Portugal é grande quando abre horizontes

03
Mar 10

 

Copyright V. Ângelo

 

 

Comecemos pelas contas. Um hora no jacto, a caminho do Nordeste, 800 km. Mais 80 minutos de helicóptero, em direcção ao Norte, são à volta de 300 km. Já em terra, no deserto, 20 minutos de carro, 7 km. Uma viagem longa, com ida e volta, hoje. Mas continuemos as contas. Uma hora de permanência no local, 30 kg de areia por toda a parte do corpo e do vestuário. Fomos apanhados por uma tempestade de pó fino e areia grossa. Deu para termos um almoço de areia, que entrava por onde podia e nos arranhava a garganta.

 

Um balanço pesado. Que, todavia, valeu a pena. Inaugurámos, no sítio onde apenas a secura é abundante, um poço artesiano de 130 metros de profundidade. Os meus militares noruegueses, senhores de um equipamento de prospecção avançado, descobriram na zona, em Iriba, a mais de 100 metros no subsolo, depois de uma camada de argila quase impenetrável, um lago subterrâneo. Tem cerca de 5 km de comprimento e 200 metros, da superfície ao leito. Em pleno deserto.

 

A capacidade de produção diária é de 125 metros cúbicos. As reservas actuais cobrem as necessidades de várias gerações vindouras, se forem bem administradas.

 

Uma verdadeira revolução. Quando a água começou a sair das entranhas da terra, a população nem queria acreditar. As crianças colocaram-se à frente do jacto de água e dançavam, encharcadas até aos ossos. Claro que com o pó que haviam acumulado, foi uma limpeza.

 

Quem não gostou da festa foi o Sultão da área. Sua Majestade possuía, até agora, os dois únicos miseráveis furos da região. A venda de água tem sido uma das suas principais fontes de riqueza. E de poder, que o líquido da vida é um instrumento de controlo dos outros.

O Prefeito, que é a autoridade administrativa da região, sempre viu o poder do Sultão com maus olhos. Rivalidades. São familiares, aliás, mas cada um puxa a manta do mando para o seu lado. Agora, a dinâmica social vai ter mais água pelo meio.

 

A fotografia, no alto da página, mostra um canto do oásis de Iriba. Mesmo onde a vida é dura, há sempre a possibilidade de usufruir da sombra mais fresca de um oásis.

 

 

 

publicado por victorangelo às 18:01

Maravilha.
Isabella S.C. Scanderbeg a 3 de Março de 2010 às 23:29

Quando, com um olho meio desconfiado sobre a nossa sanidade mental, nos perguntam: então, e gosta de viver em ....?, temos dificuldade em explicar que não escolhemos viver em tal ou tal buraco perdido, apenas ficar mais próximo dos olhos deslumbrados daqueles a quem um acto aparentemente simples muda a vida.
Essa oportunidade de intervir no futuro de gentes dele desprovidas traz-nos uma compensação palpável dos resultados imediatos do nosso trabalho, que não conseguimos encontrar no gabinete asséptico e enfeltreado das nossas cidades sem alma. Sempre fica a esperança que a areia mastigada ajude a triturar a galinha escanzelada que com tanto sacrifício cozinharam em nossa honra...
Rita a 4 de Março de 2010 às 09:43

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