Portugal é grande quando abre horizontes

08
Mar 10

 

Regressei esta noite, já tarde, de Bangui. O atraso foi devido a uma reunião, ao fim do dia, com o Presidente da República, François Bozizé. Um encontro depois de um dia preenchido, que havia começado com uma sessão de trabalho, logo pela manhã, com o Primeiro-ministro Toadera. O PM é um homem simpático, professor universitário de matemática, jovem e sempre disponível. Disse-me que havia aprendido muito comigo, nos dois anos que passámos a trabalhar num mesmo projecto político. Fiquei a pensar que se um PM me diz que apreendeu comigo é porque eu sou de facto um velho caminheiro. Um guru de barbas brancas, meio careca e pernas cansadas. Tempo de fugir para a caverna dos reformados. Fez-me bem, no entanto.

 

O encontrão com o Presidente, com quem sempre mantive boas relações, foi um pouco frustrante. Tentou reduzir a importância de problemas fundamentalmente políticos, tratando-os como meras questões de banditismo. É a técnica da redução, da minimização, um velho truque político. Queixou-se de uma ONU que não o ouve, apesar de repetir as mesmas mensagens há mais de doze anos. É capaz de ser verdade, disse-lhe, para depois lhe explicar como se organiza uma relação produtiva com o Conselho de Segurança. Começa por se ter um embaixador com capaciade, em Nova Iorque...Falou das Forças Armadas, como se o problema fosse simplesmente militar. E disse-me obrigado, a mim que tanto fiz pelo seu país, como quem diz tanto faz. Fiquei com uma cara de pau mal seco.

 

Foi um final cinzento. É verdade que, ontem e hoje, o tempo havia estado quente e húmido, um ambiente infernal em Bangui. Acabou em trovoada, às quatro da tarde, hoje, quando estava prestes a entrar no Gabinete do Presidente. Bangui fica feia, depois de uma chuvada intensa. Fica com poças de água por todo o sítio, lama e sujidade que as enxurradas tornam mais visível. Mas, torna-se mais fresca. Entre o cinzento e a frescura, o leitor que escolha.

 

Numa nota final, as colinas da cidade, que há vinte e cinco anos constituíam uma floresta equatorial, impenetravelmente bela, virgem como as que esperam os mártires bombistas nos céus das mentiras fundamentalistas, estão hoje cheias de clareiras, desbastadas e prontas a serem levadas por umas chuvas mais intensas. É a pressão demográfica e a pobreza que se combinam, nestas colinas agora violadas.

publicado por victorangelo às 20:41

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