Portugal é grande quando abre horizontes

19
Mar 10

 

Hoje a Gare du Nord foi a de Bruxelas. Fui comprar a minha passagem para o aeroporto Charles de Gaulle. Volto no Domingo a África.

 

Há muito que não entrava nesta Gare. Foi uma surpresa. Numa das alas laterais, dei com um dormitório de gente sem abrigo. Contei 19 "camas", alinhadas lado a lado, bem encostadas à parede exterior da estação, numa área que embora esteja ao ar livre, está protegida por um tecto de cimento. Algumas, de gente certamente mais abastada, tinham um colchão. A maior parte, eram de cartão e trapos, que a vida de um sem-abrigo não dá para grandes luxos.

 

Vi todas as idades. Jovens e velhos, lado a lado. Alguns estrangeiros, de aspecto, pelo menos. Ao fim do dia, por volta das seis e pico da tarde, os moradores, ou já estão na cama, ou andam por ali perto, no espaço público da estação, a casa de todos. O tempo estava ameno, o que convidava um ou dois grupos a uma conversa mais desprendida, antes da hora do deitar. De que falam pessoas nestas condições?

 

Como se trata de um acesso lateral, penso que as autoridades fingem que não vêem. Os utentes habituais sabem, por sua vez, que é uma zona que é preciso evitar. A miséria, mesmo quando nos entra pelos olhos, com a habituação, torna-se invisível. Mas, sempre convém passar ao largo.

 

Comprei uma sandes. Enquanto a mordia, surgiu, de repente, do meu lado esquerdo, um jovem de pouco mais de vinte anos de idade. Delicadamente, pediu-me que lhe desse um pedaço. Olhei-o de frente e vi a fome com rosto de pessoa. Insistiu. Fiquei engasgado. Perdi o Norte. Afastei-me, ao acaso.

 

 

publicado por victorangelo às 21:16

Impressionante o seu texto. Coloca o leitor no centro da cena. Melhor que qualquer imagem de TV. O tema é duro, triste... mas real.
Anónimo a 19 de Março de 2010 às 22:34

Victor esse cenário vi-o eu há três semanas quando fui à Belgica ( a Bruges). Impressionante. Do que se fala quando nos referimos a países desenvolvidos ?
?

Beijinhos da C. Trigo
Anónimo a 19 de Março de 2010 às 22:55

E se passasses à noite na Centraal Station de Amsterdão o cenário ainda seria pior com umas centenas a dormir entre restos de comida e cheiro a urina ... apesar de, todos os dias, por volta das seis da manhã, vir a empresa de limpezas que varre tudo à mangueirada para que o cidadão apressado em chegar aos seus empregos a horas, possa atravessar os corredores sem tropeçar em nada nem em ninguém... ainda ontem no jornal o Público eu li que presentemente no mundo há 830 milhões a morar em barracas à volta das grandes cidades ...e nos centros das grandes cidades, quantos haverá a viver nos subterrâneos do metro, à porta das igrejas, debaixo dos viadutos, nas gares das estações??
É a realidade mais obscura, quase invisivel, do ser humano mais desfavorecido no mundo civilizado, digital e avançado do século XXI em que nós vivemos.
lìrio do campo a 20 de Março de 2010 às 08:57

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