Portugal é grande quando abre horizontes

21
Dez 09

 

Ontem ao fim do dia, um dos nossos colegas morreu num acidente de viação. Um carro militar, do exército nacional, bateu na mota do colega. Os soldados circulavam, como de costume, a uma velocidade excessiva. O jovem colega, um nacional pai de muitos filhos, ficou com a cabeça esmagada. O camião militar seguiu caminho, que nestas terras manda quem pode.

 

Entre uma conferência telefónica com o Director-geral do Ministério da Defesa da Noruega e uma reunião sobre os avanços na construção das nossas bases, prestei homenagem ao falecido e apresentei os pêsames à família. Foi uma cerimónia digna, mas insólita. Os familiares estavam todos, com o corpo, à porta do meu escritório, à espera que tivesse um momento livre, gente árabe pobre e resignada, que a vida passa a fugir, nestas paragens.

 

Esta manhã, um outro colega, desesperado por uma boa parte da área do aeroporto estar com os acessos fechados, que havia dois chefes de Estado na zona, prestes a partir, o que faz encerrar tudo, até o espaço aéreo, resolveu entrar no aeroporto pelo sector militar francês. Ninguém sabe como conseguiu passar, mas passou. O leitor e eu, não teríamos passado.

 

Como a base francesa é do lado Norte e o aeroporto civil, onde se encontravam o avião que o deveria levar a Abéché, é na parte Sul, o nosso homem resolveu atravessar a pista com o seu carro. Um tipo decidido. A expressão diz que não pensou duas vezes, mas creio que, no seu caso, não pensou vez alguma. Nessa altura um dos nossos voos estava já na fase de aproximação da pista, a duas dezenas de metros do solo. Os pilotos só tiveram tempo para abortar a aterragem, nem sabem como foi possível. 

 

Prendemos o nosso homem. Ainda não percebeu bem porquê. Amanhã vai ser novamente interrogado. A verdade é que na aldeia donde provém, num ponto distante de um país fora de mão, as cabras andam alegremente pela pista do aeródromo local. Um aeródromo de aldeia não é exactamente a mesma coisa que um aeroporto internacional. Talvez o entenda um pouco melhor, depois da conversa a que vai ser submetido.

 

Com tanta gente à nossa volta, as surpresas são quotidianas.

 

Mas o dia ainda não havia acabado. O meu director político mandou-me uma mensagem desesperada, a perguntar qual o destino a dar a um casal de ovinos que me foi oferecido, há mais de um mês, pelo prefeito da cidade de Guéréda. Um casal lindo, puramente brancos de lã, reprodutores de alta qualidade. Uma grande honra. Mas Guéréda fica a quase mil quilómetros de areias. Que destino dar aos bichos? Não podem continuar nessa cidade, o prefeito vai pensar que eu não dei importância à dádiva. Também não podem passar ao espeto, seria uma ofensa, que são animais de puro sangue. Para a produção de mais bichinhos semelhantes.

 

Como as regras não permitem transportar animais nas naves da ONU, a única hipótese é fazer como os pastores nómadas de aqui: caminhar com os animais até ao destino final. Mas não tenho dias de férias suficientes.

 

Enfim, mais um problema para resolver.

publicado por victorangelo às 20:52

Neste tempo de Natal, todas as mortes são mais dolorosas, mas nada mais se pode fazer do que seguir um dia de cada vez. A leitura deste blog, lembra-me que há vidas com mais direitos que outras. Aqui chora-se que o ordenado mínimo é pouco, que o bacalhau está caro ou não há dinheiro para o presente X ou Y. Em outros hemisfério, quase não há liberdade de respirar o ar que é de todos nós, ou de beber agua que também deveria ser de todos nós. Num parlamento discute-se o casamento, gasta-se milhões em debates e medidas para saber se homens podem casar com homens ou mulheres com mulheres, rios de tinta numa comunicação social que se alimenta muitas vezes de diz-que-disse , e ao lado de todos nós continua a haver gente sem casa, sem uma refeição quente por dia. Noutra latitude discute-se o clima que é de todos nós, e de todas as gerações por nascer, mas mais uma vez, uma montanha pariu um rato, pois fala-se, fala-se , mas o dinheiro fala mais alto. Mas ainda há estrelas no céu, e algumas na terra, que iluminam todas as pessoas que trabalham em ONGs por esse mundo fora, que dão a vida, e levam esperança de paz. Para todos eles eu desejo um Bom Natal, especialmente para quem escreve este blog. Para todos os homens e especialmente mulheres, que vivem em zonas de conflito, que talvez nem saibam que é Natal, eu desejo que tenham direito a viver, a todos (ou quase)os governantes do mundo eu desejo que sejam iluminados por uma dessas estrelinhas, que tenham reis magos que os guiem no caminho certo, da justiça, da democracia e da paz. A todos as pessoas do mundo eu desejo um Feliz Natal e que o Ano Novo seja de verdade um novo ano, cheio de felizes recomeços,alegria e PAZ.Margarida
Margarida angelo a 22 de Dezembro de 2009 às 21:22

E não pode mandar as ovelhas noutro transporte qualquer?
Muito interessante, este post sobre o seu quotidiano, ou de como as situações têm vários ângulos.
Gi a 23 de Dezembro de 2009 às 17:18

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