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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Fora de mim

 

Passei o dia a percorrer, de avião, carro e helicóptero, a região do Dar Sila, a Sudeste do Chade, junto à fronteira com o Darfur. Apanhei muito Sol, fiquei encharcado de poeira, sobretudo quando parámos para inspeccionar o local onde ocorreu a emboscada de 20 de Dezembro contra uma coluna das Nações Unidas, uma zona onde a areia mais parece farinha de fina qualidade, pronunciei quatro discursos, visitei uma série de locais que não lembram nem ao Diabo que Deus tem, e acabei o dia furioso. Na verdade, enquanto estava no Dar Sila, houve uma revolta mais a Norte, os refugiados do campo de Gaga resolveram atacar o nosso posto de polícia adjacente, queriam linchar um casal de presos que havia cometido, na noite passada, diziam eles, um homicídio voluntário no campo. A polícia teve que disparar contra os refugiados, um deles deixou de perceber o que é a vida, tive que enviar tropas como reforço, a pista não dava para o helicóptero aterrar, havia muito pó, lá tiveram os militares que ir por estrada, a uma média de 17 quilómetros por hora, mais não é possível, aqui não há excessos de velocidade, nestes caminhos de pedras soltas e rios secos, podíamos ter enviado mais helicópteros, para mostrar a nossa força, ninguém pensou nisso, fiquei fora de mim. 

 

Isto de manter a paz é uma verdadeira guerra de iniciativas de dissuasão.

Uma fé inacabada

 

Copyright V. Ângelo

 

A igreja de Sam Ouandja, na RCA, está por acabar. Algum missionário mais ousado deve ter passado pela vila e pensado numa construção sólida. Mas, nestas terras de violências, tudo é precário.

 

Mesmo as pessoas parecem estar por acabar. Como se faltasse acrescentar qualquer coisa à alma das gentes. Vive-se devagarinho, na esperança que as balas perdidas passem ao lado.

A dúvida faz bem à saúde

 

A dúvida está presente no meu quotidiano. É fundamental dar espaço à dúvida, para que a compreensão do que nos rodeia se torne mais clara.

 

Neste tipo de vida, o que parece nem sempre é. Há, tantas vezes, um grau de incerteza sobre a realidade de um facto. Com a experiência, aprendemos a ir para além das aparências. Das interpretações simples. Que pode estar por detrás de um incidente, de uma declaração, de uma acção militar, de uma abertura política? Será que nos querem fazer crer em determinada coisa, tomar uma determinada direcção, quando a realidade é outra?

Os serviços secretos e os meios de comunicação social são muito dados à fabricação de factos. E de boatos, de medos, de papões.

 

Estou, neste momento, a lidar com alguns deles.

 

Não convém, no entanto, cair na teoria da conspiração, que vê um enredo em toda a parte, como acontece muitas vezes em regimes totalitários. E nas mentes simples.

 

Hoje cerca das 10:30, os militares das FACA (Forças Armadas Centro-Africanas), acampados em Sam Oundja, entraram em parafuso e começaram a disparar uns contra os outros. No final do tiroteio, havia quatro mortos para enterrar e dois feridos graves. Um dos militares mortos foi o comandante do contingente, um jovem tenente. Tinha passado uma parte do dia de Terça-feira a negociar com ele. Achei-o um homem inteligente e carismático. Tinha vindo para Sam Ouandja, com os seus homens, para uma expedição de três meses, e já ia em nove...Estava desejoso de voltar para Bangui, o que iria acontecer dentro de um ou dois dias...

 

O meu conselheiro político principal, que também o conhecia, disse-me que, nestas terras, o carisma não protege das balas.

 

É verdade. Mas ser prudente, ter dúvidas, ver bem todos os ângulos, ajuda muito.

 

Se se abre bem os olhos, fica-se mais sábio, cada dia que passa.

Paz de Natal

 

O pobre do camelo não teria cornos mas a sua carne era rija como os ditos.

 

E muito mal temperada. Não dava para disfarçar.

 

Uma ceia de Natal diferente.

 

Com a situação na área das nossas operações, na RCA, a ficar cada vez mais violenta, incluindo o risco acrescido de raptos de Ocidentais, o desejo desta quadra é que haja tranquilidade e respeito. Duas características pouco frequentes, nas terras que frequento.

 

E ainda há quem diga que o pessoal dirigente da ONU são uns meros burocratas...

 

Fora isso, e esquecendo a comida, um bom Natal.

 

 

Sam Ouandja, uma cidade ecológica

 

Hoje, Sam Ouandja teve um novo tipo de visitas. Ontem, foi a minha vez. Ainda tenho que escrever sobre essa missão. Agora, foi um grupo rebelde rival, que resolveu, esta manhã, atacar os combatentes do UFDR. Cada grupo representa uma etnia vizinha, inimiga nas horas más, detestável, nos tempos mais serenos.

 

Foi uma confusão de morteiros, rajadas de kalash, gritos, a população civil a fugir para o mato, os meus soldados a tomar posição à volta do campo de refugiados.

 

No final dos combates, os assaltantes retiraram-se, levando consigo as duas únicas viaturas que existiam na cidade e que pertenciam às ONG Triangle e IMC ( International Medical Corps). Os ecologistas diriam que temos agora uma localidade sem carros. É verdade. Mas não sei se este facto entra nos planos da Conferência de Copenhaga.

 

Acabei por ter que proceder a uma evacuação do pessoal humanitário. Mandei dois helicópteros. Mas a lista de passageiros a evacuar e o grupo que nos esperava na pista não coincidia. Alguns humanitários tinham feito umas "amizades" locais e queriam levar as moçoilas amigas...Os pilotos, Russos que são, não tinham instruções para tanto. E, por isso, estavam prestes a levantar voo, de regresso à base, sem trazer ninguém...O meu conselheiro político principal, homem velho e sabido, que compreende bem a natureza humana e a força da vida, encontrou finalmente uma solução...

 

Só que com a demora, os helicópteros já não tiveram tempo de ir buscar um outro grupo de gente a evacuar, a cerca de cem quilómetros a Norte de Sam Ouandja.

 

É uma tarefa para amanhã. São quatro, sem contar com as companhias possíveis...A vida no mato não é só feita de espinhos...

Viagens e conflitos

 

A visita de Luís Amado ao Chade, prevista para amanhã e Segunda-feira, incluía uma volta por um campo de refugiados, o maior e numa zona perto da fronteira com El Geneina, um importante centro urbano, no Sudão.

 

Por razões de última hora, completamente justificadas, o Ministro não pode fazer a viagem. Terá que ser em Janeiro.

 

Entretanto, está em preparação a minha viagem a Sam Ouandja, uma localidade 200 quilómetros ao Sul de Birao. É a ponta Sul da área de intervenção das tropas da MINURCAT. Uma região de refugiados sudaneses e de homens armados, pertencentes ao grupo rebelde centro-africano conhecido como UFDR. As duas partes estão em conflito. Com violência e com casos de morte. É uma terra com diamantes e caça grossa. São dois recursos naturais que levam a grandes disputas. Não há segredo. Trata-se de ver quem controla as riquezas. Lá como por cá. 

 

 

Falsificar a morte

 

Durante a noite, foi preciso evacuar, para Nairobi, um Major do contingente russo. Tinha ingerido, na véspera, uns copos bem cheios de um líquido, falsificado na Nigéria, mas com um rótulo de gin ou outra coisa parecida. Entrou em estado de choque, em coma profundo, com hemorragias internas, paralisações orgânicas, às portas do outro lado da vida.

 

Os nossos dois jactos estavam muito longe, um em Entebbe, o outro em Djibouti. Foi preciso mobilizar um dos nossos velhos Antonov 24, um avião que mais parece uma mula de montanha. Levou oito horas a chegar a Nairobi. Via Bangui, onde pousou às quatro da manhã, sem que houvesse abastecimento de combustível disponível no aeroporto. Depois, Entebbe, do outro lado das árvores, muito para além das florestas sem fim. Finalmente, o Quénia, que, primeiro, não deu autorização de aterragem, depois, aceitou o nosso SOS, mas deteve os pilotos. Não tinham visto.

 

O Major ainda estava vivo, depois de tantas voltas. A equipa médica norueguesa conseguiu mais um milagre. Mas, em que estado ficará este jovem oficial, depois de tudo isto?

 

Se a falsificação, muito frequente na Nigéria, tiver sido à base de metanol, as consequências são gravíssimas. Uma pequena dose de metanol provoca cegueira, uma dose maior leva a problemas irremediáveis. A vida nestas terras vale pouco, meus amigos.

 

Hoje, ao fim do dia, recebo a notícia do general que comanda as minhas tropas que há mais dois militares russos, da mesma equipa, em situação semelhante. Que drama! Quantas garrafas terão comprado, nos mercados sem lei destas terras sem rei, estes homens da terra do vodka e inocentes nas terras em que é preciso andar de olho vivo?

 

Mandei proibir todo o consumo de bebidas alcoólicas no campo russo.

 

E amanhã, bem cedo, um avião mais estará a fazer o percurso da selva para Nairobi.

 

Saúde!

 

Um discurso de partir narizes

 

Procedi ontem à condecoração dos 400 militares irlandeses que servem na missão que dirijo.  Foi na sede do sector Sul, em Goz Beida. Uma localidade amena, longe do deserto. Com temperaturas mais fáceis de suportar.

 

Embora esta seja a estação das chuvas, por isso, menos quente, foi decidido fazer a parada às 08:30, antes da hora de maior calor. Em trinta e cinco minutos, que foi quanto durou a cerimónia, 51 militares tiveram que ser evacuados, por se sentirem mal ou mesmo, por haverem perdido os sentidos. Quando discursava às tropas, o capitão que comandava a primeira companhia, e que estava mesmo à minha frente, desmaiou e caiu para a frente, como se fosse uma tábua. Tinha estado a chover umas horas antes e a terra estava fofa. Não impediu, no entanto, a fractura do nariz. Levaram-no para a enfermaria, inconsciente e enlameado.

 

A temperatura era apenas de 36 graus, em virtude da hora matinal. Mas para um irlandês, que sonha com as chuvas frias da sua terra, são muitos graus.

 

Fez-me impressão estar a discursar e a ver os homens a cair. Não era o poder da palavra. Depois de quatro meses no Chade, os soldados da Irlanda ainda não sabem resistir aos raios solares. Mas são uns militares excelentes, muito apreciados por todos os humanitários e pelos refugiados que beneficiam da sua protecção.

 

Falámos rapidamente do referendo sobre o Tratado de Lisboa. A grande maioria destes militares aprova o texto e acredita que o Sim tem hipóteses.

Le petit blanc, com muitos copos

 

Durante a noite, viajei de N'Djaména para Paris. A título pessoal, por isso tinha um bilhete para a classe sardinha. Ao meu lado, sentou-se "un petit blanc". Um daqueles brancos que se perderam por África, quando aconteceu a descolonização. Sem qualificações, foram sempre arranjando emprego como capatazes ao Sol, apenas por serem brancos. São o último elo da cadeia, a mandar nas tarefas que apenas exigem mão-de-obra e supervisão, para que os trabalhadores não abusem.

 

O meu "petit blanc" regressava a casa, depois de trinta e tal anos perdido pelo mundo. Disse-me que tinha estado em todo o sítio que é África, e mencionou, para ilustrar, Martinica, Guadalupe, Polinésia, Guiana Francesa, etc, para além das Mauritânias e outros sítios que, esses sim, estão em África. Afinal, o que ele queria dizer é que tudo o que é Negro lhe é familiar. Uma maneira de ver.

 

Figura fraca de estatura, corroído pelo Sol, as mulheres dos trópicos e muito álcool. Tossia a má vida de vez em quando, as privações de quem anda aos caídos pelo mundo duro das terras que são agrestes e violentas, aquele som de quem tem os pulmões e alma à briga entre eles.

 

Estava, por outro lado, embriagado até à raiz dos cabelos. Ainda pensei exigir que o tirassem do avião, que não tinha condições para viajar e deixar os outros em paz. Falei com o chefe de cabine. Decidiu-se que iria continuar viagem, talvez a última de grande curso. Para não acrescentar mais miséria ao diabo da vida. Até porque a Air France tem um certo fraco pelos franceses...

 

Quando veio o jantar, o homem queria e gritava por um pastis, "un apéro", e vinho. Fiz ver ao pessoal de bordo que não seria aceitável responder afirmativamente. O "pequeno" ficou ainda mais podre e resmungou mais uma hora ou duas, até cair de cansaço, sobre si mesmo. Entretanto, cumprimentou-me, dizendo que nunca tinha tido, nas suas muitas viagens, um "abrutti" como eu como companheiro de voo.

 

Triste fecho para uma descolonização tardia.

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