Portugal é grande quando abre horizontes

17
Nov 12

Tiveram lugar hoje, na Serra Leoa, eleições presidenciais e legislativas. Foi a terceira vez que o país foi chamado a votar, após anos de guerra civil, que provocaram mais de 50 000 mortos e milhares de mutilados, com braços e mãos cortados à catanada pelos rebeldes. O dia eleitoral decorreu em paz e com elevada participação popular. Um bom exemplo de exercício democrático na África Ocidental. Uma vez mais, Christiana Thorpe, a presidente da Comissão Nacional de Eleições, mostrou ser uma mulher excepcional, uma Africana de grande coragem.

 

Organizei as eleições precedentes, em 2007. Foi um dos períodos altos da minha carreira. Foi também um dos momentos de maior tensão. O candidato do partido no poder tentou, nessa altura, fazer tudo por tudo, para ganhar o voto popular. Sabia, no entanto, que a tendência geral era contra ele. Procurou, por isso, usar todo o tipo de truques e de fraudes. Um dos meus antigos colegas da ONU, que entretanto regressara ao país e era um apoiante incondicional do governo, foi um dos personagens que liderava as tentativas de fraude. Tive que o chamar à pedra, acenando com a possibilidade da sua detenção, se continuasse a tentar viciar o processo.

 

O anúncio dos resultados oficiais estava marcado para uma segunda-feira, pelas 10:00 horas. No sábado anterior, o Vice-presidente da República, que era o candidato oficial do governo, depois de uma reunião extremamente difícil comigo, anunciou-me que nessa mesma tarde iria proceder à impugnação das eleições, através de uma petição que seria entregue em mão ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Disse-lhe, com toda a clareza, que a ONU não via razão alguma para esse tipo de acção, a não ser que o objectivo fosse o de pôr em causa um processo eleitoral que fora considerado por todos os observadores como limpo. Não quis aceitar a minha recomendação. Saí da reunião e, após consultar a embaixadora britânica, dei autorização para que se “levasse” o Presidente do STJ para parte incerta, sob a custódia dos ingleses, e que só fosse “libertado” na segunda-feira, a tempo de anunciar, às 10:00 da manhã, os resultados oficiais.  

 

Assim aconteceu. A proclamação teve lugar como previsto. Ouviu-se, então, um clamor de alegria por toda a cidade de Freetown.

 

A meu pedido, a transferência de poder teve lugar nesse mesmo dia, às 17:00 horas.

 

Assim se fez história, em 2007, na Serra Leoa. 

 

A petição do candidato derrotado, elaborada com todo o rigor jurídico, nunca foi recebida pelo Presidente do STJ...

publicado por victorangelo às 21:14

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