Portugal é grande quando abre horizontes

10
Ago 09

 

 

Cheguei a Birao às 09:45, depois de duas horas de voo, a partir da capital do Chade.

 

Birao é talvez a terra africana que mais longe fica do mar. Qualquer que seja a direcção que se siga, é floresta e mais floresta. Se o nosso popular Isaltino precisasse de se esconder da justiça, o que no caso português não é necessário, este seria o sítio ideal. Para mais, Birao está sem presidente do município há meses, no seguimento das últimas investidas rebeldes. O nosso herói teria emprego de imediato.

 

Mesmo no centro de África, às portas do Darfur do Sul, no triângulo de fronteira entre a RCA, o Chade e o Sudão, a muitos dias de viagem de qualquer outra localidade importante. Mas apenas no tempo seco. Não nesta altura, claro, que agora, em plena estação das chuvas, só é acessível de avião.

 

Tive sorte. Logo após a aterragem começou a chover. Um dilúvio. A água caía como se estivéssemos na parte inferior, no sopé, de Victoria Falls, no Zimbabwe. Cortinas espessas, que fechavam o espaço à nossa volta e faziam o dia parecer-se com a noite. Às 11:00 estava escuro, parecia noite. Ou um daqueles dias fechados de Inverno da Escócia do Norte.

 

Quando o céu desabou estava em reunião com o Governador da região. O homem tinha vestido um fato, para me receber. De fato, em Birao. Chegou há duas semanas, para tomar conta de uma área que equivale a metade de Portugal. Tem um adjunto e dois ou três funcionários. E um pequeno gerador, que já está avariado. A residência oficial, bem como o edifício do governo, haviam sido pilhados durante as incursões rebeldes de Junho. Mas conseguiu pedir emprestadas umas cadeiras de madeira, feitas localmente, para que o nosso encontro pudesse decorrer sentado. Com alguma dignidade.

 

Com a chuva a bater no zinco, no chão, nas árvores onde vivem os antepassados, os relâmpagos e trovões, a nossa conversa sobre a guerra e a paz acabou por ser feita de um modo patético. Eu a gritar na orelha do Governador, e depois a encostar a minha à boca do senhor, os meus colegas quase a cavalo em cima de nós, para tentar apanhar as palavras e tomar notas. Correu bem, claro.

 

Vamos fazer sair de Birao, por três meses, os seis políticos mais importantes. São estes políticos que estão na origem das guerrinhas. Das mortes, torturas e misérias. O tempo de ausência será aproveitado para fazer as pazes entre as tribos, as pessoas simples.

 

Afinal, em Birao, como por estas terras lusitanas, são os políticos que complicam as coisas. Como me dizia o Governador, com o bater da chuva como pano de fundo, cada político só luta pelos seus interesses pessoais. E manipula os outros, com palavras que enfeitiçam o povo.

 

A chuva podia ter continuado por vários dias, como muitas vezes acontece. Mais uma vez, tive sorte. À tarde, parou.

 

publicado por victorangelo às 21:16

twitter
Agosto 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
11

19




subscrever feeds
<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO