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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

O bom-senso é um dos pilares da paz

Dizer que estamos a atravessar um momento de alto risco seria esquecer que o risco é o quotidiano de muitos, em várias partes do globo. Assim acontece em diversos cantos de África, do Darfur ao Leste do Congo, da Guiné-Bissau à Somália, em muitas terras da América Central, com Honduras a ter a taxa de homicídios mais elevada do mundo, na Ásia, do mundo do trabalho quase escravo do Bangladesh até ao tráfico de crianças no Cambójia, e assim sucessivamente.

 

Mas ignorar que a escalada de confrontação entre o Ocidente e a Rússia não augura nada de bom seria um erro.

 

E estamos, de novo, hoje, numa lógica de intensificação da crise. A visita do Secretário-geral da ONU a Moscovo e amanhã à Ucrânia mostra o nível de preocupação de quem sabe quais são os riscos.

 

É preciso pôr um travão ao conflito.

 

Mesmo assim, já se foi longe demais. Reparar a confiança perdida vai demorar muito tempo.

 

Continuar a perdê-la levaria a prejuízos muito grandes para ambas as partes.

As eleições europeias

Tive o cuidado de seguir com atenção a comunicação do Presidente da República sobre as próximas eleições europeias. No essencial, a mensagem procurou sublinhar a importância desse acto eleitoral e apelar à participação dos eleitores.

 

É, infelizmente, uma causa perdida antecipadamente. Como de costume, uma parte maioritária dos cidadãos pôr-se-á fora do processo e faltará, do dia das eleições, à chamada. A Europa é um tema distante, para muitos. Por outro lado, a maneira absolutamente arbitrária que caracteriza a definição das listas de candidatos dá a entender que os partidos não têm qualquer respeito pelos eleitores. Nesse caso, que respeito deverão ter os eleitores por listas que foram cozinhadas à revelia dos interesses colectivos e sem a participação dos cidadãos?

 

Também é uma causa perdida de antemão o apelo para que os debates se façam com serenidade e se focalizem nos temas europeus. As campanhas eleitorais serão, uma vez mais, uma oportunidade para repetir as acusações mútuas entre os partidos, tudo de um modo muito paroquial. Na aldeia que é Portugal, discutem-se coisas de comadres e compadres, não se olha para além do adro da igreja.

 

E a verdade é que a Europa tem muito para discutir. Mas nós estamos habituados a passar ao lado dessas coisas e assim faremos desta vez também.

Obrigado, José Medeiros Ferreira

José Medeiros Ferreira, que hoje faleceu, foi um intelectual íntegro e um homem inteligente, que soube amar Portugal com os olhos abertos, mas sempre pela positiva. Independente na maneira de pensar e franco de fala, Medeiros Ferreira tornou-se num paradigma do que acontece aos melhores de entre nós: os partidos excluíram-no da governação e da participação na vida política.  Foi, polidamente, marginalizado. Felizmente, Medeiros Ferreira não era um homem que se deixasse abater. Utilizou a escrita, o ensino e a comunicação social como meios de intervenção. E assim contribui para um país melhor.

 

Hoje só podemos dizer-lhe que ficámos muito gratos.

Nuvens

Há uma certa confusão no ar.

 

Os exemplos são muitos.

 

Gente boa e progressista cita Nigel Farage, o líder do UKIP, United Kingdom Independence Party, quanto se trata de encontrar argumentos contra a União Europeia. Ora, Farage, que se tornou conhecido por ter aproveitado bem a sua condição de deputado do Parlamento Europeu, é o chefe de um partido ultranacionalista e reaccionário, profundamente anti-imigração e contra os estrangeiros que vivem no Reino Unido. Um aliado de outros partidos xenófobos, como por exemplo o Partido Popular Dinamarquês. 

 

Infelizmente, a confusão vai permitir ao UKIP ganhar as eleições europeias de Maio, na Grã-Bretanha. E o partido dinamarquês, aproveitando a mesma onda anti-imigração vai provavelmente ser o mais votado na Dinamarca.

 

Outro exemplo diz respeito à Rússia de Putine.

 

Na ânsia de pintar a Europa e os Estados Unidos com as piores cores, muitos têm, nos últimos tempos, alinhado a sua visão do mundo pela cartilha que Putine segue. E têm, por isso, tendência para apoiar tudo o que Putin diz e faz e ver o mal apenas deste lado.

É uma visão confusa do que são, de facto, os nossos interesses.

 

Hoje, de novo, os interesses contam mais do que a cooperação entre as partes. Infelizmente, assim é. Sempre defendi que era preciso encontrar equilíbrios entre os diferentes interesses e promover a cooperação e a interdependência entre as comunidades de países.

 

A confrontação é um retrocesso.

 

Mas quando existe, é preciso ter uma ideia clara de quem são os nossos e onde estão os nossos interesses.

  

 

 

 

Procurar sempre ser-se o melhor

Estive recentemente em Singapura, depois de doze anos de ausência. Foi-me difícil reconhecer a cidade, apesar de a ter conhecido bem no passado. O reordenamento urbano, especialmente na área da Marina e nos bairros residenciais na parte Leste, na direcção do aeroporto, é simplesmente espectacular. Reflecte bem a riqueza existente, uma enorme capacidade de investimento, bem como a preocupação política de mostrar que Singapura é o epicentro da região, o local onde as grandes empresas devem ter a sua sede regional.

 

A filosofia governativa, inspirada no pensamento do Pai da Nação, o homem que transformou a independência de um lugar perdido e pouco hospitaleiro numa sociedade evoluída e segura, Lee Kuan Yew, hoje um velho senhor de 90 anos, tem sido sempre a mesma: ser o número dois não chega, é preciso, isso sim, ser-se o melhor!

 

Pode dizer-se muita coisa sobre Lee Kuan Yew, a sua visão autoritária e paternalista, e também sobre Singapura. Mas acima de tudo convém não esquecer que sem uma ambição nacional que nos procure colocar no topo não se constrói um país moderno, capaz de oferecer oportunidades de vida para todos.

Raízes e cores

Julie-Anne Nungarrayi Turner, nascida em 1975 no Território do Norte, Austrália, é uma das pintoras Aborígenes que mais tem chamado a atenção dos colecionadores. Os seus quadros descrevem, de uma maneira idealizada, a vida das mulheres da sua tribo, cujas terras ancestrais se situam a cerca de 300 quilómetros a noroeste da pequena mas agradável cidade de Alice Springs.

 

Hoje foi dia grande aqui em casa. Um quadro de Julie-Anne, pintado em Setembro de 2013, foi pendurado no corredor da entrada e passou a fazer parte das cores por onde se admiram os meus olhos.

 

Lembra-me, também, o lado mais colorido da vida aborígene, que, em geral, é muito difícil e marginalizada.

 

Também me lembra a mulher portuguesa que estava de serviço como agente de segurança no aeroporto de Alice Springs, quando por lá passei recentemente. Natural da região de Viseu, há vinte e tal anos no meio do nada e do Sol que é Alice Springs, ficou contente por ter que revistar um português e aproveitou para me dizer que as filhas foram uma ou duas vezes a Portugal, do outro lado do mundo, para que não esquecessem onde estão as suas raízes.

 

Julie-Anne pinta também para não esquecer onde estão as suas.

 

Actualmente vive em Adelaide, no Sul da Austrália.

 

 

 

 

Um exemplo que faz reflectir

O México emitiu esta semana dívida pública a 100 anos. Sim, com um prazo de 100 anos. Ou seja, pediu emprestados mil milhões de libras e durante uma eternidade só terá que pagar a taxa de juro, que neste caso foi fixada em 5,75%. Já havia feito o mesmo com obrigações de Estado em dólares americanos. Com um sucesso idêntico.

 

Aqui está uma maneira hábil de financiar o Estado, com base nos mercados internacionais, sem onerar em demasiado as finanças públicas. É uma espécie de “reestruturação” da dívida, mas que não precisa de dizer o seu nome.

A Rússia e nós

https://docs.google.com/file/d/0B7Mx3TqxEDLpM3JiRktJRVdjNG8/edit

 

O link acima leva-nos ao texto que hoje publico na Visão sobre as relações da União Europeia com a Rússia.

 

Para facilitar a leitura, passo a citar esse meu escrito:

Um parceiro chamado Putin

Victor Ângelo

 

Nas vésperas do referendo sobre a integração da Crimeia na Rússia, seria fundamental que os dirigentes europeus se exprimissem de modo coerente, a partir de uma posição comum. O ideal seria que se pronunciassem a uma só voz, com o Presidente do Conselho Europeu, Van Rompuy, a falar em nome de todos. Mas isso implicaria uma Europa diferente, não a que temos agora com as instituições comunitárias reduzidas a um grau inédito de irrelevância.

 

Trata-se de reconhecer que estamos perante um momento particularmente crítico para a segurança e a credibilidade externas da UE. O bom relacionamento político com a Rússia, o grande vizinho da nossa comunidade de nações, é fundamental. Tem que ser construído com base na confiança mútua, na cooperação e no respeito pelos interesses das partes. Não pode assentar numa mera relação de forças, com cada lado a contar os canhões de que dispõe. Nem deve apoiar-se na prática do facto consumado, no partir da loiça primeiro, para depois se tentar colar os cacos. Dito isto, convém lembrar que a única linguagem que Vladimir Putin entende bem, em matéria de relações internacionais, é a da diplomacia musculada. Quero dizer, uma diplomacia sem ambiguidades, que não deixe espaço para divisões ao nível dos protagonistas europeus e que seja clara em matéria de objectivos e, ainda mais, em termos de consequências.

 

Putin pode ser um produto dos tempos da Guerra Fria, mas não ignora onde estão os interesses da Rússia de hoje. Terá certamente como inspiração a ideia de uma Rússia forte e influente na cena mundial, mas estará consciente que a prosperidade do seu país depende, em grande medida, do fortalecimento das relações comerciais com a UE. Sabe, mais ainda, que a sua continuação no poder, que é, em última instância, a ambição que o anima, tem mais que ver com o incremento do bem-estar e da segurança económica dos seus concidadãos do que com o nacionalismo arcaico que ainda alimenta o sonho de uma Grande Rússia.

 

Nesse contexto, e se a posição europeia se mantiver firme, Putin acabará por aceitar que a Crimeia pesa pouco, no grande jogo das relações com o Ocidente. A Crimeia não vale uma guerra, nem mesmo um conflito a frio. Putin precisa, no entanto, de receber certas garantias, que tenham a caução da UE e lhe permitam salvar a face perante os seus. Isto significa, primeiro, a certeza que o acordo relativo à base naval de Sebastopol continuará em vigor, nos termos actuais. Segundo, que Kiev respeitará a autonomia política e administrativa da península bem como um relacionamento especial com Moscovo. Terceiro, que a nova constituição ucraniana voltará a considerar o russo como uma das duas línguas oficiais do país.

 

Mas o que é uma posição firme? Apesar dos europeus terem perdido o hábito da firmeza de vistas largas e adquirido o gosto pela navegação costeira, em que cada país pensa apenas em si, sem ter uma visão de conjunto, a resposta é simples. Passa, primeiro, pela não-aceitação do referendo na Crimeia, nos moldes em que está previsto. Depois, por um acordo tripartido, entre europeus, russos e ucranianos, sobre o processo de transição política que Kiev deve seguir. Esse processo deverá ser acompanhado por um plano de recuperação económica e financeira, financiado conjuntamente pela UE, a Rússia e outros parceiros internacionais. Terá igualmente que incluir um acordo de revisão constitucional que proteja os direitos das diferentes comunidades linguísticas e salvaguarde a soberania da Ucrânia. Firmeza não significa ostracizar a Rússia. Nem apoiar uns contra os outros. Requer, isso sim, visão, equilíbrio, bom senso e imaginação.  

 

 

 

 

 

Uma Europa que se encolhe

De regresso aos círculos europeus, depois de uma longa viagem, noto que o pouco de boa vontade que ainda restava, no que diz respeito à crise económica que define a situação nalguns dos países da UE, Portugal incluído, mirrou bastante nas últimas semanas. Há hoje menos paciência para tentar compreender o que se passa em Portugal, por exemplo, e ainda menos quando se tenta falar de novos pacotes, de medidas de ajuda, de reestruturações, de coesão europeia.

 

Na véspera de eleições, os cidadãos do centro da Europa não querem ouvir falar de solidariedade para com os “países periféricos”. Quando muito, haverá algum interesse pela Ucrânia e a sua possível associação à UE. Esse interesse terá que ver com duas coisas: uma certa admiração pela coragem dos que passaram muitas semanas na praça Maidan; e um certo desagrado em relação a Putin, ao que ele poderá representar como vestígio da Guerra Fria e da ameaça que as memórias colectivas ainda associam à Rússia.

Os britânicos e a Europa

Martin Schulz, actual presidente do Parlamento Europeu, está na corrida à sucessão de Barroso em nome da família socialista e social-democrata europeia mas sem o apoio dos Trabalhistas britânicos. Ed Miliband, o líder do partido, considera que Schulz é demasiado europeísta, ou seja, um porta-voz influente do aprofundamento da União Europeia. Miliband, apesar de ser favorável à presença britânica na UE, acha que a integração já foi demasiado longe e que é preciso pôr um travão à transferência de competências para as instituições comunitárias.

 

Miliband deverá ser o próximo primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Se assim acontecer, a integração europeia não poderá esperar muito dele e do seu governo. Mas a situação ainda será pior se Cameron for reeleito primeiro-ministro. Nessa hipótese, é quase certo que em 2017 a Grã-Bretanha estará de saída da UE.

 

A pergunta que se coloca hoje é muito simples: será preferível ter um Miliband sem entusiasmo pelo projecto europeu e pronto a travá-lo por dentro, ou ter um Cameron fora das portas europeias, a tratar da sua vida e nós a tratarmos da nossa?

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