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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O percurso

 

Em Paris, a caminho do Chade. Por uma semana. A última viagem, na minha capacidade actual. Alguém me perguntou, aqui na sala de espera, um colega vindo esta manhã de Nova Iorque, como me sinto. Bem. Acreditem, bem.

 

Não tenho dúvidas que é altura de virar a página.

Horizontes fechados

 

N'Djaména está sem ligações aéreas com o resto mundo desde Quinta-feira. Completamente isolada. Sucessivas tempestades de areia e de pó fino fecham o horizonte e paralisam a vida quotidiana. As casas, as máquinas, as pessoas, está tudo com uma camada de pó, como se fosse uma nova pele, bem espessa, que se viesse sobrepor ao coiro duro que a natureza nos deu. O pó não pede licença para entrar no íntimo das nossas vidas. Penetra por todos os orifícios, enche-nos a boca e a os miolos, fica tudo emperrado, com o sabor da terra seca a dominar-nos o pensamento.

 

Só quem tenha experimentado este tipo de fenómenos climáticos pode compreender o que é viver no meio de nuvens de poeira.

 

A minha viagem de regresso, prevista para amanhã, está agora suspensa no ar pesado que sopra dos desertos. Será que vou poder voar? Hoje à noite, o prognóstico é muito negativo.

 

 

Engasgado

 

Hoje a Gare du Nord foi a de Bruxelas. Fui comprar a minha passagem para o aeroporto Charles de Gaulle. Volto no Domingo a África.

 

Há muito que não entrava nesta Gare. Foi uma surpresa. Numa das alas laterais, dei com um dormitório de gente sem abrigo. Contei 19 "camas", alinhadas lado a lado, bem encostadas à parede exterior da estação, numa área que embora esteja ao ar livre, está protegida por um tecto de cimento. Algumas, de gente certamente mais abastada, tinham um colchão. A maior parte, eram de cartão e trapos, que a vida de um sem-abrigo não dá para grandes luxos.

 

Vi todas as idades. Jovens e velhos, lado a lado. Alguns estrangeiros, de aspecto, pelo menos. Ao fim do dia, por volta das seis e pico da tarde, os moradores, ou já estão na cama, ou andam por ali perto, no espaço público da estação, a casa de todos. O tempo estava ameno, o que convidava um ou dois grupos a uma conversa mais desprendida, antes da hora do deitar. De que falam pessoas nestas condições?

 

Como se trata de um acesso lateral, penso que as autoridades fingem que não vêem. Os utentes habituais sabem, por sua vez, que é uma zona que é preciso evitar. A miséria, mesmo quando nos entra pelos olhos, com a habituação, torna-se invisível. Mas, sempre convém passar ao largo.

 

Comprei uma sandes. Enquanto a mordia, surgiu, de repente, do meu lado esquerdo, um jovem de pouco mais de vinte anos de idade. Delicadamente, pediu-me que lhe desse um pedaço. Olhei-o de frente e vi a fome com rosto de pessoa. Insistiu. Fiquei engasgado. Perdi o Norte. Afastei-me, ao acaso.

 

 

Distrações

 

Escrevo no TGV, entre Paris e Bruxelas, ao fim de um dia, muito longo, de discussões sobre a política de segurança e defesa da Europa. Vim falar sobre a experiência das Nações Unidas. Da cooperação entre a ONU e a UE na área da manutenção da paz.

 

Talvez fosse necessário começar por falar sobre a segurança na Gare du Nord, em Paris. Os roubos nos TGVs são frequentes. Ao entrar na carruagem dei com uma mulher jovem numa desesperada procura do seu computador portátil. Desaparecera num abrir e fechar de olhos. O revisor disse-lhe que não havia nada a fazer. Que, por vezes, os larápios chegam a levar malas de viagem, das grandes. Pegam nelas e vão andando, na confusão das multidões que percorrem os cais.

 

As grandes cidades, os espaços públicos por onde passam milhares de pessoas, são terrenos de caça. É fácil ser presa, quando as aves de rapina andam de olho atento.

 

Mas a conferência não foi sobre esse tema. Reuniu dezenas de intelectuais, diplomatas, militares e peritos de segurança. E chegou á conclusão que, nas questões militares, são as agendas de dois ou três grandes países da UE que contam. Não é novidade. Também aí, há quem ande com os olhos distraídos e não queira ver.

 

 

Venenos

 

O lacrau apareceu na minha casa de banho sem marcação. Foi um frente a frente inesperado. Podia ter dado para o torto. Estava a cinco minutos de me dirigir para o aeroporto, a fim de apanhar o voo dos mochos para Paris.


 

O escorpião estava imóvel, no terreno descampado que é o espaço entre a banheira e o lavatório. Convenci-me que estava morto. Um erro de apreciação grave. Tentei apanhá-lo, com um pedaço de papel, para lhe proporcionar um banho na sanita. Deu um pulo. De rabo espetado na direcção da mão que ousara tentar o contacto. Se me tivesse picado, o avião teria um lugar vago, o que teria tornado mais confortável a viagem do passageiro que estava destinado a ser o meu vizinho da noite aérea.


 

Os acidentes com este tipo de aracnídeos são frequentes nas regiões onde me movimento. As picadas causam dores intensas, febre, paralisação da área mordida. Exigem cuidados médicos especializados. São uma boa chatice. Por algum tempo.


 

Há uns quatro anos, um dos polícias portugueses, destacado na capital isolada do Norte da Serra Leoa, no burgo de Makeni, era o orgulhoso dono de um exemplar de boas dimensões. Não me lembro que nome lhe deu. Mas recordo que saía a correr da esquadra onde era conselheiro, para poder chegar a casa antes do Sol pôr, e apanhar um par de insectos, para alimentar o seu companheiro de solidão. Isto de andar em missões, longe dos amores, dos próximos e do Futebol Clube do Porto – o Chefe é um fã cerrado da Nação Portenha – tem algo que se lhe diga.


 

Já perto do fim da missão do nosso polícia, o bicho faleceu. Não sei se foi de morte natural, ou se o Chefe deu uma ajudinha – o amor é assim! Assume, por vezes, formas extremas, quando a outra alternativa é a separação. A verdade é que com a sua transição foi possível proceder ao embalsamento do nativo de Makeni.


 

Hoje, está pendurado na parede da sala de um apartamento do Grande Porto. Um quadro bem feito, digno, que honra a memória de um belo exemplar, que pertenceu a um mundo onde as picadas venenosas, embora façam doer, são feitas sem segundas intenções.

 

Viagens e receios

 

Sigo de viagem para a Europa esta noite. Uma volta curta, apenas uns dias de ausência, antes de entrar na fase final de consultas sobre o futuro da missão de paz no Chade e na RCA. O Conselho de Segurança definiu, de um modo muito claro, os parâmetros desta nova fase de discussões.

 

Tudo isto abre um novo capítulo nas relações entre o Conselho e os países que beneficiam da presença de uma missão de manutenção da paz. Vão ser escritas teses sobre a matéria. A doutrina neste campo da lei internacional vai certamente ser influenciada pelo que está a acontecer à MINURCAT.

 

Só que, no meu caso, as coisas são bem mais terra-a-terra. Trata-se de tentar chegar a um acordo entre as partes. À partida, parece quase impossível, tal é a distância a percorrer. Neste caso, a distância não é a de uma viagem de avião, mas sim a que separa interesses bem opostos. Como acontece com muitas viagens, há o fascínio do desconhecido, mas também o receio a ele associado.

Dois anos

 

 

Estou em Abeche para celebrar o segundo aniversário da MINURCAT e o primeiro da sua componente militar. Muito foi feito nos últimos dois anos. A segurança ao longo da fronteira e' hoje um facto. Os refugiados e as populações em geral confiam na nossa capacidade para as proteger.

 

Pronunciei dois discursos durante o dia, sobretudo para dizer que este investimento da comunidade internacional tem valido a pena.

Um dia de calor

 

O dia de ontem terminou com uma festa de despedida. Organizada pelo pessoal da MINURCAT, os da Sede, em N´Djaména, com a participação animada de um dos melhores grupos de dança tradicional do Sul do Chade. Uns dançarinos excepcionais, que nos revelaram várias facetas das cerimónias de iniciação, que continuam vivas nestas paragens. Foi também interessante ver alguns dos nossos jovens funcionários nacionais, que normalmente andam de fato e gravata, acompanhar os ritmos, como se a música fizesse parte dos seus génes.

 

Este é um país culturalmente muito diverso. Enquanto os tambores do Sul batem com a energia da África banto, fazendo vibrar todos os poros dos que sabem viver esssas músicas, e acentuando o erotismo das florestas por explorar, os naturais do Centro e Norte mexem o corpo, lentamente, com a graça oriental das cortes dos sultões.

 

Entre os pratos tradicionais, havia uma dobrada de cabra, certamente um animal duramente experiente da vida, preparada pela minha Assistente de muitos anos, uma mulher das terras mais amenas da África Austral. Claro que tive que me servir. O resto, não digo.

 

Foi um fim de tarde quente. Durante o dia a temperatura do ar andou a namorar os 48 graus. Em Março, é assim.

 

A manhã começara com uma reunião com todos os embaixadores residentes em N'djaména. A reunião mensal, que para mim foi a última, era a oportunidade para dizer "Thank you" e passar à frente. Tudo muito correcto, sem mais. Depois, tive um longo tête-à-tête com o Presidente Idriss Deby. O encontro começou em público, com a minha condecoração com o grau de Oficial da Ordem Nacional do Chade. Um gesto raro. Uma Ordem de elite. Depois, ficámos sós, para falar sobre o Sudão, esta parte do Continente Africano, projectos, água, um tema central para as gentes do Sahel, segurança, e o futuro das Nações Unidas nestas areias. Foi um diálogo com elevação, descontraído, que as ideias são para serem confrontadas, não as pessoas.

 

Já mais tarde, à hora das orações de Sexta-feira, o Representante Especial do Presidente ofereceu-me um camelo. Lindo. Com calabaças e tudo, aparelhado a rigor. O RE, que responde pelo nome de General Dagache, quatro estrelas e muitas dunas de combate,  batalhas muitas, a morder o pó dos ventos áridos, homem com ossos e pele, mas nada mais, que o deserto não é para grandes comidas, é natural do Sahara, não muito longe do fim do mundo que é a região de fronteira com a Líbia. O camelo é a fonte da vida, nesses cantos perdidos, onde a beleza das montanhas roídas por milhões de anos de vento nos faz imaginar catedrais do surrealismo mais ousado. O camelo e água, que brota aqui e ali, nos oásis que se escondem para além das miragens.

 

O meu camelo está agora em casa, grande e majestuoso, à espera de um caixote que o leve para as terras molhadas da beira-Tejo. É uma peça de madeira que vale a pena que atravesse o deserto. 

 

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