Portugal é grande quando abre horizontes

13
Dez 16

Nos últimos anos, na altura de fazer o balanço do ano que termina, Vladimir Putin tem repetidamente aparecido como uma das personalidades mais influentes na cena internacional.

Assim está a acontecer, de novo, neste final de 2016. A situação na Síria, as eleições americanas e as alegações de ciberespionagem e de interferência, o doping “patriótico” dos atletas russos, as incursões aéreas e marítimas das suas forças armadas no espaço geoestratégico da Aliança Atlântica, estas são algumas das grandes questões que aparecem ligadas às opções políticas do patrão do Kremlin. E que têm um impacto profundo nas relações internacionais.

Para além das sanções relacionadas com a crise ucraniana, a UE não tem sabido responder de modo coerente e estratégico aos desafios e às manobras assinadas por Putin.

Sou dos que advogam que é urgente definir uma posição política comum que responda às acções hostis que vêm de Moscovo. Sei que não será fácil definir um quadro que possa ser aceite por todos os aliados. Mas, apesar dessa dificuldade, é fundamental aprofundar a reflexão e propor uma resposta adequada.

Essa resposta deverá ter em conta a linha que Donald Trump venha a seguir em relação a esse mesmo assunto. Ter em conta não quer, no entanto, dizer alinhamento. Antes pelo contrário. A Europa deverá ter a sua própria posição política. Os sinais que nos chegam do outro lado do Atlântico são claros quanto à necessidade de uma resposta que seja inspirada pelos interesses europeus. E que sirva, igualmente, como um exemplo que não possa ser ignorado em Washington.

 

publicado por victorangelo às 20:37
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20
Nov 16

Que ficou da viagem de despedida do Presidente Obama à UE? Esta é pergunta com que abro a semana que amanhã começa. E que deixo no ar, pois as respostas irão variar muito, consoante a opinião de cada um. Mas onde haverá certamente acordo será no facto de Obama ter sido, ao longo do seu mandato, um presidente muito apreciado pela generalidade da opinião pública europeia.

publicado por victorangelo às 22:11
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14
Nov 16

Tempos de destemperos

                Victor Ângelo

 

 

                Donald Trump pode ser uma aberração no panorama político norte-americano, mas não é antissistema. Antes pelo contrário. Mexe-se bem dentro do sistema, sabe tirar vantagem das oportunidades e dos buracos legais. É a favor, até ao tutano e sem escrúpulos, do capitalismo liberal, puro e duro. Exploratório. Quando fala de uma América “grande de novo”, está a dizer que o Estado deve criar mais oportunidades de negócios para os grandes interesses económicos e pôr em prática regimes protecionistas que dificultem ou impeçam a concorrência vinda do estrangeiro. A conversa sobre a promoção de empregos foi propaganda eleitoral. Na realidade, Trump representa o grande capitalismo empresarial. De modo confuso e imponderável, inevitavelmente, por falta de experiência política mas também porque a demagogia resulta sempre numa caldeirada de contradições. É por aí que o gato pode ir às filhoses e a sua política económica conduzir ao fracasso.

                Como muita gente, não creio que o novo presidente esteja à altura das responsabilidades do cargo. Vi o último debate entre ele e Hillary Clinton: a noite comparada com a luz do dia! Trump mal conseguiu articular um ponto de vista, para além de uma meia-dúzia de frases feitas e de umas tantas reações emocionais. Mostrou ter uma visão primária e irrefletida das realidades económicas e das grandes questões internacionais. Mas vai ser o líder da nação mais poderosa do mundo. Um homem com muito poder. Mais ainda por ter o Senado e a Câmara dos Representantes do seu lado, que, em ambos os casos, têm uma das composições mais retrógradas, quando vista à luz da história das últimas décadas. O potencial de retrocesso em termos de valores e de políticas é, por isso, enorme.

                Trump é um líder que não está habituado a ouvir os outros, que passou a vida a decidir por ele próprio, conforme lhe dava na real gana. Vai, no entanto, rodear-se de políticos que sempre estiveram e fizeram vida na política. Ele, que havia prometido “sanear o pântano de Washington”, vai trazer para a linha da frente alguns dos piores ultrarreacionários que existem no circo do oportunismo político americano: Newt Gingrich, Rudy Giuliani, Chris Christie, John Bolton, Bob Corker, Stephen Bannon, etc, etc. Só falta ir buscar Sarah Palin ao Alaska, o que poderá, aliás, acontecer.

                Promessas, em política, valem o que valem, é bem verdade. Todavia, no caso presente, haverá que estar atento. Creio que Trump procurará levar avante várias das ideias que prometeu. Poderá ser um erro pensar que essas promessas se tratavam de meras artimanhas eleitorais. É verdade que acabará por deixar cair uma ou outra mais absurda, como por exemplo, a interdição de acesso aos Estados Unidos de muçulmanos. Manterá, porém, muitas das outras, com ou sem grandes retoques.

                Para a Europa, a presidência Trump vai ser um grande desafio. Mais um, na pior altura. Já tínhamos Vladimir Putin, Recep Erdogan, Theresa May, e ainda Viktor Orban, Marine Le Pen, Geert Wilders, Frauke Prety, e as cabeças confusas que se arrastam por Bruxelas. Sem esquecer, claro, as crises dos refugiados, dos imigrantes e as resultantes das nossas divisões nacionalistas. Passamos agora a ter mais um quebra-cabeças de monta, Trump, que, ainda por cima, se vai certamente aliar aos britânicos e ajudar a transformar o Brexit num carrossel barulhento, desnorteado e desconjuntado. Ou seja, os tempos que aí vêm não nos podem deixar descansados.

 

(Texto que hoje publico na Visão on line)

               

 

 

publicado por victorangelo às 20:05
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05
Out 16

António Guterres será o novo Secretário-Geral das Nações Unidas. É altura de lhe dar os parabéns mais entusiásticos e merecidos, e também de reconhecer o mérito da equipa diplomática portuguesa, em especial o papel desempenhado pelo Embaixador José de Freitas Ferraz e o seu grupo de trabalho.

Mas, de facto, o mérito é de Guterres. Quem conhece bem a ONU, sabe que ele conseguiu ultrapassar dois obstáculos de grande monta: o peso dos interesses e da tradição geoestratégica, que davam o lugar a alguém vindo do Leste da Europa; e questão do género. Na realidade, havia uma pressão enorme – amplamente justificada – para que, desta vez e pela primeira vez, fosse eleita uma mulher. Vencer estas duas enormes barreiras significou que o Conselho de Segurança lhe reconheceu um mérito excepcional. Muito bem!

Por isso, os parabéns também devem ser excepcionalmente calorosos.

publicado por victorangelo às 20:59
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29
Set 16

A comunicação social portuguesa tem dado muita atenção à eleição do novo Secretário-geral da ONU, o que se compreende, face à excelente candidatura de António Guterres. E tem participado activamente na exaltação patriótica que a mesma gera. Não seria de esperar outra coisa, de nós, portugueses. Nestas coisas, joga tudo do mesmo lado. O nacionalismo arrebatado faz parte integrante das nossas exaltações colectivas.

Só que na casa da alta política que é o Conselho de Segurança das Nações Unidas o jogo é outro. É tudo mais complexo, sobretudo agora. Reconhece-se a importância do mérito, e aí, nessa questão, o candidato português está no topo da liga. Mas há mais. Chamam-lhe geopolítica. Na realidade, trata-se apenas da leitura que cada membro permanente faz dos seus interesses nacionais. É isso que conta, ao fim e ao cabo, por muito que se fale de transparência. E o Conselho funciona melhor quando consegue encontrar o ponto de equilíbrio desses interesses. Sim, dos interesses dos cinco Estados permanentes.

Mesmo entre os não-permanentes há diferenças de peso e influência. Nesto momento, a Venezuela e a Espanha têm ambas assento no Conselho. Muito bem. Mas não têm a mesma influência. A Espanha conta muito mais, até mesmo junto dos países da América Latina. Os membros permanentes irão procurar ter a Espanha do seu lado. E, ao mesmo tempo, estarão prontos para ignorar a posição da Venezuela. Mais ainda, ficarão politicamente satisfeitos se a Venezuela for ignorada. O isolamento faz parte da política internacional. Envia mensagens e marca pontos.

Não sei o que está a ser discutido nos corredores das relações internacionais. Poderei tentar adivinhar uma ou outra área de possíveis negociações. Que as há, é evidente que sim. E nestas coisas, ganha quem tem mais para oferecer. Directamente, ou por empenho dos padrinhos, dos Estados mais poderosos.

O resto, incluindo o voto na Assembleia Geral, é matéria mais ou menos pacífica. Uma vez decidido no Conselho, o jogo está feito. Não creio que desse lado possa haver qualquer surpresa.

 

publicado por victorangelo às 21:23
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25
Set 16

Na véspera de uma nova votação sobre a escolha do Secretário-geral que se segue, noto que o Conselho de Segurança está a viver um período de grande tensão entre os países ocidentais – EUA, Reino Unido e França – e a Rússia. Hoje chegou-se a um ponto único, que foi o de acusar a Rússia de estar a praticar crimes de guerra na Síria.

Estas acusações são muito graves. Saem inteiramente do que tem sido a prática no Conselho de Segurança. Irão certamente tornar mais difícil um acordo entre os cinco permanentes sobre quem deverá ser o próximo Secretário-geral.

 

 

publicado por victorangelo às 22:19
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13
Set 16

Começou hoje a Assembleia Geral das Nações Unidas, edição 2016.

Desta vez, a questão da eleição do novo Secretário-geral estará muito presente, nos múltiplos encontros diplomáticos que o evento proporciona. Mas, na realidade, é a posição de cada um dos cinco membros permanentes que conta. Mesmo nas circunstâncias actuais, depois de um processo mais visível do que passado.

É difícil saber, neste momento, qual vai ser a escolha que cada um irá fazer.

Para já, é claro que os Estados Unidos prefeririam Susana Malcorra, que passou vários anos em Nova Iorque, nomeadamente na área que dá prestígio político junto dos grandes, que é a da manutenção da paz. Os britânicos iriam por Helen Clark, que está há vários anos à cabeça do PNUD. Os franceses e os russos, apostam ainda em Irina Bokova, por muito que se diga. E os chineses, que estão muito interessados na América Latina e operações de paz, também iriam por Malcorra.

Esta última não agrada muito ao governo de Londres, embora se estejam já a discutir as condições que poderiam levar a um apoio.

Helen Clark não deverá ter a aprovação dos russos e dos chineses, por muito que ela nos queira fazer crer que sim. Nem estes vêem grande vantagem em aprovar alguém vindo de um país que nada lhes poderá oferecer de verdadeiramente estratégico.

Irina Bokova não deverá passar nem em Londres nem em Washington. A sua candidatura está, aliás, sob uma séria ameaça, que poderá ser concretizada a 26 de setembro, após a próxima ronda de votação informal no Conselho de Segurança.

No meio de tudo isto, aumentam as hipóteses dos outros candidatos mais votados, sobretudo de António Guterres e de Miroslav Lajčák. Mas nada está ainda garantido.

Quanto a Kristalina Georgieva, poderá aparecer depois de 26 de setembro. E a sua aceitação comportar, entre outras possibilidades, uma promessa de suspensão das sanções europeias contra a Rússia. Isso tem algum peso, claro.

 

 

publicado por victorangelo às 21:03
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03
Set 16

Estou a voar em direcção à Ásia Central. Quando digo Bishkek, Batken ou Osh, os meus próximos destinos, ninguém me entende. Na verdade, neste lado da Europa pouco ou nada se sabe sobre o que está a acontecer nos países que há 25 anos deixaram de fazer parte do mundo soviético. Um mundo que cessou mas que se mantém presente, mais ou menos, nas práticas políticas dessas bandas. E que ainda parece ter alguns fervorosos adeptos nas nossas ruas e becos políticos.

publicado por victorangelo às 17:58
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07
Jul 16

Dois acontecimentos particularmente importantes, que irão marcar as reflexões e as acções políticas futuras.

Primeiro, o Relatório Chilcot sobre as responsabilidades dos dirigentes britânicos da altura, no que respeita à invasão do Iraque em 2003 e as subsequentes consequências dessa decisão. O relatório resulta de 7 anos de investigação. Vai ser um documento de referência para muitos, na política, na segurança, no jornalismo e igualmente nas universidades.

Segundo, a Cimeira da NATO, que agora começa em Varsóvia. Esta cimeira representa uma viragem estratégica. É a consagração da dissuasão como opção política. Deixara de o ser com o fim da Guerra Fria. Volta agora a ser a linha orientadora. E altera, igualmente, o peso da arma atómica.

Voltarei, aos poucos e na medida do possível, a estes assuntos.

publicado por victorangelo às 23:14
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18
Jun 16

Médecins Sans Frontières (MSF) critica abertamente a actual política europeia em matéria de acolhimento de refugiados. E, por essa razão, acaba de resolver que não aceitará novos financiamentos vindos das instituições da UE bem como dos governos dos Estados membros. Em termos monetários e contando por baixo, a decisão provoca uma quebra nas finanças anuais de MSF na ordem dos 56 milhões de euros. É uma importância significativa, embora represente menos de 10% do orçamento anual da organização. Mas é acima de tudo um posicionamento político claro. Pode ser discutível. E é-o, certamente, que estas coisas das questões humanitárias não devem ser vistas apenas através de um único prisma. Mas para além da apreciação que se possa fazer e do mérito que MSF conquista todos os dias – sou um doador anual desta organização, o que mostra a minha opinião sobre o trabalho de MSF – a verdade é que a decisão agora tomada não vai alterar a política europeia. A intenção da Europa é, antes de mais, travar e mesmo parar a chegada em massa de novos candidatos ao refúgio. E, ao ir por essa via, estará cada vez mais longe da maneira de ver dos que pensam como MSF pensa.

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 22:45
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