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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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BES e o Banco de Portugal

Numa situação tão séria e complexa como a que está acontecer à volta do Banco Espírito Santo (BES), seria de esperar que o Banco de Portugal (BP), logo após o fecho das bolsas, viesse a público e anunciasse uma decisão, com o objectivo de clarificar e apaziguar a economia e o sector financeiro. Ora, isto ainda não aconteceu, à hora a que escrevo e receio que demore a acontecer.

 

Nestas coisas, o banco central, neste caso, o BP, tem que mostrar que tem capacidade de decisão rápida, que sabe cortar a direito e que compreende a urgência e a importância sistémica da crise. Tem igualmente que ser visto como independente do poder financeiro, como corajoso e competente.

 

No caso concreto, é evidente que a actual administração tem que ser, de imediato, substituída por uma outra, a título temporário, até que seja confirmada pela assembleia de accionistas do BES. Ninguém da administração que levou o BES ao descalabro presente tem condições para continuar, seja em que posição for, em lugares de direcção do BES. Devem, além disso, ser objecto de investigações criminais, para que se apurem as responsabilidades. Assim se procede nos países avançados.

Na estrada, da Europa a Lisboa

O meu texto de hoje, na Visão que acaba de chegar às bancas, é um condensado das minhas impressões da viagem de carro de Bruxelas a Lisboa, que teve lugar na semana passada.

 

Pode ser lido aqui, a partir do manuscrito que preparei.

 

Da Europa a Lisboa

Victor Ângelo

 

 

Como milhares de compatriotas, emigrantes na Europa, esta é altura do ano em que pego no carro, o encho de tralha e faço o trajecto de Bruxelas para Lisboa. São longos os quilómetros que separam a Europa que funciona de um país que não entende bem os desafios que enfrenta. Por isso, ao longo do percurso, venho matutando sobre os demagogos que continuam a negar a parte de responsabilidade dos políticos lusos no que respeita à situação de desespero económico em que muitos dos residentes em Portugal vivem. Como é possível, cismo enquanto vou atacando a infindável estrada que se desenha à minha frente, que gente com assento na Assembleia da República, que é ou foi ministro ou teve altas responsabilidades nacionais, possa afirmar que a crise não é, acima de tudo, nossa? Querem fazer-nos passar por parvos, além de pobres?

 

Estes pensamentos surgem logo à partida, ao ver as autoestradas da Bélgica a abarrotar de movimento, pessoas, carros e carga, tudo num frenesim de quem não pára, de quem sabe que é preciso ganhar a vida. Continuam depois em França, ao extasiar a vista pelos milhares e milhares de hectares de uma agricultura altamente desenvolvida, virada para os mercados de ponta, alimentares ou da bioenergia. Nas zonas de repouso, ou no hotel, há turistas de muitas origens. Desta vez, partilho a mesa do pequeno-almoço, nos arredores de Bordéus, com um casal australiano, cinco semanas a percorrer a França, com um poder de compra que não precisa de contar os cêntimos.

 

Depois, a Espanha. A transição para a Península Ibérica é visível, a começar pela urbanização, que é mais do tipo dormitório sem alma, na parte espanhola. Da Bélgica entra-se em França, sem que se note. Não é assim, de um lado e do outro dos Pirenéus. Vale-nos San Sebastian, uma cidade linda, bem organizada, rica, cheia de genica e de cultura, uma facada simbólica no nosso orgulho nacional, que não temos cidades de província comparáveis. E o resto do percurso espanhol é feito em autoestradas gratuitas, com gente a conduzir no geral com civismo. Quando uma viatura de matrícula estrangeira ultrapassa de longe os limites, vem logo à ideia que talvez se trate de um português, rebelde como todos nós e ansioso por chegar à pasmaceira da aldeia natal. Entretanto, vamos observando os campos, menos explorados que em França, mas apesar de tudo aproveitados.

 

Chega-se a Vilar Formoso e entra-se na confusão nacional, a começar pelas SCUTS. Os pórticos sucedem-se a uma cadência que deixa alarmado qualquer um que venha de fora. Fica-se com a impressão que a esse ritmo a portagem final vai atingir uma fortuna. Só que este ano, a A23, a caminho de Lisboa, estava deserta. Turistas, não havia. Um ou outro que por ali circulava, não deveria ter entendido como funciona o pagamento da coisa e ia avançando para Sul, cada vez mais perplexo pela profusão de pórticos. Olha-se para os campos, das Beiras e por aí abaixo, e não há produção que se vislumbre. Quem tiver olhos de ver perguntará para que serve o ministério da agricultura.

 

Depois, já na autoestrada do Norte, entramos no Portugal da alta velocidade. Ou seja, num país onde demasiada gente não respeita o código da estrada. Desta vez, vi três ou quatro grandes cilindradas a circular perto dos duzentos. Donde venho, isso seria de imediato severamente sancionado. Aqui é apenas uma maneira rápida de nos lembrar que as forças de segurança não têm meios e que o país está entregue aos atrevidos. Enfim, férias num país diferente, exótico. No nosso canto da Europa.

 

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