Portugal é grande quando abre horizontes

17
Nov 13

A prova de avaliação que o governo quer impor aos professores que ainda não pertencem ao quadro das escolas estão marcadas para 18 de novembro. A classe professoral está contra essa medida e resolveu decretar uma greve geral e mais outras manifestações de desagrado.

 

Não me cabe fazer aqui um comentário sobre o assunto. Quero, no entanto, contar o que me aconteceu há uns anos e que tem, no fundo, algo de semelhante.

 

Em 2002, estava colocado no Zimbabué como representante da ONU. Tinha uma pasta bastante complexa, que misturava desenvolvimento, coordenação humanitária e responsabilidades políticas. Era, nessa altura, um dos representantes com mais experiência e senioridade, com competência demonstrada em vários sítios enquanto chefe de missão. Tinha, como poucos, um vínculo permanente com a organização. Isso não impediu Nova Iorque de me aplicar uma regra que havia sido iniciada uns anos antes – eu havia sido um dos promotores desse princípio, mas que na altura só se aplicava aos novos representantes. A regra era simples. Tinha que passar por um exame de avaliação, como todos os outros o já haviam feito.

 

Protestei, fiz valer os meus galões de D2 (director sénior). Em vão. Lembraram-me que eu era dos raros que ainda não haviam passado por esse teste e que tinha que o fazer, sem mais discussão.

 

E lá foi marcada a coisa. Só que o teste era um teste a sério, feito por uma empresa do Canadá. Passava-se em Londres e decorria de um domingo à tarde até quinta-feira ao fim do dia. Era um exercício complicado, que misturava jogos de liderança com análises de casos concretos, simulações de entrevistas na televisão com um profissional da matéria, e duas ou três apresentações públicas.

 

Perguntei o que me aconteceria se não tivesse sucesso no teste, no entender da empresa que me avaliava. A resposta foi clara: a sua carreira de representante da ONU termina aí!

 

Assim mesmo!

E mais. Havia dois ou três escalões de classificação positiva e, em virtude do meu nível, teria que ficar no primeiro. Essa era a única expectativa possível.

 

Devo confessar que o teste foi extremamente difícil. Cheguei a Londres no domingo de madrugada, depois de uma noite a voar de Harare para o destino. Como o primeiro briefing do teste só tinha lugar às 17:00 horas, resolvi aproveitar a manhã e o começo da tarde para ir visitar a minha filha mais nova, que estudava então na Universidade de Bath. Quando voltei, tinha à minha espera a primeira etapa: ler cerca de 200 páginas de documentos confusos e intragáveis, para poder responder, ao começo da manhã seguinte, por escrito, a três ou quatro questões de fundo.

 

Passei o serão e uma boa parte da noite de volta dos papéis.

 

No final, depois de bem avaliado pelo júri, disseram-me que afinal eu entrava no primeiro escalão dos competentes. Que alívio! E que surpresa, acrescentei eu, pois há cerca de uma década e meia que eu, na prática, já estava entre os mais conceituados.

 

Atenção: dos quatro colegas do meu grupo, dois não passaram.

 

É que isto das avaliações tem que se lhe diga.

publicado por victorangelo às 20:13

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