Portugal é grande quando abre horizontes

20
Out 09

 

Depois de uma noite bem curta, passada a batalhar com grilos barulhentos -- estamos novamente na estação destes bichinhos bem vocais --, mais o acordar com o estrondo de uns trovões secos, segui para Abéché. Um voo matinal, que queria estar de volta ainda durante a hora do almoço. Uma hora e meia para cada lado, que o nosso Learjet está em Nairobi, para manutenção.

 

Em Abéché, o prato forte era uma reunião com a coordenação das ONGs humanitárias. Queriam apresentar-me um documento que deveria definir a sua posição face à MINURCAT, a missão de manutenção da paz da ONU nestas paragens. A preocupação das ONGs é a de manter a sua independência, neutralidade e imparcialidade. No nosso caso, não deveria ser muito difícil, até porque a Missão não é parte em nenhum conflito. Não estamos entre o governo e, do outro lado, os rebeldes. Estamos aqui para proteger o trabalho humanitário, contra os bandidos e outros salteadores de estradas. E proteger os direitos dos refugiados e deslocados.

 

Mas o fundamentalismo de certas ONGs é tal que, mesmo no nosso caso, acham que devem manter uma distância que se note. Não querem botas perto das portas das suas sedes. Pois muito bem, disse-lhes. Continuaremos a fazer o nosso trabalho de segurança. Quem não quiser beneficiar das nossas escoltas, tem toda a liberdade para o fazer. Pode, no entanto, estar certo que em certas áreas da fronteira com o Darfur, andar só é o mesmo que andar à procura de problemas.

 

É um debate que vai continuar. Penso que não devo deixar de chamar a atenção das ONGs para os riscos que correm.

 

Estive de seguida com o novo Governador da Região do Ouaddai, de que Abéché é a capital.

 

Disse-me que o Presidente lhe confiara três grandes tarefas. Combater o crime violento na cidade. Resolver o problema da falta de água. Controlar os refugiados.  Nada fácil, enquanto agenda de trabalho. A criminalidade é um grande desafio à autoridade do Estado. Há gente armada por todos os cantos, e muitos cantos escuros. A polícia local não ganha para o petróleo e não tem dinheiro para o gasóleo. O abastecimento de água, numa cidade do deserto que vê a sua população crescer todos os dias, é feito a partir de furos situados a dezenas de quilómetros da cidade, por canalizações que já não existem. A água é bombeada, mas não chega ao destino, o depósito central da cidade. Os refugiados são gente viva e difícil de controlar. De vez em quando, um ou outro cai nas malhas, mas as razões da detenção acabam por ser difíceis de explicar. Mais um espião ao serviço do Sudão, dir-se-ia...

 

Voltei para a capital a tempo de conseguir fazer libertar um avião de carga com 89 toneladas de material de furagem. Havia chegado de manhã, directamente de Oslo. As autoridades aeroportuárias não queriam aceitar os nossos documentos de isenção de taxas. Pediam 90 mil dólares de impostos vários, a serem pagos cash, no momento, antes de deixar o cargueiro  prosseguir o seu rumo. Metemos uns ministros ao barulho, ameaçámos chamar a Noruega para a rixa, e finalmente, tudo ficou como seria de esperar. Vamos ter o material, que terá agora que ser transferido para o Leste. E o avião vai poder voltar à Europa.

 

Já ao fim do dia, foi a vez de uma série de reuniões sobre a situação na República Centro-africana. Desmobilizações e eleições. Mais umas chamadas para Nova Iorque. A sede não havia lido o nosso último telegrama sobre as relações entre o Chade e o Sudão, e estava a preparar-se para fazer umas declarações incorrectas, no Conselho de Segurança. Teria sido mau.

 

A vantagem de dias assim é que não dão para ver o telejornal da RTP.

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 22:36

19
Out 09

 

Recebi hoje o Enviado Especial do Presidente da Federação Russa. 

A Rússia, após o fim da guerra fria, perdeu o interesse por África. Está agora a voltar ao Continente. O Sudão é um dos centros de interesse. Começou pelo Darfur. Actualmente, é todo o país que está na mira dos Russos. Como está no radar dos Americanos, dos Ingleses e dos Chineses. 

 

A possível separação do Sul, em 2011, após o referendo, é a grande preocupação. O Sul tem petróleo e também o potencial para se fracturar em mil cacos.

 

O Enviado Especial e os seus conselheiros são gente nova e muito pragmática. A única nuvem que lhes turva a visão é o medo irracional do Islamismo.

publicado por victorangelo às 21:36

18
Out 09

 

A minha escrita diária tem sido prejudicada pelas muitas viagens em que ando metido.

 

Acabo de passar uns dias ao Sol, nas terras quentes da fronteira com o Sudão. Levei comigo um pequeno grupo de embaixadores. Pessoas importantes, representando os grandes da cena internacional. Gostaram da volta. Estiveram em campos de refugiados e em áreas ocupadas por deslocados internos, viram as ONG em acção, as Nações Unidas e os nossos soldados e polícias. Aperceberam-se de que o ano agrícola foi mau. A maior parte das espigas ficaram secas, a meio caminho da germinação. Nem vale a pena proceder à sua colheita. Vamos ter um período de fome, dentro de pouco tempo. Uma crise humanitária que se irá juntar à de segurança.

 

Viram muita miséria. O embaixador chinês, que acaba de chegar a África, nem queria acreditar.

 

Os problemas, aqui por estas terras, nunca faltam.

 

 

publicado por victorangelo às 23:08

17
Out 09

 

O meu texto da  Visão on-line desta semana é claro como a água que se encontra a um metro de profundidade nos rios secos do deserto.

 

Penso que é dos meus melhores escritos, sobre um tema explosivo: eleições no Afeganistão, um país que não reune as condições mínimas para que se possa conduzir um processo eleitoral com credibilidade.

 

Está disponível no sítio:

 

http://aeiou.visao.pt/vitimas-do-presente=f533157

 

publicado por victorangelo às 17:59

14
Out 09

 

A Justiça não funciona em Portugal por culpa dos políticos. Porque não querem. É, para muitos deles, conveniente que não funcione. 

publicado por victorangelo às 22:02

13
Out 09

 

 

Ontem estive no Luxemburgo. O meu restaurante favorito, La Boucherie, estava às moscas, à hora do almoço. Situado na zona rica da cidade, será isto um indicador que os bancos e os serviços financeiros ainda não saíram da crise?

 

A verdade é que continua a haver muito cepticismo no que respeita à recuperação. Poucos acreditam que é sustentável.

 

Hoje, em Paris. As grandes lojas estão vazias. Fui comprar o meu whisky e as empregadas estavam tão contentes de ver um cliente que tive medo das consequências.

 

É fundamental continuar a reflectir sobre a crise. 

publicado por victorangelo às 14:24

12
Out 09

 

De facto, quem pode compreender a votação em larga escala num candidato a presidente de câmara que foi reconhecido como culpado de actos criminosos e condenado, por um tribunal devidamente constituído, a uma pena maior de sete anos?

 

Será que uma boa parte da população pensa que os valores e os princípios não têm nada que ver com a vida política?

 

Para onde vamos?

publicado por victorangelo às 19:18

11
Out 09

 

Domingo de eleições. As listas eleitorais a crescer, que quem morre não é apagado. Com o tempo, e com a falta de seriedade que nos anima, teremos um caderno eleitoral nacional com mais gente do que o total da população residente. Somos, de facto, muito especiais.

 

 

publicado por victorangelo às 21:12

10
Out 09

 

 

Ontem e hoje escreveu-se muito sobre a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama.

 

Curiosamente, os velhos chavões antiamericanos voltaram a aparecer, incluindo no comunicado do PCP sobre a matéria. Acrescentem-se os amargos de boca da malta de Direita, que ainda não digeriu os resultados das eleições americanas, mais uns pós de uns intelectuais espertos, que acham que é muito cedo, que ainda não há obra, e temos um quadro do que foram as reacções.

 

Por outro lado, as razões invocadas para a escolha são claras. Trata-se de reconhecer a coragem de uma visão nova das relações internacionais. Um filosofia mais progressista nas relações entre os povos. O facto que Obama trouxe esperança. Que deu corpo a um sentimento que um futuro melhor é possível. A insistência na diplomacia e no diálogo, como meios de resolução dos diferendos. A visão de um mundo sem armas nucleares.

 

As visões transformam o mundo. Uma visão de Paz, vinda do país mais armado do mundo, faz mudar a política internacional.

 

Foi isso que o Comité do Nobel quis premiar. Fez muito bem. Foi uma decisão corajosa.

 

De todos os prémios, o da Paz é o mais político. Desta vez também não faltou à regra.

publicado por victorangelo às 22:05

09
Out 09

 

O meu texto desta semana, na VISÃO impressa (revista), reflecte sobre a crise afegã.

 

Foi escrito antes da divulgação oficial dos resultados das eleições presidenciais. Os resultados deveriam ter sido anunciados, estava previsto, na véspera da saída da revista. Mas a complexidade da situação e o nível de fraude é tal, que não foi possível chegar a um acordo sobre os valores oficiais. Ainda há muito que analisar. Uma excelente equipa de peritos das Nações Unidas está em Cabul, para proceder a essa análise.

 

Entretanto, o artigo saiu e traz uma certo número de ideias sobre a estratégia futura.

 

Peço-vos a bondade de o ler.

 

http://aeiou.visao.pt/afeganistao-a-vista=f532177

publicado por victorangelo às 21:20

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