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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

A burocracia portuguesa

Mão amiga fez-me chegar um folheto informativo sobre as alterações ao Código da Estrada em Portugal.

 

Mas a vida tem coincidências que não dão para entender.

 

Nesse mesmo dia, eu recebera das autoridades da autarquia local onde resido, a comuna de Schaerbeek em Bruxelas, a carta de condução belga e uma licença internacional também de condução. Demoraram cinco dias para emitir ambos os documentos, sem que fosse necessário preencher qualquer formulário – o funcionário autárquico limitou-se a marcar umas cruzes num impresso pré-preenchido – nem algum exame médico. Foi-me apenas pedida a carta portuguesa, uma fotografia para a licença internacional e 46 euros. Tempo de espera para ser atendido, de ambas as vezes: um minuto. Mais. A carta belga é válida por dez anos, apesar da idade avançada que a minha cara mostra.

 

Depois, comparei tudo isto aos procedimentos burocráticos portugueses, em que a renovação da carta é uma espécie de passagem pelo inferno. E agora, até quem atinge a idade madura dos 30 anos terá que passar por uma bicha, pagar uma taxa e levar um papel novo, que chegará quando chegar.

 

Sem esquecer que agora é preciso andar com o cartão de contribuinte junto à carta, a não ser que já se tenha o cartão de cidadão. Deve ser para ver se pedimos factura quando dissemos meia dúzia de palavrões contra a burocracia que emperra os serviços públicos portugueses.

Cá se fazem, cá se pagam!

No seguimento das eleições italianas, as elites intelectuais e políticas europeias continuam a não entender que décadas de corrupção política e económica, de clientelismo político, de ausência de um estado de direito, que foi substituído em várias regiões da Itália pelo código de actuação das máfias, e de burocratização extrema da governação central, regional e local, tudo isto acompanhado de demagogia e de ilusões económicas, só poderiam ter este tipo de resultado: colocar o país contra a parede!

Um sobressalto patriótico

A situação política e económica em que Portugal se encontra é preocupante.

 

Estamos no patamar de uma crise política de grande alcance. Os líderes dos principais partidos estão, como já tem sido hábito, a entrar numa fase de personalização dos assuntos. Deixa de ser a susbtância da questão que interessa. O debate foge, então, para as questões ligadas ao relacionamento entre pessoas. Quem ofende quem, quem se sente ofendido, quem deixa de falar com quem, quem perde as estribeiras quando enxerga o outro, é a fuga para a luta entre egos, quando o que está em jogo são os interesses nacionais.

 

Como também estamos a cavalgar a onda da crise económica. A nossa economia está cada vez mais parada. Menos competitiva e menos atraente para eventuais investidores. O poder de compra das famílias está seriamente comprometido. Há mais pobres, mais dificuldades, mais miséria encoberta e, também, aberta. O anúncio de novos impostos, de mais controlos e de mais burocracia afastam os que poderiam estar interessados em investir. Se a isso juntarmos uma mão-de-obra que é, em média, pouco qualificada e incapaz de se inserir na economia internacional, o panorama para os próximos tempos fica ainda mais escuro.

 

Como disse várias vezes, é a altura de um sobressalto patriótico. De pedir aos dirigentes que tenham juízo e que se sentem à mesma mesa, para que procurem chegar a um acordo em relação às grandes questões nacionais. Como reduzir o défice público é certamente uma dessas questões. Na fase actual, essa pergunta só tem uma resposta viável: por via da redução das despesas públicas. Não das despesas sociais, pois essas já estão nas lonas, cortar mais seria lançar no desespero milhares de famílias. Mas um corte dos salários da função pública não é de excluir. Antes pelo contrário. É, cada vez mais, uma possibilidade. Como também não será de excluir uma redução drástica das transferências para as empresas públicas. Com o corolário de uma gestão mais racional dos meios existentes nessas empresas, a começar pelos privilégios concedidos aos seus administradores. Como se pode conceber que uma minúscula empresa pública de águas ou de serviços municipalizados tenha administrações com regalias exorbitantes? Para quê? Para compensar um risco empresarial que não existe? Para motivar a criatividade de administradores que não necessitam dela, pois operam com base num monopólio de serviços?

 

Cada vez mais vozes reconhecem a gravidade do momento presente. Mas muitas dessas vozes já mostraram que para além das palavras, pouco mais trazem de concreto.

 

Resta a dúvida: Como se pode contribuir para o sobressalto nacional? 

Fronteiras, identidades e paciências

 

Passar quase quatro horas na Loja do Cidadão para renovar um passaporte foi a moeda de hoje. Às 09:30, a bicha nas Laranjeiras quase chegava à Estrada da Luz. Milhares de cidadãos pacientemente esperando por serviços burocráticos básicos. Santa paciência, que deve haver um canto no céu inteiramente reservado aos nacionais lusitanos. Bem merecido é!

 

A verdade é que os serviços administrativos são insuficientes, numa cidade como Lisboa, para as necessidades da população. Poupa-se em funcionários enquanto o pobre do utilizador perde em termos de tempo e de fé na eficiência da função pública.

 

Segui para os Restauradores. Antes das 10:00, a senha para o balcão de emissão de passaportes já apregoava o número 75. O que me deu tempo para ficar à espera, de pé, que só haviam cinco assentos disponíveis, até cerca das 14:00. Curiosamente, a maioria dos portugueses que me passaram à frente dos olhos eram crianças e pais jovens de origem africana. Todos com a nacionalidade de Portugal, todos, ao fim e ao cabo, com o mesmo documento que um desgraçado de um Alentejano como eu iria receber. Ou seja, muitos dos nossos concidadãos têm pouco a ver com a descendência que Viriato nos deixou.

 

Foi esclarecedor em termos das grandes mutações que as migrações recentes provocaram no nosso país.

 

Pensei que a imigração é um dos três grandes temas das eleições britânicas. Os outros dois são, obviamente, a crise económica e a falta de honestidade dos políticos. Lembrei-me das discussões sobre as questões da identidade, que estão a percorrer a sociedade francesa. No tema do véu integral, muito actual na Bélgica e noutros países vizinhos.

 

Tudo isto são assuntos muito delicados, fracturantes, fontes potenciais de conflitos cívicos. Esperemos que aqui, na nossa terra de santos pacientes, haja suficiente sabedoria para não entrar por esses caminhos.

 

 

Cansaços

 

Depois de uma viagem que me levou, na Sexta a Birao, nos confins do centro de África, no Sábado a Abéché, depois Guéréda, terra das rebeliões, seguida de Gaga, onde o nosso posto de polícia foi atacado por Jenjaweeds, mais o regresso a N´Djaména, passei horas a tentar evacuar o agente que foi gravemente ferido na Segunda-feira.

 

Está em condições de ser evacuado, depois de duas operações de várias horas no nosso hospital militar de Abéché. Neste momento, necessita de 50% dos nossos recursos hospitalares, para se manter vivo. Tem que ser transferido para um hospital maior, com mais especialistas. Se assim acontecer, safa-se.

Estamos a tentar a África do Sul. O hospital militar de Pretória é do melhor que há. E também a Líbia.

 

Como não é funcionário da ONU, é mais complicado. Trata-se de um polícia chadiano a trabalhar lado a lado com as forças das Nações Unidas, na protecção de refugiados. Um homem com coragem, que teve azar.

 

O avião ambulância já está pronto.

 

Tem sido uma canseira, para ultrapassar a burocracia. Horas e horas ao telefone. Em reuniões. Mas lá iremos.

 

Com uma grande fadiga às costas.

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