Portugal é grande quando abre horizontes

07
Mai 19

O diário belga “La Libre” é um jornal moderado e respeitado. Organiza frequentemente inquéritos de opinião junto dos seus leitores. Os resultados desses inquéritos são vistos com atenção pela classe política e por quem se ocupa de seguir a opinião pública belga.

Levou agora a cabo um sobre a questão da criação de umas forças armadas europeias. A pergunta era muito clara : deve-se criar um corpo militar europeu comum em substituição das forças nacionais?

Responderam cerca de 8000 leitores. Destes, 49% disse que sim, sem mais, sem hesitação. Também disseram que sim, mas sem pôr termo ou acabar com as forças armadas nacionais, 35% dos inquiridos. Apenas 13,3% por cento se opôs, disse que não à ideia de um “exército europeu”.

Curiosamente, os sem-opinião foram apenas 3%.

Em simultâneo, noto que é no Partido Socialista, nos Ecologistas e em outros movimentos do centro-esquerda da Bélgica que encontro uma posição clara de apoio a um projecto comum de defesa.

Convém reflectir sobre estes números. E lembrar que a questão de defesa é antes de tudo uma questão de opinião pública, ou seja, um tema essencialmente político.

publicado por victorangelo às 16:34

06
Mai 19

Muitos dos nossos concidadãos sentem-se frustrados. É um facto que a frustração não é um sentimento novo. O que pode ser considerado novo é a expressão pública dessa sensibilidade, que através das plataformas sociais quer ainda na praça pública, nas manifestações de rua.

São sonhos que não se realizam, opiniões que ninguém parece querer ouvir, críticas e sugestões a que não se dá peso, mesmo, nalguns casos, invejas que não se sublimam. Sem esquecer o drama que muitos enfrentam, quando o mês parece ter chegado ao fim quando ainda faltam tantos dias para o completar.

Estes sentimentos explicam em boa medida os populismos, os radicalismos, os movimentos do tipo Coletes Amarelos.

A classe política não tem sabido responder a estas desilusões e às angústias que lhe estão associadas. Os políticos vivem em mundos à parte, nos círculos que as elites formam. Movem-se na órbita de outros políticos, de jornalistas e de gente das empresas. Todos têm vários interesses em comum, que se satisfazem em circuito fechado. E todos eles partilham a mesma falta de sintonia e de conexão com os cidadãos anónimos, bem como a convicção de que são mais inteligentes e mais vivos que o resto da população.

É isso que deve mudar.

publicado por victorangelo às 17:37

05
Mai 19

Os professores estão no centro das atenções, uma vez mais.

A política portuguesa tem tido imensas dificuldades em tratar a questão do ensino, da sua modernização e o estatuto dos professores. É um problema que vem de muito longe e que tem repercussões profundas, quer no presente quer no futuro do país. Em vez de estratégia, tem-se sistematicamente recorrido ao oportunismo e ao tacticismo.

Temos aqui um dos problemas mais graves a que Portugal não tem sabido responder de modo equitativo e duradouro. Esta é uma das áreas da governação que necessitaria de uma reviravolta completa. E de muita coragem política bem como de um diálogo com a nação.

Entretanto, e apenas a título de curiosidade e de comparação, partilho alguns números relativos aos salários médios dos professores do ensino secundário na Bélgica. Trata-se de valores pagos a quem tem todas as qualificações académicas para ser professor. E deve notar-se que o custo de vida na Bélgica é mais elevado do que em Portugal.

Assim, ao fim de dez anos de serviço e com um horário completo que são 22 horas de aulas por semana, um professor recebe como salário mensal líquido – 12 vezes ao ano, não existe um 13º mês – entre 2410 e 2600 euros.

Completados trinta anos de carreira, esses valores mensais oscilam entre os 3120 e 3650 euros líquidos, segundo a região do país e o estatuto da escola. Na Flandres, os valores são em geral mais elevados.

Em termos de férias escolares, a média é 71 dias por ano civil.

Uma carreira completa, em termos de direito à reforma, exige 41 anos e 3 meses. Isto significa que a idade legalmente prevista para a reforma andará nos 63 anos, no mínimo. Mas há bonificações que podem reduzir um pouco esse patamar etário. O montante da pensão de reforma anda à volta dos 2000 euros líquidos por mês (12 vezes por ano). Mas atenção, existe um valor máximo de pensão oficial que um casal pode acumular, que não chega aos 3000 euros por mês, para a soma das duas pensões. Pensões acima desse valor correspondem ao somatório dos esquemas oficiais com sistemas privados. A preocupação fundamental é a de garantir a sustentabilidade do regime oficial de pensões.

 

 

publicado por victorangelo às 20:17

04
Mai 19

Fui criticado por um seguidor porque não escrevo muito sobre o dia-a-dia da política portuguesa. Mais ainda, disse-me que deveria pegar, com alguma regularidade, no que se escreve como opinião ou no que se debate na televisão, e tomar partido.

Fiquei a pensar no assunto.

publicado por victorangelo às 16:51

Para mim, a política é uma questão de projecto. Desenha-se um sonho que depois se põe à votação dos eleitores. Para os oportunistas, a política apenas ambiciona conquistar o poder e, depois, tudo fazer para o manter. É um jogo de interesses pessoais, que nada tem que ver, a não ser por acaso, com o bem comum e uma melhor gestão do que é do domínio público.

publicado por victorangelo às 16:41

02
Mai 19

Sobre a Venezuela, repito que a saída da crise necessita de uma iniciativa de mediação internacional. A situação actual é muito grave e não permite que haja que vença e quem seja humilhado e possivelmente esmagado. A violência levaria a isso, a vencedores de um lado e vencidos, do outro. Seria uma tragédia nacional. E as divisões internas profundas ficariam por resolver. As causas do conflito não seriam resolvidas.

É preciso negociar. Com a ajuda de facilitadores externos e imparciais. A ONU está numa situação de fraqueza e não pode desempenhar o papel que deveria ser o seu. Infelizmente, assim é. A União Europeia também está excluída, por ter tomado posição, de modo inequívoco. E a América Latina encontra-se numa posição semelhante, de um lado ou do outro.

Quem, então?

A minha sugestão seria a de um triunvirato de países neutros, liderado pela Suíça e incluindo o México e o Vaticano. Com um mandato aceite por Nicolás Maduro e por Juan Guaidó. E com a aprovação silenciosa, tácita, sem discussão, do Conselho de Segurança da ONU. Se tal for possível, se o Conselho conseguir chegar a esse tipo de decisão. Mas não seria indispensável. O acordo de mediação que contaria seria o que comprometesse os líderes da Venezuela. É nesse sentido que se deve olhar em frente.

 

publicado por victorangelo às 19:53

01
Mai 19

Segui com algum cuidado a transição que acaba de ter lugar no Japão, do Imperador Akihito para o seu filho, o agora Imperador Naruhito.

Apesar da distância cultural que nos separa do Japão, este acto político deve fazer-nos reflectir. É, também, uma fonte de inspiração quando se pode observar uma outra prática do exercício do poder e do simbolismo. Sobretudo, quando o principal objectivo é o de assegurar a unidade nacional e o orgulho colectivo, que é indispensável para que haja optimismo e se possa acreditar no futuro.

As palavras que utilisarei, para resumir a transição que agora ocorreu e que tem uma importância enorme para a população japonesa, são cinco:

Simplicidade.

Brevidade.

Tradição.

Cerimonialismo

Elegância.

Mais ainda. O Primeiro Ministro Shinzo Abe discursou esta manhã, durante menos de dois minutos, para reconhecer a autoridade do novo Imperador. Referiu-se apenas a três ideias-chave, cuja menção me parece igualmente relevante. Unidade nacional. Paz internacional. Florescência da cultura japonesa. Três objectivos que cabem bem no novo período imperial, que procura combinar harmonia com beleza (Reiwa).

Em matéria política e de liderança, foi uma lição. Que aqui partilho.

publicado por victorangelo às 17:44

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