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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Os sapateiros e as questões internacionais

Depois de ouvir umas banalidades sobre política externa, num programa de domingo que tem uma grande audiência, fiquei a pensar que há por aí uns sapateiros que gostam de ir além do chinelo. Esses mestres sabem das intrigas da política interna portuguesa. Quanto ao mundo exterior, andam, tantas vezes, pela rama das coisas. E inventam umas teorias conspirativas, para convencer o povo que estão dentro dos segredos dos deuses.

Um dos comentários era sobre o acordo nuclear que acaba de ser assinado com o Irão e que deverá ser aprovado amanhã, no Conselho de Segurança da ONU. Um acordo bastante complexo, que tem várias facetas e outras tantas maneiras de ser visto. Mas, no fundo, um bom acordo, que demorou nove anos a ser negociado.

Uma das provas da importância do acordo reside na maneira como foi recebido pelas organizações iranianas dos direitos humanos e pelas principais associações da sociedade civil. Trata-se, em ambos os casos, de organizações que são sistematicamente perseguidas pelo regime de Teerão. Essas ONGs receberam a notícia do entendimento nuclear com grande entusiasmo. Têm dito e repetido que o acordo abre espaço aos que lutam pela democracia e pela modernidade no Irão.

Seria um erro não ter em conta essas opiniões. Como é lamentável que isto não seja referido quando as nossas estrelas do comentário político andam aos pulinhos por assuntos tão sensíveis e centrais como este.

 

 

 

Primeiro, devemos lutar por nós próprios

Se eu fosse o primeiro-ministro deste país repetiria amiudadamente que a minha responsabilidade primeira é a de lutar pelos interesses dos portugueses.

Enquanto chefe do governo, eleito pelos cidadãos de Portugal, é isso que se espera e que deve ser feito, cá dentro e lá fora.

E explicaria que a salvaguarda dos nossos interesses não quer necessariamente dizer que nós ganhamos e os outros perdem. Não estamos num jogo de soma zero, em que uns ganham porque outros perdem. Muitas vezes, em relações internacionais, a convergência de posições é a melhor maneira de defender aquilo que nos interessa.

O importante é ser claro e ter a coragem de dizer as coisas como elas são.

As televisões e os burros

Fora dos meses de Estio, a minha vida não me permite ver os canais de televisão portugueses. Tal só é normalmente possível a partir de finais de junho de cada ano.

Estamos, pois, na altura em que espreito umas coisas nos nossos ecrãs.

E chego facilmente a uma conclusão: os patrões dos programas televisivos portuguese tratam os portugueses como sendo burros.

Nos canais generalistas, o nível da programação é meramente imbecil. E nos canais sujeitos a pagamento, os chamados de cabo, ou se fala horas a fio de futebol, no sentido mais rasca deste desporto, ou então aparece uma sucessão de comentadores, uns mais exaltados do que os outros, mas tudo da mesma estirpe intelectual, ou seja, um conjunto e uma séria de fala-baratos a repetir as mesmas coisas e os lugares comuns habituais, sem qual sombra de profundidade, de ponderação, enfim, uns analistas que não passariam nenhum teste de habilidade numa maneira mais séria de encarar a opinião pública.

Por isso, espreito apenas. E desligo poucos minutos depois.

 

Sobre a renovação da CPLP

Escrevo sobre a Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) na Visão que hoje saiu para a rua.

Passo a transcrever o meu escrito. Boa leitura.

 

 

            CPLP: a renovação necessária

            Victor Ângelo

 

            Estamos nas vésperas do encontro anual dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Vai decorrer a 23 e 24 deste mês, em Díli, porque Timor-Leste assegura a presidência da Comunidade até meados do próximo ano. Ainda bem. Os dirigentes timorenses têm revelado um empenho exemplar. Estão sinceramente interessados no bom funcionamento da CPLP, sobretudo no que respeita ao afinamento da visão comum e à adaptação da organização às novas realidades internacionais.

            Criada em 1996, a Comunidade tem um passado mais variado e rico do que muitos imaginam. Deve, no entanto, evitar a dispersão, o toca a tudo e a rigidez oficial. É altura de proceder a um balanço e dar um enfoque claro e incisivo às ambições para os próximos anos. Existem condições para que isso possa acontecer. Para além do dinamismo da liderança timorense e resolvida que está a questão da Guiné Equatorial, um assunto que criara uma tensão política aguda entre os Estados membros, a última cimeira, em 2014, deu luz verde a um processo de reflexão estratégica. Há, deste modo, um mandato que é preciso saber aproveitar. Para mais, o atual Secretariado Executivo já demonstrou que está pronto e tem a genica necessária para apoiar um exercício de renovação.

            Não será, no entanto, uma tarefa fácil. As organizações deste tipo resultaram das ambiguidades pós-coloniais e de uma maneira de ver a cooperação e a ajuda ao desenvolvimento que já não faz grande sentido. O que une os países membros é ténue e, com a exceção da língua, são coisas doutros tempos, lembranças e nostalgias dos mais velhos. É fundamental encontrar uma nova razão de ser, que mobilize realidades geopolíticas muito diversas. É esse o debate os dirigentes devem ter a coragem de enfrentar.                                                                                                                                                                               

            Para além de coragem, pede-se diplomacia, peso e medida. A organização é de todos, não é uma extensão do ministério dos Negócios Estrangeiros do país A ou B, nem um apêndice de um qualquer instituto de cooperação. Tem que funcionar como uma instituição intergovernamental e na base de uma plataforma administrativa supranacional. Assentar o seu funcionamento nas práticas do Estado onde se situa a sede não me parece ser a melhor opção. Por exemplo, o Secretariado deve poder atrair inclusivamente os profissionais mais competentes da nação que pague os salários mais elevados. Aplicar a escala remuneratória portuguesa tem como consequência a falta de entusiasmo por postos profissionais na CPLP de candidatos de topo do Brasil ou de Angola, para mencionar apenas dois casos.

            Para começar, é preciso conquistar a opinião pública. A comunidade de países só conseguirá ganhar asas se se transformar numa comunidade de povos. Há que ultrapassar as dimensões puramente estatais, que têm a sua importância mas que pouco dizem aos anseios das pessoas. As populações têm que ver vantagens neste projeto. E não me refiro apenas ao Brasil, onde só uma mão cheia de iniciados sabe do que estamos a falar. Para os cidadãos, a CPLP tem que se traduzir num esforço coletivo por mais dignidade e segurança, ou seja, ser um espaço de direitos humanos, uma espécie de segunda pátria capaz de abrir horizontes e de funcionar como um porto de abrigo. Deve igualmente facilitar as trocas comerciais e os investimentos. Assim, a língua comum seria o cimento de uma visão capaz de promover o respeito de todos e os direitos de cada um bem como uma alavanca de resposta conjugada aos desafios da globalização.  

 

 

Os dias que passam

Creio poder adivinhar que em certos círculos europeus influentes as dúvidas sobre a pertinência do acordo relativo à Grécia se avolumaram ao longo do dia.

Primeiro, por causa das declarações de Alexis Tsipras. O primeiro-ministro disse não acreditar no acordo. Assinara por não ter outra alternativa. Isso assemelha-se, e muito, a uma rendição incondicional. Ora, a história mostra que os termos das rendições ficam, na grande maioria dos casos, por cumprir. E neste caso, a história voltaria a repetir-se.

Segundo, por causa da posição do FMI. O Fundo não tem condições para poder participar num programa que não ofereça garantias, a prazo, de estabilização, de normalização, ou seja, de regresso, um dia, do país assistido ao mercado de capitais tal como este opera. O FMI considera que o programa que está na forja não permite obter essas garantias. Só assim seria se houvesse um perdão significativo da dívida. Esse perdão não está previsto nem parece aceitável para os parceiros da Grécia, enquanto esta se mantiver na zona euro. Sem FMI é muito provável que certos parlamentos não aprovem o novo pacote.

Terceiro, por causa dos custos políticos. As cláusulas que deverão acompanhar o novo programa grego são muito intrusivas. Isso reflecte a gravidade da situação bem como a falta de confiança na classe política da Grécia. Terá vantagens políticas, nomeadamente ao nível das opiniões públicas dos países credores e também no combate aos extremismos radicais. Mas tem grandes inconvenientes, sobretudo para a imagem de certos Estados europeus, que aparecem na fotografia com um bigodinho neocolonial. Esse é um preço político elevado.

Perante isto, começa a haver, de novo, quem pense que a melhor solução é deixar a solução nas mãos do povo grego. Hoje à noite, esta maneira de ver tem, segundo entendo, mais crédito. Se as coisas não se compuserem nos próximos dias, se não houver moderação de parte a parte, ganhará ainda mais espaço.

 

 

 

 

 

Com circunspecção

Embora de viagem, nos últimos dias, estive atento, como todos estiveram, ao que se passou na cimeira de Bruxelas do Eurogrupo. E sublinho, como muitos o fizeram, que se tratou de um momento muito grave, na história da construção europeia. Penso, por isso, que tem que haver muita prudência na maneira como se discute essa cimeira. Noto, porém, que a ponderação é uma moeda rara na EU. E ainda por cima não é dispensada nas caixas do multibanco.

Mas convém insistir na questão da circunspecção.

Numa situação como a que se vive actualmente em torno da crise grega não há vencidos nem vencedores. Na verdade, ninguém ganha. Há mesmo um sério risco de perdermos todos. Qualquer opção é difícil e tem custos políticos, económicos e humanos muito grandes. A responsabilidade de quem governa é a de chegar a um acordo razoável, mas que será sempre um acordo com enormes custos e riscos de grande envergadura.

Depois, é preciso explicar as razões das opções tomadas e garantir a seriedade das mesmas.

É igualmente importante tirar algumas lições de uma crise desta envergadura. Serão várias. Uma delas é bem clara: nas relações entre os Estados, as regras que foram acordadas são para cumprir. Sem isso, não há futuro comum. Mas existe uma lição complementar: nestas coisas das relações entre os Estados e na discussão de acordos, todos devem ter a sua palavra a dizer, em pé de igualdade e sem medos. Essa é igualmente uma condição fundamental para que se possa traçar um caminho comum.

 

De um lado e do outro da fronteira alentejana

Quem entra em Espanha por Vila Verde de Ficalho, no Baixo Alentejo, percorre 71 Km em direção a Sevilha e chega à localidade de Aracena, no meio do montado e da serra. Com cerca de 8 mil habitantes, Aracena é sobretudo conhecida pelas grutas espectaculares que se situam no meio da povoação e por ser uma espécie de capital do presunto e dos enchidos de porco da variedade pata preta.

Por aqui ando hoje e amanhã.

E o dinamismo desta pequena terra e a qualidade de vida que se nota deixam-me a pensar, com angústia, nas vilas e cidades do outro lado da fronteira, Serpa e o resto, Beja mesmo, e na distância que as separa. Por aqui vive-se com alegria, há dinheiro para andar às tapas e vestir bem, respira-se modernidade e confiança, apesar do isolamento, de Aracena ser um canto recuado do país.

Num remate rápido, digo que até a polícia municipal parecia melhor equipada e mais amparada do que o que se vê do nosso lado.

Perante isto, lembrei-me mais uma vez do que costumo dizer de vez em quando. Ou seja, que temos que ver as coisas como elas são e puxar mais por nós próprios.

 

Serpa

Almoço e início da tarde em Serpa e a constatação que essa parte do Alentejo está a mexer e acredita que é possível trabalhar para um futuro melhor.

Deu também para notar a influência dos sítios da internet de conselho aos turistas. Os locais que aparecem mencionados no Trip Advisor, por exemplo, atraem clientes. Mesmo numa terra como esta, que está longe dos circuitos nacionais e internacionais de turismo.

 

Dentro do prazo fixado

Alexis Tsipras cumpriu. A proposta de programa foi esta noite submetida à apreciação do Eurogrupo.

Será, muito provavelmente, uma promessa com medidas muito mais exigentes do que as que estavam em cima da mesa há duas semanas. Deverá estar, também, em contracorrente no que respeita ao resultado do referendo.

Estas são as contradições e os dilemas de uma situação económica desesperada.

Para além disso, a pergunta que fica esta noite no ar é bem clara: conterá o programa proposto as garantias suficientes para convencer os outros membros do euro da seriedade das intenções do governo de Tsipras?

Já ninguém acredita em intenções apenas…Sobretudo quando as políticas que estão em causa são contrárias aos princípios ideológicos de quem as propõe.

 

Uma nação que precisa de ser puxada para cima

Neste dia em que, segundo os indícios que vão surgindo, aumentaram as pressões sobre o governo grego, exigindo um novo programa de reformas muito mais abrangente e contrário à filosofia do Syriza, apareceram igualmente dados sobre a vida em Portugal. Uma espécie de fotografia da Nação, que revela cores muito sombrias.

Estamos hoje pior, segundo o que foi trazido a público, do que estávamos há muitos e bons anos atrás.

Para mim, há duas grandes questões que se levantam e que serão cada vez mais prementes.

A primeira tem que ver com as desigualdades. Na minha leitura dos dados e na observação dos factos, tem-se agravado a dualidade entre uma pequena minoria, que vive desafogadamente e sabe mexer-se nos tempos de agora, e a grande maioria, que luta pela sobrevivência e se sente perdida face às realidades de hoje. A tendência é para que esse fosso social se aprofunde.

A segunda relaciona-se com a nossa incapacidade geral, salvo excepções, de competir numa economia aberta e mais internacionalizada. À medida que se avançar com a abertura dos mercados, com os novos acordos comerciais internacionais que estão na forja, com o apelo ao investimento estrangeiro, ficará mais evidente que não temos, na maioria dos casos, unhas nem capacidade para competir com os que virão de fora. Não estamos suficientemente preparados para a globalização das relações económicas e comerciais. Somos, isso sim, um povo que precisa da tranquilidade, que já não existe, que é um mito, o sossego de quem vive por detrás de barreiras levantadas ao longo das linhas de fronteiras.

Perante estas constatações, se hoje estamos mal, o risco de amanhã virmos a estar ainda menos bem é muito grande. Diria mesmo, que me parece enorme.

É isso, entre outras coisas igualmente estruturantes e urgentes, que a nossa política deveria procurar resolver.

 

 

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