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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

De volta, na linha da frente

 

Aos meus queridos amigos e fiéis leitores, aqui fica o anúncio que estou de volta. Fui libertado do hospital hoje de manhã. Estou fino, dizem os que me guardaram nestes últimos dias. Sinto-me, na verdade, bem. Vou ficar uns dias em casa. Num combate diferente, que eu não gosto de parar, mas com mais conforto. A minha vida é, sempre foi, e sempre será um combate. Vale a pena.

 

Mas acima de tudo, quero agradecer a todos os que me deixaram mensagens de simpatia e carinho, aqui no blog, bem como aos que me escreveram, enviaram SMS e me telefonaram. A vossa amizade, o vosso amor, o vosso cuidado, foram-me direitos ao coração. As imagens nas máquinas mostraram que o meu ritmo cardíaco ficava mais sereno cada vez que eu recebia uma mensagem vossa.

 

É que a amizade dá vida ao coração.

Um Domingo de Sol

 

Acordei às 04:20 horas, com um gerador metido na cabeça, tal era o barulho que a máquina fazia, e a pensar nas centenas de milhares de refugiados que estão em risco de ficar sem a nossa protecção de segurança, caso não se consiga desbloquear a negociação com o Governo do Chade. Uma má maneira de começar um Domingo. Preocupações e dores de cabeça, que os cabelos já são poucos para ficarem ainda mais brancos.

 

Mas esteve um dia lindo. Um céu de fazer inveja, limpo como uma donzela num conto de fadas, e uma temperatura a dar vontade de pensar em coisas boas. Escrevi o que tinha que escrever, para a Visão, serviu para serenar. E voltei a exortar todos, incluindo os que estão nas terras frias das margens do Rio Hudson, a adoptar uma atitude razoável. Posições radicais levam os homens à perdição e fazem sofrer os mais vulneráveis.

 

Estive também a fazer as minhas contas. Os dias de Fevereiro e de Março têm que ser bem contados. É que mudar de vida, depois de tantas décadas de vida institucional, dá muito pano para mangas. Por muito claro que tenha sido, não me livro, como ainda hoje aconteceu, hoje, Domingo, de pressões vindas de Nova Iorque. Vejam lá, querem que continue mais um ano! Na verdade, tenho a intenção de continuar mais um, mesmo mais uns anos, muitos, para dizer a verdade. Mas na vida, apenas, a apanhar Sol, nada mais, que um Domingo de Sol faz bem à cabeça. 

Um jantar português, sem rebeldes

 

Luís Amado jantou hoje em N'Djaména com a comunidade portuguesa. Com os elementos do GOE, profissionais de qualidade, que asseguram a minha protecção pessoal. Com os oficiais da PSP, gente boa e dedicada, que estão a formar a polícia do Chade. Com o Leonardo C., que coordena a segurança dos trabalhadores humanitários junto à fronteira com El-Geneina, a cidade do Darfur que é um ninho de ratos armados. O Leonardo vive no nosso campo militar de Farchana, no meio do nada. Almoça frango com arroz, na messe dos soldados do Gana, e janta arroz com frango. Hoje, agarrou-se a um bife de boa qualidade. É um homem de carnes. Com o Eduardo, o político da delegação da UE. Acaba de chegar ao Chade, onde vai secar durante os próximos três anos. Com todos nós, excepto os três missionários comboianos, que pregam no Sul do Chade. Missionários de Cristo em terras do diabo. Não puderam vir, não há capital para tanto.

 

O Ministro ofereceu-me uma caneta. Para quem gosta de escrever, é o presente ideal. Um presente que é um simbolo. Disse-me que aprecia o que faço. Acredito. Quase que advinharia que gostaria de estar no meu lugar. É que os rebeldes que nós temos por aqui são mais verdadeiros, mais sinceros, mais previsíveis que os que ele tem que enfrentar na Assembleia da República, em S. Bento. Sem contar com os fantasmas que percorrem os corredores das Necessidades.

 

Capitais do mundo

 

Ainda estou por aqui. Quem diria? A custo, mas estou. Para mais, o meu artigo desta semana, na VISÃO, é sobre o Afeganistão, a União Africana e a pretensão chamada Davos.

 

Dizem que vale a pena ler.

 

O editor on-line demorou algum tempo antes de disponibilizar o texto para os leitores que se servem da Net. Mas acabou por chegar. O homem disse que estava muito ocupado. Acredito. Também eu ando muito ocupado. E o mundo, que ocupado está! É esse, aliás, o título do meu trabalho.

 

http://aeiou.visao.pt/um-mundo-muito-ocupado=f546129

 

Está tudo bem?

Disputas de sucateiros e botas velhas

 

Passei algum tempo, esta tarde, a falar ao telefone com o A. Guterres. A determinada altura disse-lhe que, se ele vier em Março à África Central, como está a planear, será muito provável que eu já não esteja nas paragens. Reformado. Sim, sentado num banco de jardim, no Restelo. Sem estar a olhar para Belém, não hajam equívocos.

 

Não queria acreditar. Como seria possível deixar um emprego como o meu? Depois percebeu que as minhas décadas com a ONU não foram passadas a resolver a crise da Islândia ou o separatismo no Québec. Nem a partição de Chipre, acrescentei eu. Foram vividos no meio de conflitos mais ferozes, vidas mais ásperas, ambientes de grande tensão. Ou seja, talvez já seja tempo de procurar climas mais amenos e passar o tempo com disputas mais caseiras, do género dos sucateiros da nossa terra.

 

Entretanto o meu amigo Staffan de Mistura, um homem mais velho do que eu, foi nomeado como representante especial para o Afeganistão. Tenho amigos que não conseguem parar, sair desta vida de homens dos sítios impossíveis. Cada um sabe de si. É verdade que o Afeganistão é um desafio muito tentador. Mas há outros, bem mais perto de casa. Basta pensar nos "afeganistães" que são certos bairros da periferia de Lisboa.

 

Caras de pau

 

Ando metido numas negociações difíceis. Que exigem muita diplomacia. É como se ambos os lados estivessem perante uma garrafa de água e a parte mais forte dissesse que se trata, na verdade, de aguardente. Sim , de aguardente. Perante isso, que deve fazer um diplomata experimentado? Dizer que não, não senhor, é água, água, água? Bater com o pé e dar murros na mesa? Seria o fim da discussão. Cada um iria à sua vida e ficava tudo por resolver.

 

Prefiro dizer que é mesmo capaz de ser aguardente, mas, ao mesmo tempo, propor que se tente utilizar essa "aguardente" para regar as rosas que estão a brotar. Porque, na realidade, o importante é conseguir que as flores não murchem.

 

Numa negociação, o fundamental é não perder de vista os objectivos que se pretende atingir. E manter uma postura realista, perceber bem o que é possível, as razões da outra parte, e saber manter o silêncio, quando as palavras podem enfraquecer o jogo.

 

É tão difícil estar em silêncio perante os outros. Mas é muito eficaz.

 

No caso concreto, a parte oposta consegue manter uma cara de pau. Nem uma linha do rosto se move. Não há body language. Mas um aperto de mão, no momento da interrupção das negociações, pode quebrar muito gelo. É que os caras de pau sabem o valor do respeito, apreciam as boas maneiras, mesmo quando o desentendimento é muito sério.

 

Os povos do Sahel, gente habituada às paisagens ressequidas, são combatentes natos. Gostam da guerra. Por isso, não é muito produtivo entrar num conflito em que as únicas pedras em jogo são apenas o sim e o não. É que a vida tem muitos matizes.

 

 

Bangui,vinte e tal anos depois

 

Vivemos em Bangui entre Setembro de 1985 e Setembro de 1989. Depois de quase cinco anos em Maputo, Bangui parecia um paraíso de tranquilidade, mas muito perdido no coração de África. O destino seguinte foi a Gâmbia.

 

Hoje Bangui, onde estou a escrever este texto, está mais bonita. La Coquette, como gosta de ser conhecida. Tem mais ruas, mais alcatrão, mais gente. Até tem dois ou três monumentos. Mas menos actividade económica, menos Europeus. O clube de ténis, que nos anos oitenta era frequentado por muitos sócios, até às 22:00 horas, fecha agora às seis da tarde. O Rock Club, onde as minhas filhas passavam o fim do dia, nas actividades extra-escolares, mesmo junto ao rio Ubangui, em frente do Congo Democrático, está meio parado e a cair de sujo.

 

O aeroporto tem um voo por semana para a Europa. Chega-se aqui às Quintas, cedo, passa-se o dia em reuniões e volta-se a Paris no mesmo avião que nos trouxe, levanta-se voo depois do jantar.

 

As árvores de grande porte estão agora mais velhas. A cidade é conhecida pelas inúmeras árvores de mangas. Na estação das mangas, os jovens andam de um lado para o outro com grandes varas, vários metros, e vão derrubando os frutos mais apetitosos.

 

É um mundo fora do mundo.

 

 

 

 

Um sonho distante

 

O dia começou com a poeira do harmatão. Aquele pó fino, vindo do deserto do Sahara, que entra por todos os poros, entope as narinas, traz infecções respiratórias, vírus e outras maleitas. A temperatura era de 16 graus, às sete e meia da manhã. Frio, para estas gentes, Inverno rigoroso.

 

No final do dia, o céu voltou a estar limpo. Um ar ameno e fresco. Fez-me bem sentir a brisa da noite, depois de um dia fechado em milhares de problemas. Um dia de pouca visibilidade, em todos os sentidos. Continuámos as nossas discussões sobre o futuro da MINURCAT. Nada fácil, discutir o futuro. O futuro constrói-se, dizer isso não deveria ser uma banalidade. Exige coragem e ideias claras. Mas discutir com governos é uma arte chamada paciência.

 

Dizem que tenho alguma. Sou tão paciente como um vulcão que ainda não explodiu.

 

A ONU faz aqui mais do que seria de esperar. É fundamental para a segurança das pessoas, na área de operações. Mas há sempre quem diga que é pouco, insuficiente. Esquecem que as Nações Unidas são apenas aquilo que os Estados membros querem que sejam. Com todos os atrasos e defeitos dos países que compõem a organização.

 

Continuaram as críticas ao nosso trabalho no Haiti. À falta de coordenação humanitária. À subordinação aos Estados Unidos. Entretanto, ninguém fala da falta de presença das instituições europeias, que sacam todos os anos centenas de milhões de Euros dos contribuintes para ajuda humanitária, através do ECHO --tenham a curiosidade de ir ao Google -- e que brilham pela ausência.

 

Por isso se diz que a Europa é um sonho. Longínquo, bem entendido.

 

Uma vida em movimento

 

Copyright V. Ângelo

 

Esta é a altura do ano. A estação seca é um momento de grandes movimentos, em toda a África Saheliana.

 

As populações deslocam-se para Sul, com os animais, à procura de pastagens, as mercadorias circulam, porque as estradas voltam a ser praticáveis, os mercados reaparecem e, também, para que os stocks estejam altos quando chegarem as chuvas de Junho, os rebeldes vagueiam pelas savanas e pelos caminhos de terra batida, os caçadores furtivos andam a fazer das suas. Por exemplo, na região da República Centro-Africana, onde estive na Sexta-feira, foram abatidos ilegalmente cerca de 800 elefantes em 2009. O marfim sai em direcção ao Sudão e daí entra na rota do Extremo Oriente, onde é transformado em objectos de decoração.

 

Camelos são exportados vivos em direcção à Líbia, ao Egipto e mesmo até à Jordânia. Vão pelo seu pé, em grandes manadas, numa altura do ano que é mais fresca, o que permite aos animais passar mais de duas semanas sem beber. Centenas de milhares de peles de vaca atravessam distâncias incalculáveis, em camiões que mal se mantêm sobre as suas rodas, trilhos de desolação sem fim, a caminho das fábricas da Nigéria, para serem transformados em couro. A goma arábica viaja para Norte, para as fábricas em França, ou para Leste, a caminho da Índia. É uma das fontes de rendimento dos camponeses pobres das terras secas.

 

As pessoas tentam ganhar a vida, sobreviver para além da miséria. Não é fácil, mas se houver paz e segurança, e respeito pelos direitos mais básicos da pessoa humana, a vida é possível. Há que criar essas condições mínimas e acreditar nas gentes destas paragens, de Sol forte, que queima mas que também dá cor vivas à esperança.

 

 

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