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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Não temos uma estratégia para a CPLP

Nas vésperas da cimeira de Brasília e depois de ter contribuído no último ano para a reestruturação do Secretariado Executivo da organização, ouso dizer, com pena, que o governo português não tem uma linha estratégica clara e bem pensada em relação ao futuro da CPLP.

Nisto não é, aliás, diferente do governo precedente.

Poderia ter aproveitado a discussão sobre o preenchimento do lugar de Secretário Executivo, um assunto que esteve em cima da mesa este ano, para o fazer. Preferiu, no entanto, optar pelo fogo-de-vista e exigir que esse mandato fosse repartido entre São Tomé e Príncipe e Portugal. Ou seja, lutou e indispôs os outros parceiros, para que houvesse dois Secretários Executivos nos próximos quatro anos. Esta guerra que o governo português ganhou não promove a estabilidade e a coerência da liderança da CPLP. Dois anos de mandato por dirigente não constituem uma missão. São, isso sim, uma passagem de carreira, à espera de um destino mais atraente.

Poderia ter igualmente aproveitado a longa e penosa discussão que levou à redacção de um documento que os Estados membros chamam de estratégia, mas que na realidade nada mais é do que um apanhado de generalidades e de conversa fiada. Portugal, durante esse processo de elaboração, limitou-se a acompanhar os trabalhos, sem entusiasmo nem intenção de enriquecer a reflexão comum.

Agora, António Costa sai da caixa de surpresas, movido pela mola da visibilidade mediática, e diz, meio a sorrir, que vai propor a liberdade de residência para os cidadãos da CPLP. Assim mesmo! No meu entender, trata-se de mera demagogia, um tiro de pólvora seca sem efeito para além do ruído e da chamada de atenção. O acordo de Schengen não permite nem que se pense nessa hipótese. E, para mais, não vejo Angola, por exemplo, a abrir as portas e a permitir que emigrantes guineenses, ou são-tomenses se instalem no país. A proposta é, aliás, um bom exemplo da pouca seriedade com que tratamos as matérias da CPLP.

 

Sobre a Turquia de hoje

Estive recentemente em contacto com a imprensa turca. E fiquei enjoado. Os jornais e o resto da comunicação social transformaram-se em meros amplificadores das políticas inaceitáveis, obsessões e ambições perigosas de Erdogan. Parece que estão numa competição que procura mostrar qual deles consegue agradar mais ao líder. Na realidade, reflectem o clima de medo colectivo que se vive no país.

Para além da glorificação do Presidente da República, os outros dois temas abordados quotidianamente dizem respeito às conspirações recentes e em preparação, num clima em que imperam as alucinações e as teorias conspirativas, bem como à UE, que é sistematicamente atacada e ridicularizada .

Tudo isto faz pena e aumenta a distância entre a Turquia de Erdogan e a nossa maneira de viver a política e a vida.

Viagens e regressos

Passei uma boa parte dos últimos dois meses a percorrer vários cantos do mundo. E também, em grande medida, a recuperar forças e rotinas, depois de cada uma dessas viagens.

Viajar altera as rotinas. Não permite tempo e vontade para que nos sentemos à mesa, ao fim do dia, e escrevamos apuradamente. Sobretudo quando os programas das visitas são intensos. Quando muito, tomam-se umas notas, registam-se umas observações, que depois serão postas de lado, uns tempos, à espera de oportunidade para serem exploradas.

Mas a viagens ajudam muito a abrir os olhos, se se vai com vontade de aprender e sem preconceitos caseiros. Mais ainda, no meu caso, continuam a ser verdadeiras lições de humildade. Mostram-me claramente que o mundo é maior do que eu e a minha rua.

Percursos

Vou estar mais ou menos ausente. As rotinas quotidianas terão que esperar por melhores dias. Digo-lhes, até breve.

A vida dos outros

Hoje encontrei alguém que me disse que a procura da imortalidade o está a matar. Achei curioso. Na realidade, o que queria dizer é que nada de importante se consegue sem um grande esforço, muita dedicação e uma focalização obsessiva no alvo a atingir e no trabalho para aí chegar.

Depois da vitória, olha-se em frente

Na vitória, a sabedoria aconselha magnanimidade. Celebra-se e trata-se os antigos adversários com grandeza. Andar a enxovalhar quem perdeu ou parece ter perdido, ou quem apostou mal, não é uma estratégia inteligente. Pode dar a impressão que é boa política, que se aproveita a vitória para deitar abaixo os contrários, mas não é nem boa política nem a estratégia que interessa a prazo. E não deita ninguém abaixo de modo significativo. Cria, isso sim, mais hostilidade.

Isto é tanto mais verdade quando são os interesses nacionais que estão em jogo. Portugal não retirará vantagem alguma ao atacar os outros governos da UE. Ganhou e passa à frente. Assanhar-se contra Bruxelas, ou Berlim, ou contra outros, é coisa de vistas curtas. O país precisa de se colocar acima dessas práticas exaltadas e concentrar-se na construção de parcerias internacionais e no planeamento de um futuro melhor para a maioria dos portugueses.

Parabéns excepcionais

António Guterres será o novo Secretário-Geral das Nações Unidas. É altura de lhe dar os parabéns mais entusiásticos e merecidos, e também de reconhecer o mérito da equipa diplomática portuguesa, em especial o papel desempenhado pelo Embaixador José de Freitas Ferraz e o seu grupo de trabalho.

Mas, de facto, o mérito é de Guterres. Quem conhece bem a ONU, sabe que ele conseguiu ultrapassar dois obstáculos de grande monta: o peso dos interesses e da tradição geoestratégica, que davam o lugar a alguém vindo do Leste da Europa; e questão do género. Na realidade, havia uma pressão enorme – amplamente justificada – para que, desta vez e pela primeira vez, fosse eleita uma mulher. Vencer estas duas enormes barreiras significou que o Conselho de Segurança lhe reconheceu um mérito excepcional. Muito bem!

Por isso, os parabéns também devem ser excepcionalmente calorosos.

G. e G.

Passei o dia a discutir alguns dos grandes desafios que a Ásia Central – as cinco antigas repúblicas soviéticas – tem pela frente. E já no final do dia, um jornalista conhecido telefonou-me de Lisboa, a perguntar qual era a minha opinião sobre a prestação de Kristalina Georgieva nas Nações Unidas. A verdade é que estava muito longe desse assunto. Disse-lhe que ainda não tinha informações sobre a matéria. E lembrei que neste momento há muitos especialistas em questões onusianas no panorama intelectual lisboeta. Talvez fosse melhor perguntar-lhes a opinião, sobretudo aos do costume.

E esperar por quarta-feira, pela próxima volta, no Conselho de Segurança.

Já depois disso, soube duas ou três coisas. Que o embaixador do Quénia junto da ONU, o meu antigo colega Macharia Kamau, que também desempenha as funções de presidente do Fundo das Nações Unidas para a Consolidação da Paz, o que lhe dá uma voz grossa, achou que Georgieva pode ter aparecido à última hora, mas ainda “apareceu a tempo e no tempo preciso”. Interessante. E mais. Que os Nórdicos estão a fazer campanha pela nova candidata. Consideraram que a senhora teve um desempenho de qualidade e que é a altura de ter uma mulher no cargo. Uma mulher bastante competente, acrescentam. Finalmente, que os russos acharam bem que ela se exprimisse na sua língua, ao fazer as suas intervenções.

A isto junta-se a geopolítica – o Leste europeu – e o género.

Do outro lado, temos António Guterres. Um candidato que toda a gente sabe que é muito forte.

Veremos o que acontece depois de amanhã.

Diplomacia em movimento

O Conselho de Segurança volta a pronunciar-se sobre a eleição do Secretário-Geral a de 5 de outubro.

Nas vésperas de uma votação que poderá ser decisiva, a diplomacia está na fase das grandes manobras. Que na realidade têm que ver com dois ou três cargos importantes no Secretariado da ONU. Trata-se de lugares de chefia dos departamentos considerados mais importantes: Operações de Paz e dos Assuntos Políticos. E também com a designação do novo Vice-Secretário-Geral, uma escolha que faz parte das prerrogativas do Secretário-Geral.

As Operações de Paz têm estado debaixo da alçada dos franceses. É muito provável que a França não consiga manter o controlo desse departamento no futuro. Diz-se que a China está com os olhos postos nesse lugar.

Os Assuntos Políticos são, desde alguns anos, uma coutada americana. Vai ser difícil desalojá-los. Tudo se pode negociar, porém.

E então, que se deve oferecer aos russos, para que deixem passar o candidato em causa? Neste momento, controlam a área que se ocupa da Polícia das Nações Unidas e temas similares. Mas não chega, face às ambições de Moscovo. A área é um tema menor dentro das Operações de Paz.

Os russos também andam à procura de um ou outro compromisso por parte dos europeus. Sobre as sanções, sobre o futuro da Ucrânia, sobre os gasodutos e a política energética da UE. Daqui, a importância da Comissão em Bruxelas. E de Berlim, claro, que também arvora aspirações, no que respeita à estrutura funcional das Nações Unidas.

Quanto à nomeação do número dois da ONU, não deverá ser um europeu, se o novo Secretário-Geral for de nacionalidade europeia. Poderá, para satisfazer os russos, ser alguém da Ásia Central, de um estado cliente de Moscovo. Também poderia ser Helen Clark, para calar os americanos e os britânicos, sem levantar ondas em Moscovo ou Beijing. Ou Susana Malcorra, que tem muitos amigos influentes, incluindo os Clinton, e a vantagem de não ser considerada como ocidental. Será, de qualquer modo, alguém do sexo oposto ao do novo SG. E alguém que vai exigir uma certa margem de manobra, para que a função de Vice não seja apenas para a galeria ver.

É nisto que estamos, nos próximos dias.

Entretanto, Kristalina Goergieva vai a provas na segunda-feira. Veremos que conclusões poderão ser tiradas das suas prestações.

 

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