Portugal é grande quando abre horizontes

19
Dez 16

Embora ande pelo partido há muitos, bons e maus, anos, o meu amigo Fernando não gosta de Passos Coelho. E acha que está na altura de o mostrar publicamente. É uma espécie de aposta no futuro, ou seja, em 2017 ou no ano seguinte. Está convencido que o dirigente actual não se irá aguentar nas canetas por muito mais tempo. Por isso, abrir a boca em público, agora, pode ser um bom investimento junto do senhor que se seguirá. Mesmo que não se saiba quem será esse tal senhor.

E fala bem, o Fernando. Explica que há um défice de direcção, que a liderança perdeu o norte, que não há ideias nem projectos. Tudo muito bem dito, com as palavras certas e os jornalistas a beberem nessa fonte.

Só se esqueceu de acrescentar que não vai à bola com o Passos porque este o não incluiu, contra todas as expectativas e mais algumas, na lista de deputados há cinco anos atrás. E essa é, na verdade, uma razão de fundo. Tão funda, que é inconfessável.

publicado por victorangelo às 20:50
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13
Mar 16

O meu texto de sexta-feira, publicado online pela Visão, tem despertado interesse. O texto faz uma análise rápida do projecto de acordo que a Turquia propôs à UE sobre o tratamento a dar à chegada em massa de refugiados e imigrantes à Grécia. E deixa claro que essa proposta não tem em conta nem a lei internacional nem os valores e os interesses a prazo da Europa. É, acima de tudo, uma jogada que favorece a parte turca, se for levada avante.

Entretanto, neste fim-se-semana surgiram, em várias partes da Europa, novas vozes a emitir sérias reservas sobre o possível acordo. O Presidente Hollande parece ser uma dessas vozes. Na conferência de imprensa que deu ontem, sábado, no Eliseu, após um encontro europeu de líderes sociais-democratas e socialistas, Hollande disse claramente que não podem ser aceites medidas que violem os princípios estabelecidos, incluindo os que se relacionam com a isenção de vistos e os critérios de adesão. Ora estas são duas questões que o governo de Ancara considera como essenciais e sobre as quais espera concessões de monta.

É verdade que Hollande sabe qual seria o impacto sobre o eleitorado francês se ele fosse visto como estando disposto a abrir as portas aos turcos. A França vive um clima político pré-eleitoral. Os eleitores não são, de modo algum, favoráveis à adesão da Turquia à UE. Vêem nisso dois grandes riscos: mais imigração e mais discórdias culturais. Além disso, não consideram que a Turquia de Erdogan seja um modelo de democracia, como também não acreditam que tenha uma agenda coincidente com os interesses geoestratégicos europeus.

Mas, mais ainda, François Hollande tem consciência que a Europa não pode ser vista fora das normas internacionais. Isso daria um golpe muito profunda às ambições e à actuação geopolítica dos europeus. E pesaria sobre a sua capacidade de influenciar o trabalho futuro do Conselho de Segurança da ONU.

Agora é ver como vão decorrer os próximos dias, até à cimeira de 17 e 18 de março.

 

 

publicado por victorangelo às 15:38
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31
Jan 16

Hoje volto a uma questão que já aqui foi levantada e que continua sem resposta. Como se define a classe média?

Vários políticos e outros habilidosos do comentário público falam amiúde da classe média. E dão a impressão que esta é uma categoria social onde cabe quase todos, desde que tenham um emprego ou um rendimento mensal previsível, capaz de satisfazer as necessidades básicas de uma família nuclear, ou seja, as despesas de alimentação, habitação, escolares, de saúde, vestuário, calçado e de lazer. Dito de outra maneira, uma família que conseguisse chegar ao fim do mês sem dívidas extras, para além da habitual prestação da casa, depois de ter pago todas as contas resultantes de uma existência sem exageros nem loucuras, mas sem apertos nem desassossegos, estaria dentro da classe média.

Muito bem. Mas mesmo assim, conviria falar de valores. Aqui, onde vivo, o intervalo seria entre os dois mil e quinhentos e quatro mil e quinhentos euros mensais líquidos por família. A distância entre estes dois valores extremos mostra claramente que estamos a tratar de um conceito amplo e relativamente vago. Dão, no entanto, alguma precisão a uma classe que se define, antes de tudo, pela maneira subjectiva como cada um vê a sua posição na escala social.

publicado por victorangelo às 14:10
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03
Nov 15

A quem me perguntou hoje, disse que, no meu entender, Portugal precisa de um governo ao centro. Um governo que esteja assente numa maioria de deputados do PS ou do PSD, ou numa aliança de ambos. Aquilo a que noutros céus se chama “uma grande coligação”.

A "grande coligação" seria, de longe, a minha preferida. Só assim se poderiam adoptar as reformas que o país precisa, com o equilíbrio que necessário. Ou seja, dando ao mesmo tempo atenção à modernização da economia e das instituições e às condições sociais dos cidadãos. Seria igualmente uma maneira de atrair os investimentos que o desenvolvimento nacional requer.

O resto não passaria de experiências de laboratórios políticos, nalguns casos, ou de mais do mesmo, noutros. Dito de outra maneira, tratar-se-ia de idealismos sem asas para voar, num dos modelos. Ou de parvoíce conservadora e insensível às realidades sociais, no outro.

 

publicado por victorangelo às 19:48
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14
Set 15

A eleição de Jeremy Corbyn como Líder do Partido Trabalhista do Reino Unido continua a despertar as mais variadas reações e interpretações. Dentro do partido, a maioria dos dirigentes que haviam sido, nas duas últimas décadas, as personalidades fortes e a voz dos Trabalhistas no Parlamento e na imprensa, decidiu não alinhar com Corbyn. Não aceitaram fazer parte do Governo-Sombra, ou seja, dos que se sentam na bancada da frente no Parlamento e fazem contraparte e oposição aos ministros do Governo de facto.
Apesar disso, a equipa que Corbyn conseguiu formar – e foi anunciada hoje – tem mérito e vai certamente dar luta à formação de David Cameron. O primeiro teste do novo grupo de dirigentes vai ter lugar nesta quarta-feira, no Parlamento, durante a sessão quinzenal das Perguntas ao Primeiro-ministro. As atenções vão certamente estar focadas nessa confrontação.
Assim são os tempos que correm. Elege-se alguém e quer fazer-se um julgamento definitivo sobre esse novo dirigente de imediato.
Há que esperar. Jeremy Corbyn é certamente uma grande incógnita em termos de liderança. Uma coisa é ser um rebelde, outra é dirigir um partido como o Trabalhista. Mas julgar o homem desde já, será injusto.
Há que seguir os acontecimentos com atenção e tentar perceber o que se está a passar no Reino Unido. E ver qual é o impacto de tudo isso sobre outras partes da política europeia.

 

 

publicado por victorangelo às 19:12
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03
Ago 15

No Reino Unido, a campanha para a liderança do Partido Trabalhista está a chegar ao fim. A votação começa a 14 de agosto e irá decorrer até 10 de setembro. Dois dias depois, saber-se-á o nome do novo líder, que se irá sentar no Parlamento no lugar oposto ao de David Cameron.
Tem sido um período, desde a derrota nas legislativas nacionais de 8 de maio, de grande agitação entre os apoiantes do partido. Há quatro candidatos em liça. O mais radical, Jeremy Corbyn, um deputado com uma longa carreira no Parlamento, hoje com 66 anos de idade, parece estar melhor posicionado para vencer a disputa. Esta hipótese de vitória deixa muita gente surpreendida.
Corbyn sempre foi um rebelde no seio dos Trabalhistas, um solitário fora das estruturas do aparelho. Ao longo de várias legislaturas, votou mais de 500 vezes contra a linha do seu partido. As suas ideias políticas vão no sentido de uma maior intervenção do Estado na economia, de um acréscimo significativo das despesas sociais, da renacionalização dos caminhos-de-ferro e de outros serviços, de uma diminuição significativa das despesas militares da Grã-Bretanha e de uma fiscalidade elevada em relação aos rendimentos mais altos. Tem mostrado, ao longo da sua vida pública, profundos desacordos com a política externa americana e de Israel.
Estas ideias estão em contracorrente das realidades britânicas. O défice anual do orçamento do Estado ronda os 70 mil milhões de libras. As propostas de Corbyn agravariam o défice ainda mais e acabariam, pensam os eleitores, por exacerbar a carga fiscal para a maioria dos cidadãos. E as opções em matéria de defesa e de política externa são igualmente contrárias às que têm sido tradicionalmente aprovadas nas urnas e que constituem a essência das alianças exteriores do país.
Ou seja, Jeremy Corbyn parece estar prestes a ganhar uma boa parte dos votos no interior do seu partido e a perder o apoio de uma grande percentagem do eleitorado nacional. Por isso, os Conservadores acham que a sua possível elevação a chefe do Partido Trabalhista será uma excelente notícia. Há quem diga, mesmo, que certos círculos conservadores estarão a promover uma campanha mediática que favorece a eleição de Corbyn. Querem o homem a chefiar uma oposição que terá imensas dificuldades, segundo pensam, em ser aceite por grandes segmentos da população.
Não acredito nessa teoria conspirativa. Mas creio que iremos ver, também na Grã-Bretanha, um partido tradicionalmente social-democrata na oposição por muitos anos. Penso, igualmente, que a eleição de Corbyn, se vier a acontecer, vai obrigar muita gente a reflectir sobre o papel dos partidos social-democratas e socialistas na Europa de agora e dos anos que se aproximam.

publicado por victorangelo às 18:22
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23
Nov 14

Com os acontecimentos da última semana, a credibilidade da classe política parece ter descido para níveis que põem em risco o funcionamento dos mecanismos e das instituições democráticas. Uma parte importante dos cidadãos viu nestes acontecimentos a corroboração da máxima populista e demagógica que quer meter todos os políticos no mesmo saco. Ou seja, os casos de polícia a que estamos a assistir vêm confirmar, na visão popular, a ideia de que a política é feita de oportunistas e de gente à procura do seu interesse pessoal. Com isto, é a democracia que sai enfraquecida.

A tarefa mais imediata de quem tem responsabilidades públicas deverá consistir em demonstrar que há gente séria na política – no poder ou com hipóteses de ser poder. Essa tarefa deve ter como complemento o reforço das instituições de controlo do poder político, para que os cidadãos possam acreditar que quem venha a pisar o risco e a abusar da autoridade que lhe foi conferida terá que pagar as favas.

A agenda política dos próximos tempos passa por essas duas avenidas. Como também deve passar pela questão da economia, do desenvolvimento do país.

O resto são distrações.

E quem anda distraído acaba por não chegar a lugar algum.

publicado por victorangelo às 19:37
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05
Mar 14

O meu texto mais recente, na Visão, aborda as hesitações ideológicas que definem a situação actual dos partidos socialistas e social-democratas europeus. Passo a citar:

 

Na bruma das eleições europeias

Victor Ângelo

 

 

A três meses das eleições, o centro-esquerda europeu anda à procura do norte. François Hollande, com a reviravolta política que anunciou recentemente, veio certamente aumentar a confusão. Mas desorientação ideológica e programática já vem de longe. Ficou agora pior com os resultados de várias sondagens, que revelaram um crescimento acelerado dos partidos extremistas e populistas, sobretudo do lado da direita radical. No caso francês, a sondagem mais recente coloca a Frente Nacional de Marine Le Pen na primeira posição, em termos de intenções de votos, seguida do movimento de direita de Nicolas Sarkozy. O Partido Socialista ocuparia o terceiro lugar, com cerca de 18% do eleitorado.

 

A verdade é que os partidos socialistas, na vertente social-democrata, não têm sabido construir uma teoria política alternativa que os torne credíveis aos olhos dos eleitores. A repetição do discurso contra a austeridade e a favor da manutenção inalterada do estado social sabe a pouco, para os cidadãos que poderiam votar à esquerda. Mais ainda. Dá a impressão de irrealismo bem como de indigência de ideias novas. Aparece como um anseio romântico, uma ilusão de que seria possível um retorno à situação anterior à crise económica internacional, como se a realidade de hoje e dos próximos anos fosse uma mera reprodução do que existia antes de 2007. Ora, a informação circula e as pessoas sabem que a Europa e o mundo estão num processo de transformação acelerada, que traz consigo um conjunto de novos desafios.

 

O maior desafio político, que não tem encontrado uma abordagem clara por parte dos dirigentes do socialismo democrático – assim chamado para os diferenciar dos que acreditam nos vanguardismos de minorias iluminadas – é o da globalização. Não se trata apenas da internacionalização das relações económicas. É a globalização da economia, sim, mas também da informação, das mentalidades, das oportunidades, dos problemas e das ameaças. Uma célula terrorista no Iémen pode pôr em causa a segurança nas ruas de Londres. Uma unidade de espionagem cibernética em Xangai pode minar as operações comerciais da Airbus em Toulouse. A desertificação da metade norte do continente africano terá consequências ainda pouco descortinadas sobre o clima do Sul da Europa. Produzirá igualmente uma intensificação das migrações através do Mediterrâneo. A pesca indiscriminada e ilegal ao longo das costas ocidentais de África vai alterar de modo radical as oportunidades de sobrevivência de milhões de famílias que vivem na região. Daqui resultará uma dinâmica de insegurança completamente diferente. Tudo isto terá impacto sobre o nosso futuro. Sem esquecer que o reequilíbrio da economia mundial continuará a exercer uma pressão desmedida sobre o emprego nos países europeus.

 

Qual é a resposta do socialismo europeu? Ou perante questões mais imediatas, como a segurança dos cidadãos mais vulneráveis, a xenofobia crescente, a sustentabilidade do modelo social europeu, nomeadamente nas áreas da saúde, do apoio à terceira idade e aos desempregados de longa duração? Estas são algumas das grandes preocupações dos europeus, hoje melhor informados que nunca. O centro-esquerda não as pode ignorar.  

Enquanto observo a timidez da afirmação socialista, vou-me lembrando do que aconteceu aos partidos comunistas. Estão hoje defuntos ou moribundos. O próprio Partido Comunista Francês, que foi um exemplo ao longo de décadas, encontra-se relegado para uma posição sem peso nem perspectivas. No ano passado, abandonou os símbolos da foice e do martelo. Será que os partidos socialistas europeus estarão agora num processo semelhante, a caminho de uma marginalização política em grande parte autoinfligida?

publicado por victorangelo às 14:21
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14
Jan 14

A conferência de imprensa de François Hollande poderia ter sido o acontecimento do dia na UE. Não o foi. Para além das questões pessoais, que continuam a ter um impacto muito negativo sobre o bom senso político do Presidente, e que são uma distração de monta numa altura em que ele deveria estar totalmente concentrado nos inúmeros problemas a que a França tem que fazer frente, pouco ficou. Houve iniciativas a mais, uma série de anúncios de grupos e comissões novas, tudo muito confuso e muito redondo, pouco claro por isso para a maioria dos cidadãos, e bandeiras a menos. Uma ou duas ideias bandeiras teriam feito a diferença.

 

Ficou, no entanto, claro que haverá uma redução das despesas públicas bastante significativa nos próximos três anos, uma intenção de apoiar as empresas e uma maior atenção à parceria com a Alemanha.

 

Veremos.

publicado por victorangelo às 21:00
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18
Dez 13

A democracia faz-se com partidos políticos e com movimentos e associações da sociedade civil. Mas a democracia tem que começar no interior dos partidos. A vida partidária precisa de dinamismo e flexibilidade, de modo a dar oportunidade aos melhores e às ideias novas.

 

Quando isso não acontece, cada grupo de cidadãos tenta criar o seu próprio partido ou movimento político.

 

É isso que está a acontecer em Portugal. Estão a surgir novos embriões de partidos. Não terão um futuro muito próspero, por o terreno ideológico estar bem demarcado e muito ligado aos partidos que ao longo de décadas se foram impondo. Não passarão, por isso, de meras manifestações de personalidades, descontentes com as lideranças actuais dos principais partidos e com a falta de espaço interno, que não lhes permite ganhar proeminência dentro de cada partido. Vão desaparecer como apareceram, de repente, sem que se dê por tal.

 

Curiosamente, essas tentativas de furar a realidade partidária têm sobretudo lugar à esquerda. É a multiplicação das boas intenções e das ingenuidades.

 

De boas intenções está …

 

publicado por victorangelo às 21:26
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