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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Um sonho distante

 

O dia começou com a poeira do harmatão. Aquele pó fino, vindo do deserto do Sahara, que entra por todos os poros, entope as narinas, traz infecções respiratórias, vírus e outras maleitas. A temperatura era de 16 graus, às sete e meia da manhã. Frio, para estas gentes, Inverno rigoroso.

 

No final do dia, o céu voltou a estar limpo. Um ar ameno e fresco. Fez-me bem sentir a brisa da noite, depois de um dia fechado em milhares de problemas. Um dia de pouca visibilidade, em todos os sentidos. Continuámos as nossas discussões sobre o futuro da MINURCAT. Nada fácil, discutir o futuro. O futuro constrói-se, dizer isso não deveria ser uma banalidade. Exige coragem e ideias claras. Mas discutir com governos é uma arte chamada paciência.

 

Dizem que tenho alguma. Sou tão paciente como um vulcão que ainda não explodiu.

 

A ONU faz aqui mais do que seria de esperar. É fundamental para a segurança das pessoas, na área de operações. Mas há sempre quem diga que é pouco, insuficiente. Esquecem que as Nações Unidas são apenas aquilo que os Estados membros querem que sejam. Com todos os atrasos e defeitos dos países que compõem a organização.

 

Continuaram as críticas ao nosso trabalho no Haiti. À falta de coordenação humanitária. À subordinação aos Estados Unidos. Entretanto, ninguém fala da falta de presença das instituições europeias, que sacam todos os anos centenas de milhões de Euros dos contribuintes para ajuda humanitária, através do ECHO --tenham a curiosidade de ir ao Google -- e que brilham pela ausência.

 

Por isso se diz que a Europa é um sonho. Longínquo, bem entendido.

 

As frustações do amor e da beleza

 

O dia primeiro do ano novo acabou mal. Estava a entrar no cerne da questão, numa matéria de muita importância nesta nova vida, quando todos os sistemas de comunicação se foram abaixo. Deixou de haver net, a rede telefónica de segurança desapareceu, fiquei com aquele sentimento que os galãs dos filmes de outrora deverão ter sentido, quando, prestes a beijar a donzela, depois de uma cena de grande intensidade dramática, acontece uma catástrofe qualquer e tudo fica de pantanas. E não há beijo.

 

Neste caso, não houve muita coisa, inclusive blog. Começar o ano assim é de ficar com os ossos todos frustrados.

 

O plano era partilhar estas flores de uma zona árida. Flores que encontrei à saída de Guéréda, uma terra de muita violência, num sítio onde o Sahel se finda e surge a paisagem do Sahara.

 

Aqui estão as flores:

 

 

Copyright V. Ângelo

 

Com estes arbustos e pedregulhos, mesmo à beira da picada que sai da localidade para o Oeste, a área tem sido local de muitas emboscadas e ataques contra os trabalhadores humanitários e os funcionários internacionais. O último caso foi o de delegado do governo para a ligação com os refugiados. Foi assassinado a uns metros desta árvore tão linda.

Cansaços

 

Depois de uma viagem que me levou, na Sexta a Birao, nos confins do centro de África, no Sábado a Abéché, depois Guéréda, terra das rebeliões, seguida de Gaga, onde o nosso posto de polícia foi atacado por Jenjaweeds, mais o regresso a N´Djaména, passei horas a tentar evacuar o agente que foi gravemente ferido na Segunda-feira.

 

Está em condições de ser evacuado, depois de duas operações de várias horas no nosso hospital militar de Abéché. Neste momento, necessita de 50% dos nossos recursos hospitalares, para se manter vivo. Tem que ser transferido para um hospital maior, com mais especialistas. Se assim acontecer, safa-se.

Estamos a tentar a África do Sul. O hospital militar de Pretória é do melhor que há. E também a Líbia.

 

Como não é funcionário da ONU, é mais complicado. Trata-se de um polícia chadiano a trabalhar lado a lado com as forças das Nações Unidas, na protecção de refugiados. Um homem com coragem, que teve azar.

 

O avião ambulância já está pronto.

 

Tem sido uma canseira, para ultrapassar a burocracia. Horas e horas ao telefone. Em reuniões. Mas lá iremos.

 

Com uma grande fadiga às costas.

Os cozinhados políticos

 

Por todo o país, há presentemente uma azáfama nas cozinhas políticas dos principais partidos políticos. É tempo de preparar as listas de candidatos a deputados, para as eleições de Setembro. Os chefes reúnem-se para decidir dos nomes. Tudo muito bem cozinhado, em círculos bem restritos e pouco claros, com nomes a aparecer pela ordem que os manda-chuvas dos partidos bem entendem. 

 

O povo só tem que por a cruzinha no lugar que lhe apetecer, no dia do voto. É o nosso tipo de democracia, em que os chefões do momento decidem para os próximos quatro anos.

Sem limites e viva a falta de bom senso.

 

A estupidez humana não tem limites. As provas desta verdade são visíveis todos os dias. 

 

A falta de previsão e de capacidade de antecipação também não conhecem linhas de demarcação. Tudo é possível. 

 

Hoje, por exemplo, o avião que tínhamos de prevenção em Abéché, estava com o depósito vazio. Em plena zona operacional, muito longe da capital. Como era urgente, perderam-se duas horas, até que estivesse pronto para voar. Quando o estava, já não era preciso.  A oportunidade tinha sido perdida.

 

Ontem, uma das nossas colunas, no deserto do Norte, bem junto à fronteira com o Sudão, viajava do campo de refugiados de Oure Cassoni para Bahai. Vejam no Google. Várias viaturas de agências humanitárias. A viatura da frente fazia a protecção armada. Como já haviam feito o trajecto umas quinze vezes sem que houvesse qualquer ataque, iam descontraídos. Não havia viatura de protecção armada no final da coluna.

 

Ora, o local é uma zona de movimentação das guerrilhas sudanesas. Ontem, a décima sexta vez, os rebeldes atacaram. Concentraram-se, evidentemente, na última viatura da coluna. Um 4X4 do Comité Internacional da Cruz Vermelha.  Adeus, carro meu.

 

A escolta, na primeira viatura, ainda tentou uma perseguição. Inútil. Os rebeldes entraram imediatamente em território sudanês. No passado, a escolta teria ido no seu encalço, independentemente da linha de fronteira. Mas comigo, não. Imaginem que eram interceptados pelos guardas fronteiriços do Sudão...

 

Afinal a guerra do Raul Solnado existe.

 

 

 

Morrer às portas da paz

 

As informações parecem revelar que os senhores armados se preparam para uma ofensiva diferente. Não aqui. Do outro lado da linha de fronteira, na região mais a Norte do Darfur, em aliança com as tropas de Khartoum. Contra os homens do Justice and Equality Movement (JEM). 

 

Lutar pelo controlo das areias. É uma maneira de marcar pontos, tendo em vista as negociações de paz que decorrem em Doha. De um lado, o governo do Sudão. Do outro, o JEM.

 

É normal lançar ofensivas guerreiras quando se está a negociar a paz. Faz aumentar a parada. Um período de maior perigo é exactamente quando a paz começa a ser possível. Às armas, cidadãos!

 

Assim se faz diplomacia. Embora me pareça triste morrer quando se está à beira de acordo de paz.

 

A azáfama tranquila

 

 

Copyright V. Ângelo

 

Uma vida sempre a lutar. Sobretudo para quem anda pelos desertos da vida. Quando aparece uma poça de água, é preciso aproveitar. Com elegância, que tudo deve ser feito com graça e a calma dos sábios.

 

 

O boneco mecânico

 

Estive recentemente com um dos líderes da cena internacional que há anos que não via. O homem lembrou-me, uma vez mais, todos os tiques e defeitos de uma liderança fraca:

 

   -Incapacidade de ouvir;

 

   -Enjaulado no seu próprio discurso, que repetia até aborrecer a audiência;

 

    -Falar como quem dispara uma metralhadora, sem que o discurso tome a forma de uma conversa e de um diálogo;

   

    -É tudo muito mecânico;

 

    -Muito formal; e quando se torna informal, dá a impressão que é por razões de temor, de medo do interlocutor;

 

    -Rodeado de servilismo;

 

    -Atraindo os oportunistas; os que não são subservientes, estão no jogo por motivos de promoção pessoal.

 

O que faz ainda mais pena é que o homem, se estivesse aconselhado como deveria, até poderia sair-se bem da festa. Mas estes fracassos que aparentam sucesso gostam de se fechar em círculos bajuladores imbecis. 

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