Portugal é grande quando abre horizontes

19
Jul 17

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=8981

Acima fica o link para os meus comentários desta semana no Magazine Europa da Rádio TDM de Macau.

Falo do véu islâmico, das distintas dimensões da aliança entre a França e a Alemanha - sobretudo na área da defesa -, e finalmente, sobre a Turquia e o seu relacionamento com a UE.   

publicado por victorangelo às 21:31
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07
Jun 17

Os meus comentários esta semana. Magazine Europa é um programa da Rádio TDM de Macau sobre questões europeias. Sou o comentador residente do programa.

Os comentários centram-se nas relações entre a Europa e a China, o papel que podem desempenhar na liderança das questões climáticas, no futuro das relações europeias com os Estados Unidos, incluindo os aspectos de defesa, e ainda sobre os principais traços do orçamento europeu para 2018.

Pode ser ouvido através do seguinte link:

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=8797

publicado por victorangelo às 20:16
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18
Fev 17

Isto de andar a pôr a culpa nos outros é uma velha artimanha política. Trata-se da táctica do bode expiatório. Também é uma solução de facilidade para o comum dos mortais, a condição a que pertencemos. Simplifica-nos a alma, é uma terapia barata.

Um dos exemplos actuais, aqui pelas nossas santas terrinhas, passa por culpar os alemães de tudo o que nos acontece de mal, de todas as nossas dificuldades. E pomos à cabeça a Chanceler. Logo a seguir o seu pouco diplomático Ministro das Finanças. A nossa economia não cresce, as culpas encontram-se nas políticas alemãs. Temos um Estado insuficiente e ineficaz, inutilmente burocrático e pesado nos seus custos, endividado por isso até ao tutano, incrimina-se os germânicos. As taxas de juro da dívida pública são as segundas mais elevadas da zona euro, e a falta é deles, dos do lado de lá.

E já agora também será por causa dessa mesma gente de fora que o PIB da Lituânia, um país minúsculo e recuado, está este ano a ultrapassar o de Portugal.

Por vezes tento convencer os meus amigos que é preciso olhar para a deficiente qualidade dos nossos dirigentes políticos, para a pequenez dos nossos empresários, para a mediocridade da nossa elite social que se habituou a viver de rendas e de cunhas. E para outras gentes que por aí andam, incluindo as redes secretas que dão o primado à confraria em vez do mérito.

Fico, então, com a impressão que estou a perder o meu latim…

Mesmo assim, vou insistindo de vez em quando, com cuidado, que isto é terreno fértil em mal-entendidos. Mas não irei falar com os alemães. Esta conversa é uma discussão que tem que ser, acima de tudo, nacional, entre nós.

publicado por victorangelo às 20:53
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01
Jul 16

O futuro ainda existe

Victor Angelo  

 

 

 

                Quando a nossa parte do mundo acordou, na manhã de 24 de junho, e tomou conhecimento do resultado do referendo britânico sobre a UE, ficou profundamente atordoada. Foi como se o céu tivesse desabado de repente sobre nós. O que parecia impossível, aconteceu. E reentrámos assim numa nova era, no tempo das incertezas políticas. Pode acrescentar-se, sem exagero, que o voto pela saída está a virar do avesso o Reino Unido, a UE e uma parte significativa das relações internacionais. Para além das repercussões imediatas, agora amplamente conhecidas, temos pela frente uma série de desafios políticos e económicos. São de grande complexidade mas pedem uma resposta clara, por parte das instituições de Bruxelas e dos líderes que temos. E uma estratégica inteligente e bem focalizada, capaz de se concentrar no que é essencial para a salvaguarda e consolidação dos nossos interesses comuns.

            A primeira grande preocupação deverá passar pelo encurtamento do período de indefinição. Os contornos políticos do novo tipo de relacionamento entre quem sai e quem fica precisam de ser aprovados sem demoras. Defender que assim seja não é, da nossa parte, nem arrogância nem vontade de punição. Os cidadãos, os operadores económicos e financeiros, os parceiros externos, e também os nossos adversários, têm que saber com que linhas se irão coser. Nestas coisas, prolongar a falta de clareza só agrava os problemas. Por isso, há que insistir na aprovação, nos mais breves prazos, de um quadro de referência que irá, por dois, três ou mais anos, orientar o sentido das negociações de divórcio. E saber demonstrar que isso é igualmente vantajoso para o lado britânico. A dilação, que parece ser a opção tática que Londres quer seguir, é mais um erro que nos vem das terras de Sua Majestade. Quanto mais tempo se ficar no escuro, mais durará o período de desinvestimento na economia e no sistema financeiro do Reino Unido.         

             A segunda dimensão diz mais diretamente respeito a cada um de nós. O velho e vago mote sobre a aproximação entre as instituições de Bruxelas e os cidadãos da Europa precisa urgentemente de se transformar em algo de concreto. A alienação popular, se continuar, acabará por pôr termo ao projeto comum. Esse é um perigo de morte para a UE. Mas, atenção! Aproximação quer dizer que se responde às principais inquietações da maioria dos cidadãos. Isso não significa apenas, como erradamente a fundação Notre Europe de Jacques Delors e outros o propõem, colocar a segurança coletiva no centro dos esforços que aí vêm. Aliás, uma boa fatia da nossa segurança é assegurada pela Aliança Atlântica. Em matéria de defesa, a Europa sem os EUA não é mais do que um pé-descalço. E sem a Grã-Bretanha, além de pé-descalço, a UE mais pareceria um leão meio desdentado. Por isso, no domínio da defesa, a aposta só pode ser no quadro da NATO.

            Quais são, neste caso, as grandes inquietações que a liderança europeia deve ter em conta, de modo prioritário? Responder a esta interrogação é crucial e premente. Por mim, e de modo simplificado, vejo as questões do emprego, da solidariedade, da imigração e da segurança interna. A UE tem que ser um espaço que proteja os nossos contra as investidas cada vez maiores da globalização. Isso não quer dizer que se fechem as portas e se erijam muros. Significa que preparamos as nossas populações ativas para as oportunidades que as economias evoluídas oferecem, ajustando a educação e a formação profissional ao mundo de amanhã, e não às nostalgias do século passado. Também, que procuraremos resguardar durante algum tempo os setores que ainda possam mostra-se impreparados para fazer frente a uma concorrência internacional que vive com regras inferiores aos nossos padrões. O tratado comercial, conhecido como TTIP, que está a ser negociado com os EUA deve ser um exemplo dessa maneira de proceder. Abre-se onde é mutuamente vantajoso e quanto ao resto, espera-se por melhores dias.

            A imigração é uma questão delicada. É assunto incontornável nas circunstâncias de hoje. A sua abordagem deve ter como princípio orientador a ressalva da coesão europeia. Ou seja, se a imigração em massa põe em causa a unidade, terá então de ser contida dentro de limites aceitáveis. O caos abre as portas à insegurança, à instabilidade e à rejeição cega. É uma estupidez política acreditar, como muitos em Bruxelas e nos círculos bem-pensantes o fazem, que uma medida única serve para todos. E que se poderão aplicar multas a quem não acate as ordens vindas da Comissão. A Europa do Leste não viveu a mesma experiência histórica que outros conheceram. Há que respeitar esse facto, compreender as suas reticências e dar valor à sua pertença à UE. Por outro lado, a aceitação e posterior integração no tecido nacional de vastas comunidades de pessoas que são culturalmente muito diferentes das nossas não é um assunto ligeiro, que se possa resolver com base em diretrizes ou em posições simplistas e emotivas. Não é uma questão de xenofobia. Trata-se, isso sim, de evitar desequilíbrios tais que, pela sua dimensão, possam dar campo de manobra aos radicalismos ultranacionalistas e à militância racista.        

             O conceito de segurança humana abrange a proteção contra as ameaças económicas e as que põem em perigo a ordem pública, a vida e o direito à propriedade de cada um de nós. Do ponto de vista económico, como ficou dito acima, a grande ameaça é a aceitação da globalização a partir de uma postura ultraliberal. Quanto à segurança pública, é fundamental que o cidadão veja o espaço europeu como uma área de direito, liberdades e tranquilidade. O terrorismo é apenas uma das ameaças, a mais mediática, certamente, mas sem nos poder fazer esquecer outras dimensões da grande criminalidade organizada e plurinacional. O cidadão quer sentir-se protegido. E para isso, precisa de ver um novo tipo de cooperação entre as polícias e os serviços de informação dos países Schengen. Tem havido, ultimamente, algum progresso nesse sentido. Mas há muito ainda por fazer e mais ainda por dar a conhecer e esclarecer.

            Este ponto sobre a comunicação é importante. Bruxelas não tem sabido contar as suas histórias de sucesso. A comunicação é feita de modo burocrático e só é entendida pelos poucos que fazem parte dos grupos de iniciados. Além disso, não é boa a imagem que Jean-Claude Juncker projeta. Dá a impressão de falta de imaginação e paciência, de ligeireza, de excesso de ironia e cansaço. Donald Tusk também já não convence: anda a meio-gás, à espera que Varsóvia lhe tire o tapete de vez. E não falo da imagem de outros, como o eterno arrogante Martin Schultz e o tristemente desajeitado François Hollande. E passo ao lado de Angela Merkel…Estas coisas da imagem contam muito. Como também é fundamental acertar com a narrativa. Um bom relato faz parte do sucesso.

            Em resumo, só respondendo efetiva e rapidamente a estas preocupações se pode evitar o risco do dominó referendário. Não me estou a referir, é claro, ao referendo que foi infantilmente sugerido este fim-de-semana aqui pelas nossas bandas. Tenho em mente Marine Le Pen, Geert Wilders, Beppe Grillo, Norbert Hofer e outros extremistas de direita cada vez mais impantes. Andam todos ao mesmo. Querem, à boleia da folia britânica, acabar com a UE e promover, nos respetivos países, na França, Holanda, Itália, Áustria, e por aí fora, uma agenda ultrarreacionária e ultranacionalista. Personificam os perigos mais imediatos para a continuação da UE. Se algum deles chegar ao poder e tiver a oportunidade de organizar um referendo a preto e branco, e se o que acima ficou dito não tiver sido conseguido, será o fim da Europa tal como hoje a conhecemos. Estes referendos, que parecem ser sobre a UE, são enganadores. Acabam, na realidade, por ser moldados por questões de política interna. E se Bruxelas continuar a dar azo a servir de bode-expiatório das más políticas domésticas ou se oferecer pretextos de crítica aos radicais, o que começou no Reino Unido como uma amputação de um braço, acabará em Paris ou Roma como uma lança no coração de um sonho.  

 

(Texto que publico no número desta semana da revista Visão)

 

publicado por victorangelo às 16:48
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13
Jan 16

"Custa-me voltar a massacrar os leitores com a questão da imigração. A verdade é que essa continua a ser a temática que domina o debate político na UE. Sobretudo agora, no seguimento dos incidentes que ocorreram na noite da passagem do ano, em Colónia e noutras cidades da Alemanha, bem como em Helsínquia."

 

Com estas linhas abro o meu texto de hoje na Visão on line a que dei o título de «Sem chover no molhado».

O texto está disponível no sítio:

 http://bit.ly/1N7Nh3d

publicado por victorangelo às 17:47
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12
Jan 16

O atentado de hoje em Istanbul parece ter sido planeado com muito cuidado. Não posso acreditar que os turistas alemães tenham sido visados ao acaso. Ao escolher um grupo de turistas dessa nacionalidade, os comanditários deste acto terrorista sabiam o que estavam a fazer.

Na realidade, a intenção terá sido atingir dois inimigos com uma só acção.

A Turquia, inimigo número um. A explosão num sítio emblemático de Istanbul tem um efeito imediato sobre a imagem da cidade e do país, e afasta turistas.

A Alemanha de Merkel, inimigo número dois. Ao chamado Estado Islâmico interessa desestabilizar Merkel. A Chanceler tem sido a imagem positiva da Europa, no que diz respeito aos refugiados. Surgiu igualmente como a voz do bom senso no seio da União Europeia.

Os terroristas precisam de uma imagem europeia que pareça xenófoba e anti-islâmica, ou seja, o contrário do que Merkel tem promovido. E provavelmente também gostariam de ver uma Europa esfrangalhada. Ora, a Chanceler constitui, em grande medida, o cimento que tem mantido o edifício europeu mais ou menos inteiro.

 

publicado por victorangelo às 20:27
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11
Jan 16

Angela Merkel anulou a sua participação no Fórum Económico Mundial de Davos, que tem lugar na próxima semana. Acha que não se deve ausentar de Berlim, nos próximos tempos.

No meu entender, a decisão mostra que a Chanceler se encontra debaixo de uma pressão política interna de grande amplitude. Os acontecimentos de Colónia, os que ocorreram na noite de passagem do ano, são graves e Merkel antevê que as ondas de choque se intensifiquem nos próximos dias. Existe mesmo o risco que a sua liderança possa ser posto em causa, no interior do seu partido.

De qualquer modo, é muito provável que decisões importantes tenham que ser tomadas, no que respeita à política imigratória e à aceitação de refugiados. Mais ainda, a opinião pública está dividida e de certo modo confundida com o desenrolar das notícias sobre os acontecimentos. Merkel tem que ser vista no seu posto de comando e não nas neves luxuosas e elitistas de Davos.

 

publicado por victorangelo às 21:01
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30
Dez 15

             "O ano de 2015 ficou muito a dever a John Kerry.

            O nome do Secretário de Estado norte-americano apareceu intimamente associado a momentos altos das relações internacionais, nomeadamente ao acordo nuclear com o Irão e ao plano de negociações sobre a Síria, que acaba de ser adotado pela ONU. Em paralelo com o Presidente Obama, que decidiu concentrar uma boa parte da sua atenção nas questões internas e retrair-se em matéria de política externa, Kerry comprometeu-se pessoalmente na solução de problemas que pareciam insolúveis. Com uma idade que já vai para lá dos setenta, num momento da vida em que muitos outros passam o tempo a jogar golf, foi infatigável e um exemplo de força de vontade e otimismo. Projetou uma imagem de maturidade e confiança, de seriedade e limpidez de intenções, características que são raras na política dos nossos dias. Lembrou-nos, entre outras coisas, que em diplomacia o que conta é estar presente, que a resolução das crises passa por se falar diretamente com os protagonistas, por não ter medo dos insucessos de hoje, mas sim, por conseguir transformá-los nas etapas necessárias para os acordos de amanhã. Teve ainda a habilidade e o arrojo de nos lembrar que com Benjamin Netanyahu no poder e com a coligação que agora o apoia, o conflito entre Israel e a Palestina continuará a agravar-se até se tornar quase irremediável. Para mim, pois, John Kerry foi o modelo do ano. Um político com uma vida e uma prática que nos inspiram e fazem refletir."

 

(Parágrafo final do meu texto na Visão online de hoje, texto publicado sob o título "Um político de referência em 2015"

 

publicado por victorangelo às 15:56
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29
Nov 15

A cimeira que vai decorrer esta tarde em Bruxelas entre a União Europeia e a Turquia causa-me algumas preocupações. A UE não está preparada para uma discussão em pé de igualdade com o governo de Ankara. No essencial, os dirigentes europeus têm apenas uma única preocupação: travar o movimento migratório e de refugiados que continua a chegar à Europa através do Mediterrâneo Oriental. Contam, para isso, com a ajuda da Turquia, país por onde transitam as sucessivas vagas de emigrantes e de candidatos ao refúgio.

É uma ideia fixa, sem estratégia, para além de acreditarem que se a Turquia fechar a torneira a avalanche humana ficará resolvida.

É a Europa na sua versão mais patética que se reúne hoje em Bruxelas.

O governo turco procurará tirar o máximo de concessões dos europeus. Tem todos os trunfos para o fazer. E a intenção também. A Turquia encontrou aqui um meio de fazer pressão sobre os europeus. Só assim se explica a política que tem seguido, ao longo deste ano, de deixar entrar qualquer pessoa, vinda dos cantos mais diversos do globo, desde que esse viajante esteja de passagem e a caminho da UE. O Presidente Erdogan e o seu Primeiro-ministro Davutoğlu são grandes estrategas. Sabem o que querem.

E neste caso, a aposta é tirar o maior partido possível das fraquezas, das indecisões e das fracturas que existem entre nós. Vão pedir muito dinheiro – querem uma ajuda orçamental de 3 mil milhões de Euros por ano –, abolição dos vistos para os turcos e, acima de tudo, um calendário preciso para o arrastadíssimo processo de adesão do seu país à UE. Irão também tentar implicar a Europa na confusão perigosa que criaram com a Rússia.

Escrevi há dias, no meu blog em inglês www.victorangeloviews.blogspot.com qual deveria ser a atitude dos dirigentes europeus. A ênfase deveria ser posta nos valores da democracia, da liberdade de imprensa, nos direitos humanos, no respeito pelos direitos constitucionais das minorias étnicas. Se assim o fizerem, a discussão será mais equilibrada. Esses são os pontos fracos da governação de Ankara. São, ao mesmo tempo, os pilares do espaço europeu.

Não penso, no entanto, que haja em Bruxelas coragem para tanto. Estamos entregues aos fracos. Assim o receio.

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 08:55
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03
Set 15

Outono das incertezas
Victor Ângelo


Seria um exagero dizer que o Verão de 2015 pôs a política europeia de pantanas. Mas pode-se afirmar que deu um bom safanão a algumas das convicções ideológicas que sustentam o edifício dos mitos comuns. Entramos em setembro com mais dúvidas e o sentimento que os alicerces da estabilidade e da prosperidade europeias estão agora seriamente fragilizados. Ao Verão das crises poderá seguir-se o Outono das incertezas, das hesitações, dos azedumes entre líderes e do fechar de muitos nas suas conchas nacionais.


Primeiro foi o nó górdio grego. Para além do faz-de-conta, das palavras ocas de apaziguamento e dos acordos arrancados a ferros, sabe-se o impacto que teve na unidade e na solidariedade europeias, bem como nos preconceitos de uns em relação a outros. A Grécia desferiu um golpe profundo no projeto comum e sofreu, por sua vez, o preço que a Europa que manda faz pagar a quem não trata de si. Neste tipo de crises, perdem todos, e à grande. E não quero falar nos abalos nos partidos de extrema-esquerda, que passaram a estação quente a engolir sapos vivos, e a frio.
Deixemos a Grécia de lado. Uma crise maior e mais generalizada tomou entretanto a dianteira e ganhou proporções inimagináveis. Refiro-me à explosão migratória, aos corredores da desgraça humana que rasgam o Mediterrâneo e combinam esperança e desespero, tráfico e violências, naufrágios e imagens de crianças a caminhar ao longo das vias férreas, em direção a um futuro povoado de ilusões.


Os nossos governos nunca pensaram que isto pudesse acontecer dentro das nossas fronteiras, nem estavam preparados para responder a movimentos de massas desta amplitude. As velhas ideias, velhas por serem as que vigoravam antes do Verão, sobre os candidatos ao asilo e à imigração pareciam claras. Baseavam-se na crença que os refugiados ficariam em campos de tendas de lona bem longe da nossa porta. O papel que nos estaria reservado, enquanto países ricos, seria o de fazer contribuições voluntárias para o ACNUR e esperar que a agência se ocupasse dessas gentes. Quanto aos imigrantes, a política era linear: a polícia identificava-os nas praças públicas, com base na cor da tez; se se encontrassem numa situação ilegal, pegava-se neles e procedia-se ao seu recambiamento para os países de origem.


A verdade é que ainda há quem assim pense. Por isso, os Estados e Comissão Europeia continuam a aprovar verbas descomunais destinadas à deportação de indocumentados. Todavia, depois do que tem estado a acontecer, essa maneira de proceder deixou de ser viável. Por muito que doa aos reacionários de toda a estirpe, a resposta securitária está a ser levada pela torrente. A realidade da imigração é demasiado grande para as políticas do cacete. Curiosamente, Merkel e Renzi, sobretudo estes, parecem começar a entender o novo contexto.


Estão, contudo, a pregar para quem não os quer ouvir. Na UE, o que conta é empurrar os problemas para a casa do vizinho. Impera o nacionalismo miudinho. Bruxelas perdeu a voz e anda a fingir-se ocupada com outras coisas. E o ACNUR fechou-se em copas. É um misto de silêncio, para não irritar um grupo de doadores poderosos, e de prudência tática, para não prejudicar outras ambições. É, acima de tudo, uma visão contrária à que sempre tive sobre o papel da ONU: ter coragem e lembrar a cada Estado, grande ou pequeno, quais são as suas obrigações perante as crises internacionais

 

(Artigo que hoje publico na revista Visão)

publicado por victorangelo às 21:47
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