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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Entre as dunas da memória

 

Estou de regresso aos meus desertos.

 

Havia, outrora, um cão perdido no deserto. Não era da variedade local, um tipo de galgos esbeltos, castanhos e dourados, de orelhas atentas e ponteagudas -- tive um desses exemplares quando estive na RCA, levei-o para a Gâmbia, quando fui enviado para essa terra, era um animal de uma inteligência rara, Rex de seu nome, e de facto tinha a postura. Mas o bicho desta historieta não era nem nunca havia sido um galgo das areias do Sahel. Era um animal como todos os outros, rafeiro vagabundo nos calores das miragens. Um pobre diabo a viver no meio de paisagens de muitas cores e de tons fortes.

 

Sentia-se tão perdido que cada vez que via passar uma caravana de homens tentava aproximar-se, passar a fazer parte da trupe. Mas os homens, quando o enxergavam ao longe, viam uma fera das dunas, não o miserável cachorro que o bicho era. Disparavam sua direcção, afugentando assim o infeliz solitário.

 

Acabou por perecer num dia em que a tempestade de areia foi ainda mais severa. Mas, na memória dos caravaneiros e dos que andam em fila indiana, ficou a imagem de uma besta feroz, caçador implacável e arguto, que só podia viver no meio das pedras secas.

 

Uma fábula sem moral

 

 
 
 
O Sapo e o Elefante
 
Com o tempo, o Sapo convenceu-se que era o rei da poça de água. Outros animais passavam, diariamente, pelo local, para matar a sede. Pouco tempo ficavam, que, na selva, os sítios onde existe o precioso líquido são sempre muito perigosos. Todo o tipo de emboscadas acontecem junto aos pontos de água. Apenas o Sapo vivia na falsa tranquilidade de um sítio que, a qualquer estranho menos experiente, pareceria tão ameno.
 
Um Elefante começou a frequentar o charco com regularidade. Banhava-se demoradamente, deliciava-se na lama, sentia-se bem na frescura da paisagem. Era um Elefante muito ruidoso, de grandes espalhafatos. Muitos dos frequentadores do atoleiro desistiram da frequentação. O bulício provocado pelo gigante tornava o local ainda mais arriscado, pois deixava de ser possível ouvir os ruídos mais subtis dos que vivem da perdição dos outros.
 
O Sapo passou a ver o Elefante como o seu inimigo principal. Não gostava da concorrência. Caiu-lhe mal que o seu pequeno paraíso tivesse sido abandonado pelos outros animais. Ele que era o chefe do pântano! Estava a perder os súbditos.
 
Cada vez que se via reflectido na água vinha-lhe á cabeça comparar-se com o Elefante. Á força de se mirar, começou a convencer-se que era, pelo menos de peito, tão corpulento como o mastodonte. Mas como era de natureza medrosa, não se atrevia a medir-se com a besta.
 
Nas redondezas vivia uma boa de formato grande. Tinha o hábito de caçar antílopes. Mas estes eram cada mais raros, nas margens do charco. O Sapo pensou, e bem, que a jibóia poderia ser um aliado de peso, na cruzada para correr com o Elefante. Uma serpente com razões de queixa é uma ameaça de grande efeito.
 
E o Elefante acabou por ir à procura de outras paragens. O Sapo viveu uns momentos de grandeza, senhor que era de novo deste éden de lama e águas turvas. A boa esperou que as impalas voltassem. Mas esperar é exercício de paciência e a paciência nem sempre mata a fome. Nem o Sapo a matou. Que engolir um Sapo é obra pequena, quando se vive ao lado de uma jibóia de corpo inteiro.
 
 
Copyright V. Ângelo

 

Paz de Natal

 

O pobre do camelo não teria cornos mas a sua carne era rija como os ditos.

 

E muito mal temperada. Não dava para disfarçar.

 

Uma ceia de Natal diferente.

 

Com a situação na área das nossas operações, na RCA, a ficar cada vez mais violenta, incluindo o risco acrescido de raptos de Ocidentais, o desejo desta quadra é que haja tranquilidade e respeito. Duas características pouco frequentes, nas terras que frequento.

 

E ainda há quem diga que o pessoal dirigente da ONU são uns meros burocratas...

 

Fora isso, e esquecendo a comida, um bom Natal.

 

 

Quotidianos

 

Ontem ao fim do dia, um dos nossos colegas morreu num acidente de viação. Um carro militar, do exército nacional, bateu na mota do colega. Os soldados circulavam, como de costume, a uma velocidade excessiva. O jovem colega, um nacional pai de muitos filhos, ficou com a cabeça esmagada. O camião militar seguiu caminho, que nestas terras manda quem pode.

 

Entre uma conferência telefónica com o Director-geral do Ministério da Defesa da Noruega e uma reunião sobre os avanços na construção das nossas bases, prestei homenagem ao falecido e apresentei os pêsames à família. Foi uma cerimónia digna, mas insólita. Os familiares estavam todos, com o corpo, à porta do meu escritório, à espera que tivesse um momento livre, gente árabe pobre e resignada, que a vida passa a fugir, nestas paragens.

 

Esta manhã, um outro colega, desesperado por uma boa parte da área do aeroporto estar com os acessos fechados, que havia dois chefes de Estado na zona, prestes a partir, o que faz encerrar tudo, até o espaço aéreo, resolveu entrar no aeroporto pelo sector militar francês. Ninguém sabe como conseguiu passar, mas passou. O leitor e eu, não teríamos passado.

 

Como a base francesa é do lado Norte e o aeroporto civil, onde se encontravam o avião que o deveria levar a Abéché, é na parte Sul, o nosso homem resolveu atravessar a pista com o seu carro. Um tipo decidido. A expressão diz que não pensou duas vezes, mas creio que, no seu caso, não pensou vez alguma. Nessa altura um dos nossos voos estava já na fase de aproximação da pista, a duas dezenas de metros do solo. Os pilotos só tiveram tempo para abortar a aterragem, nem sabem como foi possível. 

 

Prendemos o nosso homem. Ainda não percebeu bem porquê. Amanhã vai ser novamente interrogado. A verdade é que na aldeia donde provém, num ponto distante de um país fora de mão, as cabras andam alegremente pela pista do aeródromo local. Um aeródromo de aldeia não é exactamente a mesma coisa que um aeroporto internacional. Talvez o entenda um pouco melhor, depois da conversa a que vai ser submetido.

 

Com tanta gente à nossa volta, as surpresas são quotidianas.

 

Mas o dia ainda não havia acabado. O meu director político mandou-me uma mensagem desesperada, a perguntar qual o destino a dar a um casal de ovinos que me foi oferecido, há mais de um mês, pelo prefeito da cidade de Guéréda. Um casal lindo, puramente brancos de lã, reprodutores de alta qualidade. Uma grande honra. Mas Guéréda fica a quase mil quilómetros de areias. Que destino dar aos bichos? Não podem continuar nessa cidade, o prefeito vai pensar que eu não dei importância à dádiva. Também não podem passar ao espeto, seria uma ofensa, que são animais de puro sangue. Para a produção de mais bichinhos semelhantes.

 

Como as regras não permitem transportar animais nas naves da ONU, a única hipótese é fazer como os pastores nómadas de aqui: caminhar com os animais até ao destino final. Mas não tenho dias de férias suficientes.

 

Enfim, mais um problema para resolver.

Passarões

 

Copyright V. Ângelo

 

Águia de grande porte, apanhada pela minha máquina 10 quilómetros ao Sul de Birao.

 

Para quem gosta de ver aves de todos os tamanhos e cores, o caminho passa por aqui.

 

Recentemente, o jet que me transporta cruzou-se com uma outra águia, a cerca de 3 500 metros de altitude. Foram dois ou três segundos de grande emoção. Como pode uma ave planar a uma altitude tão elevada?

 

Os nossos passarões de Portugal voam bem mais baixo e sem graça. Quanto a visão, digamos que pouco mais enxergam do que a distância que vai até à sua conta bancária. Não vale a pena perder tempo com eles.

A ratazana do meio da noite

 

A dentada fez-me acordar. Eram 03:35. Mesmo nestas terras do cedo amanhecer, não era hora para despertar. Mas a atrevida deu-me uma dentada no cotovelo esquerdo -- seria certamente uma ratazana de direita. Saltei da cama, a sangrar, mais de surpresa que de raiva, e lá estava ela, escondida na casa de banho. 

 

Acabou por fugir. O polícia de serviço, como de costume, não tinha autorização de dar tiros nas ratazanas que nos mordem.  

 

Em quase trinta anos de África, foi o primeiro encontro do género. Se isso me tivesse acontecido na Serra Leoa, hoje estava internado na zona de isolamento máximo do hospital. Por causa da febre de Lassa, que matou alguns dos capacetes azuis naquele país. Como é uma febre facilmente transmissível, e quase sempre angustiantemente mortal, todos os que caíram vítimas acabaram por não poder ver o seu corpo trasladado para os seus países de origem.

 

A minha visita desta madrugada é duma espécie mais amigável. Só morde. Muito bem. Sempre posso ir hoje à tarde para a zona da fronteira. Como se estivesse a fugir das ratas do mundo.

O mundo passa ali ao lado

 

Copyright V. Ângelo

 

Este bicho, apanhado ao acaso dos meus andares, passa a vida à janela, como qualquer senhora dos prazeres, no distrito vermelho de Amesterdão. Mas tem um modo de vida mais ingénuo. Mais ainda. Não é candidato às eleições europeias, embora pense que a abertura das fronteiras tornou a vida de cão que muitos de nós vivemos um pouco mais fácil. Quando se está farto de sofrer em Portugal, na miséria da nossa ignorância que se ignora, tenta-se recomeçar a vida noutros Luxemburgos, à trela dos interesses locais. É tudo uma questão de andar à procura do osso, que o bife está pelas horas da morte.  

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