Portugal é grande quando abre horizontes

14
Ago 14

A experiência ensinou-me que só os tolos é que podem acreditar nos prognósticos feitos pelos corretores de bolsa e pelos macroeconomistas. Em geral estas duas profissões, que são bem pagas e que se consideram importantes, erram nas suas previsões.

 

Lembrei-me disto ao ver que um grupo de dez economistas, entrevistados em Londres e nos Estados Unidos, creio, disseram, com todo a certeza de quem está habituado a ser desmentido pelos factos mas que considera isso um pormenor, ou um erro da realidade, que não se quer submeter às doutas previsões, enfim, esses sábios acham que a economia portuguesa está numa via sustentável. Que sim, que será preciso mais austeridade, mas que estamos a caminho dos horizontes que cantam.

 

Nisto tudo, a única coisa certa que dizem é a relativa à austeridade. O resto é a bola de cristal do costume. Só que desta vez é mais desonesta. Falar da sustentabilidade da economia portuguesa quando se sabe que não há investimento que se veja, que o caso do BES vai ter um impacto negativo por muito tempo, que a Europa não está a crescer e por isso não nos compra as nabiças, que a Rússia nos boicota, e mais e mais, é conversa para patetas.

 

publicado por victorangelo às 20:09

13
Ago 14

Continuo a dizer aos meus amigos que não parem de sonhar, de inventar uma vida melhor, de lutar por ideias grandes. Há muitas coisas más que uma crise como a que vivemos em Portugal traz consigo. Uma delas é matar a capacidade de sonhar. Deixamo-nos então cair na crítica do que é mesquinho. Passamos a viver ao nível rasteiro, do ataque por baixo, pomo-nos à altura, bem medíocre, dos que são pura e simplesmente negativos e têm uma atitude cínica perante a vida. Que criticam tudo e todos, a torto e a direito.

 

Pensem nisso. Evitem-no.

publicado por victorangelo às 20:53

12
Ago 14

A minha filha mais nova enviou-me uma fotografia das suas férias na Inglaterra. A imagem mostra-a toda embalada contra o frio e a chuva, ao lado do meu neto de dois anos, esse de botas de borracha até aos joelhos e com um impermeável que apenas lhe deixava os olhos, grandes que os tem, a descoberto. Ao lado deles, foi apanhada na fotografia, por acaso, uma criança inglesa. Essa aparece na foto com um vestido leve de verão, sem mangas e sem mais agasalhos. Fartei-me de rir e lembrei à filha que quem vive permanentemente, como ela vive, na Andaluzia, tem sempre frio no Norte da Europa.

 

Depois, mal tinha acabado de brincar com o contraste, resolvi sair do escritório, para ir comprar qualquer coisa para o jantar. Antes de sair, protegi-me bem, que o meu olhar rápido pela janela disse-me que lá fora estava um frio danado e mesmo, chuva. Verão em Stavanger, na costa oeste da Noruega, digo eu. Quando cheguei à rua, havia mais. Um vento forte, vindo do lado do mar. Mas mal tinha dado uns passos encontrei um colega norueguês, a passear despreocupado no centro da cidade. Estava vestido com um polo ligeiro, de manga curta, e umas calças de veraneante. Ao ver-me tão bem aconchegado, com casacão e tudo, não conseguiu fechar a boca. Disse-me: vê-se mesmo que vens de Portugal!

 

Ainda o ouvi dizer que o tempo até não estava mau, para quem vive em Stavanger…

publicado por victorangelo às 19:21

11
Ago 14

Os polícias que encontramos nas ruas de Lisboa andam fardados com uma camisa azul, de um escuro desbotado, que nos diz ser de tecido de má qualidade. Ficam com um aspecto de polícia pobre, que é de facto o que são. E para acentuar ainda mais a imagem, uma boa parte, tudo gente muito jovem, passa o tempo de patrulha encostado às paredes da cidade, a falar ao telemóvel. Garbo profissional deve ser um conceito que ficou esquecido nos manuais do passado.

 

Eu, que tenho todo o respeito pela dedicação dos nossos polícias, fico à espera de mais, que isto da imagem, em matéria de segurança pública, vale muito.

publicado por victorangelo às 19:22

09
Ago 14

Quem for à Baixa de Lisboa vê as ruas cheias de turistas. E nota-se igualmente que o centro da cidade se renova pouco a pouco. Turismo e investimento são duas boas notícias. Mas precisamos de mais, noutros sectores da economia e noutras partes da cidade e do país. É na expansão da economia que está o futuro. Não é nem na burocracia administrativa nem na estatização da iniciativa nem nas discussões infindáveis entre compadres da política.

 

Mas a economia precisa de instituições que funcionem. Uma economia sem regulação, sem proteção dos mais fracos, sem justiça, é a lei dos Salgados que impera. Ganham sempre os que têm mais poder. E afasta-se muito investidor que estaria disposto a arriscar se o jogo fosse limpo e justo.

 

Ou seja, a Baixa da cidade não nos pode fazer esquecer um país que precisa de levar uma reviravolta profunda. 

publicado por victorangelo às 21:36

08
Ago 14

Um clima político de guerrilha permanente não é normal numa democracia. É revelador de uma crise nacional profunda, de falta de maturidade dos principais actores políticos, de ausência de liderança. Um clima assim não resolve nada. Cria, essa é verdade, profundas inimizades entre as pessoas, divisões e ódios irreparáveis. O que é péssimo, numa fase da história do país que exige, isso sim, grandes alianças e uma enorme capacidade para construir coligações.

publicado por victorangelo às 23:14

07
Ago 14

Transcrevo o texto que hoje publico na Visão.

 

Um triângulo de desgraças

Victor Ângelo

 

 

No passado recente fui um visitante assíduo da zona das três fronteiras, o triângulo de Kissi, onde a Serra Leoa se encontra com a Libéria e a Guiné-Conacri. É um canto pobre e remoto da África Ocidental, a 500 quilómetros de Freetown, dois dias de viagem com um tração às quatro rodas e apenas possível na época seca. As minhas deslocações tinham que ver com uma colina e uns pedregulhos que separam a Serra Leoa da Guiné. O exército deste último país, uma tropa de maltrapilhos abandonados à sorte no meio do mato, ocupara a colina, que na realidade pertence à Serra Leoa. Este era um motivo de tensão entre os dois estados vizinhos. Os meus bons ofícios não resolveram nada. Deram-me, no entanto, a oportunidade de conhecer bem as populações locais, dos três lados das linhas de fronteira, e o que é viver em terras que só lembram ao diabo.

 

Digo isto do diabo, por várias razões. Uma delas tem que ver com a febre de Lassa, uma doença hemorrágica aguda, letal, endémica nessas terras. Matou alguns dos capacetes azuis da ONU, por lá destacados na primeira metade da década passada. Outra, porque foi aí que começou, em 1991, a guerra civil da Serra Leoa, que iria durar onze anos e veio a ser conhecida pelas amputações sistemáticas de braços. Também, por ter sido por essas bandas que a rebelião do famoso Charles Taylor ganhou calo. Agora, desde há uns meses, a região voltou a conhecer uma outra desgraça. É o epicentro do Ébola.

 

À miséria dos habitantes, que os leva a comer qualquer espécie de animais, incluindo ratos do campo, e frutos meio ruídos por morcegos, junta-se um alto grau de desconfiança política em relação às respetivas autoridades ao nível central. O governo em Freetown, a capital do país mais democrático e aberto da região, a Serra Leoa, é visto pelas gentes de Kissi como hostil às suas vidas. A região vota de modo esmagador pelo partido da oposição, por motivos de dependência e afinidade étnica. Daí resulta que a primeira reação à epidemia é a de pensar que se trata de uma infeção provocada por agentes do governo. Do lado da Libéria, a minha antiga colega, a Presidente Ellen Johnson-Sirleaf está cada vez mais associada à oligarquia libero-americana, a pequena elite da capital, descendente dos escravos retornados da América. Os naturais do interior não podem ver isso com bons olhos e acreditam cada vez menos nos políticos de Monróvia. Quanto à Guiné, a fragmentação étnica é a norma. O que se passa num canto longínquo do país pouco pesa no xadrez nacional, a não ser que o problema toque em gente influente no círculo presidencial. Tudo isto, mais a inimaginável escassez de meios dos serviços nacionais de saúde, a que se juntam certas crenças tradicionais e práticas ancestrais perante a morte, levaram a uma situação que está hoje fora de controlo. O que se sabe sobre o impacto do Ébola é apenas uma parte da verdade. Quem está por esses lados diz-me que a crise é muito mais séria.

 

A decisão recente da OMS de atacar a epidemia como uma emergência internacional é de louvar. Demorou, mas aconteceu. A Europa deveria juntar-se a esse esforço, como os EUA o estão a fazer. Mas a experiência ensinou-me que uma resposta de saúde pública numa sociedade profundamente traumatizada e com um quadro de valores muito peculiar só dará resultado se houver uma mobilização dos chefes costumeiros. As autoridades tradicionais são as únicas verdadeiramente credíveis. A informação tem que passar por delas, para que as populações compreendam a dimensão da nova tragédia e adotem os comportamentos que as protejam do contágio e da morte.

publicado por victorangelo às 18:47

06
Ago 14

A Bolsa de Lisboa, sobretudo no que toca ao sector bancário, ficou muita fragilizada, no seguimento da crise do BES. Há hoje um risco real que uma parte importante da banca nacional restante entre numa espiral desastrosa. Mas não são apenas os bancos que estão ameaçados. Existem muitos projectos de investimento que se vão revelar inviáveis, que apenas existiam em virtude dos favores que certos banqueiros faziam aos amigos e a si próprios. Projectos que na realidade eram apenas biombos que escondiam a apropriação privada de dinheiros dos depositantes.

 

Tudo isto foi possível porque as instituições portuguesas funcionam mal, fazem de conta e têm como prática habitual o favorecimento de um pequeno número de indivíduos. E porque vivemos num país onde reina a impunidade. A impunidade dos ricos e dos poderosos. Quando isso é a norma, um país deixa de funcionar de modo normal. Passa a estar a saque. E entra num processo de colapso.

 

Receio bem ser essa a situação em que Portugal se encontra.

publicado por victorangelo às 22:56

05
Ago 14

Um líder forte não deixa arrastar as situações nem permite que outros o tentem fazer.

 

Quando é atacado, responde de imediato e de maneira resoluta, que estas coisas da liderança não se compadecem com longos períodos de indefinição. Quando o poder está em jogo, a experiência de trabalho com políticos de muitos cantos do mundo ensinou-me que a regra a aplicar é muito simples: ou vai ou racha!

 

Por outro, quem resolve pôr em causa o líder no poder tem que mostrar uma grande determinação, ferrar bem as canelas do adversário e não largar enquanto a disputa não estiver resolvida.

publicado por victorangelo às 18:01

04
Ago 14

A saga do BES, um banco que foi arruinado pelos seus administradores em virtude de acções fraudulentas, ilegais e manhosas, continua a ser o tema de todas as conversas.

 

Se é verdade que a solução encontrada pelo Banco de Portugal foi a menos má numa situação de catástrofe, a situação a que se chegou na sexta-feira, também é verdade que o banco supervisor permitiu, por indecisão e falta de força política, que as coisas se arrastassem até ao ponto de ruptura. Se o Banco de Portugal tivesse sido prudente, e nestas coisas a prudência é a regra que deve primar, teria tomado medidas de afastamento da administração do BES em Setembro de 2013. Foi nessa altura que se tornou evidente que havia gestão danosa.

 

Uma vez mais, lembro-me do que aprendi nas andanças pelo mundo. Quando o risco é grande a indecisão torna-o maior. O mal corta-se pela raiz, diz o ditado popular.

 

Agora, sendo as coisas o que são, é fundamental colocar o Novo Banco à venda tão depressa quanto possível. A actual administração, com Vítor Bento à frente, não tem experiência nem os contactos suficientes no mundo financeiro internacional que permitam ir além de uma fase transitória. Também aqui a experiência ensinou-me que o transitório deve ser sempre o mais breve possível. Por isso, deve procurar-se atrair o interesse de grandes grupos financeiros internacionais, para que comprem o Novo Banco. Mas aqui há vários problemas. Primeiro, não sei até que ponto a nossa opinião política está aberta à ideia de um banco internacional passar a ser o dono de uma parte significativa da banca nacional. Segundo, o mercado interno é pequeno, existem já bancos a mais, e por isso será difícil interessar um grupo de peso estrangeiro, um grupo sério e experiente. Terceiro, é difícil de dizer quanto vale o Novo Banco. Quantos dos créditos “bons” não serão na realidade montantes impossíveis de receber, nomeadamente no domínio do crédito à habitação e no financiamento de certas actividades económicas estapafúrdias. Poderá valer menos, para um investidor vindo de fora, que os 4 900 mil milhões agora disponibilizados. Quem vai pagar a diferença?

 

Enfim, para já, vamos andando.

 

publicado por victorangelo às 10:46

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