Portugal é grande quando abre horizontes

17
Abr 15

Passo a transcrever o texto que publico na Visão desta semana, relativo ao relacionamento da União Europeia com a Rússia.

 

                Nós e os russos

                Victor Ângelo

 

 

 

                Estamos nas vésperas das comemorações do fim da Segunda Guerra Mundial. Decorridos setenta anos, há quem pense que cheira de novo a pólvora no continente europeu. E não apenas por causa da violência na Ucrânia, mas sobretudo à vista do desassossego político e militar que se criou entre o nosso lado da Europa e a Rússia. Perante isso, e porque as tensões são a sério, considero importante reafirmar que a nossa Europa não quer um confronto com a Rússia. Não precisamos nem de mais inimigos nem de novas ameaças à nossa estabilidade e segurança. Mas há mais. Devemos ser claros e pôr o acento na indispensabilidade da paz e da cooperação entre as duas grandes metades do nosso continente. A geografia deve ser um fator de aproximação e nunca uma razão para rivalidades em que todos perdem.

                Este é também o momento de repetir que não vemos a OTAN como uma ponta de lança dirigida contra os interesses vitais da Rússia. A OTAN é tão-somente um instrumento de afirmação da nossa soberania coletiva, indispensável para desencorajar qualquer hipótese de aventura armada contra o espaço geopolítico em que nos integramos. Infelizmente não se pode acreditar na fantasia de que a época das ameaças bélicas vindas de fora já passou à história. A realidade do dia-a-dia demonstra o contrário. Como também não se pode apostar na chamada Europa da defesa, como alternativa. É um sonho sem pernas para andar. Nesta altura só serve para alimentar o sentimento antiamericano de alguns.

                Convém igualmente esclarecer que não se vislumbra no horizonte a possibilidade da adesão da Ucrânia à OTAN. Dizer o contrário, ou alimentar a ilusão, mostra falta de realismo político e contribui para acirrar a crise com a Rússia. É verdade que a estratégia de segurança nacional, que a Ucrânia divulgou há dias, define a integração na Aliança Atlântica como um objetivo primordial. Mas nestas casas não entra quem quer e isso deve ser dito com as palavras adequadas.

                No caso da UE, é tempo do discurso público voltar a reconhecer as várias áreas de interesse comum com a Rússia. Esses interesses passam pelo comércio e os investimentos mútuos, pela segurança energética e a proteção do meio ambiente, a luta contra o narcotráfico, a instabilidade na Ásia Central e o terrorismo, as negociações sobre o programa nuclear do Irão, bem como pela cooperação na exploração do espaço. É por essas vias que se constroem os alicerces da paz.

                E pela via dos contactos diplomáticos. As sanções económicas e políticas não devem levar à redução dos esforços diplomáticos. A diplomacia existe para resolver os antagonismos. Assim, acho um erro não se ter aceite o convite de Putin para participar nas comemorações de 9 de maio, que vão marcar em Moscovo o septuagésimo aniversário da vitória contra o nazismo. Trata-se de um momento de extraordinário significado, na narrativa patriótica russa. Os estados europeus que contam na relação com a Rússia dariam um sinal diferente se tivessem decidido enviar representantes, não ao mais alto nível, mas sim uns políticos de segunda linha. É para isso que servem os vice-qualquer-coisa ou os líderes das assembleias de deputados. O sinal seria ambíguo mas forte: queremos manter o diálogo, mas não estamos nada satisfeitos com a linha política atual do Kremlin. É esta a mensagem que Merkel transmite, ao ir depositar uma coroa de flores em Moscovo, no dia seguinte ao das comemorações. Uma vez mais, Merkel marca pontos, quando comparada aos seus pares da UE.

publicado por victorangelo às 17:29

15
Abr 15

A decisão que os pilotos da TAP acabaram de tomar – dez dias de greve – é um erro de grandes proporções. Prejudica o futuro da companhia, que já está profundamente endividada, afasta potenciais investidores que ainda poderiam estar interessados na privatização da empresa, e tem um enorme impacto sobre o sector do turismo e do comércio a ele associado.

Espero que entretanto haja um regresso ao bom senso e que o anúncio de greve seja anulado.

publicado por victorangelo às 20:35

14
Abr 15

Por estes lados, a opinião que corre desde o fim-de-semana é que a Grécia vai entrar em insolvência. A hipótese de um acordo a curto prazo com o Eurogrupo tem, neste momento, uma probabilidade mínima. Sem esse acordo, não haverá dinheiro fresco e reduz-se a margem de manobra do Banco Central Europeu. Entrou-se, diria, numa lógica de inevitabilidade. Que é acompanhada, ao nível dos grandes grupos financeiros, pela convicção que será possível gerir e absorver a nova situação de insolvência, para além de um impacto negativo inicial.

Em certa medida, chegou-se agora a uma situação em que se deixou a Grécia sozinha. Todos pensam que a bola está no campo grego, quando se trata do jogo financeiro.

Depois há ainda outros jogos: Schengen e a manutenção ou não da livre circulação de pessoas com a Grécia, um assunto que já começou a ser objecto de reflexão; e, por outro lado, as consequências políticas e militares de uma aproximação de Atenas à Rússia, caso viesse a acontecer. Sem entrar no pormenor, como reagiria a elite de segurança grega se amanhã o seu país fosse suspenso de certos mecanismos de segurança e a Turquia continuasse a ser parte desses mecanismos?

Tudo isto tem uma complexidade maior do que possa parecer.

 

 

publicado por victorangelo às 20:56

13
Abr 15

Um partido que construa a sua linha política, o seu discurso público, à volta do refrão da austeridade não vai longe. Ser contra a austeridade não significa grande coisa e não passa ao nível do eleitorado mais esclarecido. Não capta o centro, que é indispensável para que se possa constituir uma base de governação.

O que de facto conta é o crescimento económico, a criação de emprego, a igualdade de oportunidades. É à volta destes temas que se constrói uma imagem progressista e mobilizadora. As mensagens, as diversas maneiras de comunicar, devem focalizar-se nesses desígnios. E ser ditas com simplicidade, convicção e exemplos de casos pessoais de sucesso que deverão ser considerados exemplos e que poderão ser multiplicados por muitos factores, se as escolhas políticas foram as mais acertadas.

Parece-me que a política de agora deve ser feita assim, neste momento de grandes desafios e de enormes desânimos sociais.

 

 

 

publicado por victorangelo às 11:19

11
Abr 15

Alguns dos nossos desnorteados públicos continuam a dizer e a escrever que a Europa não tem uma visão geoestratégica, que anda por esse mundo às apalpadelas e ao sabor dos ventos mais fortes. Não é verdade. A UE tem hoje um serviço de acção externa de alto calibre, experiente, pertinente e capaz de propor direcções estratégicas. Tem também um novo tipo de competências em matéria de análise de conflitos e de identificação de crises potenciais. Nessa área, desenvolveu recentemente um quadro metodológico que tem servido de modelo para os estados membros mais atentos.

O problema é outro, quando se trata da política externa europeia. Os principais estados têm interesses internacionais que nem sempre coincidem uns com os outros. E por vezes não é possível chegar a uma plataforma comum. Daqui resulta, para os observadores menos sérios ou menos atentos, ou para os nossos demagogos, uma imagem de falta de direcção. Ora, não é bem assim. Às vezes, há direcções a mais, opções distintas e todas elas suficientemente pertinentes.

O caso da Rússia tem sido um bom exemplo de acordo estratégico entre os estados membros. Mas é cada vez mais um processo arrancado a ferros. E isso acontece não por falta de inteligência política, mas porque os interesses dos países são muito distintos, quando se trata desse grande vizinho da Europa.

publicado por victorangelo às 17:31

10
Abr 15

António Guterres, numa entrevista de hoje, deixou bem claro que a sua opção passa, nesta altura da vida, pela continuação do seu trabalho humanitário, num quadro de intervenção internacional. Não está, por isso, disponível para a política portuguesa. Ou seja, não será candidato à Presidência da República, em Janeiro de 2016.

Devo dizer que compreendo perfeitamente a posição que tomou. E elogio a cautela que teve, de modo a que ninguém possa dizer, com seriedade, que as suas palavras mostraram menos respeito pela função presidencial portuguesa. Antes pelo contrário. Reconheceu a importância da função, mas foi igualmente claro quanto à sua preferência pessoal.

 

publicado por victorangelo às 21:10

09
Abr 15

Em Portugal, a procissão relativa à eleição presidencial de janeiro de 2016 ainda não saiu da igreja, mas já está a causar muitas disputas. Tem todos os sinais de vir a ser uma romaria cheia de divisões e de conflitos, entre os compadres que acham que têm alguma voz que se oiça na aldeia. Tenho a impressão que acabaremos por ver muita loiça partida e muita cabeça rachada. Não sei se vai ser divertido, mas será certamente um período de grandes rancores e de golpes baixos.

publicado por victorangelo às 20:28

08
Abr 15

O líder abre horizontes e cria esperança. E dá cor à vida.

P1060457.JPG

Copyright V. Angelo

 

publicado por victorangelo às 21:02

07
Abr 15

Anda por aí gente a queixar-se de António Guterres, que não se define, que não diz se sim ou sopas, no que respeita às eleições presidenciais de 2016.

Mas a verdade é que Guterres está a jogar claro. Gostaria de ser o próximo Secretário-geral da ONU. Esta função é incomparavelmente mais interessante que a de Presidente da República portuguesa, mesmo escrevendo presidente com um P grande. Enquanto ele pensar que tem hipóteses, ao nível das Nações Unidas, não vai mostrar nenhum outro interesse que possa pôr em causa as suas chances. E, para já, Guterres tem algumas probabilidades a seu favor. É um nome possível.

Não haverá clareza em relação às candidaturas a Secretário-geral nos próximos tempos, excepto no caso de um acontecimento que desagrade profundamente a um dos cinco países permanentes do Conselho de Segurança e que tenha Guterres como protagonista. Ora, ele é prudente e sabe bem quais são as regras e contornos da corrida. Isto significa que Guterres não estará disponível, nem pouco mais ou menos, para ser candidato em Portugal. Mais ainda. É provável que nos próximos meses tenha um cuidado muito especial, uma espécie de afastamento, para que ninguém pense que ainda alimenta, lá no fundo do seu peito, alguma ambição relacionada com o início do ano de 2016 em Portugal.

 

 

publicado por victorangelo às 20:13

06
Abr 15

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, que tem o mandato de representar aquela coisa vaga que dá pelo nome de “comunidade internacional”, é mais uma vítima do terrorismo internacional. Por que o digo? Simplesmente porque o Conselho não consegue chegar a acordo e aprovar um plano de acção contra certos grupos violentos, terroristas e absolutamente condenáveis, com destaque especial para os criminosos do Estado Islâmico, da organização somali al-Shabbab e para al-Qaeda. Estas associações de fanáticos continuam a executar inocentes e destabilizar várias regiões do globo. E continuam a mostrar que o Conselho de Segurança não está à altura dos desafios de segurança que existem hoje, em particular os que têm uma importância estratégica de primeira ordem.

Esta constatação levanta uma série de questões sobre o que será o futuro do Conselho de Segurança bem como sobre o caos que existe neste momento no tecido das relações internacionais de segurança.

publicado por victorangelo às 17:08

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