Portugal é grande quando abre horizontes

12
Dez 16

Hoje é dia de voltar a dar os parabéns a António Guterres. O discurso que pronunciou na tomada de posse foi completo e claro. Tocou nas questões mais prementes, sublinhou bem e repetidamente a importância dos direitos humanos e explicitou as prioridades do novo Secretário-Geral.

A tarefa não será fácil. Para mais, a chegada a Washington de uma administração radical, e que aposta mais no confronto do que na diplomacia, não irá tornar mais leve a missão que Guterres tem pela frente.

O reforço da credibilidade da ONU e da sua centralidade – nos últimos tempos assistimos à tendência para empurrar as Nações Unidas para as margens sombrias dos grandes conflitos, um processo de subalternização que deverá ser travado e revertido – são duas preocupações que vejo como fundamentais.

Tenho a certeza que Guterres o entende da mesma maneira.

publicado por victorangelo às 19:56
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05
Out 16

António Guterres será o novo Secretário-Geral das Nações Unidas. É altura de lhe dar os parabéns mais entusiásticos e merecidos, e também de reconhecer o mérito da equipa diplomática portuguesa, em especial o papel desempenhado pelo Embaixador José de Freitas Ferraz e o seu grupo de trabalho.

Mas, de facto, o mérito é de Guterres. Quem conhece bem a ONU, sabe que ele conseguiu ultrapassar dois obstáculos de grande monta: o peso dos interesses e da tradição geoestratégica, que davam o lugar a alguém vindo do Leste da Europa; e questão do género. Na realidade, havia uma pressão enorme – amplamente justificada – para que, desta vez e pela primeira vez, fosse eleita uma mulher. Vencer estas duas enormes barreiras significou que o Conselho de Segurança lhe reconheceu um mérito excepcional. Muito bem!

Por isso, os parabéns também devem ser excepcionalmente calorosos.

publicado por victorangelo às 20:59
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03
Out 16

Passei o dia a discutir alguns dos grandes desafios que a Ásia Central – as cinco antigas repúblicas soviéticas – tem pela frente. E já no final do dia, um jornalista conhecido telefonou-me de Lisboa, a perguntar qual era a minha opinião sobre a prestação de Kristalina Georgieva nas Nações Unidas. A verdade é que estava muito longe desse assunto. Disse-lhe que ainda não tinha informações sobre a matéria. E lembrei que neste momento há muitos especialistas em questões onusianas no panorama intelectual lisboeta. Talvez fosse melhor perguntar-lhes a opinião, sobretudo aos do costume.

E esperar por quarta-feira, pela próxima volta, no Conselho de Segurança.

Já depois disso, soube duas ou três coisas. Que o embaixador do Quénia junto da ONU, o meu antigo colega Macharia Kamau, que também desempenha as funções de presidente do Fundo das Nações Unidas para a Consolidação da Paz, o que lhe dá uma voz grossa, achou que Georgieva pode ter aparecido à última hora, mas ainda “apareceu a tempo e no tempo preciso”. Interessante. E mais. Que os Nórdicos estão a fazer campanha pela nova candidata. Consideraram que a senhora teve um desempenho de qualidade e que é a altura de ter uma mulher no cargo. Uma mulher bastante competente, acrescentam. Finalmente, que os russos acharam bem que ela se exprimisse na sua língua, ao fazer as suas intervenções.

A isto junta-se a geopolítica – o Leste europeu – e o género.

Do outro lado, temos António Guterres. Um candidato que toda a gente sabe que é muito forte.

Veremos o que acontece depois de amanhã.

publicado por victorangelo às 21:10
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01
Out 16

O Conselho de Segurança volta a pronunciar-se sobre a eleição do Secretário-Geral a de 5 de outubro.

Nas vésperas de uma votação que poderá ser decisiva, a diplomacia está na fase das grandes manobras. Que na realidade têm que ver com dois ou três cargos importantes no Secretariado da ONU. Trata-se de lugares de chefia dos departamentos considerados mais importantes: Operações de Paz e dos Assuntos Políticos. E também com a designação do novo Vice-Secretário-Geral, uma escolha que faz parte das prerrogativas do Secretário-Geral.

As Operações de Paz têm estado debaixo da alçada dos franceses. É muito provável que a França não consiga manter o controlo desse departamento no futuro. Diz-se que a China está com os olhos postos nesse lugar.

Os Assuntos Políticos são, desde alguns anos, uma coutada americana. Vai ser difícil desalojá-los. Tudo se pode negociar, porém.

E então, que se deve oferecer aos russos, para que deixem passar o candidato em causa? Neste momento, controlam a área que se ocupa da Polícia das Nações Unidas e temas similares. Mas não chega, face às ambições de Moscovo. A área é um tema menor dentro das Operações de Paz.

Os russos também andam à procura de um ou outro compromisso por parte dos europeus. Sobre as sanções, sobre o futuro da Ucrânia, sobre os gasodutos e a política energética da UE. Daqui, a importância da Comissão em Bruxelas. E de Berlim, claro, que também arvora aspirações, no que respeita à estrutura funcional das Nações Unidas.

Quanto à nomeação do número dois da ONU, não deverá ser um europeu, se o novo Secretário-Geral for de nacionalidade europeia. Poderá, para satisfazer os russos, ser alguém da Ásia Central, de um estado cliente de Moscovo. Também poderia ser Helen Clark, para calar os americanos e os britânicos, sem levantar ondas em Moscovo ou Beijing. Ou Susana Malcorra, que tem muitos amigos influentes, incluindo os Clinton, e a vantagem de não ser considerada como ocidental. Será, de qualquer modo, alguém do sexo oposto ao do novo SG. E alguém que vai exigir uma certa margem de manobra, para que a função de Vice não seja apenas para a galeria ver.

É nisto que estamos, nos próximos dias.

Entretanto, Kristalina Goergieva vai a provas na segunda-feira. Veremos que conclusões poderão ser tiradas das suas prestações.

 

publicado por victorangelo às 22:02
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29
Set 16

A comunicação social portuguesa tem dado muita atenção à eleição do novo Secretário-geral da ONU, o que se compreende, face à excelente candidatura de António Guterres. E tem participado activamente na exaltação patriótica que a mesma gera. Não seria de esperar outra coisa, de nós, portugueses. Nestas coisas, joga tudo do mesmo lado. O nacionalismo arrebatado faz parte integrante das nossas exaltações colectivas.

Só que na casa da alta política que é o Conselho de Segurança das Nações Unidas o jogo é outro. É tudo mais complexo, sobretudo agora. Reconhece-se a importância do mérito, e aí, nessa questão, o candidato português está no topo da liga. Mas há mais. Chamam-lhe geopolítica. Na realidade, trata-se apenas da leitura que cada membro permanente faz dos seus interesses nacionais. É isso que conta, ao fim e ao cabo, por muito que se fale de transparência. E o Conselho funciona melhor quando consegue encontrar o ponto de equilíbrio desses interesses. Sim, dos interesses dos cinco Estados permanentes.

Mesmo entre os não-permanentes há diferenças de peso e influência. Nesto momento, a Venezuela e a Espanha têm ambas assento no Conselho. Muito bem. Mas não têm a mesma influência. A Espanha conta muito mais, até mesmo junto dos países da América Latina. Os membros permanentes irão procurar ter a Espanha do seu lado. E, ao mesmo tempo, estarão prontos para ignorar a posição da Venezuela. Mais ainda, ficarão politicamente satisfeitos se a Venezuela for ignorada. O isolamento faz parte da política internacional. Envia mensagens e marca pontos.

Não sei o que está a ser discutido nos corredores das relações internacionais. Poderei tentar adivinhar uma ou outra área de possíveis negociações. Que as há, é evidente que sim. E nestas coisas, ganha quem tem mais para oferecer. Directamente, ou por empenho dos padrinhos, dos Estados mais poderosos.

O resto, incluindo o voto na Assembleia Geral, é matéria mais ou menos pacífica. Uma vez decidido no Conselho, o jogo está feito. Não creio que desse lado possa haver qualquer surpresa.

 

publicado por victorangelo às 21:23
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13
Set 16

Começou hoje a Assembleia Geral das Nações Unidas, edição 2016.

Desta vez, a questão da eleição do novo Secretário-geral estará muito presente, nos múltiplos encontros diplomáticos que o evento proporciona. Mas, na realidade, é a posição de cada um dos cinco membros permanentes que conta. Mesmo nas circunstâncias actuais, depois de um processo mais visível do que passado.

É difícil saber, neste momento, qual vai ser a escolha que cada um irá fazer.

Para já, é claro que os Estados Unidos prefeririam Susana Malcorra, que passou vários anos em Nova Iorque, nomeadamente na área que dá prestígio político junto dos grandes, que é a da manutenção da paz. Os britânicos iriam por Helen Clark, que está há vários anos à cabeça do PNUD. Os franceses e os russos, apostam ainda em Irina Bokova, por muito que se diga. E os chineses, que estão muito interessados na América Latina e operações de paz, também iriam por Malcorra.

Esta última não agrada muito ao governo de Londres, embora se estejam já a discutir as condições que poderiam levar a um apoio.

Helen Clark não deverá ter a aprovação dos russos e dos chineses, por muito que ela nos queira fazer crer que sim. Nem estes vêem grande vantagem em aprovar alguém vindo de um país que nada lhes poderá oferecer de verdadeiramente estratégico.

Irina Bokova não deverá passar nem em Londres nem em Washington. A sua candidatura está, aliás, sob uma séria ameaça, que poderá ser concretizada a 26 de setembro, após a próxima ronda de votação informal no Conselho de Segurança.

No meio de tudo isto, aumentam as hipóteses dos outros candidatos mais votados, sobretudo de António Guterres e de Miroslav Lajčák. Mas nada está ainda garantido.

Quanto a Kristalina Georgieva, poderá aparecer depois de 26 de setembro. E a sua aceitação comportar, entre outras possibilidades, uma promessa de suspensão das sanções europeias contra a Rússia. Isso tem algum peso, claro.

 

 

publicado por victorangelo às 21:03
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09
Set 16

Teve hoje lugar a quarta ronda do processo de eleição do Secretário-Geral da ONU. E o Conselho de Segurança mostrou manter a mesma linha de coerência que havia revelado nas votações anteriores. Voltou a preferir António Guterres, com mais ou menos o mesmo tipo de apoio. Diria mesmo que Guterres sai reforçado. É agora um candidato que deve ser levado muito a sério pelos Estados Membros que estão neste momento no Conselho de Segurança bem como pelos membros permanentes.

Ainda vamos ter, próximo do final do mês, uma outra ronda indicativa. A última, antes do processo entrar na fase dos vetos. O período que se segue, entre hoje e essa nova volta, vai ser um período de intensa actividade diplomática, pelo menos para alguns dos candidatos. Susana Malcorra, por exemplo, já começou a fazer concessões aos britânicos, no que respeita às Ilhas Malvinas.

É preciso ter igualmente em conta que a questão até agora tem sido se o candidato deve ou não ser encorajado a manter a sua candidatura. Responder que sim não é o mesmo que votar a favor. No entanto, os valores obtidos por António Guterres não poderão ser ignorados pelos membros do Conselho. 

publicado por victorangelo às 16:52
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02
Set 16

Nações Unidas: a procissão já saiu do adro

                Victor Ângelo

 

 

                Independentemente do desfecho final, que ainda é incerto, porque as negociações entre os grandes ainda não começaram, e nestas coisas de interesses estratégicos tudo pode acontecer, os resultados obtidos até agora por António Guterres são de se lhe tirar o chapéu. O Conselho de Segurança da ONU tem sido consistente na apreciação das qualidades excecionais do candidato proposto por Portugal para Secretário-geral. Enquanto se têm notado oscilações importantes no reconhecimento do mérito dos outros concorrentes, no caso de Guterres as votações têm mantido uma avaliação constante, a um nível alto e promissor.

                Se na próxima ronda, que será a quarta, o apoio continuar ao mesmo nível, tornar-se-á muito difícil impor um outro candidato. Sobretudo um candidato de última hora, alguém chegado de novo, de fora, a um processo que já percorreu muito caminho.

               Mas tudo pode ainda acontecer. O passado mostra que a escolha pelo Conselho de Segurança de um novo patrão das Nações Unidas mantém-se imprevisível até ao último momento.

                A Rússia está convencida que um Secretário-geral proveniente de um pequeno país da Europa do Leste lhe será, no futuro, mais favorável, menos inclinado a críticas à política externa russa. Sobretudo se o país da sua nacionalidade tiver uma relação de proximidade económica e cultural com a Rússia. Por isso, será de prever que o Kremlin continue a insistir na questão da rotatividade geopolítica, ou seja, que desta vez o cargo deve caber à Europa Oriental. É verdade que a Europa Oriental é uma ficção política, que deixou de existir com o fim da Guerra Fria, a subsequente expansão da NATO e as adesões à UE. Mas é uma ficção que existe ainda na ONU e que pode ser útil aos interesses russos, tal como a classe dirigente atual os vê.

                Nessa linha de reivindicação geopolítica, um nome parece agora emergir. E de modo surpreendente. O primeiro-ministro da Eslováquia esteve em Moscovo uns dias antes da votação desta semana e teve uma conversa muito apreciada por Vladimir Putin. É assunto que convém seguir com algum cuidado.

                Por outro lado, quer a Rússia quer os outros grandes do Conselho, os P5, como se chama aos permanentes, preferirão um Secretário-geral que seja considerado politicamente pragmático. Ou seja, flexível, uma palavra que traduz bem a principal característica que eles gostam de ver na pessoa que ocupa o secretariado-geral. Os membros permanentes não apreciam os moralistas, em matéria de política internacional. Também não morrem de amores por gente com um forte pendão humanitário.             

                 Há ainda a variável do género. A administração americana tem em Washington quem pense – e é gente influente, com acesso aos ouvidos do presidente – que Obama não deve deixar passar a oportunidade, no termo do seu mandato, de contribuir para a eleição de uma mulher. Ficaria bem na fotografia final e nos livros de história.

                Sem esquecer, claro, que Hillary Clinton também vai influenciar a escolha, mesmo que o faça de modo indireto. Vai ser ela, em princípio, quem irá ter como interlocutor o novo Secretário-geral.

                Os americanos querem, por tudo isto, que as candidatas femininas continuem até à próxima ronda. Têm porém um problema como uma outra mulher: Teresa May. A líder britânica não pode apoiar a candidata preferida por Washington. A razão é clara. Toca numa questão internacional que faz parte da sua história recente e que está estreitamente associada ao legado de uma outra líder conservadora, Margaret Thatcher: as Ilhas Falklands, para uns, Malvinas, para outros.

                Para quem gosta de histórias de suspense, a inovadora metodologia eleitoral, que os estados membros estão desta vez a seguir, oferece uma boa dose de excitação. Tem, igualmente, o mérito de chamar a atenção pública internacional para uma questão que no passado sempre passou despercebida: a importância da função. Num panorama de grandes tensões, a personalidade do Secretário-geral conta de modo determinante. E é por isso que a candidatura de António Guterres ganhou o peso que agora tem.

 

(Texto que hoje publico na Visão on line)

 

 

 

publicado por victorangelo às 20:02
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22
Ago 16

Com a terceira ronda às portas, marcada para 29 de agosto, e com António Guterres na linha da frente, na corrida ao topo da instituição, cresce o interesse na imprensa portuguesa sobre as Nações Unidas. E surgem vários textos, sobretudo para dar uma perspectiva histórica do relacionamento de Portugal com a ONU.

Ainda bem que assim é. A questão onusiana tem sido sempre tratada pela rama e de modo muito incompleto. Os escritos que agora vão surgindo permitem dar um pouco mais de substância à matéria.

Mas ainda há muito que aprender, como noto quando falo com gente que normalmente tem um bom acesso à informação. Não entendem bem como funciona a máquina. E também o noto nos próprios textos, que são escritos por quem leu umas coisas sobre a ONU ou se relacionou com ela do lado de fora, a partir das nossas missões diplomáticas.

 

 

publicado por victorangelo às 22:25
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19
Ago 16

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Ajuda Humanitária. Uma data que nos lembra, acima de tudo, os enormes sacrifícios por que passam muitos dos trabalhadores humanitários no seu quotidiano. E que serve também para recordar os milhões de pessoas que vivem situações desesperadas e que precisam de ser ajudadas. Para a vasta maioria deles, é uma questão imediata de vida ou de morte. E é isso que define o trabalho humanitário e que o distingue dos programas de luta contra a pobreza: a urgência e os riscos imediatos de morte.

Na política internacional, o trabalho humanitário não tem o mesmo prestígio que o serviço político ou as questões de guerra e paz. Nem todos entenderão isso, mas a verdade é que assim é. Por isso, é importante que se fale mais, alto e bom som, sobre os esforços que muitos e muitos indivíduos fazem no desempenho das suas funções humanitárias.

Assim, hoje poderia ter sido um bom momento para contar umas histórias pessoais de portugueses que se têm distinguido nas acções humanitárias, em situações de extrema dificuldade, de grande stress físico e mental, de profunda insegurança. Infelizmente, a comunicação social passou ao lado. E sem caras, sem casos concretos, tudo isto parece distante e acaba por nos deixar indiferente.

 

 

publicado por victorangelo às 17:53
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