Portugal é grande quando abre horizontes

05
Abr 15

Uma das características marcantes da Esquerda portuguesa é a sua fragmentação. As divisões resultam de uma notória falta de liderança combinada com a inexistência de um projecto credível e agregador. No meio de tudo isso, existe um Partido Socialista às aranhas e um Partido Comunista amarrado a uma visão impraticável da sociedade e das relações de Portugal com os seus parceiros naturais.

Por isso vamos ter, nos próximos meses, no que respeita às eleições presidenciais do próximo ano, mais candidaturas à esquerda.

Tudo isto favorece claramente a Direita.

publicado por victorangelo às 20:19

04
Abr 15

As caminhadas quase diárias no parque perto de casa põem-me frequentemente em contacto com uma categoria especial de funcionários da comuna onde vivo. Trata-se de um corpo de vigilantes (“gardiens de la paix”) que percorre, em grupos de três ou quatro, os caminhos do parque e as ruas da localidade. Fazem-no a pé, fardados com umas vestimentas roxas, mas sem armas nem outro meio de comunicação que não seja o telemóvel.

A sua utilidade levanta muitas dúvidas. Servem para assinalar aos serviços de recolha competentes casos de lixo abandonado em lugares públicos e colocar uns folhetos nos carros dos moradores, com uns conselhos básicos sobre a segurança pública, as precauções a tomar para evitar roubos e arrombamentos, e pouco mais.

O factor dissuasor, que é um argumento utilizado pelas autoridades municipais, é insignificante. Quando muito, leva os donos dos cães que passeiam no parque, quando se apercebem ao longe que esses guardas andam pelas paragens, a prender os animais com a trela, uma regra obrigatória mas pouco cumprida.

No total, são 75 postos de trabalho, para uma população residente de cerca de 130 mil pessoas.

De início, costumava criticar o esquema, que mais não seria que uma forma hábil de dar emprego a pessoas que o não tinham. Agora, com o tempo, habituei-me a aceitar esse grupo de funcionários. Parte da minha tolerância vem do reconhecimento que muito daquilo que fazemos tem pouca utilidade social e é apenas uma maneira mais de ganhar a vida. Com alguma dignidade, que é isso que importa.

A idade também me ajuda a aceitar melhor o faz-de-conta, desde que ele se aplique apenas aos que não têm poder nem meios de sobrevivência.

publicado por victorangelo às 19:42

03
Abr 15

Nesta Sexta-feira de Páscoa, lembrei-me da visita recente que fiz ao Buda Deitado (ou Reclinado) em Yangon, a capital económica da Birmânia. E na importância da religião nesse país, incomparavelmente mais crente do que nosso caso. E, nalguns casos, tão intolerante como nós. Nomeadamente em relação aos muçulmanos de certas regiões da Birmânia.

Ora, num dia como o de hoje, a tolerância e aceitação das diferenças são dimensões que convém sublinhar.

 

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Copyright V. Ângelo

 

 

publicado por victorangelo às 16:27

02
Abr 15

Para além de tudo o que tem sido dito de bem sobre Manoel de Oliveira, que hoje completou uma vida extraordinária, só quero acrescentar que ele deu o exemplo de como se pode ser português e universal, ao mesmo tempo, como é possível ser-se reconhecido dentro de portas e também por muitos cantos do mundo. Esta é a vocação dos grandes: ser grande em toda a parte.

publicado por victorangelo às 20:32

01
Abr 15

Convido à leitura do texto que hoje publico na Visão.

 

A frescura do Butão

                Victor Ângelo

 

                A aproximação do aeroporto de Paro, a única porta de entrada para quem viaja de avião para o Butão, dá-nos um primeiro gosto do país: montanhas por toda a parte. É verdade que estamos nos contrafortes dos Himalaias. Paro situa-se a 2400 metros de altitude. Olho pela janela e quase que toco, de um lado e do outro das asas do Airbus, nos imensos paredões de rochedos que fecham o vale que conduz à pista de aterragem. Há poucos pilotos habilitados para voar para esta terra. E serão todos da companhia de aviação local, que mais nenhuma se aventura por estas paragens.

                Sempre foi um país de difícil acesso. Mas isso não impediu um outro alentejano, o jesuíta Estêvão Cacela, de o visitar, no ano de 1627, na companhia de João Cabral, um padre beirão. Foram os primeiros europeus por aqui. Cacela escreveu uma longa carta sobre a viagem, dizendo que o lugar era místico, inspirava paz, tranquilidade e felicidade. Quatrocentos anos depois não terá mudado muito. Só que já ninguém se lembra desses missionários. Agora, Portugal traz de imediato à conversa dos butaneses dois outros nomes: Cristiano Ronaldo e Nani. Mencionei Mourinho, mas percebi de imediato que o nome não passa bem, numa cultura em que prima a cortesia e que recusa todo o tipo de agressividade e de autoadmiração.

                O respeito pelos outros e pela natureza, a disciplina social e o fervor religioso, à volta de um budismo fortemente marcado pela mitologia hinduísta, são outras das características que definem a cultura local. Mas o traço mais evidente tem que ver com a proteção da identidade nacional, que se manifesta na maneira de vestir em público e na deferência em relação ao rei. Compreende-se. Apertado entre a China, a norte, e a Índia, dos três lados restantes, com um território que é cerca de metade do nosso e uma população que não ultrapassa as 800 mil almas, o Butão precisa, para se manter independente, de ser diferente e de possuir um forte sentimento de orgulho nacional. Consegue fazê-lo. Comete mesmo a proeza de não ter relações diplomáticas com a China, apesar da longa fronteira comum. É verdade que isso se faz à custa de um alinhamento diplomático estreito com a Índia. Mas, em política externa, tem que haver realismo, e na escolha entre os dois vizinhos, há um que não ocupou o Tibete, uma região que tem uma cultura gémea da butanesa.

                Percorrer as estradas e os trilhos do Butão é descobrir um modo de vida que, ao combinar o tradicional e o moderno, se desenrola em grande harmonia com a natureza. A Constituição, revista em 2008 para democratizar o regime e limitar os poderes do rei, que passou a ser obrigado a abdicar ao atingir a idade de 65 anos, protege a natureza – 60% do território nacional é intocável e tem que ser preservado tal como está – e o bem-estar dos cidadãos. Este é o país que definiu o bem-estar como sendo mais importante que o produto interno bruto. Mas isso não impede um processo de desenvolvimento acelerado, que me surpreendeu de modo positivo, e que põe o Butão à frente de muitos outros países comparáveis. Assenta na educação obrigatória, transmitida em língua nacional e em inglês, na produção de energia hídrica, exportada para o imenso mercado que é a Índia, na autossuficiência alimentar e no nicho do turismo de qualidade. E numa prática política responsável, que promove a alternância e que reconhece o mérito da oposição e das opções governativas diferentes.

                Nestes tempos em que se procuram ideias alternativas, vale a pena visitar o país, voltaria a dizer hoje o Padre Cacela. E não o diria apenas por causa do ar puro das montanhas ou pelo facto da venda de tabaco ter sido banida no Butão.

               

               

 

 

publicado por victorangelo às 14:04

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