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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Ajudas, verdades e desafios

 

O texto que produzi para a VISÃO on-line de hoje, melhor, desta semana, reflecte sobre a coordenação e a resposta humanitária no caso do Haiti. Falo da presença massiva dos EUA e da falta de coordenação e de máquina comum, no que diz respeito à Europa. E faço uma referência ao papel da ONU, que tem sido objecto de muitas críticas.

 

O link para o artigo é o seguinte:

 

http://aeiou.visao.pt/derivas-haitianas=f545158

Voltei com muito pó

 

Copyright V.Ângelo

 

Fiz centenas de quilómetros na poeira do deserto, visitei vários campos de refugiados, encontrei-me com dezenas de trabalhadores humanitários, vi gente a sofrer nos hospitais de campanha, crianças sem escolas, sem alimentação, mulheres que são violadas quando vão à procura de lenha, polícias corajosos, como o Coronel Ahmat, só ossos, mas uma grande experiência de combate e uma inteligência fina e sensível. Um homem sem medo.

 

Viajei estes dias com um um enorme lenço à volta do pescoço e do nariz, à la palestiniana, tentei proteger-me do pó fino, mas acabei o dia a sangrar do nariz, a tossir e castanho como uma maçã reineta meia podre. A minha figura era tão pouco usual, com o pano aos quadradinhos cor de areia à volta da cara, o nariz a apontar na direcção da estrada, que acabei por dizer aos meus guarda-costas que, se houvesse uma emboscada, os bandidos fugiriam de horror, ao ver-me nessa figura estranha. Um horror, sentado no banco da frente.

 

Mas voltei a encontrar gente de muito valor. Que nos ensinam a ser modestos e atentos aos outros.

Sahara ou Sara?

 

Hoje estou na parte Sul do Sahara, o deserto. Em Bahay ou Bahai, depende da grafia que se adopte, vinda do árabe. É o mesmo com o nome do deserto. Prefiro Sahara. Como não? Como seria possível dar a uma vastidão de areias, pedras, silêncios e medos, outro nome?

 

Sara é, para muitos, nome reservado para outras miragens. Isto da língua tem que se lhe diga.

Um sonho distante

 

O dia começou com a poeira do harmatão. Aquele pó fino, vindo do deserto do Sahara, que entra por todos os poros, entope as narinas, traz infecções respiratórias, vírus e outras maleitas. A temperatura era de 16 graus, às sete e meia da manhã. Frio, para estas gentes, Inverno rigoroso.

 

No final do dia, o céu voltou a estar limpo. Um ar ameno e fresco. Fez-me bem sentir a brisa da noite, depois de um dia fechado em milhares de problemas. Um dia de pouca visibilidade, em todos os sentidos. Continuámos as nossas discussões sobre o futuro da MINURCAT. Nada fácil, discutir o futuro. O futuro constrói-se, dizer isso não deveria ser uma banalidade. Exige coragem e ideias claras. Mas discutir com governos é uma arte chamada paciência.

 

Dizem que tenho alguma. Sou tão paciente como um vulcão que ainda não explodiu.

 

A ONU faz aqui mais do que seria de esperar. É fundamental para a segurança das pessoas, na área de operações. Mas há sempre quem diga que é pouco, insuficiente. Esquecem que as Nações Unidas são apenas aquilo que os Estados membros querem que sejam. Com todos os atrasos e defeitos dos países que compõem a organização.

 

Continuaram as críticas ao nosso trabalho no Haiti. À falta de coordenação humanitária. À subordinação aos Estados Unidos. Entretanto, ninguém fala da falta de presença das instituições europeias, que sacam todos os anos centenas de milhões de Euros dos contribuintes para ajuda humanitária, através do ECHO --tenham a curiosidade de ir ao Google -- e que brilham pela ausência.

 

Por isso se diz que a Europa é um sonho. Longínquo, bem entendido.

 

Uma vida em movimento

 

Copyright V. Ângelo

 

Esta é a altura do ano. A estação seca é um momento de grandes movimentos, em toda a África Saheliana.

 

As populações deslocam-se para Sul, com os animais, à procura de pastagens, as mercadorias circulam, porque as estradas voltam a ser praticáveis, os mercados reaparecem e, também, para que os stocks estejam altos quando chegarem as chuvas de Junho, os rebeldes vagueiam pelas savanas e pelos caminhos de terra batida, os caçadores furtivos andam a fazer das suas. Por exemplo, na região da República Centro-Africana, onde estive na Sexta-feira, foram abatidos ilegalmente cerca de 800 elefantes em 2009. O marfim sai em direcção ao Sudão e daí entra na rota do Extremo Oriente, onde é transformado em objectos de decoração.

 

Camelos são exportados vivos em direcção à Líbia, ao Egipto e mesmo até à Jordânia. Vão pelo seu pé, em grandes manadas, numa altura do ano que é mais fresca, o que permite aos animais passar mais de duas semanas sem beber. Centenas de milhares de peles de vaca atravessam distâncias incalculáveis, em camiões que mal se mantêm sobre as suas rodas, trilhos de desolação sem fim, a caminho das fábricas da Nigéria, para serem transformados em couro. A goma arábica viaja para Norte, para as fábricas em França, ou para Leste, a caminho da Índia. É uma das fontes de rendimento dos camponeses pobres das terras secas.

 

As pessoas tentam ganhar a vida, sobreviver para além da miséria. Não é fácil, mas se houver paz e segurança, e respeito pelos direitos mais básicos da pessoa humana, a vida é possível. Há que criar essas condições mínimas e acreditar nas gentes destas paragens, de Sol forte, que queima mas que também dá cor vivas à esperança.

 

 

Terras sem fim

 

Copyright V. Ângelo

 

Passo uma boa parte do meu tempo dentro desta máquina. Não consigo explicar a relação que tenho com este Learjet, sinto-me apenas obrigado a utilizá-lo. Rentabilizar, talvez seja essa a palavra.

 

As Nações Unidas, ao colocarem à disposição pessoal de gente como eu um brinquedo deste tipo,  eu que decida o quero fazer com este bicho muito rápido e muito prestigiante,  encontraram a maneira mais eficaz de nos escravizar. Quando se tem um jet à porta de casa, quem diz que não a todo o tipo de deslocações?

 

Sinto-me um escravo deste pássaro metálico.

 

E dos helicópteros.

 

Ontem e hoje, passei a minha vida fechado nestas coisas. Voámos para Birao, passámos a noite na tenda que já revelei neste espaço, depois fomos de helico, esta manhã, para Haraze-Mangueigne e para Daha, zonas de refugiados, e já ao fim do dia, voltámos a Birao, voando sobre a parte desértica da RCA, numa zona infestada de rebeldes, para seguir depois para N'Djaména.

 

No voo de regresso, até os meus polícias morriam de sono.

 

Há quem diga que temos uma vida invejável. Que andamos por sítios onde mais ninguém, vindo de fora, põe os pés. Talvez. Não há, de facto, muita gente que ande por estas terras onde os tiros são o meio de comunicação mais usual. Mas o que me faz inveja, quando estou cansado como hoje, depois de muito andar, de falar com funcionários jovens das ONGs e da ONU, que vivem no meio de cobras, às dezenas, nas camas, nos lençóis, debaixo da mesa, nos corredores, nas latrinas, animais estranhos que congelam o sangue dos mais bravos, é a paz de alma que os meus amigos possuem, aí, pelas terras do Norte do mundo, quando se perdem nos shopping centres e nos Ikeas e pensam que os problemas do mundo são os definidos pelos Sócrates, Louçãs, Portas, Jerónimos e uns senhores de um partido que vive à deriva. Sem contar os alegres e mais, os sombrios do cavaco seco.

 

Permitam-me, por favor, que me sinta um pouco diferente, esta noite.

Terramotos

 

Continuamos todos a viver as ondas de choque do terramoto do Haiti. Já passaram 48 horas e muitos dos nossos colegas continuam desaparecidos. Um ou outro caso, que fora dado como encontrado, revelou-se ser um engano, um erro de identificação, numa atmosfera de grande confusão. Ou seja, o que havia sido uma alegria para a família dessa pessoa, passou a ser um drama.

 

O Haiti precisa de água, comida e medicamentos, bem como de equipas médicas e de psicólogos. Para já, é preciso enterrar os mortos e tratar dos vivos. E garantir a ordem pública. Não há lugar para voluntários de boa vontade mas sem experiência. Estas situações exigem equipas altamente especializadas, bem preparadas e coordenadas.

 

Estes acontecimentos mostram que é fundamental fazer formação de voluntários em matéria de protecção civil. Existe muita gente, incluindo em Portugal, que estaria disposta a oferecer os seus préstimos em casos de crise como estas. Mas precisa de treino, de preparação. Sem contar, que, em caso de crise no nosso próprio país, essas pessoas estarão em condições de oferecer a primeira linha de resposta.

 

Trabalhei alguns anos como coordenador humanitário. O trabalho humanitário exige uma mobilização constante, pois nunca se sabe quando a crise bate à porta. É um trabalho duro, que exige nervos de aço e uma paciência de estatueta de madeira. Foi das funções que mais me custou a desempenhar. É que nestes casos, o sofrimento das pessoas é imediatamente visível, e a nossa impotência é, muitas vezes, ainda mais notória.

 

 

 

De luto

 

A tragédia que o Haiti está a viver toca-nos muito. Tenho, na minha Missão, vários funcionários de nacionalidade haitiana. Estão como que paralisados, o choque foi demasiado grande. A nossa equipa de aconselhamento psicológico, um pequeno conjunto de especialistas que está muito habituado a lidar com traumas violentos, em zonas de conflito, tem estado em contacto com os colegas que ficaram mais fragilizados.

 

O chefe da Missão da ONU no Haiti, Hédi Annabi, um velho colega meu, e o seu adjunto, o Luís da Costa, outro conhecido de muitos anos, continuam desaparecidos. Estavam, mais o Comandante da Força Militar da ONU, o Comissário da Polícia (UNPOL) e outros colegas seniores, numa reunião com uma delegação chinesa. Receia-se que tenham, todos, perdido a vida.

 

O destino é o que é. O General Gerardo Chaumont, um homem bom, argentino e com muita experiência em matéria de segurança, antigo comandante-geral adjunto da Gendarmeria Argentina, trabalhou um ano e meio comigo no Chade. Em finais de Dezembro, resolveu aceitar a sua transferência para a Missão no Haiti. Por ser mais perto de Buenos Aires. Queriam que fosse directamente de N'Djaména para Port-au-Prince. Se tivesse acedido, teria morrido ontem. Mas, não. Disse que só começaria as suas novas funções em Fevereiro. Quando o fizer, encontrará um Haiti destruído e à deriva.

 

Estes são tempos que nos interpelam. 

 

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