Portugal é grande quando abre horizontes

28
Out 16

Passei uma boa parte dos últimos dois meses a percorrer vários cantos do mundo. E também, em grande medida, a recuperar forças e rotinas, depois de cada uma dessas viagens.

Viajar altera as rotinas. Não permite tempo e vontade para que nos sentemos à mesa, ao fim do dia, e escrevamos apuradamente. Sobretudo quando os programas das visitas são intensos. Quando muito, tomam-se umas notas, registam-se umas observações, que depois serão postas de lado, uns tempos, à espera de oportunidade para serem exploradas.

Mas a viagens ajudam muito a abrir os olhos, se se vai com vontade de aprender e sem preconceitos caseiros. Mais ainda, no meu caso, continuam a ser verdadeiras lições de humildade. Mostram-me claramente que o mundo é maior do que eu e a minha rua.

publicado por victorangelo às 20:28
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06
Set 16

O meu motorista em Bichkek é um cidadão “etnicamente russo”, como diz o seu bilhete de identificação nacional. Um homem que deve estar na casa dos sessenta, mais ano menos ano. Em 1991, na altura da independência do estado quirguize, resolveu ficar e adoptar a nacionalidade do país para onde a União Soviética o havia trazido, tinha ele seis meses de vida. Os seus filhos, hoje maiores, resolveram emigrar para a Rússia, tal como aconteceu com a grande maioria dos russos nesta parte do mundo. Ele e a mulher sentem-se bem no Quirguistão.

Hoje, deu-me uma lição de ética profissional.

Estava eu no carro, com um colega, no banco de trás e íamos encetar uma conversa sobre um dos encontros que acabáramos de ter. Uma conversa que seria um pouco mais delicada que o habitual. Ele, que até então só precisara de falar russo, interrompeu-nos de imediato, em inglês, para nos alertar que entendia bem a língua inglesa e que, por isso, achava que era bom que estivéssemos a par dessa sua competência.

Foi exemplar.

E passámos a vê-lo não apenas como motorista mas como um guia que conhece bem as ruas e as histórias de Bichkek.

 

 

publicado por victorangelo às 13:33
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03
Set 16

Estou a voar em direcção à Ásia Central. Quando digo Bishkek, Batken ou Osh, os meus próximos destinos, ninguém me entende. Na verdade, neste lado da Europa pouco ou nada se sabe sobre o que está a acontecer nos países que há 25 anos deixaram de fazer parte do mundo soviético. Um mundo que cessou mas que se mantém presente, mais ou menos, nas práticas políticas dessas bandas. E que ainda parece ter alguns fervorosos adeptos nas nossas ruas e becos políticos.

publicado por victorangelo às 17:58
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26
Abr 16

 

O novo descobrimento da Índia

            Victor Ângelo

 

 

 

            Voltei à Índia, depois de uma ausência de mais de dezoito anos. E fiquei surpreendido pela positiva. Encontrei um país diferente, em pleno crescimento económico, com muita gente resoluta, cheia de otimismo, virada para o futuro. Para quem deixara para trás uma Europa de incertezas, que dá a impressão de não saber bem para onde vai nem como responder aos desafios que enfrenta, em que cada povo tende a fechar-se sobre si próprio, só nos pode fazer bem passar umas semanas num país que se moderniza, que acredita em si e que valoriza a diversidade das suas populações. Isso, assim como lembrar-nos que o mundo é maior e mais variado do que as fronteiras do nosso quotidiano nos fazem crer. No essencial, a Índia diz-nos, à sua maneira, o mesmo que a China e outros nos repetem: a Europa deixou de ser o centro do universo, tem um peso relativo cada vez menor e o seu relacionamento externo deve ter isso em linha de conta.

            É evidente que a Índia ainda tem muito por resolver.

            Na frente externa, o principal desafio continua a ser conflito mais ou menos latente com o vizinho Paquistão. As relações entre os dois países são como um vulcão pronto a entrar em erupção. Baseiam-se num alto grau de desconfiança mútua e numa torrente contínua de acusações de ingerência. Acabam por consumir uma proporção desmesurada dos recursos públicos, que são assim desviados para questões de defesa, de segurança e de proteção das fronteiras – a linha de fronteira do lado indiano é hoje uma das mais dispendiosas e sofisticadas que existem no mundo, em termos dos equipamentos eletrónicos e de outros meios tecnológicos de vigilância.

            Do ponto de vista interno, a pobreza de uma parte da população – cerca de 22% dos indianos vivem abaixo da linha da pobreza, segundo dados das Nações Unidas, – é ainda marcante. Mas também é verdade, como tive a oportunidade de o constatar, que a produção agrícola se transformou de modo radical, no que respeita à qualidade das sementes, aos meios disponíveis, à conservação das colheitas e à comercialização dos produtos. Quando comparada com as situações que prevalecem um pouco por toda a parte em África, é o dia e a noite. E fica ainda mais claro que o desenvolvimento africano tem que assentar numa revolução rural comparável, mas com as necessárias adaptações, à que aconteceu na Índia.      

             A luta contra a pobreza passa também pela igualdade de direitos e oportunidades entre os homens e as mulheres. Nos vários sítios que visitei ficou claro que as mulheres têm uma taxa muito baixa de participação no emprego disponível nas empresas privadas modernas. Por exemplo, fora de Deli não encontrei nenhuma mulher a trabalhar nos hotéis. E quando trouxe o assunto para discussão disseram-me que os empregos femininos estão na função pública, no ensino, na saúde. Ou então nos campos, na construção civil artesanal, nos trabalhos mais tradicionais e mal remunerados. É óbvio que há aqui uma lacuna por preencher.

            A água pareceu-me uma questão crucial, nomeadamente em vários estados da parte norte do país. As monções têm sido, nos últimos anos, irregulares e menos chuvosas. A seca faz agora parte do quotidiano de muitos, durante a maior parte do ano. O mesmo se passa com o acesso à água potável, para consumo doméstico. A gestão dos recursos aquíferos é já hoje uma preocupação maior. Percorrer certas regiões da Índia, nesta altura do ano, muitos meses depois das últimas chuvas, traz-nos à memória o que aprendemos noutros locais: a água vai ser um dos grandes problemas do futuro, em vastas áreas do nosso planeta. Pobreza e conflitos vão estar estreitamente associados à escassez e às dificuldades de acesso à água.

            Um país que se expressa em mais de 120 línguas importantes, sem esquecer umas centenas de idiomas adicionais mas com menor expressão em termos dos números de falantes, tem inevitavelmente problemas de integração e de unidade nacional. Existem assim rebeliões internas em vários estados. O governo central tem procurado responder a essas insurgências. Nos últimos anos, tem havido a sabedoria de combinar respostas de ordem securitária com um tratamento político novo dessas questões. Espero que se continue pela mesma via. E que se saiba valorizar, como muitos o fazem atualmente, a diversidade humana e cultural do país. A Índia, ainda mais do que a Europa, é um complexo xadrez de culturas. Mas também nos mostra que é possível conciliar uma identidade própria e ancestral com o orgulho de se pertencer a um grande espaço geopolítico.

            Entretanto, teve lugar mais uma cimeira da UE com a Índia. No final foi publicado um comunicado tão palavroso quanto vago. A Europa poderá ter descoberto a Índia como destino turístico mas ainda precisa de ver nesse vasto e multifacetado país um parceiro com o qual vale a pena cooperar. As oportunidades são imensas. Há que saber explorá-las. E procurar aproveitar esta fase de expansão e confiança que se vive na Índia, bem como uma mão-de-obra que tem segmentos extremamente qualificados. Para começar, tratar-se-ia de acelerar as negociações relativas a um futuro acordo comercial entre as duas partes. Ganharíamos todos nós, europeus e indianos.

 

(Artigo que hoje publiquei na Visão on line)

publicado por victorangelo às 10:53
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23
Abr 16

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 Animal muito visível nas localidades de menor dimensão,na Índia, este tipo de porco é uma espécie de "empregado" municipal de limpeza, poder-se-ia dizer com alguma graça. Limpa tudo o que aparece nas ruas. E as varas são compostas por vários indivíduos.

São peritos em termos de trânsito, um feito enorme nas urbes indianas, que têm veículos por todos os lados e de todas as espécies. Nunca se deixam apanhar por um carro ou uma mota. E ninguém se mete com eles. Não são considerados como próprios para o consumo.

publicado por victorangelo às 21:52
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27
Mar 16

De vez em quando é preciso sair da Europa, do nosso cantinho, para que não nos esqueçamos que o mundo é bem maior do que as nossas preocupações. Ir à Índia, por exemplo, é como passar uns tempos noutro planeta. Mas um planeta que tem uns seres vivos parecidos connosco.

publicado por victorangelo às 20:04
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26
Mar 16

Os aeroportos regionais belgas têm capacidades reduzidas. Servem apenas para voos europeus e para as companhias de custo reduzido.

Nestes dias pós-crise, o aeroporto de Dusseldorf é uma das alternativas para quem vive em Bruxelas e tem que viajar longo curso. E nem está muito longe, é como ir de Lisboa comer um leitão à Bairrada.

Dusseldorf é uma placa giratória importante. É o terceiro aeroporto da Alemanha, em termos de movimento de aviões e passageiros. Mas é antes de tudo, um aeroporto alemão. Digo isto, depois de ter andado à briga com a página internet do aeroporto, que se recusava a reagir se os dados não eram entrados na versão em alemão. Havia uma página em inglês, é verdade, mas com pouca interactividade. E também depois de passar algum tempo a tentar mudar uma reserva no estacionamento do aeroporto. Tive que telefonar duas ou três vezes, até conseguir apanhar alguém que me pudesse responder em inglês. E partir daí, foi tudo tratado com celeridade.

Fiquei a pensar que quando o país é grande, a economia, mesmo quando se trata de uma empresa ou instituição com uma componente externa forte, está antes de tudo virada para o mercado interno.

publicado por victorangelo às 16:28
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06
Dez 15

Hoje não é dia para grandes escritas. Será certamente dia para dizer muito obrigado aos que se lembraram de expressar um voto. Nestas coisas, e com o passar dos anos, o que vai ficando é o que é verdadeiro. Conta. O resto são coisas que o tempo acabou por fechar. E quando se andou por muitos montes e vales, acaba-se por se ter muitas caixas onde se foram arrumando as lembranças. Umas estão ainda abertas e bem vivaças, outras já têm a tampa a cobri-las.

Também não é altura para expressar grandes preocupações. Mas não posso deixar de mencionar que este serão segui o que os vários dirigentes políticos franceses foram dizendo, perante os resultados das eleições regionais de hoje. Dei atenção porque no jogo das coisas europeias, a França pesa. E o que resultou desta primeira volta deixará certamente os que acreditam na Europa ainda mais preocupados. A Europa anda mal e ficou agora ainda mais ameaçada. Os extremismos, e todos os radicalismos, todos, incluindo os dos presunçosos, fazem-nos tanta falta como a fome e a miséria. E, se não forem combatidos, acabam sempre por nos trazer fome, miséria e outros problemas.

publicado por victorangelo às 21:05
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19
Set 15

Tive hoje mais uma lição sobre a burrice humana e o perigo das ideias extremistas, das loucuras políticas, dos idealismos sem pés nem cabeça, dos regimes ditatoriais que dizem promover o bem do povo e o oprimem sem dó nem piedade. Ou seja, visitei o bunker – em português há quem utilize a palavra “casamata” – que havia sido construído pelos Soviéticos para proteger, em caso de crise muito séria, os líderes comunistas que dirigiam a Letónia.
A edificação está situada no meio de uma floresta a cerca de 65 quilómetros a Leste de Riga. São dois mil metros quadrados debaixo do solo, coroados com um centro de reabilitação ao nível da superfície, para disfarçar o que está por debaixo.
Custou uma fortuna e não serviu para coisa alguma. Nunca houve nenhuma crise, nem mesmo uma catástrofe natural, que justificasse o emprego, 24 horas por dia, de 250 homens – não havia mulheres no bunker – e um consumo descomunal de gasóleo e de outros meios, absolutamente necessários para permitir que houvesse vida debaixo da terra.
Várias salas têm citações completamente abstrusas atribuídas a Lenine, coisas que ele nunca terá provavelmente dito, mas que convinha colocar sob o seu nome, para lhes dar força. E a única sala com um mínimo de espaço e de toque humano, e mesmo assim, tudo isso muito grotesco, era a que estava reservada para o secretário-geral do Partido Comunista na Letónia. Os sucessivos secretários-gerais devem ter passado, no total, tudo bem somado, três ou quatro dias nessa sala.
Tudo isto, agora, faz rir. Mas tal não era o caso, no passado recente.

 

publicado por victorangelo às 19:17
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19
Jun 15

Uma vez mais, uma viagem, gente a consumir nos aeroportos e aviões cheios. Não dá para falar de crise, nem ninguém pensa em crise. É a prova que ainda existe um mundo à parte. Nesta parte do mundo. Muito longe da porta mesmo ao lado.

 

publicado por victorangelo às 22:11
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