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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Um dia de calor

 

O dia de ontem terminou com uma festa de despedida. Organizada pelo pessoal da MINURCAT, os da Sede, em N´Djaména, com a participação animada de um dos melhores grupos de dança tradicional do Sul do Chade. Uns dançarinos excepcionais, que nos revelaram várias facetas das cerimónias de iniciação, que continuam vivas nestas paragens. Foi também interessante ver alguns dos nossos jovens funcionários nacionais, que normalmente andam de fato e gravata, acompanhar os ritmos, como se a música fizesse parte dos seus génes.

 

Este é um país culturalmente muito diverso. Enquanto os tambores do Sul batem com a energia da África banto, fazendo vibrar todos os poros dos que sabem viver esssas músicas, e acentuando o erotismo das florestas por explorar, os naturais do Centro e Norte mexem o corpo, lentamente, com a graça oriental das cortes dos sultões.

 

Entre os pratos tradicionais, havia uma dobrada de cabra, certamente um animal duramente experiente da vida, preparada pela minha Assistente de muitos anos, uma mulher das terras mais amenas da África Austral. Claro que tive que me servir. O resto, não digo.

 

Foi um fim de tarde quente. Durante o dia a temperatura do ar andou a namorar os 48 graus. Em Março, é assim.

 

A manhã começara com uma reunião com todos os embaixadores residentes em N'djaména. A reunião mensal, que para mim foi a última, era a oportunidade para dizer "Thank you" e passar à frente. Tudo muito correcto, sem mais. Depois, tive um longo tête-à-tête com o Presidente Idriss Deby. O encontro começou em público, com a minha condecoração com o grau de Oficial da Ordem Nacional do Chade. Um gesto raro. Uma Ordem de elite. Depois, ficámos sós, para falar sobre o Sudão, esta parte do Continente Africano, projectos, água, um tema central para as gentes do Sahel, segurança, e o futuro das Nações Unidas nestas areias. Foi um diálogo com elevação, descontraído, que as ideias são para serem confrontadas, não as pessoas.

 

Já mais tarde, à hora das orações de Sexta-feira, o Representante Especial do Presidente ofereceu-me um camelo. Lindo. Com calabaças e tudo, aparelhado a rigor. O RE, que responde pelo nome de General Dagache, quatro estrelas e muitas dunas de combate,  batalhas muitas, a morder o pó dos ventos áridos, homem com ossos e pele, mas nada mais, que o deserto não é para grandes comidas, é natural do Sahara, não muito longe do fim do mundo que é a região de fronteira com a Líbia. O camelo é a fonte da vida, nesses cantos perdidos, onde a beleza das montanhas roídas por milhões de anos de vento nos faz imaginar catedrais do surrealismo mais ousado. O camelo e água, que brota aqui e ali, nos oásis que se escondem para além das miragens.

 

O meu camelo está agora em casa, grande e majestuoso, à espera de um caixote que o leve para as terras molhadas da beira-Tejo. É uma peça de madeira que vale a pena que atravesse o deserto. 

 

Fazer de parvo

 

Andar a fazer de parvo dá muito jeito. Assim acontece, na vida diplomática. Finge-se que não se entende e passa-se em frente, ao que é, de facto, importante. Com elegância, que na diplomacia, e na política, convém ter maneiras. A cortesia, a forma, o porte, a postura, são armas eficazes. Sobretudo quando o outro lado usa essas mesmas tácticas para tentar levar-nos à certa.

 

Lembro-me quando negociava com o governo japonês, haverá uns dez anos. Os meus interlocutores, quando a questão lhes parecia embaraçosa, murmuravam umas frases impossíveis de entender. Repetia eu o ponto, para tentar obter um esclarecimento. E a contraparte voltava a dizer umas coisas mal pronunciadas e sem sentido claro. Mas eram ditas com calma e educação. Eu ficava desarmado. Não podia passar a reunião a pedir que repetissem a mesma coisa. Entre fazer de parvo, por não compreender, e fazer de parvo, por parecer ter compreendido, a segunda opção sempre era mais digna.

 

O fundamental era entender bem o que os meus interlocutores queriam dizer, mas não diziam. E tirar as conclusões que se impunham.

 

Nestes dias, as andanças fazem-me pensar nestas experiências. Pratico, de novo, o jogo do parvo. Mas não convém andar a fazer de cego. Isso, sim, seria uma parvoíce das antigas.

 

 

 

Barris de pólvora e uma UE sem política externa

 

 

 

Darfur é o "barril de pólvora" africano

Chefe da missão da ONU preocupado com a possibilidade de as autoridades chadianas assumirem o controlo da segurança no país
 

A região do Darfur é "explosiva" e há um "grande risco" para refugiados e pessoal internacional se as Nações Unidas não renovarem o seu mandato no Chade no próximo mês, alerta o chefe da missão da ONU no país, o português Vítor Ângelo.

Vítor Ângelo, que termina o seu mandato e também a sua longa carreira nas Nações Unidas a 15 de Março, está preocupado com a possibilidade de as autoridades chadianas assumirem o controlo da segurança no país, agravando o que considera ser o futuro "grande problema de África". Para o chefe da missão das Nações Unidas no Chade (MINURCAT) e representante do secretário geral da ONU no país, "esta região é muito explosiva, está em crise, que se vai agravar com a evolução da situação no Sudão e sobretudo com a possibilidade de o Sudão se cindir em dois países", disse, o diplomata português à Lusa, numa entrevista concedida antes de ser conhecido o pedido do Governo do Chade para serem retiradas as forças da ONU.

A zona de fronteira do Sudão e o Chade e a República Centro Africana "são os barris de pólvora de amanhã", alerta Vítor Ângelo.

A situação vai ficar muito complexa" com eleições previstas no Sudão em abril e o referendo sobre o futuro do sul do país, no próximo ano, sendo "fundamental" que o Chade garanta a segurança na fronteira ao longo do Darfur e dentro do seu próprio país.

Segundo Vítor Ângelo, a MINURCAT está "a ser vítima do seu próprio sucesso" e os ganhos dos últimos meses em matéria de segurança "não são sustentáveis" se transitarem para o Governo de Djamena.

"As autoridades do Chade mobilizaram um grande número de soldados, entre 25 mil e 30 mil, para a fronteira entre o Chade e o Sudão", disse Vítor Ângelo, alertando para a situação no interior do país, onde "só as Nações Unidas" podem garantir a protecção das populações, do pessoal da organização e ONG.

O país "precisa de muito apoio da comunidade internacional, muitos recursos, de uma grande presença militar e de polícia, e só as Nações Unidas podem oferecer estas condições", disse o chefe da MINURCAT.

Se as Nações Unidas partirem a 15 de Março, "há um risco muito grande de voltarmos a ter ataques contra os humanitários, funcionários da ONU e sérias violações nos campos de refugiados".

 

 

Lusa

 

O meu comentário  a este despacho da LUSA:

 

O barril é o Sudão, no seu conjunto. Por causa das eleições que se aproximam, do referendo sobre a independência do Sul, das dissenções internas, no círculo dirigente, em Cartum. Dos conflitos entre etnias e dos jogos de interesses associados a essas querelas. Um barril que poderá fazer explodir outros, na região africana onde o Sudão se insere.

 

A política da UE em relação ao Sudão e à região não tem fôlego, nem direcção. Trata-se, aliás, de mais um exemplo de como a política externa da Europa é uma mera construção ilusória. Não existe, não se manifesta, não conta, e os principais Estados europeus não querem investir numa posição comum. Querem, isso sim, manter o seu peso individual.

 

O papel da Senhora Ashton é o de apanhar papéis. 

 

 

 

 

Ralações e outras guerras

 

Os meus textos na Visão abordam tão somente questões de política internacional. Para quem está fora de Portugal e nas funções que exerço, essa é a área mais indicada. Foi esse o acordo com a direcção da revista, há dois anos.

 

E ainda bem, que as matérias de política nacional são, infelizmente, autênticas guerrinhas de meninos birrentos, que querem guardar a bola só para eles. Haverá, mais tarde, muito a dizer sobre isso.

 

Mas para já, falemos de outras preocupações. O meu texto desta semana está disponível on-line:

 

http://aeiou.visao.pt/ralacoes-internacionais=f546639

 

É mais um testemunho pessoal. Escrevo sobre uma decisão que, se não for alterada, põe em risco as vidas e os direitos humanos de muita gente. Entre eles, centenas de milhares de refugiados provenientes do Darfur. Pessoas muito vulneráveis, que precisam da presença dos representantes da comunidade das nações, através da MINURCAT, e das outras agências da ONU, e da boa vontade do Governo do Chade, para que possam continuar a ter um mínimo de protecção.

 

Deixá-las sem a protecção da ONU seria um erro muito grave. Esta foi, aliás, a mensagem que alguns líderes dos refugiados trouxeram para o encontro com Luís Amado, quando o Ministro visitou o campo de Djabal, às portas da cidade de Goz Beida, a 60 quilómetros da fronteira com o Sudão.

 

Curiosamente, as ONGs, que gostam sempre de falar com voz grossa, têm estado muito silenciosas. Não se fazem ouvir, quando deveriam dizer claramente que sem segurança não existirão condições para que o trabalho humanitário continue. Esta falta de posição pública ficará na história das ONGs e será objecto de teses académicas futuras. Mas, entretanto, os refugiados poderão ficar ao abandono.

 

 

O encómio da palavra

 

Ouvi bons discursos, durante a minha visita de hoje a Farchana e Hadjer Hadid, a dois passos da fronteira do Chade com o Sudão. Duas zonas de violência, de massas de refugiados e de deslocados, duas zonas em que o controlo das nossas forças começa a ganhar forma. No meio de tanta secura, foi bom escutar um par de discursos elegantes, bem estruturados, de improviso, mas cheios de significado. Palavras ditas bem e com equilíbrio ajudam a resolver os problemas. Afinal, o ser humano é um animal que precisa de comunicar.

 

E em política, a elegância da palavra justa é uma arte que aprecio.

Voltei com muito pó

 

Copyright V.Ângelo

 

Fiz centenas de quilómetros na poeira do deserto, visitei vários campos de refugiados, encontrei-me com dezenas de trabalhadores humanitários, vi gente a sofrer nos hospitais de campanha, crianças sem escolas, sem alimentação, mulheres que são violadas quando vão à procura de lenha, polícias corajosos, como o Coronel Ahmat, só ossos, mas uma grande experiência de combate e uma inteligência fina e sensível. Um homem sem medo.

 

Viajei estes dias com um um enorme lenço à volta do pescoço e do nariz, à la palestiniana, tentei proteger-me do pó fino, mas acabei o dia a sangrar do nariz, a tossir e castanho como uma maçã reineta meia podre. A minha figura era tão pouco usual, com o pano aos quadradinhos cor de areia à volta da cara, o nariz a apontar na direcção da estrada, que acabei por dizer aos meus guarda-costas que, se houvesse uma emboscada, os bandidos fugiriam de horror, ao ver-me nessa figura estranha. Um horror, sentado no banco da frente.

 

Mas voltei a encontrar gente de muito valor. Que nos ensinam a ser modestos e atentos aos outros.

Um combatente

 

Começar o dia com o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o General Orozi, é um prazer. Orozi, um jovem, 43 anos, três estrelas, é uma das pessoas mais inteligentes das muitas que encontrei nas minhas peregrinações. Conhece cantos de Lisboa que eu nem sonho que existam. Vem muitas vezes a Portugal. As Oficinas Gerais de Material Aeronáutico fazem a manutenção do seu C-130. É um homem do deserto, nascido a cerca de 250 quilómetros a Sul da fronteira com a Líbia, em pleno Sahara. Um homem de palavra. Quando diz que faz, faz. Quando diz que não, é não mesmo.

 

Pertence a uma tribo de pastores de camelos. Os miúdos saem para o deserto com os animais, e por aí ficam meses sem fim. Além da companhia dos camelos e do silêncio que os torna homens grandes, cada miúdo tem a sua pistola-metralhadora, uma kalashnikov. Mais tarde na vida, os mais aguerridos tornam-se soldados, ou rebeldes, ou ambas as coisas. Não têm medo da morte, que morrer é o que acontece a muitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Viagens e conflitos

 

A visita de Luís Amado ao Chade, prevista para amanhã e Segunda-feira, incluía uma volta por um campo de refugiados, o maior e numa zona perto da fronteira com El Geneina, um importante centro urbano, no Sudão.

 

Por razões de última hora, completamente justificadas, o Ministro não pode fazer a viagem. Terá que ser em Janeiro.

 

Entretanto, está em preparação a minha viagem a Sam Ouandja, uma localidade 200 quilómetros ao Sul de Birao. É a ponta Sul da área de intervenção das tropas da MINURCAT. Uma região de refugiados sudaneses e de homens armados, pertencentes ao grupo rebelde centro-africano conhecido como UFDR. As duas partes estão em conflito. Com violência e com casos de morte. É uma terra com diamantes e caça grossa. São dois recursos naturais que levam a grandes disputas. Não há segredo. Trata-se de ver quem controla as riquezas. Lá como por cá. 

 

 

Uma barriga sem rei

 

A Ministra da Defesa da Noruega, Grete Faremo, está de visita ao contingente norueguês no Chade. Em Abéché. É uma mulher com muita experiência, quer na política quer no mundo dos negócios multinacionais. Ao mesmo tempo, uma pessoa modesta, sem pretensões. Como dizia um dos meus polícias, não tem o rei na barriga, o que não seria o caso, se fosse ministra de Portugal.

 

Discutimos a situação nacional e regional, dando especial atenção à grande crise que se avizinha, com a implosão do Sudão, dentro de um ano ou ano e meio. Será um fenómeno com um impacto enorme na região. Pela primeira vez, as fronteiras herdadas da colonização deixarão de contar. A divisão irá separar quem se reivindica como árabe e muçulmano dos que são negros, cristãos ou animistas.

 

Trata-se de uma linha fracturante que também existe noutros países do Continente, na zona da banda do Sahel, onde a África arabizada se confronta com as populações genericamente designadas como bantos.

 

O Ocidente e muitos países africanos ainda não entenderam o alcance que a separação do Sudão virá a ter. Por isso, nada está a ser feito para mitigar as consequências previsíveis deste terramoto político.

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