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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Você disse "ordem liberal"?

Não entendo o que querem dizer certos intelectuais, quando falam da “nossa ordem liberal” e que esta estaria a ser atacada em vários países da União Europeia. Liberal é um conceito americano, para caracterizar quem é mais progressista, perante a massa conservadora, tradicionalmente Republicana.Na Europa, liberal é uma espécie de filosofia política, mal definida, mas que pretende indicar uma opção por governos menos intervenientes nas esferas económicas e sociais. Mas, fora de tudo isso, a “ordem liberal” é o quê?

Para além da resposta que possa ser dada, quero desde já acrescentar que o que me interessa é a democracia, a liberdade de opinião, o respeito pelas minorias, o equilíbrio de poderes, o bom funcionamento das instituições e a existência de uma sociedade civil dinâmica e diversa. É por essas bitolas que meço a qualidade da governação em cada um dos Estados da UE.

Chamo a isso democracia participativa, por oposição à democracia de fachada. É a democracia participativa que está sob ameaça em vários países europeus. A democracia de fachada utiliza o voto popular, manipula as eleições, infiltra a comunicação social, para garantir a perenidade de alguns dos nossos pequenos ditadores e das suas cliques de clientes.  

 

 

 

O Brexit e a lepra populista

O Reino Unido sai hoje. Cumpre-se assim o Brexit. E perdemos todos, a União Europeia e o Reino Unido, cada um à sua maneira. Mas a política é assim, as regras democráticas, por muito imperfeitas que possam ser, são para cumprir. E Boris Johnson e os seus ganharam.

Dito isto, acrescento que alguns de nós vemos tudo isto com uma grande preocupação. A vitória de Boris foi a vitória da mentira, do apelo ao nacionalismo primário, do populismo sem-vergonha. Ganhou a insolência, perdeu o bom senso.

Em certa medida, esse tipo de vitória fica-nos como um alerta. Hoje aconteceu no Reino Unido, amanhã poderemos ter um gémeo ou uma irmã de Boris noutros países da Europa. Assim, se há uma grande lição a tirar de tudo isto, do Brexit, de Boris, de Farage, etc, ela é que não se pode dar tréguas aos aldrabões da política.  

As ditaduras e a corrupção

A investigação levada a cabo por umas boas dezenas de jornalistas de vários países sobre certas práticas empresariais de Isabel dos Santos veio confirmar algo que eu não me canso de repetir. A corrupção ao mais alto nível é uma das consequências dos regimes autoritários e ditatoriais. Em África, na Rússia, no Médio Oriente, em várias partes do mundo.

A democracia, a liberdade de imprensa e a independência do sistema de justiça são os remédios adequados para combater a corrupção. Se não existem, se não funcionam, há corrupção de certeza. E da grande, que é essa que nos traz aqui e que tem um impacto estrutural, ao nível macro.

Um dos meus amigos africanos passa os dias a falar sobre o futuro brilhante que África tem pela frente. Refere o dinamismo dos jovens africanos, as elevadas taxas de crescimento económico, os investimentos vindos da China e do Médio Oriente, o potencial agrícola, das indústrias extractivas e de transformação, etc, etc. Mas nunca menciona a questão da corrupção. Ora, esta, a má governação para fins de benefício pessoal, é o principal factor que impede o desenvolvimento. E que leva a toda uma série de situações de insegurança que se vivem no continente africano.

Em África, como também noutros continentes, é óbvio.

Ainda sobre o Irão e nós

O meu amigo A. é visceralmente anti-americano. Todas as suas análises dos factos correntes assentam nesse sentimento, desde que hajam americanos metidos ao barulho. E as suas entranhas ainda ficam mais vulcânicas se a notícia tiver que ver com o Presidente Donald Trump.

Assim, os seus comentários sobre o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani – um assunto sobre o qual escrevi longamente – eram previsíveis. Demoliam, forte e feio, o Presidente dos Estados Unidos. E davam os líderes iranianos como os bons da fita. Ou, menos menos, não havia uma sombra de uma crítica sobre eles.

Eu também não estou de acordo com a decisão tomada por Donald Trump. O meu texto de ontem menciona as principais razões, que são de ordem política e moral. E chamo a atenção para os riscos de agravamento dos conflitos numa região do globo que já está em crise profunda, com várias populações a sofrerem as maiores tragédias há anos. Toda e qualquer acção que leve a uma escalada da miséria e dos confrontos existentes só pode ser condenada. Sem equívocos.

Mas também é de condenar o regime que o Gen. Soleimani defendia. O Irão é um inferno político gerido em nome de Deus. É uma ditadura de religiosos com ideias dos tempos das ténebras, sem qualquer tipo de espaço para a liberdade e para os direitos humanos. É uma aberração histórica, vizinho de outros desvarios semelhantes e de inspiração semelhante, como por exemplo, a Arábia Saudita. O meu amigo A. não conseguiria respirar qualquer pontinha de democracia no Irão. Nem seria aceite, por ser visto ou como cristão ou como ateu, duas condições inaceitáveis nas terras dos religiosos do fanatismo.

Perante isto, que fazer, que papel poderemos desempenhar, enquanto europeus?

Modestamente, aqui ficam duas ideias.

Por um lado, procurar atenuar o confronto entre os Estados Unidos e o Irão, bem com os conflitos entre este último e os seus vizinhos sunitas. A mediação é a via. É isso que a França, em ligação com o Japão, têm tentado fazer, de modo confidencial, nos últimos meses. Não se fala no assunto, os contactos têm sido altamente secretos, mas existe uma tentativa de mediação. É evidente que esse processo ficou seriamente afectado com a decisão de matar, tomada pelo Presidente americano. Também é verdade que Donald Trump não acredita nas possibilidades de êxito dessa iniciativa. Na sua maneira de ver, a força é quem mais ordena. Mas as mediações são assim, têm primeiro que ganhar a confiança das partes. Mediar exige que se tenha a paciência de caminhar num labirinto.

Por outro lado, cabe-nos continuar a falar de democracia, do direito das populações em decidir que regime e dirigentes políticos querem, insistir na liberdade e na tolerância religiosas, enfim, nos valores que definem o mundo deste tempo que é o nosso. Temos, porém, que o fazer com coerência, evitando a duplicidade que tantas vezes nos caracteriza.

 

 

Responder a quem tem a amabilidade de comentar

Queria confirmar que leio todos os comentários que me fazem. Não tenho respondido por questões de perícia. O Sapo mudou o sistema de resposta e ainda não consegui encaixar com ele. Mas os comentários são apreciados. E devo dizer que não tenho sido alvo de ataques parvos ou mal-educados. São muitos os que se queixam da violência verbal nas redes sociais. Ela existe, é um facto. Aqui, não tem aparecido. Também é verdade que promovo “vistas largas”. Acredito que a diversidade de opiniões e a tolerância pelas ideias dos outros são dois pilares importantes da prática democrática. Lutar por eles, segui-los, tudo isso faz parte do combate por uma sociedade mais evoluída e pela exclusão de todos os pequenos ditadores que por aí andam.

Obrigado.

O novo Boris Johnson

Boris Johnson ganhou as eleições legislativas britânicas. De uma maneira clara, seja qual for o prisma de análise dos resultados. Tem o poder nas mãos, de modo absoluto. É ele quem manda, no governo e no Parlamento. E isso poderá continuar assim, nos próximos quatro ou cinco anos de mandato. O que mostra que um líder forte, na chamada democracia britânica, usufrui de um nível incontestável de autoridade. Os outros poderão dizer o que entenderem, fazer o barulho que quiserem, no Parlamento ou fora dele. Mas quem manda é o Primeiro-Ministro, quando esse lugar é ocupado por uma personalidade como Johnson e, por outro lado, quando dispõe de uma maioria muito folgada, em Westminster.

Para além do Brexit, Boris Johnson irá propor uma série de medidas, incluindo uma que reduza o poder do Tribunal Supremo, que limite a sua capacidade de controlar os abusos de poder vindos da Primatura ou do Parlamento. Também aqui fica claro que a democracia de que se fala é mais cosmética do que uma beleza política de facto.

Boris Johnson ganhou porque soube mostrar determinação, clareza, foco e repetir constantemente as mesmas três ou quatro mensagens-chave. Prometeu a Lua e mais um ilusão, mas evitou prometer um catálogo sem fim de medidas, que por serem muito diversas, perdem-se na cabeça dos eleitores e arruínam a sua credibilidade. Mas ganhou, acima de tudo, por ter sabido bater a tecla do Brexit. A opinião pública estava farta do tema, das divisões que acarretava. Votar em Johnson significaria fechar esse capítulo.

Agora que tem o poder nas mãos, Boris Johnson poderá tentar a via da moderação. Sabe que essa é a única maneira de manter o reino unido. Terá, nomeadamente, que mostrar resultados na Escócia. Mas, não será fácil. O processo de desintegração do Reino Unido – agora com maiusculas – aprofundou-se com as eleições de ontem.

Do lado europeu, há que manter uma posição que mostre interesse na continuação de uma relação privilegiada com Londres e Boris Johnson. Creio que assim acontecerá.

O nosso quadro mental está obsoleto

Apercebi-me há pouco que estamos prestes a entrar na terceira década do Século XXI. O passo seguinte foi ficar pasmado ao reconhecer que continuamos a pensar e a falar de política como o fazíamos nos anos 70 ou 80 do século passado. Isto, apesar das enormes mudanças que entretanto ocorreram e dos desafios completamente diferentes que agora temos que enfrentar.

A força da sociedade civil

Estamos a assistir a abusos sistemáticos do poder político. Mesmo em países com regimes democráticos. Essa é uma das dimensões da crise das democracias, um facto novo e verdadeiro..

O abuso do poder é claro. Uma vez eleitos, os líderes comportam-se de modo inaceitável. Como se estivessem acima das leis e de cada um de nós.

Uns, agem como se a sua eleição lhes permitisse um nível de autoridade absoluto, acima do normal funcionamento das instituições. Comportam-se como uma espécie de ditadores com cores democratas. A sua legitimidade é apresentada como sendo superior à usufruída pelas outras instituições da governação. Outros, aproveitam o poder para criar uma base populista. A posição que ocupam é permanentemente usada para alienar as massas populares, para mentir e criar ameaças e medos que não têm razão de existir mas que servem como base de consolidação do seu poder pessoal. É uma maneira moderna de dar um sentido divino ao seu papel de governantes.

Se os outros pilares da governação não conseguem responder a estas usurpações do poder – e a verdade é que o não conseguem, basta ver como os parlamentos se transformam em meras caixas de ressonância –, a resposta terá que vir da comunicação social e dos movimentos de cidadania. Mas esses líderes abusadores sabem que esse risco existe, que a contestação poderá provir dessas bandas. Por isso, tentam corromper uma parte da comunicação social. E há sempre quem, nos jornais e nas televisões, esteja pronto para desempenhar o papel de defensor intransigente de quem está no poder. Tentam, igualmente, criar barreiras que dificultem a acção das associações de cidadãos.

Nem sempre o conseguem. O que me faz dizer que, nesta altura de ataques directos ao bom funcionamento dos regimes democráticos, é indispensável dar força e asas aos cidadãos e às suas organizações. Uma cidadania activa, esclarecida e robusta torna uma nação mais livre e mais coesa. Deste modo, a resolução da crise da democracia passa pelo dinamização das associações da sociedade civil.

Política com mel

Custa-me ver gente amiga politicamente fanática. Falo de amigos que andaram pelos bancos das universidades, fizeram boas carreiras profissionais, venceram, mais ou menos, na vida, mas que são excessivos e desvairados, quando se trata da política. Sobretudo quando se faz uma pontinha de crítica ao partido com o qual se identificam. Ficam fora de si. E fazem-me pensar que a política é algo de profundamente emotivo, que pouco tem que ver com a direcção mais correcta que deve ser dada à vida colectiva de um povo. Esses meus amigos lembram-me, então, que a política tem que ser ganha nos corações dos eleitores, não simplesmente nas suas mentes. Por isso, a narrativa tem que ter calor e alma, para poder ganhar o âmago de cada eleitor. Um discurso político meramente cerebral não leva muito longe. Fazer política e ganhar votos exigem uma grande proximidade e empatia com uma boa parte da população. A política é sobre o mel, não é sobre o vinagre.

 

Uma nota política

Continuamos a olhar para a política com uma lente clubista. Os do meu clube são bons, os outros são uma desgraça. Esta maneira de ver não leva o país, qualquer país, muito longe. Serve apenas para dividir os cidadãos, criar clivagens destruidoras e empurrar as grandes questões para as margens, lá onde aterram todos os problemas que nunca mais encontram solução. A política deixa então de ser uma procura permanente de equilíbrios entre os diversos interesses que compõem a sociedade. Transforma-se num campo de batalha, onde hoje ganham uns, amanhã outros, num carrossel que gira sobre si mesmo.

O verdadeiro líder político é aquele que consegue fazer alianças, sobretudo agora, nas nossas sociedades cada vez mais fragmentadas. Governar sem apoios amplos é deixar de lado uma parte significativa do eleitorado. É a imposição de posições meramente ideológicas num contexto que exige respostas amplas e tão consensuais quanto possível.

 

 

 

 

 

 

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