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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Conspirações

 

As ONG francesas são as que mais criticam a MINURCAT, a missão da ONU na RCA e no Chade, bem junto ao Darfur.  Dizem que a missão, que tem como função fundamental a segurança dos humanitários, não conseguem mobilizar todos os soldados de que que precisa, que os que chegam são fracos -- não são tropas europeias, é verdade...-- e que a insegurança no Leste do Chade é cada vez maior.

 

Tudo para dizer que o trabalho das tropas da UE, no quadro da EUFOR, era bem superior. 60% dessas tropas eram constituídas por contingentes franceses.

 

Agora, não temos praticamente nenhum soldado francês. Critica-se, mas onde está a contribuição gaulesa?

 

Falsificar a morte

 

Durante a noite, foi preciso evacuar, para Nairobi, um Major do contingente russo. Tinha ingerido, na véspera, uns copos bem cheios de um líquido, falsificado na Nigéria, mas com um rótulo de gin ou outra coisa parecida. Entrou em estado de choque, em coma profundo, com hemorragias internas, paralisações orgânicas, às portas do outro lado da vida.

 

Os nossos dois jactos estavam muito longe, um em Entebbe, o outro em Djibouti. Foi preciso mobilizar um dos nossos velhos Antonov 24, um avião que mais parece uma mula de montanha. Levou oito horas a chegar a Nairobi. Via Bangui, onde pousou às quatro da manhã, sem que houvesse abastecimento de combustível disponível no aeroporto. Depois, Entebbe, do outro lado das árvores, muito para além das florestas sem fim. Finalmente, o Quénia, que, primeiro, não deu autorização de aterragem, depois, aceitou o nosso SOS, mas deteve os pilotos. Não tinham visto.

 

O Major ainda estava vivo, depois de tantas voltas. A equipa médica norueguesa conseguiu mais um milagre. Mas, em que estado ficará este jovem oficial, depois de tudo isto?

 

Se a falsificação, muito frequente na Nigéria, tiver sido à base de metanol, as consequências são gravíssimas. Uma pequena dose de metanol provoca cegueira, uma dose maior leva a problemas irremediáveis. A vida nestas terras vale pouco, meus amigos.

 

Hoje, ao fim do dia, recebo a notícia do general que comanda as minhas tropas que há mais dois militares russos, da mesma equipa, em situação semelhante. Que drama! Quantas garrafas terão comprado, nos mercados sem lei destas terras sem rei, estes homens da terra do vodka e inocentes nas terras em que é preciso andar de olho vivo?

 

Mandei proibir todo o consumo de bebidas alcoólicas no campo russo.

 

E amanhã, bem cedo, um avião mais estará a fazer o percurso da selva para Nairobi.

 

Saúde!

 

Sem água mas com ligação à net

 

Na suite, assim lhe chama o dono da residencial, para poder cobrar 125 Euros por noite, não havia água na casa de banho. Mas havia internet sem fios, uma boa ligação, sem limites.

 

Assim vai o mundo, no coração de África, em Bangui.

 

Depois de me informar sobre o mundo, de Fort Hood  a Beijing, tudo em tempo real, voltei ao balde de água fria. Uma outra realidade.

Farturas

 

Acabo de chegar de mais um jantar diplomático. Tudo muito bem feito, muito simpático e uma grande perda de tempo. Não tenho vida para estas coisas.  A senhora do embaixador X passou a noite a massacrar-me com as suas histórias de Teerão. Ainda por cima, com uma voz baixinha, para que eu tivesse que fazer um esforço de atenção.

 

Quando me estava a sentar à mesa, recebi uma chamada da Líbia, a dizer que um enviado especial do Líder acabara de chegar, esta noite, e queria ver-me tão cedo quanto possível. Bom. Como amanhã cedo havia previsto voar para Bangui, lá tive que alterar o programa da manhã. Só que os Líbios são como os lisboetas, não gostam de se deitar cedo e ainda menos, de se levantar com a aurora. O mais cedo que consegui, depois de duas chamadas, foi 09:30.

 

Mas é importante falar com este enviado. O embaixador americano e o Núncio interino em Bangui, um padre brasileiro, que interessante, tiveram que ser chutados para o fim do dia.

 

 

El-Fasher está para além dos limites

 

Devia estar em El-Fasher. Tinha previsto um encontro com a chefia da Missão da ONU no Darfur. UNAMID é o nome da Missão. A sua sede é em El-Fasher, a cidade mais importante de todo um Darfur a perder de vista.

 

O governo de Cartum não autorizou o meu avião a entrar no espaço aéreo do Sudão. Também não me concedeu um visto de entrada. É a velha guerra com as Nações Unidas, no que respeita à nossa presença no Darfur. Os ocidentais não devem pensar em visitar a região. Só gente vinda de África ou de países membros do G77.

 

Entretanto, o polícia chadiano, ferido há uma semana, foi hoje evacuado para a África do Sul. Meia hora após a sua partida em direcção ao Sul, recebi uma mensagem de Tripoli, para me informar que a Líbia estava pronta a receber o paciente e a tratá-lo de graça. Mas o homem já ia a caminho de Pretória. Não podia fazê-lo voltar para trás, seis horas de viagem para nada, regressar ao Chade, tratar de novos papéis para a tripulação, para depois seguir para Norte, acabaria por significar que um homem em cuidados intensivos, ligado a todo o tipo de máquinas, andaria às voltas nos céus de África, como um pássaro migratório que tivesse perdido o sentido da direcção.

 

Assim se vai escrevendo a história do quotidiano, nestas andanças de agora.

 

Ao anoitecer, foi roubado mais um veículo 4X4 do ACNUR. Numa zona central de Abéché, por dois militares do exército nacional. Foi uma maneira de pôr mais um pouco de picante num dia que já havia dado muitas cores à paciência.

 

 

 

 

 

 

 

 

Cansaços

 

Depois de uma viagem que me levou, na Sexta a Birao, nos confins do centro de África, no Sábado a Abéché, depois Guéréda, terra das rebeliões, seguida de Gaga, onde o nosso posto de polícia foi atacado por Jenjaweeds, mais o regresso a N´Djaména, passei horas a tentar evacuar o agente que foi gravemente ferido na Segunda-feira.

 

Está em condições de ser evacuado, depois de duas operações de várias horas no nosso hospital militar de Abéché. Neste momento, necessita de 50% dos nossos recursos hospitalares, para se manter vivo. Tem que ser transferido para um hospital maior, com mais especialistas. Se assim acontecer, safa-se.

Estamos a tentar a África do Sul. O hospital militar de Pretória é do melhor que há. E também a Líbia.

 

Como não é funcionário da ONU, é mais complicado. Trata-se de um polícia chadiano a trabalhar lado a lado com as forças das Nações Unidas, na protecção de refugiados. Um homem com coragem, que teve azar.

 

O avião ambulância já está pronto.

 

Tem sido uma canseira, para ultrapassar a burocracia. Horas e horas ao telefone. Em reuniões. Mas lá iremos.

 

Com uma grande fadiga às costas.

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