Portugal é grande quando abre horizontes

08
Abr 17

Temos um cronista conhecido que escreve todas as semanas no Público. Por mais diverso que seja o tema, o fulano acaba sempre por malhar forte e feio em Passos Coelho. É assim uma espécie de obsessão. Mas é uma mania de baixo valor. Primeiro, porque bater no antigo Primeiro-Ministro é coisa corrente, que muitos fazem há vários anos. Não vale a pena estar constantemente a chover no molhado. Depois, porque esse cronista até sabe umas coisas, mas a repetição permanente dos ataques acaba por lhe tirar altura. Dá a imagem de um indivíduo que tem umas contas por ajustar e que não consegue saldar a coisa. Um doente crónico do passismo, diriam alguns.

Em política e em matéria de opinião, a sabedoria é bater uma vez ou outra e depois passar-se ao lado. Há vida para além dos rancores antigos. Assim se distingue o pequenino do grande.

publicado por victorangelo às 22:15
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14
Jan 17

Num sábado à noite não se escreve sobre coisas sérias. Nem se lançam polémicas. Mas a verdade é que muito do que se escreve e diz em Portugal, sobretudo nos canais da televisão, não parece ser tratado muito a sério. Passa-se pela rama, que o resto dá muito trabalho e maça muita gente. A superficialidade é que está a dar. E não apenas aos sábados à noite.

publicado por victorangelo às 21:21
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10
Dez 16

A minha neta fecha a conversa, quando vê que eu pretendo não estar a perceber, com uma expressão bem típica: laisse tomber, ou seja, esquece! São os seus seis anos de vida que lhe dão esse tipo de sabedoria.

E eu aprendo.

Por exemplo, quando leio o que certos intelectuais escreveram no Público de hoje, limito-me a concluir que não vale a pena insistir, é mesmo para esquecer.

publicado por victorangelo às 20:48
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23
Jul 16

É triste, e faz pensar nas voltas que a vida dá, ver um dos nossos intelectuais mais proeminentes escrever num diário de referência uma longa e confusa arenga sobre a Europa. Além de vários erros de raciocínio, que serão provavelmente o resultado das suas frustrações pessoais e da obsessão doentia em que vive, e de afirmações gratuitas e erróneas, a nossa estrela chama ao barulho outros estados exteriores à UE, fala nos seus erros e depois passa as culpas à Europa. 

Não sei se ainda há por aí muita gente que lhe preste atenção. Mas até é capaz de haver e isso não ajuda nada, numa altura em que conviria aclarar as coisas e reconhecer valor onde esse existe. Estes são tempos que exigem atitudes positivas e críticas construtivas. Não são tempos para deixar as nossas raivas e ódios de estimação à solta, entregues a um projecto de demolição. 

É com conversas dessas que se vai destruindo a credibilidade das instituições e se prepara o período de convulsões que se poderá seguir.

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:37
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12
Jun 16

 

Derrotar e travar o euroceticismo, abrir o futuro

Victor Ângelo

 

 

            Os argumentos a favor da permanência da Grã-Bretanha na UE têm estado excessivamente focalizados nas dimensões económicas. Agora foi a vez da OCDE vir à liça para dizer que o Brexit provocaria uma quebra de 5% do PIB britânico, ao longo dos próximos anos. Vinda donde vem, essa estimativa merece alguma atenção. Reforça, aliás, a posição de outras instituições, como o FMI, que já haviam sublinhado os custos elevados que uma eventual saída da UE poderia acarretar para as famílias no Reino Unido.

            Os prejuízos económicos poderão ser evidentes para os macroeconomistas e para as grandes empresas, bem como para uma parte dos eleitores, mas não devem ser o ponto fulcral da disputa num referendo com fortes matizes nacionalistas. Pesam, é verdade, mas de modo relativo. E acentuá-los em demasia abre espaço aos que dizem que a campanha pelo sim se baseia no exagero e na exploração dos temores. Sem esquecer que muitos cidadãos consideram estas questões da macroeconomia como cortinas de fumo, que escondem os interesses dos poderosos e das multinacionais. Por isso, há que tratá-las com muito cuidado.

            O que está em jogo é uma decisão fundamentalmente política. Ora, a política move-se noutra esfera, para além da sensatez e da contabilidade do deve e do haver. Aqui lembro que Jean Jaurès, o grande líder socialista francês do início do século XX, garantia em 1914, uns meses antes do início da conflagração europeia, que se podia apostar na paz, pois a guerra ficaria demasiado cara. É verdade que a Grande Guerra teve custos incalculáveis, para além das imensas tragédias humanas. Mas foi a escolha política de então, apesar das palavras tão avisadas de Jaurès. Com o Brexit poderá acontecer o mesmo.

            O domínio da política pura e dura jaz no simbolismo e nas opções visceralmente emotivas. É a esse nível que se deve travar o combate para evitar o terramoto anunciado para 23 de junho e as ondas de choque que poderão vir a seguir. Entre outras dimensões, há que dizer que o Brexit assenta em mitos irrealistas e inaceitáveis. É o mito da superioridade britânica em relação aos outros europeus. É a crença confusa na existência de uma maneira de ver e de ser universalista, que foi capaz de criar um império onde o sol nunca se punha e que hoje se sente constrangida pela tacanhez e o provincianismo do resto dos europeus. E é a ilusão que vê na Europa um espaço de submissão e não uma alavanca capaz de multiplicar o alcance de cada um dos estados membros. No fundo, uma parte dos britânicos está prisioneira de uma atitude de desconsideração em relação ao resto da Europa, sobretudo no que respeita aos países do centro e do sul do nosso continente.

            Mais ainda, o argumento político deve poder tratar da imigração sem papas na língua. Os europeus que hoje trabalham na Grã-Bretanha contribuem de modo inequívoco para a economia do país. Em números absolutos, estamos a falar de 1,6 milhões de trabalhadores. Representam, no entanto, apenas 6% da mão-de-obra total. Falar de uma invasão é um exagero. Mesmo no sector da hotelaria e restauração, onde encontramos uma maior proporção de cidadãos vindos de outros países da UE, a percentagem não ultrapassa os 14%. Por muito que os adeptos do Brexit gritem e agitem o papão, não se verifica uma emigração descontrolada de desempregados e mendicantes europeus a caminho do Reino Unido.

            Há ainda um outro ponto em relação ao qual temos de ser francos. Para ganhar o referendo também é preciso um maior empenho da liderança do Partido Trabalhista. Jeremy Corbyn tem a obrigação de ser mais claro no seu apoio à continuidade europeia. Já só lhe restam quinze dias para o fazer. Necessita de mostrar ousadia e visão, e isso não está a acontecer. Tem que saber falar sobre o futuro do seu país e também sobre os nossos interesses comuns, face a outros centros de poder, às ameaças externas e às rivalidades geoestratégicas. E deve combater as tendências xenófobas que os promotores do Brexit estão a alimentar.

            Há aqui uma exigência moral, igualmente. Não podemos deixar que a Europa se fragmente. Nem queremos que o ceticismo ganhe mais peso e espaço. Por outro lado, a UE precisa de continuar a ouvir as perspetivas britânicas à volta de uma mesma mesa, redonda e comum. Trata-se muitas vezes, é verdade, de uma voz diferente. Mas isso realça as nuances, traz uma outra filosofia política para a discussão, matiza as diversas posições, e tem o efeito de enriquecer a substância do projeto comum. Gerir e valorizar as diferenças, bem como dar esperança e segurança, são as provas de maturidade que os líderes europeus têm que saber resolver.

 

(Texto que esta semana publico na Visão on line)

 

publicado por victorangelo às 09:50
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05
Dez 15

A comunicação social portuguesa está cada vez mais numa situação financeira delicada, mesmo de falência económica. Cada vez se vende menos espaço publicitário, os preços da publicidade estão ao desbarato, os jornais e as revistas tiram poucas cópias, que não dão sequer, quando vendidas, para pagar o papel e a tinta.

Tudo isto precisa de levar uma grande volta.

Nesta onda, a Visão iniciou agora um novo projecto editorial. Está a produzir uma revista mais arejada e um site mais dinâmico. Vamos ver se dá.

publicado por victorangelo às 18:41
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21
Out 15

Encontrar gente excepcional é uma das vantagens que o andar por muitos mundos tem. Sai-se assim da nossa zona de conforto, do que nos é habitual, das ideias feitas e repetidas, do eco das opiniões todas mais ou menos iguais. E percebemos que nesta coisa da vida pública há que ser modesto e andar com os olhos prontos para ver e os ouvidos bem abertos. Também é bom estar preparado para todo o tipo de desafios.


Mas tudo isto não nos impede de chamar os bois pelos nomes. Quando se pensa que algo está errado, há que ter a coragem de o dizer. Mesmo que isso não agrade. A democracia aceita a pluralidade de opiniões. Mas isso não quer dizer que todas as opiniões estão do lado certo da política que é necessária. Respeitar a opinião dos outros não nos impede de dizer que a achamos, mesmo assim, incorrecta. E nalguns casos a história e as vivências de outros povos já demonstraram claramente o erro em que se fecham essas correntes de opinião. E nestas coisas, os erros ficam muito caros.

 

publicado por victorangelo às 20:46
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20
Out 15

O crescimento económico é a única ambição que conta, quando o país é pobre, quando a economia é insuficiente para financiar um nível de bem-estar social aceitável. Falar em repartir o que não existe em quantidade suficiente é pura demagogia, poeira lançada aos olhos dos crédulos.


Num modelo económico como o nosso, o crescimento da economia passa, acima de tudo, pela promoção do investimento privado e pela qualificação dos trabalhadores, de modo a que possam responder às exigências de um sistema produtivo moderno e competitivo.


O investimento tem que ver com a confiança política e a previsibilidade. Ninguém investe num clima de incertezas políticas, de ameaças ao sector privado. Também não se investe a sério quando a linha política é feita de ziguezagues e sustentada com base em acordos com correntes políticas contrárias ao bom funcionamento do sector privado.
Por outro, a competitividade não pode ser entendida nem funcionar com base em salários desvalorizados e em relações laborais precárias. Competitividade em 2015 significa conhecimentos, preparação profissional, aptidões académicas, estabilidade de emprego.


Assim se constrói o futuro. E assim se denuncia quem tem ideias erradas e anda a tentar enganar a opinião pública.

 

publicado por victorangelo às 22:19
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13
Ago 15

O leão Cecil e a cabala global
Victor Ângelo


Não ficaria admirado se alguns obcecados das conspirações vissem a mão maquiavélica de Robert Mugabe na caçada que vitimou Cecil. Para eles, a morte do célebre leão teria sido arquitetada pelo velho ditador, como um novo enredo para aviltar os brancos e os americanos. Esta versão teria os ingredientes de uma boa teoria conspirativa: um político diabólico; um drama que captou a imaginação popular, com um desfecho passível de interpretações; e uma narrativa consistente com a prática habitual do vilão da história. Sem esquecer que Mugabe sempre me pareceu um especialista em estratégias complexas e obscuras. Deste modo, bateria tudo certo…


Cecil poderia fazer as delícias dos espíritos conspirativos neste mês de agosto. No entanto, o caso mais recente diz respeito ao partido trabalhista do Reino Unido. Vários dos seus membros, incluindo antigos ministros, acham que está em curso uma conspiração para manter o partido na oposição por uma eternidade de anos.


A história é simples. Tem que ver com a eleição, que começa este fim-de-semana, do novo líder trabalhista. Jeremy Corbyn, um franco-atirador que votou mais de quinhentas vezes no Parlamento contra a linha oficial do seu partido, é dado como favorito. Ora, o homem é um esquerdista notório, um porta-estandarte de posições extremas, alheias às escolhas habituais da maioria do eleitorado britânico. Se se confirmar a sua seleção como líder – existem outros três candidatos, com ideias bem mais consentâneas com a modernidade do centro-esquerda – a conspiração terá ganho, dir-se-á...
E quem seriam os cérebros do terramoto político que se anuncia? Os senhores da finança aliados aos matreiros patronos da imprensa conservadora e popularucha, gente que se nutre de um ódio visceral antissocialista. Não poderia deixar de ser assim, na fantasmagoria dos que acreditam na maquinação. A cabala, dizem, consiste em financiar, ao preço de saldo de três libras por cabeça, que é quanto custa a inscrição com direito a voto nas eleições internas, uma amálgama de trotskistas e de militantes fanáticos do ar fresco e dos passarinhos dos campos, também conhecidos por “verdes”. Serão esses infiltrados que tornarão a vitória de Corbyn possível. Depois, este e as suas ideias fora da corrente acabarão por colocar os trabalhistas numa posição de marginalidade eleitoral. Tudo isto a favor das hostes de David Cameron e dos interesses que os cabalistas representam.


As teorias conspirativas são sempre assim: os maus e poderosos de um lado, a planear uma intriga mirabolante, e uns paranoicos do outro, que se acham por demais espertos e capazes de ver para além das aparências. No meio estão os simples dos miolos, prontos para engolir mais ou menos cegamente a fantasia.


Cuidado, porém, que a coisa nem sempre é divertida. Ainda recentemente, trabalhadores da saúde perderam a vida no Paquistão, por causa de uma teoria que propagava que as vacinas contra a poliomielite eram uma artimanha do Ocidente para esterilizar o povo. Como também se verificou que a luta contra o ébola na África Ocidental foi prejudicada por haver quem ligasse a pandemia a uma tramoia contra os africanos. Bem mais perto de casa, há por aí quem veja nas nossas dificuldades um conluio de outros, um estratagema urdido no estrangeiro contra nós. Esse é o perigo destas teorias: arranja-se umas narrativas bem articuladas e desvia-se os olhares das verdadeiras interrogações.

 

(Artigo que hoje publico na revista Visão)

 

publicado por victorangelo às 11:55
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11
Ago 15

Amigos e conhecidos continuam a repetir que a Europa está sem liderança. Ou seja, que os líderes europeus não têm capacidade para dar sentido ao projecto europeu. E dizem isso tendo presente, de forma explícita ou de maneira calada, o exemplo dado por outros líderes, de outros tempos.
A acusação é, aliás, muito frequente, em vários círculos. Tem, além disso, a vantagem de passar bem, nalguns sectores da opinião pública. Sem esquecer que malhar na liderança europeia traz sempre adeptos. Bater nos poderosos faz parte da cultura popular.
A verdade é um pouco mais complexa. Na realidade, o que deveria ser criticado é de natureza política, é a política que está a ser seguida pelos que mandam nos países da UE. Os líderes existem, alguns até passam bem nos seus respectivos países. O problema é ao nível da política que os inspira.
A política actual é muito pouco pró-europeia. Está, acima de tudo, profundamente marcada por preocupações nacionais. E os líderes não pensam que essas questões nacionais possam beneficiar de uma maior coordenação europeia. Note-se que não falo de “maior integração”, mas apenas de mais coordenação entre os diferentes estados. Mesmo isso não passa, não é visto como trazendo benefícios internos. Nem como uma contribuição para a solução dos problemas que cada um tem que enfrentar. E por isso, não há interesse em fazer avançar a agenda europeia.

publicado por victorangelo às 18:07
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