Portugal é grande quando abre horizontes

22
Mar 16

De Bruxelas, preocupado mas com calma

Victor Ângelo

 

 

                Esta semana, o meu plano era escrever sobre as ameaças terroristas. Parecia-me lógico, no seguimento das operações policiais de há dias, aqui em Bruxelas, que levaram à detenção do homem mais procurado na Europa, Salah Abdeslam, o bombista de Paris que resolvera não fazer detonar a sua cintura de explosivos. E ainda ontem, no meu programa semanal sobre assuntos europeus, produzido para a Rádio TDM de Macau, tive a oportunidade de referir que seriam de prever novos atentados, nos próximos tempos. Não apenas por causa da captura de Salah, que parece disposto a abrir a boca e a contar umas coisas, que serão certamente de grande interesse para a polícia, mas também porque o famigerado Estado Islâmico está cada vez mais acossado. Quando isso acontece, a sua liderança gosta de lançar a confusão noutras terras, nomeadamente na Europa.

            Não imaginava eu que essa possibilidade de mais atos de terror iria materializar-se tão cedo, ou seja, hoje, ao começo do dia de trabalho nesta cidade que se tornou uma pequena loucura de movimento de gentes e de viaturas nas horas de ponta. O aeroporto nacional, por volta das oito da manhã, de semana, está sempre num rodopio, gente que chega e que sai, muitos em viagens curtas, com regresso ao fim do dia, para ir assistir a uma reunião aqui e acolá. Também o faço muitas vezes. Bruxelas está geograficamente, e não apenas politicamente, no centro da Europa, e o aeroporto é uma placa giratória importante, muita gente jovem e outros no auge da vida ativa a chegar e a partir ao começo do dia.

            Quem decidiu colocar as três bombas no aeroporto, a essa hora, sabia que essa ação teria um efeito máximo. Uma vez mais, o inimigo mostrou capacidade de planeamento e de escolha dos alvos de maior impacto político, mediático e, desta vez, económico.

            E mostrou mais. Ao decidir fazer explodir, uma hora e picos depois, uma outra bomba na estação do metropolitano de Maelbeek, em pleno coração do distrito europeu e numa altura de muita passagem de pessoas, fez-nos lembrar que a união dos europeus, o projeto comum, é um alvo. Enfraquecer a UE, pôr em causa a sua imagem e, acima de tudo, a sua capacidade de resposta em matéria de segurança, interessa a muita gente, e seguramente aos terroristas do Estado Islâmico.

            E alguns idiotas do Brexit também. É verdade e fiquei chocado. Houve logo quem aproveitasse, no Reino Unido, e tentasse tirar partido dos trágicos acontecimentos de Bruxelas para fazer uma vez mais campanha pelo Não, pela saída da UE, dizendo que Bruxelas e a Europa não são terras seguras.

            São, sim senhor. Foi aliás isso que disse a muitos dos meus amigos, espalhados por vários cantos do mundo, que me telefonaram para perguntar se eu estava são e salvo. Estou, sim. Abalado, preocupado, triste perante o sofrimento de tantos, mas determinado e confiante.

            E estaremos todos assim, apesar do terrorismo, se mantivermos um rumo firme na cooperação europeia em matéria de segurança e de política internacional. Há aqui um desafio de liderança, mas é uma batalha que com o tempo pode ser ganha. Nestas coisas, quem perde, mais tarde ou mais cedo, são os terroristas e todos os radicais extremistas e violentos. E seríamos nós, também, se entrássemos em pânico.

 

(Texto que acabo de publicar na Visão on line sobre os dramáticos acontecimentos de hoje em Bruxelas)

publicado por victorangelo às 12:53

17
Fev 16

            Cameron, um equilibrista sem rede

            Victor Ângelo

 

 

 

            Seria impensável não voltar a escrever sobre o Brexit. Trata-se de longe da questão mais importante da cimeira desta semana do Conselho Europeu. Depois disso, será a corrida para o referendo, previsto para finais de junho. Os eleitores britânicos terão na altura que se pronunciar sobre a permanência ou não do seu Reino na UE.

            Os chefes de estado e de governo deverão aprovar as soluções propostas por Donald Tusk há cerca de quinze dias. São razoáveis, inspiradas por uma vontade de se chegar a um acordo. Respondem, na medida do que é possível quando o que está em jogo é o consenso de 28 estados, às preocupações de David Cameron. E tudo isto deve ser dito de modo claro, pelos dirigentes dos estados membros.

            Não se pode, no entanto, ir mais além e abrir a porta a mais e mais concessões. O Reino Unido já está fora do Euro, de Schengen, das políticas comuns sobre a justiça, a segurança interna e as migrações. Ou seja, quando não lhe convém não aceita o princípio básico do projeto europeu, o da soberania partilhada. Tem, desta vez, que ficar claro que Londres não pode continuar a exigir sol na eira e chuva no nabal. É o momento da verdade. Ou o Reino Unido pega no que está agora em cima da mesa ou então, estaremos conversados. Já se gastou tempo e energia suficientes com um assunto que, à partida, era fundamentalmente um artifício de liderança partidária, um problema interno do Partido Conservador, e que acabou por se transformar numa ameaça muito séria à existência da UE.

            É sabido que muitos no Reino Unido consideram o acordo insuficiente. Dizem que Cameron está apenas a obter uma mão cheia de nada, simples vacuidades. Assim, para começar, iremos assistir este fim-de-semana ao esfrangalhar da unidade no seio do governo britânico. Um número significativo de ministros começará então a fazer campanha pelo Brexit, opondo-se deste modo à posição do primeiro-ministro. Esta cisão, reforçada pela que já existe no seio do grupo parlamentar conservador, e a vitória quase certa do voto pelo abandono da União, no referendo de junho, levam-me a pensar que David Cameron tem os dias contados, enquanto líder do seu partido e do governo.

            A rutura com a UE terá certamente um impacto económico negativo no PIB britânico. Mais grave ainda, uma votação contra a Europa voltará a colocar na ordem do dia a possibilidade da independência escocesa. O partido no poder em Edimburgo é europeísta. Se o campo do Brexit ganhar, os dirigentes da Escócia não perderão a oportunidade de reabrir o debate independentista. E o que foi uma derrota por poucos, em setembro de 2014, poderá tornar-se em breve num sim sem hesitações ao fim do Reino Unido.

            Seria um erro não falar dos riscos para o todo europeu. O mais perigoso, no meu entender, diz respeito à caixa de Pandora que o referendo britânico poderá abrir. Movimentos nacionalistas e partidos populistas, noutros estados europeus, poderão querer tirar vantagem política do precedente que se está a criar. Teríamos assim algumas tentativas oportunistas de referendos aqui e acolá, num jogo de demagogia e de luta pelo poder. Entraríamos, então, numa espiral incontrolável. E que seria aproveitada pelos inimigos, internos e externos, de uma Europa unida.

            Por tudo isto, a cimeira de Bruxelas tem que ser clara no tratamento do Reino Unido. E pôr um ponto final à discussão. Num clima como o atual, não deve haver espaço para mais hesitações. Quanto ao referendo, cabe a Cameron e aos seus compatriotas manter o equilíbrio até junho. E a melhor maneira de o conseguir, diz-nos quem sabe de coisas de circo e de política, é levantar o olhar e fixá-lo no futuro.

 

 (Texto que hoje publico na Visão online)

 

publicado por victorangelo às 17:42

10
Jan 16

Fiz ontem algo que não fazia há anos: atravessar os bairros de Bruxelas que se encontram junto ou nas imediações da Gare du Midi, do lado oeste da estação ferroviária. São zonas muito populosas e com uma imensidade de pequenos comércios e outras actividades económicas, como por exemplo, dezenas de garagens que compram carros em segunda mão e depois os exportam para África. As ruas, sobretudo numa tarde de Sábado, estão sempre apinhadas de gente. Deambular por ali dá para perceber o que é a imigração para uma cidade como Bruxelas. Encontramos gente vinda do Norte e do resto de África, do Líbano e da Turquia, e de outras terras bem distantes da Europa. Não se vê um belga de origem ou pessoa parecida.

É como passear num gueto de 2016, de um tipo novo.

E fica-se a perceber que a imigração e a questão da integração de pessoas de culturas diferentes são dois dos grandes desafios que a UE tem pela frente. E a matutar que, na realidade, não existem políticas activas que procurem responder a esses desafios. Vive-se, para já, com os olhos fechados, como se os problemas não existissem.

 

 

publicado por victorangelo às 20:36

29
Dez 15

Em pano de fundo, oiço repetidamente, este serão, o barulho de sirenes. A polícia anda atarefada, em buscas que garantam uma passagem do ano tranquila.

O acesso ao coração da cidade, onde terá lugar a festa popular da chegada do novo ano, vai estar bastante condicionado e ser filtrado de modo sistemático. Os carros particulares terão que ficar estacionados bem longe do centro. Mas as pessoas irão à festa. A segurança apertada, nestes momentos de grandes concentrações de cidadãos, já faz parte da normalidade. Aceita-se sem pestanejar.

A resposta a estas novas ameaças tem sido feita de modo coordenado. Aqui só há uma polícia encarregue da segurança interna. Não há competições nem preocupações de protagonismo. É verdade que nem sempre houve uma ligação correcta entre a polícia federal e as polícias locais. Esse problema está agora resolvido.

Por outro lado, a análise das ameaças é feita por um órgão independente, sem qualquer interferência do poder político. É uma apreciação técnica, com base nas informações provenientes da polícia, da inteligência militar e da Segurança do Estado (Sûreté de l´État). Tudo o que se sabe é posto em cima da mesa e analisado com muita atenção. O resultado é então transmitido ao Primeiro-ministro e aos ministros competentes, para que as decisões estratégicas sejam tomadas.

Entretanto, as responsabilidades individuais e institucionais em matéria de identificação de casos de radicalização estão a ser melhor definidas. Essa é uma das etapas mais urgentes e, ao mesmo tempo, das mais delicadas. Exige, além disso, meios de investigação que neste momento parecem ser insuficientes.

E assim se vão organizando as coisas. É uma questão de eficiência, mas sem pânico.

publicado por victorangelo às 20:28

28
Dez 15

As festas do Natal já passaram. Como de costume, houve embrulhos e papel de prendas por todos os lados. Nestas paragens não há Natal sem grandes manifestações de consumo. Mas o que mais me agrada é poder andar nas ruas do meu bairro e não ver lixo amontoado, caixas vazias das prendas recebidas, embalagens de todo o tipo, espalhadas por tudo o que possa ser sítio próximo de contentores. As ruas estão limpas, não há nenhum sinal da orgia de compras que definiram os últimos dias. Não existem, aliás, contentores nas ruas.

No bairro onde vivo, o papel é recolhido todos os quinze dias. São duas sextas-feiras por mês. Enquanto não chega o dia, o papel e o cartão é guardado em casa, fica à espera. Chama-se a isto civismo. Educação cidadã.

Imagino que os apartamentos e as casas estarão cheios de papel à espera do camião, no dia certo.

publicado por victorangelo às 20:23

22
Nov 15

Esta tarde, o tempo estava frio. Mesmo assim, a minha neta levou-me ao parque infantil perto de casa, um parque que ela conhece bem. No meio da brincadeira, perguntou-me por que razão o parque estava vazio. Notou que, desta vez, não havia crianças. Perguntou e voltou a perguntar, um pouco mais tarde. De cada vez disse-lhe que olhasse bem, porque lá mais à frente estava uma outra menina, também a brincar. Não me pareceu muito convencida. Acabei por mencionar o tempo, o frio, como razão. Não sei se aceitou a explicação, até porque o frio é coisa do quotidiano, nesta altura do ano, em Bruxelas.

No regresso a casa, quis saber, assim de repente, o que é um terrorista. Ouvira a palavra, mas para quem ainda não completou seis anos de idade, a palavra soava fora de jogo. Expliquei-lhe e fiz a ponte com as sirenes que iam passando e que nos entravam pelos ouvidos.

Mais tarde ficou a saber que amanhã a escola não vai abrir. Terá que ficar em casa. Perguntou se era por causa dos terroristas. Claro que não. Os terroristas não gostam de ir à escola, são avessos aos estudos e contra a educação moderna. São, sobretudo, contra o ensino destinado às meninas como ela.

Mas isso passa-se muito longe daqui. Em Bruxelas, as escolas só deverão fechar por um dia. Assim se espera.

publicado por victorangelo às 21:15

21
Nov 15

Acordei esta manhã numa cidade diferente. Saí de casa cedo, para ir buscar os croissants do pequeno-almoço, e notei, de imediato, que os acessos ao metropolitano estavam encerrados. O resto veio pouco depois. Fiquei a saber que o governo havia decretado um estado de alerta elevado para a região de Bruxelas. E, com o passar da manhã, que muitas lojas estavam desertas, os centros comerciais fechados, os espectáculos cancelados. Polícia e militares, havia-os por vários sítios e em número bem visível. As viaturas de polícia circulavam por toda a parte, muitas vezes com as sirenes a tocar. Notava-se o nervosismo ambiente.

Amanhã será de novo assim, segundo nos dizem. Pode ser um excesso de prudência, mas ninguém, ao nível do poder político, quer ser acusado de negligência. Mas, nestas coisas, há que saber encontrar o ponto de equilíbrio entre o risco e a normalidade.

É preciso ter coragem. A excepção não pode ser a “nova normalidade”.

publicado por victorangelo às 20:36

13
Fev 15

Cortei o cabelo esta manhã. Nos últimos anos, havia utilizado os serviços de um velho – tem a minha idade – barbeiro italiano. Um homem que já teve sucesso mas que se deixou ultrapassar pela vida e pela concorrência. Para começar, pelo preço que pede: €16, quando todos à sua volta pedem menos. Depois, porque só aceita cortes com marcação. Várias vezes fui lá, estava sem ninguém, como agora sempre está, e disse-me que não, que era preciso marcar primeiro. E mais, por não ter percebido que o bairro mudara. Os clientes tradicionais foram desaparecendo da vizinhança, uns com destino ao cemitério, outros por terem mudado de zona de residência. Ficaram os emigrantes de vários tipos, mas acima de tudo os chamados “árabes”, uma designação imprecisa que abarca tudo o que vem do Norte de África e de outros sítios muçulmanos. Gente que corta a guedelha nas lojas dos compatriotas, por €7 e sempre cheias de clientes.

Este é apenas um pequeno exemplo da dinâmica de uma cidade em mutação. Quem não se adapta fica às moscas.

O meu barbeiro de hoje – e já é a terceira vez que lá vou – é um jovem kosovar. Abriu as portas há pouco tempo. Tudo muito moderno, com música de fundo e um serviço cuidado. Oferece um serviço mais refinado que “os árabes”, por um preço ligeiramente superior: €10. Percebeu que há aqui uma secção do mercado que acha que que o meu italiano está fora de moda e caro mas que também não quer ir fazer bicha na barbearia dos €7.

Nos negócios, mesmo nestes do cabelo, é preciso ter a cabeça no lugar e a mente atenta ao que se vai passando à nossa volta. Não serve de nada chorar por tempos que já não voltam nem tentar competir com que tem um mercado cativo, por razões de etnicidade.

 

 

publicado por victorangelo às 20:27

26
Jan 15

Os resultados das eleições gregas não tiveram impacto nos mercados bolsistas europeus. Em termos da economia europeia, a Grécia tem agora um peso marginal. Já não estamos em 2011. Nessa altura, muitos dos grandes bancos privados da Europa tinham níveis de exposição elevados à dívida pública grega. As coisas mudaram.

Ao nível do impacto político, o discurso oficial foi hoje muito prudente, nas principais capitais da UE. Ninguém quer ser acusado de extremismo, perante um resultado eleitoral claro. Mas, mais, ninguém quer abrir o jogo e revelar as cartas, para já. Assim, as palavras que vão surgindo, em Bruxelas e noutras cidades, deixam a porta aberta à iniciativa do novo governo em Atenas. Ou seja, esperam que este mostre até onde quer ir. As velhas raposas europeias sabem que esconder o jogo é meio caminho andado.

Entretanto, irão surgir certas vozes inabituais ou menos conhecidas que terão como tarefa dar uma indicação do sentido que as coisas podem tomar. A Eslováquia, por exemplo, que já disse que não pode aceitar um incremento do salário mínimo na Grécia para os 700 euros, a ser pago com o dinheiro dos outros, quando os eslovacos ganham muito menos que isso.

Vai ser um período interessante. Nada está ganho à partida.

publicado por victorangelo às 21:08

03
Jan 15

Almocei hoje num restaurante vietnamita, aqui no bairro, a dois passos donde resido. Foi a primeira vez, apesar da proximidade. Quando telefonei para marcar uma mesa para sete pessoas, a senhora, que mais tarde soube ser a mulher do cozinheiro e dona, com o marido, do restaurante, disse-me que tinham pensado estar fechados hoje. Haviam tido muito trabalho na passagem do ano e estavam a precisar de um dia de repouso. Mas quando soube que seríamos sete e que éramos vizinhos – um vizinho é sempre uma oportunidade de negócio que se pode repetir no futuro – disse-me que sim, que a porta estaria aberta e a mesa confirmada. Descansariam na segunda-feira.

E assim foi.

Mais ainda, como a sala estava a funcionar, surgiram outros cinco clientes. Nada mau, como negócio, num sábado apagado, depois das festas e com tanta gente ainda fora da cidade. E estes imigrantes vietnamitas deram-nos uma lição de flexibilidade e de saber fazer comercial. Os tempos não estão de feição, mesmo por aqui, nesta cidade onde há gente com um nível de salários elevado. Os restaurantes de bairro conhecem, nos dias de hoje, uma quebra importante de actividade. Os almoços de negócios são cada vez menos, incluindo por razões de aperto fiscal, e as famílias, com a vida cara como está, preferem ficar por casa. Por isso, há que tentar apanhar as oportunidades, mesmo as mais pequenas.

E a verdade é, no que me diz respeito, que a senhora e o marido ganharam um cliente e alguém que vai dizer bem da casa.

publicado por victorangelo às 20:51

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