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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Humanitários portugueses

Fernando Nobre, o fundador da Assistência Médica Internacional (AMI), é indiscutivelmente um português que conta, em matéria de trabalho humanitário internacional. Tem uma longa experiência, em várias partes do mundo. Quando se pensa nele, deve ter-se em conta essa vivência e não a aventura política em que se meteu há já quase cinco anos. Assim se fará justiça ao papel que desempenha há décadas.

A acção humanitária e a política portuguesa são duas áreas bem distantes uma da outra. Qualquer tentativa de as misturar só pode levar a um grande fiasco.

Tive, esta tarde e vou ter, nos próximos dois dias, a oportunidade de estar com ele numa reunião em Stavanger, na costa ocidental da Noruega. Entretanto fiquei contente por ver que a sua organização tem uma imagem positiva. E gostei de o ver, no final do dia, a jogar aos matraquilhos com uma das técnicas da parte militar da conferência em que estamos empenhados.

Nesta mesma reunião temos mais dois jovens portugueses, filhos da emigração e hoje funcionários de organizações humanitárias da ONU. Um, é franco-português e trabalha com a ONU-OCHA (Office for the Coordination of Humanitarian Affairs), em Genebra. A outra é luso-canadense, está ao serviço do Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas, em Roma. Em breve, estará baseada na cidade do Cairo. Ocupar-se-á então do Norte de África, do Médio Oriente e da Ucrânia. Ou seja, será mais uma portuguesa com uma posição de relevo na resposta às crises humanitárias nessas regiões, que são particularmente problemáticas.

 

 

A solidariedade

Aqui está o link para a crónica que público hoje na Visão:

 

http://tinyurl.com/npup3km

 

E, se seguida, o texto, a partir do original submetido para publicação:

 

 

 

Combater a indiferença

Victor Ângelo

 

 

 

Nos últimos dias de Novembro de 1984, um grupo de artistas lançou, a partir de Londres, uma canção e um movimento de solidariedade a favor das vítimas da fome na Etiópia. Assim surgiu um dos maiores sucessos de ajuda popular, que ficou conhecido como “Live Aid”. Bob Geldof e Bono, do grupo U2, foram, entre muitos outros músicos e cantores, os grandes patrocinadores da iniciativa que teve um impacto mundial e se transformou num marco significativo da história da cooperação internacional. Lembro-me que uma década mais tarde, quando Geldof e Bono apareciam em Nova Iorque, eram recebidos na ONU como figuras lendárias, humanistas a quem se devia respeito e admiração.


Passados quase trinta anos e perante as tragédias da Síria às Filipinas, sem esquecer a situação de pré-genocídio que se vive na muito esquecida República Centro-africana, não me parece descabido levantar uma questão muito directa: somos hoje menos solidários? No fundo, trata-se de questionar a indiferença que agora define a nossa atitude perante o sofrimento em larga escala de muitos dos nossos contemporâneos.


Tenho sublinhado publicamente esta pergunta, nos últimos tempos, sempre que a ocasião o permite. Faço-o por estar convencido que a indiferença diante da desgraça dos outros tem hoje mais peso que o sentido de fraternidade. As imagens televisivas banalizaram a dor alheia. Transformaram os infortúnios em estereótipos. Habituaram-nos a ver os Africanos como gente que vive na miséria e em situações de conflito, os Filipinos como um povo que está sempre inundado e à deriva, os refugiados como pessoas acostumadas à infelicidade e aos afogamentos. E assim por diante. Por outro lado, a crise e o desemprego nos países desenvolvidos têm tirado espaço e força às campanhas que procuram promover a solidariedade com povos distantes. Assim, nos países ocidentais e em Bruxelas, nomeadamente, as instituições oficiais que se ocupam da cooperação para o desenvolvimento e da ajuda humanitária têm estado a perder peso político.


Por outro lado, a opinião pública tem sido subtilmente influenciada pela ideia que o mundo para além das nossas fronteiras nos é hostil. Certos líderes de opinião tentam meter-nos na cabeça que os outros povos apenas pretendem roubar-nos empregos, através da globalização, ou imigrar para as nossas cidades e submergir os nossos valores e tradições. Quando se tem essa visão do estrangeiro, não é fácil aceitar a premência de um sistema de relações internacionais que seja mais justo e mais generoso.


Nas minhas funções internacionais invoquei muitas vezes o princípio da solidariedade entre os povos, quando precisava de mobilizar recursos para responder a desastres humanitários ou para evitar o regresso à violência e a crises civis. Nos últimos anos tive, no entanto, que acrescentar progressivamente mais umas frases, para tentar demonstrar que, para além da solidariedade, estavam também em jogo os interesses nacionais dos doadores. Apenas a combinação destes dois argumentos permitia mover as burocracias e soltar os cordões à bolsa. Hoje, até este entendimento é mais curto. Os interesses nacionais, para as maiorias que nos governam, têm apenas que ver com os resultados que irão sair das próximas eleições.


Num contexto assim, é fundamental apoiar os esforços dos cidadãos e das associações que estejam genuinamente empenhados em tarefas altruísticas. Também é essencial que se continue a falar destas coisas. Para combater a indiferença e lembrar que a solidariedade é um valor humano que nos permite estar mais vivos na vida que nos rodeia.

De novo sobre o Mali

Eis, na íntegra, o texto que publiquei na Visão (revista impressa) de 8 de Maio, sobre a situação no Mali e as respostas da Europa e de outros:

 

 

Mali exemplar

Victor Ângelo

 

 

 

É um país fascinante, graças à sua geografia e cultura. Na encruzilhada dos caminhos que entrelaçam a África Negra e a mestiçagem do Sahel, a história moldou o Mali como um território de tradições ancestrais, de encontro de civilizações e de tolerância. Tombuctu, a cidade símbolo de um Islão humanista e culto, faz parte do património e do imaginário mundial. Mas, nas últimas décadas, a má governação, o colapso do Estado, a pobreza crónica e a desertificação progressiva empurraram uma boa parte dos melhores para a emigração e outros para uma mistura explosiva de miséria, medos, extremismos e criminalidade organizada. A polarização étnica passou a ser, para os que ficaram, o único ponto de ancoragem seguro. O país fragmentou-se. E, como se sabe, uma nação profundamente dividida caminha a passos largos para a catástrofe social e política.


A queda de Kadhafi contribui para que a catástrofe anunciada se tornasse real. O ditador de Trípoli oferecera emprego a muitos vindos do Mali e arredores, numa chamada “Legião Africana” e, mais tarde, como parte da sua guarda pretoriana. O fim do regime levou à debandada desses legionários, que regressaram às suas terras de origem, com armas e bagagens. Vários de entre eles eram Tuaregues do Norte do Mali. Em Março de 2012 ocuparam o território que consideram ancestral, sob a bandeira do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad, e declaram-se “independentes”. Pouco a pouco, as facções ligadas aos grupos religiosos fanáticos foram ganhando o controlo. Em Janeiro deste ano, uma aliança de islamitas radicais e de Tuaregues aventureiros tentou penetrar na parte sul do país, uma zona étnica e culturalmente negro-africana, distinta da metade norte arabizada e mestiça. Foi o pisar de um risco de alerta, que levou, em meados de Janeiro, à intervenção francesa. E ao destacamento de tropas africanas, entre as quais, as mais efectivas de todo o Sahel, as do Chade.


Seguiu-se, duas semanas depois, uma conferência de doadores. Do dinheiro prometido apenas cerca de um quarto foi, para já, disponibilizado. Uma proporção significativa desses fundos deveria financiar a ajuda humanitária, indispensável para a sobrevivência dos deslocados internos e dos 180 000 refugiados em países vizinhos. As ONGs informam-nos, agora, que mais de 4 milhões de malianos estão à beira da penúria alimentar. Em breve, a 15 de Maio, haverá uma nova reunião de doadores, desta vez sob a égide da Comissão Europeia. Receio que sejam feitas novas promessas e que se continue a alimentar a ilusão que eleições presidenciais e legislativas são possíveis em Julho. Ora, as prioridades são claras: responder à urgência humanitária, promover a reconciliação e a unidade nacional, pôr a funcionar a administração civil e avançar com a reforma do sector da segurança. Sobre este último ponto, diga-se que a missão da UE no terreno, que deve apoiar a refundação das forças armadas do Mali, não pode fingir que vale a pena treinar soldados que não serão pagos. E que não possuem equipamento e logística, nem chefes à altura.


Entretanto o Conselho de Segurança da ONU acaba de aprovar o envio de uma força de paz para o Mali. Trata-se de 11 400 militares, mais 1 440 polícias e um milhar ou mais de funcionários civis. Parece-me, à primeira vista, um exagero. Sobretudo se se tiver presente que haverá, para mais, uma presença de tropas especiais francesas. E que os terroristas que restam serão, no máximo, umas centenas. Sem contar que a vocação dos capacetes azuis não é a de combater o terrorismo. Mas, quem aprendeu a manejar um martelo tem dificuldade em pensar noutros instrumentos. O caso do Mali lembra-nos isso!

 

 

Síria, urgente

No dia em que foram mortos, em Homs, na Síria, dois jornalistas internacionais, Marie Covin, uma mulher de grande coragem, correspondente de guerra veterana, e Rémi Ochlik, um jovem de 28 anos, mas já com vários prémios no currículo, a discussão sobre uma possível intervenção militar estrangeira tornou-se mais intensa. Uma operação desse tipo, diria quem sabe, está fora das hipóteses. Mesmo uma operação com objectivos muito limitados, por exemplo, o estabelecimento de zonas de protecção de civis, é impossível, nesta fase e imprevisível, no futuro. 

 

O que é possível é o treino, acompanhamento e o fornecimento de meios aos grupos armados que se opõem a Assad. Essa parece ser uma via que está a ser explorada por alguns países, os suspeitos do costume. 

 

Mas, para a comunidade internacional, a questão fundamental mais urgente é a de pôr fim à violência contra civis. Como o conseguir? Como chegar a um acordo? Por onde começar?

 

Este tem que ser o ponto de partida para as negociações entre os principais actores internacionais. Sem mais demoras.  

A UE perdida no deserto

Numa altura em que a NATO e a UE se reúnem, cada uma para seu lado, sobre os passos seguintes, no que respeita ao drama líbio, em que a França decide reconhecer, sem consultar os seus parceiros, o conselho rebelde, e em que ministros dizem, Kaddafi c'est fini, publico um novo texto na Visão. 

 

É uma reflexao sobre a maneira como a Europa tem estado a responder aos acontecimentos no Norte de África.

 

Procura também ser uma contribuição serena, numa altura em que a Europa parece estar mais agitada que nunca, sem saber bem para que lado se voltar.

 

O artigo pode ser lido no sítio:

 

http://aeiou.visao.pt/fraquezas-e-franquezas=f593543

Fazer anos ao Domingo

Foi dia de anos para a ONU. Somando, 65.

 

Mas fazer anos ao Domingo não é boa ideia. Quantos se terão lembrado que esta organização, hoje com 192 Estados membros, com muitas fraquezas, mas, ao mesmo tempo, indispensável para a estabilidade das relações internacionais, comemorava os seus muitos anos de existência? 

 

 

Promessas sem seguimento

Depois do terramoto, teve lugar uma reunião de doadores. As promessas foram muitas, os anúncios de ajudas chegaram aos milhares de milhões.

 

Seis meses passados, apenas a Austrália, o Brasil, a Estónia e a Noruega cumpriram o que haviam prometido. As suas contribuições estão já a ajudar o Haiti. Os outros países, incluindo Portugal, não honraram ainda a sua palavra.

 

No total, apenas 10% do que fora anunciado na conferência de doadores foi efectivamente posto à disposição da reconstrução do Haiti. O resto vale o que valem as palavras ocas de governos que, depois do espectáculo, passam à frente e esquecem o que haviam dito.

 

Assim se está a fazer política internacional. 

Interrogações

Dez minutos de televisão, às 20:00 horas, valem uma fortuna. Em todos os sentidos. É horário nobre. A televisão oficial portuguesa, a RTP1, passou os primeiros 10 minutos do telejornal da noite, a falar do novo treinador de um clube de futebol de Madrid.

 

No mesmo dia em que os soldados de Israel tomaram de assalto um barco de ajuda humanitária, em águas internacionais. Uma acção militar contra civis que causou a morte de pelo menos 9 pessoas. Um incidente que motivou uma reunião de urgência do Conselho de Segurança, em Nova Iorque, num dia em que a ONU estava encerrada por motivo de feriado americano. Que fez reagir as principais chancelarias da UE, sem mencionar os países fora da União.

 

O acontecimento foi notícia de abertura em todos os telejornais da Europa que consegui monitorizar.

 

Que pensar sobre tudo isto?

 

 

Novos tempos

 

Hoje e amanhã estou de férias, agora já em terras europeias. No começo da semana que entra, tenho que terminar o relatório de fim de missão, despachá-lo para Nova Iorque e acertar as datas de uma pequena estada de despedida na Sede. Nova Iorque, Nova Iorque. Assim se fecha o capítulo principal da minha vida profissional, várias décadas de trabalho com a ONU, nas áreas do desenvolvimento, da ajuda humanitária, da política e, nos últimos anos, da segurança e da paz. A partir de agora, poderão surgir algumas ocasiões de colaboração pontual, mas nada de permanente e de longo prazo. Já chega. Há que deixar espaço para que outros o possam fazer.

 

Assim é a vida. Só posso dizer que tive sorte. Foi uma experiência muito variada. Com muita substância. A dar-me uma visão mais ampla do estar no mundo.

 

Entretanto, entre outros projectos, vou começar a minha colaboração com o Conselho da Europa. A tempo parcial. Farei parte de um pequeno grupo de reflexão, uma coisa nova, oito pessoas, quatro europeias, quatro de outras culturas. Iremos fazer propostas, que se querem inovadoras, sobre as relações entre a Europa e os países do Sul. Incluindo num domínio pouco estudado, as questões da juventude. Dar outras perspectivas aos jovens, em particular aos das margens Sul do Mediterrâneo, para que tenham oportunidades sem que necessitem de sair das suas terras e emigrar.

 

Prometo, também, que vou expandir a minha produção escrita. Mais textos, mais reflectidos, mais investigados. Mais intervenção.

 

Conto com os meus amigos, claro. 

Perder a cabeça

 

As palavras matam. Destroem. É preciso muito cuidado com o uso das palavras. Sobretudo quando interesses estratégicos estão em jogo, as relações entre Estados, o futuro de certas intervenções humanitárias, as vidas de muitos, investimentos de grande envergadura.

 

Comentários mal compreendidos, ditos no momento errado, podem parecer que são muito inteligentes, mas na realidade, são facadas no coração do futuro.

 

A política e a diplomacia, que são o que faço no dia-a-dia, exigem que se pese cada palavra. Que se não percam de vistas os interesses a médio e longo prazo. Que se fale pouco. Mesmo quando a ocasião parece informal.

 

Estou neste momento a tentar gerir uma crise muito crítica que deriva de palavras que um dos meus disse sem perceber bem que uma pessoa com o seu nível de responsabilidades não pode dizer tudo o que lhe vem à cabeça. Se o faz, perde a cabeça.

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