o regime e limitar os poderes do rei, que passou a ser obrigado a abdicar ao atingir a idade de 65 anos, protege a natureza – 60% do território nacional é intocável e tem que ser preservado tal como está – e o bem-estar dos cidadãos. Este é o país que definiu o bem-estar como sendo mais importante que o produto interno bruto. Mas isso não impede um processo de desenvolvimento acelerado, que me surpreendeu de modo positivo, e que põe o Butão à frente de muitos outros países comparáveis. Assenta na educação obrigatória, transmitida em língua nacional e em inglês, na produção de energia hídrica, exportada para o imenso mercado que é a Índia, na autossuficiência alimentar e no nicho do turismo de qualidade. E numa prática política responsável, que promove a alternância e que reconhece o mérito da oposição e das opções governativas diferentes.

                Nestes tempos em que se procuram ideias alternativas, vale a pena visitar o país, voltaria a dizer hoje o Padre Cacela. E não o diria apenas por causa do ar puro das montanhas ou pelo facto da venda de tabaco ter sido banida no Butão.

               

               

 

 

publicado por victorangelo às 14:04
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22
Set 13

Tornou-se um ritual. No segundo Sábado de cada uma das minhas estadas em Riga deambulo pelo mercado central da cidade. É um prazer. Tudo limpo e arrumado, e ao mesmo tempo diferente do que é hábito na Europa em que vivo o resto do ano. Para além de uma enorme variedade de bagas, colhidas nas florestas bálticas e próprias do Norte da Europa, muita da fruta vem da Turquia e do Uzbequistão, alguma da Geórgia ou do Azerbaijão – sobretudo as melancias. Há toda uma área que só vende flores, que oferecer flores faz parte da cultura quotidiana das pessoas daqui. A zona dos talhos está num hangar numa das pontas do mercado. Na ponta oposta, estão as bancas de venda de peixe. A carne é barata, raramente as melhores partes indo além dos 12 euros por quilograma. O peixe ainda é mais em conta e a variedade é muito diferente da que vemos em Portugal. Há muita lampreia, esturjão, enguias e outros peixes de rio, todos com um ar que mete medo, para além do inevitável salmão de cultura. Muito do peixe é vendido fumado. Fumar o peixe é uma tradição que vem dos tempos de outrora e que continua a fazer parte dos gostos de agora.

 

Tudo é uma curiosidade que vale a pena explorar. E tudo se passa num ambiente quase sem ruído. Ir ao mercado em Riga é, por isso, no silêncio das cores e na beleza das pessoas, uma espécie de viagem espiritual. 

publicado por victorangelo às 07:57
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14
Jan 13

Cheguei à conclusão, mais uma vez, depois da discussão estratégica de hoje, que as grandes mentes são as que sabem colocar as questões que contam, as interrogações que tocam no cerne dos problemas. São as que são capazes de identificar as questões que, se resolvidas, transformam uma sociedade.

 

Temos que aprender com essas pessoas e, nos momentos importantes, nas alturas de crise, saber decidir quais são as perguntas que interessam. Depois, é uma questão de nos focarmos na resposta, tão completa quanto possível, a cada uma dessas perguntas. 

 

Já dizia o velho Descartes, o pensador da interrogação metódica que vale sempre a pena ler, que "Dubium sapientiae initium", que a dúvida está na origem da sabedoria. Ou, como dizia um amigo meu, que estudou em Oxford, a primeira coisa que convém aprender é como pôr em causa as ideias feitas. No Alentejo, diriam "aprender a evitar a carneirada".

 

publicado por victorangelo às 22:31
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10
Dez 11

A pergunta, ao fim e ao cabo, é sempre a mesma: quais são as opções? A partir daí, conta a melhor.

 

Mas esta pergunta só é oportuna quando se sabe o que se quer, quando se tem uma ideia clara do fim que seria bom atingir. Sem objectivos claros, não há ambição e também não há futuro. Só há conversa e confusão. 

 

publicado por victorangelo às 19:43
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18
Mar 11
O meu amigo Tito, no comentário que faz ao meu blog sobre a "mau político", pergunta se vivemos "numa sociedade irresponsável". Ou seja, num país sem "a mínima noção de dever, preocupação e responsabilidade..."
 
A minha resposta dirá que sim. Pelo menos, no que respeita à grande maioria da classe política. É um dos grandes problemas da situação actual. As pessoas olham para um lado e depois para o outro e vêem apenas gente que está na vida pública por interesse pessoal, nada mais. O sentido do dever, a dedicação ao bem comum, o espírito de missão, se existem, não se notam. E, como tantas vezes se tem dito, as máquinas partidárias são meros trampolins, essenciais para o acesso ao poder, aos negócios e à riqueza. 
 
E como o exemplo vem de cima, os de baixo dizem, então, "deixa andar". Assim se corrompe um país. Assim se destroem os valores da confiança e da solidariedade. Sem eles, ficamos todos mais pobres. Até no sentido económico do conceito, pois um país que sofra uma crise de valores nao é um sítio atractivo, em termos de investimentos sérios. 
 
publicado por victorangelo às 20:36
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12
Set 10

 

Copyright V. Ângelo

 

Ver a política e a vida numa perspectiva de longo prazo. O que está em contra-corrente com o imediatismo dos que vivem no frenesim do título que poderá aparecer nos media de amanhã.

publicado por victorangelo às 21:52
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11
Set 10

No VII Congresso sobre Estudos Africanos, que acaba de decorrer no ISCTE, defendi com pormenor seis teses:

 

1.   A UE não considera as questões africanas como uma prioridade da política externa europeia

 

2.   A influência política da Europa em África é pouco relevante.

 

3.   A Europa não está apetrechada, do ponto de vista institucional, para fazer o seguimento das Cimeiras Europa – África. 

 

4.   A UE não tem uma estratégia coerente em relação `a cooperação Sul-Sul

 

5.   A reflexão estratégica sobre os cenários das próximas décadas, equacionando desafios e oportunidades, é insuficiente, no momento actual.

 

6.   A UE não compreende que as relações Europa – África do futuro terão dois sentidos, com ambas as partes em condições de beneficiar da parceria, como também não entende os riscos e as oportunidades da proximidade geopolítica com o continente africano.

 

 

 

publicado por victorangelo às 18:09
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04
Set 10

 

Copyright V. Ângelo

 

Uma explosão de flores, num quadro histórico, como quem celebra a vida mas não se esquece que tudo tem uma perspectiva mais ampla, para além do imediato. É um combinar do agora com o sempre.

 

Se os políticos pudessem pensar no presente e no amanhã com uma visão mais larga, colorida e limpa da vida, como na fotografia, teríamos mais confiança no futuro. Haveria rumo.

publicado por victorangelo às 12:55
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20
Ago 10

 

Copyright V. Ângelo

 

Este alinhamento, ordenado e sólido, sereno e simples, é o oposto da política portuguesa.

publicado por victorangelo às 22:03
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06
Ago 10

Sempre considerei a diplomacia de qualidade, activa, baseada em princípios, orientada para a obtenção de resultados, como uma forma de fazer política com elegância e com os olhos postos na resolução de conflitos. Trata-se de levar o outro lado a reconhecer o mérito, o valor, da posição que defendemos. A diplomacia é uma construção incessante de consensos. Assim deveria ser a política.

publicado por victorangelo às 21:55
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