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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Os novos emigrantes

Passei cerca de uma hora no Consulado-geral de Portugal em Bruxelas. A sala de espera tinha poucas pessoas. Mesmo assim, as histórias que ouvi – gente recém-chegada à emigração, sem papéis, totalmente dependente das oportunidades de emprego que outros portugueses lhes oferecem, às vezes com dolo e exploração sem limites – deixaram-me apreensivo. Em muitos dos que vão chegando, há uma mistura estranha de sofrimento, revolta, vontade de vencer e falta de preparação para a vida profissional e para compreender o mundo de agora.

 

Pensei que visitas regulares e demoradas a salas de espera de consulados portugueses, nos tempos de hoje, dariam azo a uma recolha de dramas de vida que, bem arrumadas num romance sobre a nova vaga de emigrantes, poderia ser um best seller. 

Suspense e confusão

Ao subir a avenida dos Campos Elísios, dei comigo a olhar para os cartazes dos novos filmes e acabei por me decidir. Pouco passava das 13:00 horas e a sessão do filme que escolhera começava dentro de minutos. No balcão, a empregada, sem que eu o solicitasse, vendeu-me um bilhete sénior – 8,5 Euros – e deu-me um cartão de fidelidade. Ou seja, em relação à idade, não houve ilusões, mas teve-as quanto à minha frequência das suas salas.

 

Hitchcock. Um filme bem feito sobre um realizador excepcional. Mas Alfred, que era um homem de multidões, que enchia cinemas após cinemas, teria ficado decepcionado, desta vez. Comigo, incluindo este sénior, a sessão atraiu quatro espectadores.

Razões haverá muitas.  

 

Na avenida, havia gente, como de costume a esta hora. E, como já o havia visto noutros sítios, um grupo de três soldados, armados até aos dentes, a patrulhar os passeios, para cima e para baixo. Esta é uma maneira de fazer tipicamente francesa. Recente. Umas vezes, os militares patrulham em tandem com os polícias. Outras, à parte. Duvido muito da efectividade desta medida. Duvido ainda mais da sua justeza. Numa situação de normalidade cívica, não deveríamos ter os soldados a fazer de polícias.

 

Andamos todos muito confusos.

 

O mestre do suspense que era Alfred Hitchcock diria que misturar funções e pedir a uns que façam o trabalho dos outros, sem para isso terem a necessária preparação, daria um enredo que acabaria com uma cena final de grande surpresa. E confusão. 

Paris com a luz do Sol de Inverno

Acabei por caminhar mais de seis horas. Paris é assim. É um encanto, em termos de arquitectura, espaço e gente. Sobretudo num dia lindo de sol como o de hoje. Nas grandes avenidas, ou nos bairros, nas zonas residenciais – passei uma boa parte do dia a percorrer o XV arrondissement – respira-se uma maneira de viver que nos faz esquecer a crise. E caminha-se, caminha-se, quer-se ver mais e mais. 

 

Mas, cuidado. É uma atmosfera enganadora, claro, pois quem queira observar com uma atenção mais apurada, nota que se consome menos, que há mais recato nas despesas, que se aproveita mais o que é grátis, como os jardins públicos, os passeios nos grandes boulevards, a paisagem monumental e humana. Mesmo assim, um longo passeio em Paris faz esquecer as mentes pequeninas e as crises grandes. 

Investir na educação

É um lugar-comum dizer que investir na educação é investir no futuro. O problema é que temos uma grande propensão para esquecer esta verdade tão evidente. Quer ao nível das famílias quer ao nível da nação. Muitas vezes o esquecimento resulta de razões de comodidade, que estudar dá muito trabalho, mas quando se trata do nível nacional, é a falta de visão e de empenho dos responsáveis pelo sector da educação que explicam o fracasso e o atraso. Uma governação responsável dá uma importância especial à educação. E não apenas à educação formal, relacionada apenas com o mínimo obrigatório. É preciso não esquecer a educação para a cidadania, aquela que permite formar cidadãos responsáveis, disciplinados e cientes dos seus deveres bem como dos seus direitos. E também não esquecer a educação ao longo da vida, que o mundo de hoje está em mudança permanente e exige que se adquiram novas capacidades de um modo continuado. Mais, no caso de Portugal, em que muitos não tiveram a oportunidade ou não conseguiram ir além de uma escolaridade incipiente, é fundamental pôr de pé e tornar acessíveis esquemas de formação de jovens adultos. Uma espécie de formação profissional acelerada. Uma edição melhorada das Novas Oportunidades. Sem arrogâncias nem preconceitos. Aceitando a realidade que temos e, ao mesmo tempo, tentando transformá-la para melhor. Sou certamente a favor.

 

Pessimismo num Sábado ao fim do serão

Dizia-me hoje um amigo, observador atento e honesto da realidade portuguesa: “Nunca estive tão pessimista!”.

 

Que poderia eu responder?

 

Disse-lhe: “Olha, António, a procissão ainda só vai no adro. Lembra-te disto que agora te digo, dentro de seis meses. E veremos então quem vaticinou bem…”

 

Ficou ainda mais pessimista, acreditem.

 

E eu fiquei a pensar que o pessimismo só conduz a mais pessimismo. Não é solução.

 

É melhor pensar noutras alternativas. 

 

De acordo?

 

Segurança e defesa

Continua a não haver debate público sobre as questões de segurança nacional. E continua a confundir-se defesa com segurança nacional, quando a defesa é apenas um elemento da questão. E continua a falar-se de reforma da defesa e dos militares, sem se saber bem quais são as ameaças a que os militares devem responder e qual é o seu papel na projecção externa de Portugal. Ou seja, andamos a cavalgar a montada sem saber exactamente para que serve o cavalo e para onde deve ir. 

 

Hoje, um senhor antigo militar escreve no Diário de Notícias que a defesa nacional é a primeira razão de ser do Estado. E cita o velho General de Gaulle, que em 1952 terá dito isso, sem pestanejar. Pode ser verdade que o tenha dito, mas creio que também é muito possível que de imediato lhe tenham respondido que não é bem assim. Se existisse uma razão primeira para o aparecimento do Estado, essa razão seria a da legitimação do poder de alguns sobre todos os outros. O Estado foi uma criação da elite para fazer aceitar o seu domínio sobre os outros. Para que isso fosse mais facilmente aceite, oferecia em troca segurança, paz interna e justiça, primeiro, e depois, protecção contra o exterior.

 

Hoje, as questões da segurança e da paz, da justiça e da equidade são, na verdade, os pilares mais importantes de um Estado. A defesa, repito, é apenas uma componente da segurança.

 

Os amores do ministro da Defesa Nacional

Neste dia dos amores, constato - basta ler o que se escreve nos blogs da especialidade e na comunicação social, e ser um observador atento destas coisas- que as patentes militares não morrem de amores pelo ministro da Defesa Nacional, e ainda menos, pela rapaziada que, teoricamente, lhe serve de assessores. Essa rapaziada - que só tem a vantagem de viram todos do Porto, e o "Porto é uma Nação", como diria o meu amigo Chefe Souto - entretém-se a escrever uns papéis, no segredo de gabinetes exteriores ao ministério, sem consultar as autoridades militares que sabem da poda. As únicas consultas que fazem são uns “Googles” na internet.

 

Depois do fiasco do processo de elaboração do projecto de Conceito Estratégico de Defesa e Segurança Nacional, o ministro está agora a meter água com a questão da reestruturação das Forças Armadas. Ou seja, com uma matéria que é muito séria. Mas, como é um homem ponderado, dizem os entendidos, talvez ainda compreenda que nestas coisas é melhor ouvir do que ditar. 

Só para lembrar

Queria lembrar a quem precisa de ser lembrado que a opinião pública é uma variável estratégica. Ou seja, quando a opinião pública não quer, não apoia, não compreende as razões de determinada politica, não aceita como credível determinado político, então está perdida uma base fundamental de sustentação. É o princípio da derrocada.  

A crise interna do Partido Socialista

Apesar da reunião da Comissão Nacional e do “Documento de Coimbra”, que considero um texto vago nalguns pontos e mediano em muitos outros, ou seja, um documento político sem futuro, a crise no interior do Partido Socialista não ficou resolvida. Os ataques a Seguro vão continuar. O grupo ligado a Sócrates tem como objectivo estratégico, acima de tudo, evitar que Seguro seja o próximo primeiro-ministro. A razão parece ser simples. Não terá muito que ver com as escolhas programáticas que Seguro possa vir a impor. Tem, isso sim, que ver com a escolha das pessoas que farão parte da sua equipa governativa, se chegar ao poder. É que gente do grupo do antigo primeiro-ministro pensa que não será incluída nas escolhas de Seguro. E isto de voltar a ser ministro é uma grande motivação para essa gente. Por que será?  

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