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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Contra o nosso dogmatismo habitual

A maior parte dos que escrevem e partilham opiniões políticas em Portugal são dogmáticos. Têm opiniões de pedra e cal. Cada opinião é apresentada como a última expressão da sabedoria do autor sobre o assunto que o momento o leva a tratar. Não deixam espaço para o debate, nem querem deixar aperceber as outras dimensões que a questão possa levantar. É tudo a preto e branco. A verdade de um lado, o erro do outro. Escreve-se e fala-se de tal maneira que as frases parecem facadas e golpes de espada.

Mesmo quando os autores são apresentados como “académicos”. Não são académicos, são intransigentes e de ideias feitas, que é o contrário do que a universidade deveria ser. Uma boa parte dos nossos “cientistas sociais” é apenas um propagandista da fé, politicamente dogmáticos, em vez de inquisitivos.

Ora, a realidade da nossa vida colectiva é muito mais matizada. E nas questões políticas e sociais não existem respostas simples. Antes pelo contrário.

O dogmatismo é um tique ditatorial. Extremista. Esmagador das opiniões não concordantes. É antidemocrático. E também é uma prova de grande burrice mental. De quem o pratica e, infelizmente, de quem dele se alimenta.

A nossa democracia

Por que digo, quando se fala sobre o tema, que a democracia portuguesa é fraca?

A resposta completa daria para uma tese académica. Uma tese que deveria começar por analisar a maneira como funcionam os partidos políticos em Portugal. Incluindo, muito especialmente, o modo como são seleccionados os dirigentes, os quadros políticos e as pessoas escolhidas para assumir lugares públicos. A vida interna dos partidos tem muito mais que ver com a intriga e os golpes do que com a capacidade e a qualidade dos protagonistas.

Depois, seria preciso discutir o papel bastante medíocre que a comunicação social desempenha em termos do debate público e do interesse geral. Sobretudo, os canais abertos de televisão. São uma lástima, que empobrece a compreensão dos problemas que são os nossos e em nada contribui para o enriquecimento cívico dos cidadãos. Ainda, para além das televisões, acrescentaria que a imprensa com um mínimo de qualidade tem hoje um alcance francamente limitado. Os jornais de referência não tocam as pessoas. São folheados por meia dúzia de fiéis e nada mais.

Seguir-se-ia uma avaliação da nossa sociedade civil. Encontraríamos aí algum dinamismo e boas vontades, mas também muito fogo de vista e pouco mais. E a grande fraqueza de termos uma sociedade civil com recursos financeiros miseráveis e, por isso, muito dependente dos dinheiros públicos, que dizer da política e dos partidos.

A bocejar

A minha neta disse-me, à hora do almoço, que tinha passado a noite sem dormir e a manhã deste domingo muito angustiada. A razão: tentara repetidamente bocejar, sem o conseguir. Disse-lhe, então, que a tentaria ajudar. E assim foi, o que lhe abriu o apetite e deixou a preocupação com os bocejos para trás.

Não lhe expliquei, no entanto, donde vinha a minha perícia em bocejos. Para quê dizer-lhe que a adquiri a ouvir discursos políticos de gente sem chama, ao ler textos de opinião nos jornais, escritos por uns fulanos especializados na pretensa ciência dos ecos palavrosos, ou nas inumeráveis reuniões intergovernamentais que o meu trabalho na ONU me obrigou a assistir?

Os intermináveis telejornais das televisões portuguesas também são uma excelente fonte de bocejos. Mas como eu tenho outras oportunidades de me enfadar, dispenso ver tais programas.

 

Um jornal de hoje

Antes de entrar no avião peguei em vários jornais. Um deles, o Correio da Manhã. E valeu a pena, a curiosidade.

Não me lembro de alguma vez ter lido um exemplar do CM com a atenção que lhe dei desta vez. A atenção de quem tenta perceber as razões do sucesso de um diário, num país em que os jornais estão numa trajectória de crise aguda.

Independentemente dos conteúdos, vi um jornal em que as notícias são dadas em quatro linhas, os textos de opinião numa dezena, tudo muito condensado, rápido, sem divagações e variado. Ou seja, quem manda na coisa sabe que os leitores não têm tempo para grandes leituras, querem notas breves e directas, não gostam de conversa fiada e palavras e mais palavras a encher frases de difícil digestão. Assim se chega ao grande público, se influencia a maneira de estar e de ver.

E tudo por um euro, bem redondinho, uma moeda única que dá direito a muita novidade.

Apostas à direita

Em Portugal, os jornais e as revistas impressas estão nas ruas da amargura. Cada vez vendem menos, continuam todos num processo de falência mais ou menos encapotada. O único que se safa é o Correio da Manhã (CM), que investe num tipo muito específico de jornalismo: alcova, faca e alguidar, monstros com três olhos e textos curtos e muito directos.

Mas não é sobre o CM que quero escrever. Nem sobre os falidos do papel. Intriga-me e interrogo-me sobre um outro meio de comunicação social, o jornal digital Observador.

O Observador foi lançado há quase três anos. Na altura, foi revelada uma lista de accionistas do projecto e dito que o jornal seria financiado pela publicidade. Com o tempo, o Observador cresceu, passou a ser uma referência intelectual do pensamento conservador e de direita, uma espécie de contrapoder, num panorama jornalístico muito dominado pela esquerda. Tornou-se, à sua medida, um êxito. Menos na área da publicidade. Percorrer o sítio do jornal é como fazer uma viagem sem anúncios. Ou seja, sem receitas aparentes. E aqui temos uma contradição importante e muito curiosa: a publicação continua a crescer, com custos certamente muito significativos, embora incomparavelmente menores dos que resultariam de uma edição em papel, mas sem que se entenda donde provêm os fundos que pagam esse crescimento e mantêm tanta gente tão atarefada.

Como nestas coisas ninguém gosta de perder, temos aqui um grupo de financiadores, os anunciados ou outros, não sei, que aposta forte e feio num futuro risonhamente de direita e que pensa que um dia irá ganhar.

Interessante, este Observador.

 

Um começo de ano

Quando se procura fazer intervenção social, a mensagem com 140 ou menos caracteres é a maneira de comunicar que mais impacto tem. Nestes tempos de abundância de informação ninguém tem tempo e paciência para ler longos textos. Os nossos jornais ainda não o perceberam. O mesmo acontece com vários blogs de autores muito sérios. Continua a publicar-se escritos cheios de floreados e de meandros infindáveis. Muita conversa e pouca carne.

Donald Trump foi dos que já percebeu a força que um tweet pode ter.

A minha própria conta no Twitter tem milhares de leitores diários, algo que não acontece, nem de muito longe, no que respeita aos meus blogs. Assim, pouco a pouco, o meu investimento vai ser sobretudo ao nível dessa conta. Seria um erro não reconhecer as mudanças que estão a ocorrer em matéria de comunicação social.

Entretanto, ficam aqui os votos de um bom ano de 2017. Um ano que irá certamente ser um desafio muito interessante em termos de intervenção social. O meu papel será o de alimentar a crítica construtiva.

A ingenuidade do "Público"

Deve ser por burrice, mas a verdade é que a edição de hoje do jornal “Público” dá uma relevância e um espaço inaceitáveis a um dos mais conhecidos fascistas italianos, Claudio Borghi. O fulano é apresentado como um eminente economista, com direito a duas páginas de entrevista. Seguem-se mais uma página e um editorial em que os jornalistas desse diário se referem à entrevista, mas sem espírito crítico, como se as ideias de um fascista, que também é reconhecidamente xenófobo, fossem apenas mais uma contribuição para o debate sobre a “crise na Europa”.

Borghi, que vê a situação económica na Itália pelo prisma único e simplista do Euro, repete ao longo da conversa que tudo entrará nos eixos quando o seu país sair da moeda única. Nada mais diz. Não menciona a corrupção do sistema político italiano, a necessidade de reforma do mesmo, não faz referência à incapacidade em se modernizar que certos sectores da economia italiana têm revelado, não fala dos créditos malparados da banca nacional, que somam cerca de 360 mil milhões de euros, nem do endividamento absolutamente anormal do Estado – acima de 130% do PIB – que resulta, em grande parte, dos salários e honorários fabulosos pagos a uma classe política desmesurada e semeada de vigaristas e trafulhas, nada, nada. É a ideia única, o pensamento maníaco e paranoico, o euro como bandeira de um populismo de extrema-direita.

Ao publicar esta parvoíce perigosa, o “Público” não serve a causa da democracia na Europa.

Intelectuais para esquecer

A minha neta fecha a conversa, quando vê que eu pretendo não estar a perceber, com uma expressão bem típica: laisse tomber, ou seja, esquece! São os seus seis anos de vida que lhe dão esse tipo de sabedoria.

E eu aprendo.

Por exemplo, quando leio o que certos intelectuais escreveram no Público de hoje, limito-me a concluir que não vale a pena insistir, é mesmo para esquecer.

Enchidos de fraca qualidade

Num Sábado de Agosto, quando o fim do mês ainda parece longe e o Sol brilha sem preguiça, ninguém está interessado em ler coisas sérias. Os jornais diários de referência sabem que assim é. Por isso, continuam a encher páginas e páginas de entrevistas a personalidades mais ou menos obscuras e, nalguns casos, até fora do prazo de validade. É a época do entulho, na área da comunicação social.

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