Portugal é grande quando abre horizontes

28
Out 16

Passei uma boa parte dos últimos dois meses a percorrer vários cantos do mundo. E também, em grande medida, a recuperar forças e rotinas, depois de cada uma dessas viagens.

Viajar altera as rotinas. Não permite tempo e vontade para que nos sentemos à mesa, ao fim do dia, e escrevamos apuradamente. Sobretudo quando os programas das visitas são intensos. Quando muito, tomam-se umas notas, registam-se umas observações, que depois serão postas de lado, uns tempos, à espera de oportunidade para serem exploradas.

Mas a viagens ajudam muito a abrir os olhos, se se vai com vontade de aprender e sem preconceitos caseiros. Mais ainda, no meu caso, continuam a ser verdadeiras lições de humildade. Mostram-me claramente que o mundo é maior do que eu e a minha rua.

publicado por victorangelo às 20:28
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17
Abr 16

Durante a estada na Índia, dei comigo a reflectir sobre o papel das elites nos tempos de agora. A reflexão não me levou muito longe, para já, mas permitiu-me chegar à conclusão que há que pensar esta questão de um modo diferente. E começar pela pergunta mais simples: será que ainda se justifica falar de elites? Se sim, que tipo de elites e para que servem?

publicado por victorangelo às 21:04
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06
Dez 15

Hoje não é dia para grandes escritas. Será certamente dia para dizer muito obrigado aos que se lembraram de expressar um voto. Nestas coisas, e com o passar dos anos, o que vai ficando é o que é verdadeiro. Conta. O resto são coisas que o tempo acabou por fechar. E quando se andou por muitos montes e vales, acaba-se por se ter muitas caixas onde se foram arrumando as lembranças. Umas estão ainda abertas e bem vivaças, outras já têm a tampa a cobri-las.

Também não é altura para expressar grandes preocupações. Mas não posso deixar de mencionar que este serão segui o que os vários dirigentes políticos franceses foram dizendo, perante os resultados das eleições regionais de hoje. Dei atenção porque no jogo das coisas europeias, a França pesa. E o que resultou desta primeira volta deixará certamente os que acreditam na Europa ainda mais preocupados. A Europa anda mal e ficou agora ainda mais ameaçada. Os extremismos, e todos os radicalismos, todos, incluindo os dos presunçosos, fazem-nos tanta falta como a fome e a miséria. E, se não forem combatidos, acabam sempre por nos trazer fome, miséria e outros problemas.

publicado por victorangelo às 21:05
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13
Abr 15

Um partido que construa a sua linha política, o seu discurso público, à volta do refrão da austeridade não vai longe. Ser contra a austeridade não significa grande coisa e não passa ao nível do eleitorado mais esclarecido. Não capta o centro, que é indispensável para que se possa constituir uma base de governação.

O que de facto conta é o crescimento económico, a criação de emprego, a igualdade de oportunidades. É à volta destes temas que se constrói uma imagem progressista e mobilizadora. As mensagens, as diversas maneiras de comunicar, devem focalizar-se nesses desígnios. E ser ditas com simplicidade, convicção e exemplos de casos pessoais de sucesso que deverão ser considerados exemplos e que poderão ser multiplicados por muitos factores, se as escolhas políticas foram as mais acertadas.

Parece-me que a política de agora deve ser feita assim, neste momento de grandes desafios e de enormes desânimos sociais.

 

 

 

publicado por victorangelo às 11:19
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15
Fev 15

A escrita quotidiana é uma maneira de intervir na vida pública. Mesmo quando os leitores são poucos, é um testemunho que fica. Assim vejo a coisa. E o objectivo é elevar o debate e abrir perspectivas. Falar igualmente de outras experiências, que possam ajudar a compreender o pequeno mundo que nos rodeia de perto.

Aqui não há espaço para polémicas nem para ataques de meia-tigela.

Amanhã o blog fecha por um mês, por motivos de outros compromissos que me preencherão o tempo todo. Espero, na volta, encontrar os leitores habituais e ter a imaginação suficiente para atrair outros mais.

Entretanto, aqui ficam os meus agradecimentos, especialmente aos que me vão seguindo com regularidade.

publicado por victorangelo às 19:47
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04
Dez 14

O meu texto na edição de hoje na Visão reflecte sobre o discurso do Papa Francisco ao parlamento Europeu.

Transcrevo, de seguida, o manuscrito.

 

O Papa e a velha senhora

Victor Ângelo

 

 

Seria tentador tratar o discurso que o Papa Francisco pronunciou recentemente no Parlamento Europeu com ironia. A ironia e a superficialidade constituem, aliás, moeda corrente na opinião pública nacional. Nessa perspetiva, as palavras ditas em Estrasburgo não passariam de uma lengalenga ininteligível sobre a Europa. Além disso, a experiência lembra-me que a escrita de um discurso demora dias, para depois ser lido em quinze minutos e esquecido após o almoço. Ou, na melhor das hipóteses, acaba reduzido a duas ou três meias-frases mais ou menos distorcidas e ponto final.

Foi assim no caso do Papa. A comunicação social pegou num par de imagens de fácil entendimento e passou rapidamente ao tema seguinte. Ora, a extensa intervenção de Francisco levanta algumas questões de fundo sobre a política europeia. Vale a pena ler o texto na íntegra. Poderemos não estar de acordo com tudo o que disse ou deixou entender, mas não seria acertado ignorar a mensagem central: a UE precisa de se interrogar sobre si própria e o seu papel no mundo.

É verdade que existe um défice de reflexão estratégica sobre a essência da Europa e as suas circunstâncias internas e externas atuais e futuras. A crise económica dos últimos anos abalou a coesão e o entendimento da relevância do projeto comunitário. Mais grave ainda, a Europa saiu do centro das atenções de uma boa parte dos cidadãos – falo aqui dos moderados, dos que não se identificam com os extremismos nacionalistas. Passou a ser algo distante e vago, pouco mais que uma moeda ou um espaço de viagens sem passaporte. E essa é hoje a maior fraqueza, a maior ameaça à construção de um futuro partilhado: a indiferença dos europeus face à UE.

O Papa referiu-se igualmente aos desafios relacionados com a estabilidade das famílias, a educação – um serviço público que está em declínio em vários países europeus, em termos de qualidade e adequação às exigências da vida moderna –, o meio ambiente, o emprego e ao que designou por “cultura do desperdício”, do consumismo imoderado e insustentável. E, como não podia deixar de ser, falou de valores e ética, coisas raras nestes tempos em que a ação política assenta, tantas vezes, no oportunismo, na vaidade e no aproveitamento pessoal.

Lembrou-nos ainda que é urgente olhar para os países dos Balcãs. São nações socialmente frágeis e inseguras, terras de ódios ancestrais, politicamente instáveis, economicamente atrasadas. Poderão ser, de novo, focos de conflito e, acrescento eu, fazer parte das próximas áreas de fricção aberta entre a UE e a Rússia. Para além da Europa, voltou a dar uma ênfase especial à questão da imigração. O Papa tem mostrado uma preocupação coerente pela sorte dos imigrantes que atravessam todos os perigos e nos chegam continuamente através do Mediterrâneo. Sublinhou, e bem, que este é um problema comum, um assunto que diz respeito não apenas aos estados ribeirinhos, mas a todos os europeus. A imigração descontrolada e em larga escala é, na minha opinião, um dos maiores desafios que a Europa tem pela frente. É, também, uma área política sem estratégia nem resposta adequada. Podemos estar em crise, mas outros, muitos, fora da Europa, vivem situações bem piores, de grande desespero humano. Em África e no Médio Oriente, e mais longe ainda, temos milhões de jovens sem futuro mas com genica e ilusões suficientes para achar que vale a pena arriscar a travessia. A Europa pode ser uma velha senhora, como disse o Papa. Contudo, para muitos jovens, vista de longe, noutros continentes, ainda é suficientemente sedutora.

publicado por victorangelo às 11:42
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27
Nov 14

A ironia deve ser praticada em doses pequenas e só de vez em quando. Precisa, por outro lado, de ser fina, inteligente, subtil.

A ironia por sistema é própria de quem tem uma visão negativa dos outros. Quem tem por hábito navegar nas águas da ironia acaba por revelar falta de bom senso e de profundidade de pensamento.

publicado por victorangelo às 19:41
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09
Nov 14

Na altura em que se celebra e bem, a queda do Muro de Berlim, parece-me haver um outro muro que está em derrocada, um pouco por toda a parte, incluindo em Portugal. Trata-se do muro em que tem assentado a política tradicional, os partidos do costume, os políticos que há décadas fazem parte da nossa vida.

Dir-se-ia que estamos numa fase de grandes mudanças na opinião pública. Há um descrédito generalizado no que respeita à actividade política. As pessoas, hoje mais informadas que nunca, e também mais impacientes que noutras épocas, não ouvem, por parte dos líderes políticos qualquer tipo de resposta credível perante as grandes interrogações do momento: o desemprego, a incerteza em relação ao futuro, a competição vinda de fora, a globalização, as ameaças globais, o empobrecimento, etc, etc. As palavras ditas soam a falso. A impreparação. A ignorância. Ora um líder tem que saber dar respostas convincentes. É isso que se espera da liderança.

O muro da política, mesmo quando sustenta um novo nome, como aconteceu com Obama, ou como será o caso, à nossa dimensão, no que diz respeito a António Costa, desmorona-se muito rapidamente. Um ar de esperança transforma-se, em pouco tempo, numa nova desilusão. As expectativas nascem e morrem como as borboletas. O que ontem nos parecia sangue novo, hoje parece-nos mais do mesmo, da mesma indecisão, tantas vezes presa a redes de interesses que nem sempre se confessam. O que ontem soava a alternativa hoje dá a imagem de falta de imaginação e de coragem, de ausência de dedicação à causa pública, de sinceridade, que são as pedras basilares do muro que sustenta a verdadeira vontade de transformar a vida de todos nós.

publicado por victorangelo às 17:04
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21
Ago 14

O meu texto de hoje na Visão é uma digressão de Verão, escrita na costa ocidental da Noruega, em Stavanger.

 

Passo a citar o que publico na Visão:

 

Reflexões norueguesas

Victor Ângelo

 

Escrevo esta crónica de Verão junto à janela. Lá fora, a paisagem abre-se e fica dominada pelo fiorde de Stavanger, o mar e a cadeia de montanhas que define o horizonte. Olhando bem, tranquilidade, vastidão e curiosidade, no sentido de querer ir mais além e descobrir o que está para lá dos recortes das baías e das serras, são os pensamentos que me ocorrem. Ou seja, viajar, mas não nos gigantescos navios cruzeiros, conto três esta manhã no meio da cidade, que o centro de Stavanger foi construído nas margens da ponta do fiorde. Os navios são uma feira ruidosa, um novo tipo de turismo de massas a fingir que é luxo.

 

Situada na costa oeste do país, capital do petróleo norueguês, Stavanger é uma urbe em crescimento acelerado. Mantém, no entanto, a característica que melhor define as cidades da Noruega: vida sem sobressaltos e próxima da natureza. Mostra, igualmente, que é possível conciliar a riqueza do petróleo com a construção de um futuro harmonioso, viver-se uma vida confortável mas sem exibicionismos de novo-rico. A disciplina individual e coletiva é o segredo da coisa. Disciplina na vida cívica, na política, em casa, na maneira como se constrói o futuro. Aqui, aprende-se que a disciplina social é um fator essencial para a prosperidade de um povo.   

 

Stavanger é também um exemplo de diversidade étnica. Nos anos setenta foi o porto de abrigo para muitos refugiados vietnamitas, acolhidos que foram por estas terras. Estão integrados. A jovem militar que se ocupou do meu acesso seguro a meios informáticos, quando aqui cheguei há uns dias em missão, tinha um nome meio norueguês meio vitenamita. A sua fisionomia não enganava ninguém: representava bem a beleza do extremo-oriente.  A Noruega sempre foi um país generoso em termos de asilo político. Agora há gentes de diversas nacionalidades: refugiados vindos do Iraque, do Afeganistão, Curdos da Turquia, famílias da Somália e muitas mais. Quando se vai à polícia local tratar da documentação, o primeiro passo consiste em selecionar a língua, das várias disponíveis, em que se quer ser atendido. Na frente económica, encontramos imigrantes de várias partes da Europa. Desde a vizinha Suécia – trabalhar na Noruega é uma alternativa mais vantajosa – até à Polónia. A comunidade polaca é das mais numerosas. Também há portugueses, como não podia deixar de ser. Por coincidência, atrás de mim, no avião vindo de Frankfurt, sentava-se um casal do Porto, imigrantes na Noruega desde há alguns anos.  

 

O sítio onde trabalho é guardado por jovens militares a cumprir os seis meses de serviço obrigatório. Este é um dos poucos países europeus que conservou essa prática. Tem dinheiro para o fazer. O modelo não é, por isso, exportável. Mas, enquanto me perco a contemplar a paisagem, reconheço que a Europa precisa de refletir a sério sobre o seu sistema coletivo de defesa. Os desafios existem, como podemos ver do lado da Ucrânia e da Rússia, nas águas e nas margens Sul e Oriental do Mediterrâneo, na frequência crescente dos ataques cibernéticos. Reconheço, porém, que a defesa da Europa é hoje um conceito complexo, que vai muito para além da resposta militar. Passa por repensar a aliança com os EUA, que têm, de longe, o melhor sistema de defesa do mundo. Passa, igualmente, por uma redefinição do papel das forças armadas e do seu relacionamento com as polícias, os serviços de informações, os diplomatas e a opinião pública. O fiorde lembra-nos que estas coisas são bem mais vastas do que parecem. Mesmo na pausa do Verão, que este ano tem estado agitado.

publicado por victorangelo às 22:41
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22
Jun 14

Passei os últimos dias em Genebra, por motivos profissionais. A cidade continua cara. Mas continua cheia de turistas vindos dos mais diversos cantos do mundo. Lembra-nos, assim, que não é o preço das coisas que traz ou afasta os visitantes ricos. Para quem tem dinheiro, o que conta é a qualidade de vida, a segurança e a ordem pública, o bom funcionamento dos serviços, um ambiente de prosperidade e uma maneira positiva de encarar a vida. E isso, Genebra tem com abundância.

publicado por victorangelo às 21:42
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