Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Geneticamente falando

Este é o meu texto desta semana na revista Visão:

 

Geneticamente falando

Victor Ângelo

 

 

Uma das vezes em que estive em risco de ser "comido vivo" foi em 2001. Aconteceu no seguimento do lançamento da versão em língua portuguesa do relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O relatório desse ano sobre o desenvolvimento humano, que apresentei numa sessão oficial em Lisboa, tinha como tema o impacto das novas tecnologias na luta contra a pobreza. Uma parte importante do estudo discutia, a partir de uma óptica favorável, a importância das culturas geneticamente modificadas. Foi isto que causou burburinho. Alimentos com manipulações genéticas, nem pensar! Uma amiga de infância, inteligente e viajada, burguesa de esquerda, do tipo rebelde de boas famílias, ter-me-ia então tragado por inteiro, se não fosse felizmente uma vegana militante.

  

Passada uma década, o debate sobre a agricultura biogenética permanece nebuloso. O preconceito define o quadro de referência de muitas das posições sobre o assunto. Sobretudo na Europa, onde a opinião pública tem o hábito confortável de se esquecer do problema da fome que persiste noutras paragens. Ora, as necessidades alimentares actuais, mais as que resultarão do crescimento acelerado da população nas próximas décadas e do aumento do consumo per capita, resultante da melhoria do nível de vida nos países emergentes, exigem que a questão seja mantida na ordem do dia.

 

Segundo a FAO, a organização da ONU para a alimentação e a agricultura, a produção agrícola mundial terá que crescer mais de 70% nos próximos 40 anos. Quem acredite, como acontece com os activistas terceiro-mundistas que vêem a pobreza a partir de Paris ou de Genebra, que será possível alimentar o globo com base no labor dos camponeses tradicionais e nas sementes de origem familiar, vive numa ilusão romântica. Apenas a prática da agricultura comercial em grande escala permitirá responder à procura global. Igualmente, quem pense que o acréscimo da produção será possível por virtude de uma expansão significativa das terras cultiváveis ou da irrigação, não tem em conta a realidade dos factos. Está demonstrado que não será possível abrir um número significativo de novas terras aráveis. A previsão é de um simples incremento de 4 a 5% da área total actual. Por outro lado, a margem de aumento da utilização de água para fins agrícolas é reduzida. A agricultura já consome mais de 70% da água doce que é anualmente utilizada. Muitos dos lençóis aquíferos estão em vias de exaustão. E a competição pela água, um bem escasso e estratégico, será ganha pelas populações urbanas, devido ao seu maior peso político.

 

A segurança alimentar é um desafio fundamental. Não pode haver dúvidas. Como também não deve haver tabus no que respeita à produção transgénica. As culturas alimentares e de consumo corrente de hoje e de amanhã têm que ser mais produtivas, em termos de custos, tonelagem por hectare e de valor nutricional; resistentes às pestes; menos exigentes em termos de irrigação, de fertilizantes e de pesticidas; e capazes de suportar períodos prolongados de seca. As sementes e as variedades que respondem a estes critérios já existem. Por exemplo, o algodão agora produzido na China, e que foi geneticamente modificado, requer dez vezes menos pesticidas que a espécie tradicional. Mas também será necessário continuar a investir na investigação agronómica. A agronomia tem de voltar a ganhar proeminência nas políticas nacionais e comunitárias de investigação científica.

 

Seria um erro pensar que a segurança alimentar é um problema dos outros, que pouco ou nada tem que ver com as preocupações europeias. Num mundo interdependente, uma visão desse tipo leva ao desastre. Por um lado, é de prever que a expansão das culturas destinadas ao fabrico de biocarburantes roube espaço, de modo acelerado, às alimentares. Assim está já a acontecer em França. Por outro, se não houver uma revolução verde em África, a enorme pressão demográfica que esse continente vai viver traduzir-se-á em miséria geral e acabará por gerar ciclones de emigração através do Mediterrâneo. Sem esquecer que na arena global, um pouco por toda a parte, a concorrência com a China e outros países, em matéria de produtos agrícolas de base, será uma luta sem tréguas.

 

Neste contexto, diria à minha amiga que vale a pena voltar a ler o dito relatório do PNUD. E ter presente que o essencial, quando se trata da agricultura, se define em meia dúzia de pontos: apostar na inovação tecnológica; combater a fome; proteger os direitos dos agricultores mais frágeis; preservar a fertilidade dos solos; conservar os recursos aquíferos; e salvaguardar a biodiversidade. 

A ver a paisagem

Passei os últimos dias a viajar de carro, entre a Alemanha e a Polónia.

 

Para saber se estava na Polónia, bastava olhar para a paisagem campestre. Os campos estão, em parte, abandonados, outros, subaproveitados, sobretudo em comparação com as terras alemãs. Quem atravessar a Alemanha de lés a lés notará uma agricultura muito desenvolvida, grandes extensões de trigo, milho e outras culturas de interesse industrial e de valor económico. O mesmo acontece em França, onde a cultura da colza tem conhecido uma expansão a olhos vistos. Ou na Bélgica, e noutros países mais ricos da UE.

 

Dir-se-ia que a Europa mais desenvolvida tem sabido aproveitar os seus recursos agrícolas e criar um sector rural moderno e capaz de acrescentar riqueza à economia nacional.

 

Já o mesmo não se pode dizer de um país como Portugal, onde os campos ainda parecem mais abandonados, e certamente, muito menos aproveitados, do que os que observei na Polónia. Ora, a saída da crise também passa, no nosso caso, por uma revitalização da agricultura. Mas, onde estão a vontade política, a energia e a coragem dos quem têm voz na matéria?

Fome para mais

O departamento África do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) acaba de publicar o relatório de 2012 sobre o desenvolvimento humano no continente africano. O tema do relatório é a segurança alimentar.

 

Vale a pena consultar este documento, embora reconhecendo que a perspectiva do PNUD teria ganho maior profundidade técnica se a FAO tivesse sido associada à elaborarão do relatório. E se as questões da utilização da energia e das tecnologias apropriadas tivessem sido tratadas com a atenção que merecem. 

 

No lançamento do relatório esta tarde, em Bruxelas, na sede da Associação dos Países África-Caraíbas-Pacífico junto da UE, foi curioso ouvir certos embaixadores africanos falar de segurança alimentar, quando se sabe que a agricultura é dos sectores económicos que menos atenção recebe, um pouco por toda a parte, em África. Por exemplo, apesar de uma decisão tomada há alguns anos no quadro da União Africana, em que o compromisso de gastar cerca de 10% dos orçamentos públicos com a agricultura e ramos afins fora assumido, apenas 9 países despendem mais de 5%, por ano, dos gastos do estado no sector. 

 

As políticas agrícolas em África ou são pura e simplesmente inexistentes ou, quando existem, têm sido verdadeiros desastres. 

Campos em flor

Milhares e milhares de hectares de colza cultivados em Franca. À primeira vista, parece ocupar mais espaço do que outras culturas mais tradicionais, como o trigo. Nesta altura do ano, a colza está em flor, o que dá uma tonalidade amarela à paisagem. Os campos ficam lindos. 

 

A colza é um dos biocombustíveis mais importantes na Europa. 

 

Se os franceses conseguem cultivar cada metro quadrado disponível, por que será que em Portugal a grande maioria dos campos está deixada ao abandono?

Aprender com o bem dos outros

Passo a noite nos arredores de Rambouillet e Versalhes, a oeste de Paris. A aldeia chama-se Villiers Le Mahieu e tornou-se um exemplo de como uma zona rural se pode transformar num destino de turismo especializado: conferências e seminários, aproveitando um velho castelo do século XVI, que havia sido construído com base nas ruínas de um outro, que datava do século XIII. 

 

Às conferências e seminários acrescentaram um campo de golfe, uns banhos termais e um excelente restaurante. Tudo num ambiente campestre que parece ter saído de uma pintura bucólica. Um quadro perfeito e tranquilo. Aqui não há casas abandonadas, a ruir porque os herdeiros não se entendem, nem depósitos de entulho nem mesmo terras que não sejam cultivadas e aproveitadas. Recupera-se o antigo, introduz-se a variável qualidade e atrai-se uma clientela de empresas que saibam dar o valor a estes ambientes e tenham condições para pagar o preço. 

 

Afinal, a economia é uma ciência simples, de bom senso e de bom gosto, a que se junta uma boa dose de civismo por parte dos cidadãos. E uma administração pública visionária e responsável.

Assim não vamos lá e a culpa é nossa

 

 

Copyright V. Ângelo

 

O comentário que o leitor P escreveu hoje, relativo ao meu texto sobre o estado de abandono do Algarve, do lado do Sotavento, tem toda a razão de ser. Uma parte importante da economia agrícola da região está em ruínas. 

 

Já ontem o leitor Nação Valente fizera um comentário sobre o mesmo assunto, também muito certeiro. Fez, igualmente, referência à situação muito diferente que se vive do outro lado da fronteira, onde tudo está mais cuidado, cultivado ou aproveitado.

 

E o Tito partilhou a sua opinião sobre Tavira. Uma aldeia grande, sem vida para além do Verão. 

 

Por falar em Tavira, um conhecido meu é proprietário de uma das quintas mais produtivas dos arredores da cidade. Investiu conhecimento - é agrónomo - e dinheiro na propriedade. Produz uvas e laranjas de qualidade. Que não consegue vender. Quando aparece um intermediário, é para oferecer um preço ridículo, que, na maioria dos casos, ficará a dever ao produtor. 

 

Assim, não há economia agrícola que possa funcionar. 

 

Como também é muito difícil ter um rasgo de optimismo.

 

Sem esquecer que a confiança nos concidadãos é fundamental para o progresso social. Sem honestidade nem princípios morais nada funciona. 

 

Entretanto, os Ministérios da Agricultura e da Economia andam aos papéis, sem que ninguém lhe reconheça algum...

 

A economia agrícola

Fim de dia em Angoulême. 

 

Atravessar a França, durante centenas de quilómetros, permite reconhecer que a agricultura francesa, subsídios ou não, é um sector económico altamente desenvolvido. Cada pedaço de terra está aproveitado. Um encanto para os olhos, ver o ordenamento dos campos, e uma vantagem para a economia deste país. 

 

Da próxima vez convido, quem sabe, a ministra da agricultura (?) de Portugal a fazer a viagem de carro comigo... Talvez dê para lhe abrir os olhos. 

Uma agricultura de papel

Voltando ao estado de abandono de muitos campos no Alentejo, à falta de acompanhamento dos proprietários agrícolas, à ausência de uma supervisão eficaz dos destinos dados aos subsídios, do controlo das herdades transformadas em quintas de recreio por gentes ricas da capital, herdades que deveriam ter um estatuto fiscal mais gravoso, etc, etc, queria lembrar que a Direcção Regional de Agricultura do Alentejo tem mais de 25 dirigentes e centenas de quadros e trabalhadores, à volta de 400. 

 

Para que serve? Uma das tarefas emblemáticas desta direcção é o programa de arranque de vinhas. 

 

De facto, com uma agricultura assim...

 

O retrato da democracia deixa-nos preocupados

E a crise da democracia, em Portugal e noutros países europeus? Ninguém parece dar atenção a este assunto, mas a verdade é que a crise é real.

 

Veja-se o caso português.

 

As instituições que sustentam o nosso regime democrático estão enfraquecidas e são constantemente postas em causa. Estão a perder a legitimidade a olhos vistos. A começar pela Presidência da República, que nas últimas semanas mandou para as urtigas muito da sua credibilidade. Depois, o governo, cada vez mais fraco. Está debaixo de fogo permanente. E abre o flanco à crítica, quando nomeia crianças de vinte e picos anos como assessoras políticas dos ministros, mete Catrogas na corrente eléctrica e noutros sítios mais ou menos chorudos, sem contar com a incompetência de gente como os titulares da economia, da agricultura, da segurança social, da justiça, da administração interna, da defesa e mais e mais. Em seguida a Assembleia da República, que não tem qualquer tipo de credibilidade junto de muitos sectores da opinião pública. Da administração da justiça, nem vale a pena falar. Agora, foi a vez de se atacar a instituição militar. As polícias andam aos bonés, sem orientação nem prestígio. A oposição, a do PS, é um labirinto de indecisões. O resto, pertence ao domínio das ilusões perigosas. A demagogia é o pão nosso de cada dia. 

 

Tudo isto é, certamente, muito preocupante. 

 

Que nos valha, ao menos, uma sociedade civil com alguma genica. Mas também essa, sobretudo a ligada às maçonarias, anda nas bocas das gentes. O que resta é fraco. 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

<meta name=

My title page contents

Links

https://victorfreebird.blogspot.com

google35f5d0d6dcc935c4.html

  • Verify a site
  • vistas largas
  • Vistas Largas

www.duniamundo.com

  • Consultoria Victor Angelo

https://victorangeloviews.blogspot.com

@vangelofreebird

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D