Portugal é grande quando abre horizontes

21
Jul 10

O pombo da historieta do Marcel leu o meu blog sobre o fim trágico do gato e protestou. Disse-me que eu, como todos os outros, só escrevemos sobre os bichos assanhados e predadores, nunca contamos a lenda da vida do ponto de vista dos pombos. É, acrescentou, o nosso fascínio medíocre e bacoco pelo poder que nos faz viver a vida a olhar para os grandes e a esquecer as opiniões dos que esvoaçam de grão em grão, para tentar sobreviver.

 

O Zé - o pombal é feito de Zés e Marias - nunca confiou nas manhas suaves do Marcel. No passado, quando ambos eram mais novos, até lhe achava uma certa graça. Mas, confiança em gatos, como em políticos, nunca. Passou a confiar ainda menos, nos últimos tempos, quando sentiu que Marcel andava irritado e tentava abocanhar tudo o que lhe passava pela frente. Sentia que o peludo estava a atravessar uma crise, que com o tempo havia perdido o sentido das proporções e do bom senso. Era um gato cada vez mais isolado, que confundia o ensimesmamento e o valor do seu umbigo com qualidades de felino acima da média. Via-se numa classe à parte, capaz de puxar sozinho pela vida e pela sorte.

 

Não era, afinal, mais do que um pobre animal doméstico, como todos os que por aí aparecem, por muito que se julgasse um leão das savanas sem fim. 

 

O Zé fugiu ao assalto e viu, de longe, a queda para o vazio que havia de fazer sair o Marcel da narração. Pensou que, por vezes, não são os pombinhos quem paga os custos das lendas que por aí se contam.

publicado por victorangelo às 21:32

twitter
Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

17




<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO