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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

A indecisão é a marca dos líderes de agora

Transrevo o texto que hoje publico na revista Visão e que está nas bancas.

 

A indiferença, a impotência e a Kalashnikov

Victor Ângelo

 

 

 

 

O Iraque está de novo a ferro e fogo. E quem sabe destas coisas chama a atenção para a extrema gravidade da situação, muito diferente das precedentes, e para as múltiplas ramificações do conflito, com dimensões humanitárias, violações sistemáticas dos direitos humanos, ameaças à estabilidade, paz e segurança da região, sem esquecer os encorajamentos que envia aos movimentos radicais noutras partes do mundo. O Iraque de hoje é uma enorme caixa de Pandora numa região profundamente fraturada, com vários países à beira de crises nacionais profundas, para além do processo de autodestruição em que a Síria se afunda há três anos.

 

A resposta dos Estados Unidos e da Europa, bem como dos outros membros permanentes do Conselho de Segurança, é a de deixar arder. Os líderes da comunidade internacional, a começar por Barack Obama, não mostram apetite por expedições em terras longínquas. As crises de envergadura são analisadas exaustivamente, a opinião pública é cuidadosamente avaliada e, no final, depois de dias de contorcionismo político e de ansiedade mental no segredo absoluto dos círculos dirigentes, a inação é a opção preferida. Em dez anos, a liderança internacional passou de uma febre intervencionista ingénua e moralista, que caracterizou as decisões de George W. Bush e de Tony Blair, para uma atitude caseira, que se refugia por detrás das fronteiras nacionais. Ou seja, em dez anos, avançou a globalização da informação, da economia e da consciência do sofrimento de outros povos, mas recuou a perceção dos interesses e deveres partilhados. Perdeu-se, em grande medida, o valor da responsabilidade comum. Sentimo-nos tranquilos quando nos fechamos no egoísmo nacional. As dificuldades económicas e financeiras dos últimos anos explicam uma boa parte da questão. Mas não só. Somos atualmente dirigidos, de um lado e do outro do Atlântico, por lideranças vacilantes. O medo de errar leva à indecisão. Daqui à indiferença é um salto de pardal.

 

Esta maneira de fazer política internacional tem a vantagem de cair bem na opinião pública. O cidadão comum não compreende as razões que possam levar o seu país, mesmo quando se trate de uma grande potência, a intervir nas guerras dos outros. Entende bem, no entanto, o valor da indiferença. Tem custos imediatos menores. Esta é uma das grandes contradições do momento: estamos melhor informados e, ao mesmo tempo, mais distantes do infortúnio dos outros.

 

Na realidade, a comunidade internacional é cada vez menos capaz de resolver os conflitos violentos. Mesmo uma situação relativamente simples, como a da República Centro-Africana, parece fora do alcance. Por isso, o que poderia ter sido contido há um ano e meio, ou antes, continua por resolver.

A inércia é contagiosa. No caso do Iraque, o Conselho de Segurança tem-se revelado incapaz de adotar uma posição. O próprio Secretário-geral tem mantido um silêncio incompreensível. Nada propôs até ao dia em que escrevo este texto. Nem veio a terreiro dizer, pelo menos, que as violações repetidas das leis da guerra, das regras humanitárias, a prática do terror étnico e sectário, e outras atrocidades são crimes contra a humanidade, puníveis pelo Tribunal Penal Internacional.

 

A indiferença conduz à impotência generalizada. Ora, nestes casos, quando as respostas não têm músculo, não convencem nem exprimem uma posição de conjunto, quem ganha espaço é o fanático primitivo de Kalashnikov na mão, o extremista iluminado que crê na ficção que a vontade divina passaria pelo extermínio de quem não pertence à seita.

Iraque e o Ocidente

Onze anos após a intervenção ocidental no Iraque, depois de dezenas de milhares de mortos e de incapacitados para o resto das suas vidas, de valores incalculáveis gastos com a guerra, a reconstrução e a estabilização, o país está novamente em crise profunda. Desta vez, a fractura abre-se ao longo das linhas étnico-religiosas. É uma divisão identitária, baseada nos medos colectivos, na exclusão dos outros que não partilham as mesmas raízes culturais, uma divisão fanática e assassina que vive de mitos ancestrais e ódios antigos.

 

A guerra entre vizinhos é sempre a mais cruel e dramática.

 

Quanto a nós, na nossa parte do mundo, a diferença entre hoje e 2003 define-se pela indiferença. Agora, o chamado Ocidente passa ao lado, olha para o futebol ou para o umbigo, para os orçamentos públicos, e não tem ânimo nem vontade de agir. A única preocupação, e mesmo essa é apenas um franzir de sobrolho vago, tem a ver com a produção de petróleo. O Iraque é o segundo maior produtor, no seio da OPEP ou OPEC, na sigla inglesa. Mas como o Ocidente está cada vez menos dependente do petróleo do Médio Oriente, o impacto do caos actual permanece dentro de limites aceitáveis. Os mercados financeiros e, em particular, os respeitantes aos recursos naturais, estão a reagir à crise com calma. Os políticos seguem, então, os indícios que os mercados lhes oferecem. E acham, por isso, que não há pressa.

 

Mas há. A pressa que tem que ver com as centenas milhares de refugiados que estão em debandada. Com as execuções sumárias que os extremistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante estão a levar a cabo, em Mossul e noutras cidades entretanto ocupadas. Uma pressa que tem igualmente que ver com a necessidade imperiosa de pôr um travão ao avanço das ideias extremistas. E de mostrar que o Ocidente pode ser e é um aliado com o qual os moderados do Médio Oriente devem contar.

 

 

 

 

A retórica de Tordesilhas

O Presidente dos EUA e o Primeiro-ministro do Reino Unido falaram, hoje, da relação privilegiada entre ambos os países. Classificaram-na de essencial. 

 

Mencionaram as operações em que ambas as forças armadas cooperam, no Afeganistão, na Líbia e nos mares da Somália, contra a pirataria. Curiosamente, o Iraque não foi mencionado. Já saiu, a bem ou a mal, da lista das prioridades militares.

 

Referiram-se à cooperação diplomática e na área da inteligência e das informações de segurança. No combate ao terrorismo. O Sudão e o conflito israelo-palestiniano mereceram um lugar de destaque. O mesmo aconteceu com as transições democráticas no mundo árabe.

 

Não podiam deixar de discutir a situação económica. Nos seus países e de um modo mais lato. Da necessidade de criar empregos. De promover o investimento recíproco. De fazer avançar a investigação científica e tecnológica. 

 

A Líbia foi o grande tema. A campanha militar da NATO arrasta-se. Tem custos elevados. E uma legitimidade tenue, que precisa de ser lembrada a cada passo. Sem contar no impasse político que é cada vez mais evidente.

 

A relação entre Washington e Londres pode ser, na verdade, essencial. Mas talvez se tenham esquecido que não é suficiente. Precisa de uma aliança mais ampla. Como também precisa de um ou dois casos de sucesso, para que se torne mais real e menos retórica.

Um separar de águas

A actualidade internacional está focada na divulgação, pelo sítio internet Wikileaks, de centenas de milhares de documentos militares sobre as operações de guerra no Iraque. Os documentos revelam sérias violações dos direitos humanos, das leis da guerra, e silêncios altamente comprometedores. É uma bomba que abala a opinião pública.

 

Como disse na altura em que Wikileaks divulgou documentos secretos sobre o Afeganistão, a publicação destes relatórios marca uma mudança radical na área da informação. Para além de constituírem uma mina de dados que muitos irão explorar durante longos anos - vão surgir teses académicas sobre os assuntos em causa -, estes relatórios servirão para lembrar aos responsáveis políticos e militares que, nos dias de hoje, tudo acaba por se saber. Por isso, a única maneira aceitável de fazer política é a que passa pelo respeito das regras, das pessoas e da verdade.

Irão

O Irão acaba de anunciar a descoberta de um novo jazigo de gás no Sudeste do país, perto da cidade portuária de Bandar Abbas. O valor estimado das reservas é de 70 mil milhões de metros cúbicos. 

 

Este anúncio oficial vem no seguimento de uma outra declaração, feita há poucos dias, sobre as reservas de petróleo. Segundo o governo, os campos petrolíferos do Irão teriam uma capacidade produtiva total, por explorar, de 150 mil milhões de barris. Se assim for, o país passa a ocupar o terceiro lugar mundial em termos de potencial petrolífero, seguido do Iraque, que deve possuir cerca de 143 mil milhões de barris.

 

Tudo isto faz do Irão e da região uma área de alto interesse estratégico. Instabilidade em Teerão será uma ameaça para toda a região, incluindo os países do Golfo e da Península Arábica.

 

A política internacional das grandes potências está atenta a estas informações. A Europa, estará? 

 

Entretanto, e no horizonte mais imediato, o Irão vai presidir à OPEC em 2011. Há uma certa ansiedade sobre a maneira como esta presidência se irá desenrolar.

 

 

Um Iraque muito frágil

O relatório que a Amnistia Internacional acaba de publicar sobre as violações dos direitos humanos e das liberdades fundamentais no Iraque de hoje está a acusar embaraços em Bruxelas e nalgumas capitais ocidentais. Intitulado "New Order, Same Abuses. Unlawful Detentions and Torture in Iraq", vem confirmar que, após sete anos de investimento da comunidade internacional, os resultados continuam muito aquém das expectativas. O governo utiliza sistematicamente a violência, como arma de manutenção da ordem pública e da autoridade do Estado, os cidadãos vivem na insegurança total e sem ter a certeza de ser ou não protegidos por quem detém o poder.

 

Há que repensar o papel dos principais parceiros do país, no seu apoio à governação no Iraque. Mas, abandonar o Iraque neste momento, concluo eu, seria um erro de consequências imprevisíveis. Mesmo se a responsabilidade primeira da situação actual cabe aos dirigentes nacionais.

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