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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Manobras internacionais

Começou hoje a Assembleia Geral das Nações Unidas, edição 2016.

Desta vez, a questão da eleição do novo Secretário-geral estará muito presente, nos múltiplos encontros diplomáticos que o evento proporciona. Mas, na realidade, é a posição de cada um dos cinco membros permanentes que conta. Mesmo nas circunstâncias actuais, depois de um processo mais visível do que passado.

É difícil saber, neste momento, qual vai ser a escolha que cada um irá fazer.

Para já, é claro que os Estados Unidos prefeririam Susana Malcorra, que passou vários anos em Nova Iorque, nomeadamente na área que dá prestígio político junto dos grandes, que é a da manutenção da paz. Os britânicos iriam por Helen Clark, que está há vários anos à cabeça do PNUD. Os franceses e os russos, apostam ainda em Irina Bokova, por muito que se diga. E os chineses, que estão muito interessados na América Latina e operações de paz, também iriam por Malcorra.

Esta última não agrada muito ao governo de Londres, embora se estejam já a discutir as condições que poderiam levar a um apoio.

Helen Clark não deverá ter a aprovação dos russos e dos chineses, por muito que ela nos queira fazer crer que sim. Nem estes vêem grande vantagem em aprovar alguém vindo de um país que nada lhes poderá oferecer de verdadeiramente estratégico.

Irina Bokova não deverá passar nem em Londres nem em Washington. A sua candidatura está, aliás, sob uma séria ameaça, que poderá ser concretizada a 26 de setembro, após a próxima ronda de votação informal no Conselho de Segurança.

No meio de tudo isto, aumentam as hipóteses dos outros candidatos mais votados, sobretudo de António Guterres e de Miroslav Lajčák. Mas nada está ainda garantido.

Quanto a Kristalina Georgieva, poderá aparecer depois de 26 de setembro. E a sua aceitação comportar, entre outras possibilidades, uma promessa de suspensão das sanções europeias contra a Rússia. Isso tem algum peso, claro.

 

 

Sobre a quarta ronda

Teve hoje lugar a quarta ronda do processo de eleição do Secretário-Geral da ONU. E o Conselho de Segurança mostrou manter a mesma linha de coerência que havia revelado nas votações anteriores. Voltou a preferir António Guterres, com mais ou menos o mesmo tipo de apoio. Diria mesmo que Guterres sai reforçado. É agora um candidato que deve ser levado muito a sério pelos Estados Membros que estão neste momento no Conselho de Segurança bem como pelos membros permanentes.

Ainda vamos ter, próximo do final do mês, uma outra ronda indicativa. A última, antes do processo entrar na fase dos vetos. O período que se segue, entre hoje e essa nova volta, vai ser um período de intensa actividade diplomática, pelo menos para alguns dos candidatos. Susana Malcorra, por exemplo, já começou a fazer concessões aos britânicos, no que respeita às Ilhas Malvinas.

É preciso ter igualmente em conta que a questão até agora tem sido se o candidato deve ou não ser encorajado a manter a sua candidatura. Responder que sim não é o mesmo que votar a favor. No entanto, os valores obtidos por António Guterres não poderão ser ignorados pelos membros do Conselho. 

Uma eleição bem complexa

Nações Unidas: a procissão já saiu do adro

                Victor Ângelo

 

 

                Independentemente do desfecho final, que ainda é incerto, porque as negociações entre os grandes ainda não começaram, e nestas coisas de interesses estratégicos tudo pode acontecer, os resultados obtidos até agora por António Guterres são de se lhe tirar o chapéu. O Conselho de Segurança da ONU tem sido consistente na apreciação das qualidades excecionais do candidato proposto por Portugal para Secretário-geral. Enquanto se têm notado oscilações importantes no reconhecimento do mérito dos outros concorrentes, no caso de Guterres as votações têm mantido uma avaliação constante, a um nível alto e promissor.

                Se na próxima ronda, que será a quarta, o apoio continuar ao mesmo nível, tornar-se-á muito difícil impor um outro candidato. Sobretudo um candidato de última hora, alguém chegado de novo, de fora, a um processo que já percorreu muito caminho.

               Mas tudo pode ainda acontecer. O passado mostra que a escolha pelo Conselho de Segurança de um novo patrão das Nações Unidas mantém-se imprevisível até ao último momento.

                A Rússia está convencida que um Secretário-geral proveniente de um pequeno país da Europa do Leste lhe será, no futuro, mais favorável, menos inclinado a críticas à política externa russa. Sobretudo se o país da sua nacionalidade tiver uma relação de proximidade económica e cultural com a Rússia. Por isso, será de prever que o Kremlin continue a insistir na questão da rotatividade geopolítica, ou seja, que desta vez o cargo deve caber à Europa Oriental. É verdade que a Europa Oriental é uma ficção política, que deixou de existir com o fim da Guerra Fria, a subsequente expansão da NATO e as adesões à UE. Mas é uma ficção que existe ainda na ONU e que pode ser útil aos interesses russos, tal como a classe dirigente atual os vê.

                Nessa linha de reivindicação geopolítica, um nome parece agora emergir. E de modo surpreendente. O primeiro-ministro da Eslováquia esteve em Moscovo uns dias antes da votação desta semana e teve uma conversa muito apreciada por Vladimir Putin. É assunto que convém seguir com algum cuidado.

                Por outro lado, quer a Rússia quer os outros grandes do Conselho, os P5, como se chama aos permanentes, preferirão um Secretário-geral que seja considerado politicamente pragmático. Ou seja, flexível, uma palavra que traduz bem a principal característica que eles gostam de ver na pessoa que ocupa o secretariado-geral. Os membros permanentes não apreciam os moralistas, em matéria de política internacional. Também não morrem de amores por gente com um forte pendão humanitário.             

                 Há ainda a variável do género. A administração americana tem em Washington quem pense – e é gente influente, com acesso aos ouvidos do presidente – que Obama não deve deixar passar a oportunidade, no termo do seu mandato, de contribuir para a eleição de uma mulher. Ficaria bem na fotografia final e nos livros de história.

                Sem esquecer, claro, que Hillary Clinton também vai influenciar a escolha, mesmo que o faça de modo indireto. Vai ser ela, em princípio, quem irá ter como interlocutor o novo Secretário-geral.

                Os americanos querem, por tudo isto, que as candidatas femininas continuem até à próxima ronda. Têm porém um problema como uma outra mulher: Teresa May. A líder britânica não pode apoiar a candidata preferida por Washington. A razão é clara. Toca numa questão internacional que faz parte da sua história recente e que está estreitamente associada ao legado de uma outra líder conservadora, Margaret Thatcher: as Ilhas Falklands, para uns, Malvinas, para outros.

                Para quem gosta de histórias de suspense, a inovadora metodologia eleitoral, que os estados membros estão desta vez a seguir, oferece uma boa dose de excitação. Tem, igualmente, o mérito de chamar a atenção pública internacional para uma questão que no passado sempre passou despercebida: a importância da função. Num panorama de grandes tensões, a personalidade do Secretário-geral conta de modo determinante. E é por isso que a candidatura de António Guterres ganhou o peso que agora tem.

 

(Texto que hoje publico na Visão on line)

 

 

 

Escrever sobre as Nações Unidas

Com a terceira ronda às portas, marcada para 29 de agosto, e com António Guterres na linha da frente, na corrida ao topo da instituição, cresce o interesse na imprensa portuguesa sobre as Nações Unidas. E surgem vários textos, sobretudo para dar uma perspectiva histórica do relacionamento de Portugal com a ONU.

Ainda bem que assim é. A questão onusiana tem sido sempre tratada pela rama e de modo muito incompleto. Os escritos que agora vão surgindo permitem dar um pouco mais de substância à matéria.

Mas ainda há muito que aprender, como noto quando falo com gente que normalmente tem um bom acesso à informação. Não entendem bem como funciona a máquina. E também o noto nos próprios textos, que são escritos por quem leu umas coisas sobre a ONU ou se relacionou com ela do lado de fora, a partir das nossas missões diplomáticas.

 

 

ONU: Primeira volta

O primeiro voto informal relativo ao processo de eleição do futuro Secretário-Geral da ONU teve lugar hoje no Conselho de Segurança. E as primeiras indicações, baseadas ainda em informações incompletas, são certamente muito favoráveis para o candidato português, António Guterres. Por duas razões. Primeiro, pelo elevado número de votos “de encorajamento”: 12 num total de 15. Depois e sobretudo por não ter nenhum voto de “desencorajamento”. Esse tipo de votos é muito perigoso. Basta que um deles venha de um membro permanente do Conselho para termos o caldo entornado. Ou pelo menos, para que a eleição se torne bem mais difícil. 

No caso presente o segundo candidato mais forte, Danilo Turk da Eslovénia, teve dois votos de “desencorajamento”. Turk era à partida uma das grandes apostas: vem da Europa do Leste, conhece bem a ONU, fala bem e é convincente. Mas esses dois votos negativos podem trazer muita água no bico. Não serão, no entanto, barreiras intransponíveis. Kofi Annan também tinha um voto desses vindo da França. Depois de muitas conversas, a diplomacia acabou por virar a opinião dos franceses no bom sentido. E Kofi ganhou.

Irina Bokova, a Directora-Geral da UNESCO, cidadã búlgara, aparece como a mulher com mais hipóteses. Mas ainda não sei se recebeu votos de desincentivo. Se assim tiver acontecido, creio que não terá hipóteses de ganhar. 

Tudo ficará mais claro quando tiver lugar a próxima ronda.

 

 

A caminho do secretariado-geral da ONU

Praticamente nas vésperas da visita a Portugal do Secretário-Geral da ONU, ouvem-se rumores que está prestes a surgir uma segunda ronda de candidatos à sua sucessão. A candidatura de Helen Clark, a grande chefe do PNUD e cidadã neozelandesa, anunciada em Abril, deu azo e pretexto ao aparecimento de outras candidaturas não-europeias. A nova ronda vai, por isso, fazer aparecer nomes de outras candidatas – sim, deverão ser mulheres –, desta vez, latino-americanas. E talvez também venha à superfície um candidato mais, de um país da Europa do Leste.

Entretanto, segundo me foi dado a entender ontem, os americanos ainda não tomaram posição sobre o nome que prefeririam. Acham que ainda é cedo. Têm, além disso, que esperar pelo anúncio oficial dos resultados das primárias dos Republicanos e dos Democratas. Quando isso acontecer, a administração de Obama discutirá com os representantes oficiais de ambos os candidatos à presidência dos EUA, ou seja, com os líderes dos seus “transition teams”, para os sondar sobre a questão.

Sobre a ONU

Tive hoje a oportunidade de dizer publicamente que na eleição do próximo Secretário-Geral da ONU o critério absoluto vai ser o geopolítico. Como é aliás tradição. Só que desta vez, esse critério ainda será mais estreito. É quase certo que o vencedor será alguém originário da Europa do Leste. E os países sabem que assim deverá ser. Por isso, dos sete candidatos anunciados oficialmente seis provêm de estados dessa região. António Guterres é a excepção. É verdade que vem do grupo europeu, mas como acima digo, este ano a definição geopolítica é mais apertada.

O segundo critério será o do género. Não deve ser visto como um crivo absoluto. Mas pesará.

Em terceiro lugar, dar-se-á vantagem ao candidato que possa fazer a ponte entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Existe uma preocupação evidente em relação a Putine. A tendência actual vai no sentido do restabelecimento do diálogo com Moscovo. O candidato da Europa do Leste que tenha mais condições para fazer essa ligação poderá ter mais hipóteses.

E o quarto critério é o da sorte. O processo é complicado. Podem surgir objeções de última hora. E aí ganha o inesperado.

A nossa experiência diplomática

A mobilização de um certo número de embaixadores portugueses com experiência da diplomacia nova-iorquina, junto das Nações Unidas, dá uma grande ajuda à candidatura de António Guterres. Apoio essa iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, incluindo o facto de ter colocado o presidente do Instituto Diplomático à frente do grupo de trabalho encarregado da promoção do candidato português. Tivemos, ao longo dos anos, bons embaixadores como representantes permanentes junto da ONU. Sabem bem como funciona a relação de forças e de interesses dos diferentes países e grupos de Estados. É, por isso, fundamental aproveitar esses conhecimentos e pô-los ao serviço de uma candidatura corajosa como a de Guterres mas que, à partida, tem contra ela a questão geopolítica e do género. Estas duas questões vão pesar muito no processo, embora não sejam inteiramente determinantes.

Depois de Davos, vamos a Nova Iorque

Faço hoje, num texto na Visão, o balanço da reunião de Davos deste ano e a ligação entre o que aí se disse e a eleição do futuro Secretário-Geral da ONU.

O texto tem o título: "De Davos a Nova Iorque".

Quem quiser ter a bondade de me ler, pode abrir a página on-line da Visão ou seguir este link:

http://bit.ly/1NaHzyA

As Nações Unidas à deriva...

Escrevo hoje na revista Visão sobre a ONU, mais especialmente sobre um Conselho de Segurança paralisado.

Passo a citar:

 

ONU: inoperante e marginal?

Victor Ângelo

 

 

                Assistimos hoje a um processo de marginalização política das Nações Unidas. A tendência, que é sobretudo visível na área da resolução de conflitos e da manutenção da paz, agravou-se de sobremaneira na sequência da crise na Líbia, em 2011. A coligação de nações que fez cair Muammar Kadhafi foi acusada, por certos estados membros, incluindo a Rússia, de ter ido além do mandato aprovado pelo Conselho de Segurança, que tinha como legitimação principal a proteção da população civil. A coligação teria, antes sim, aproveitado a legitimidade dada pelo Conselho para levar a cabo um exercício de força militar e dar asas à inclinação moralizadora que anima alguns dos principais países ocidentais.

                A minha opinião sobre a campanha contra Kadhafi é outra. Considero a intervenção na Líbia como um exemplo bem ilustrativo do que acontece quando se combina uma estratégia política confusa com a utilização de um poder militar altamente eficiente. O que pareceu ser uma vitória foi apenas um momento de regozijo fugaz, com um poderoso efeito de bumerangue.

               Mas, independentemente do mérito ou da desadequação da crítica russa e de outros, a verdade é que a questão líbia introduziu uma linha de fratura no Conselho. O resultado está à vista: quando se trata das grandes disputas, com impacto regional ou internacional, o Conselho de Segurança fica paralisado. Temos assim um órgão fundamental para paz e a segurança mundiais que, tal como durante a Guerra Fria, não funciona, a não ser quando se trata de problemas de natureza local e de importância global reduzida, como nos casos do Mali ou da República Centro-Africana. Funcionar apenas para os conflitos de menor peso é ficar muito aquém das suas responsabilidades.  

                A ineficiência ao nível do Conselho de Segurança levou por seu turno ao enfraquecimento do secretariado das Nações Unidas. O Secretário-geral e a sua equipa ficaram sem saber qual o pé de dança que devem seguir. Têm-se refugiado, por isso, numa atitude tímida, ao vento das oportunidades e pouco criativa. Não propõem nada que possa contrariar a maneira de ver das grandes potências, os cinco países com direito de veto. Em consequência, a liderança da organização deixou cair os princípios basilares que sempre orientaram a doutrina das operações de manutenção da paz da ONU. Mais, não ousa apresentar qualquer tipo de proposta ou posição sobre os temas mais complexos da atualidade, como as migrações através do Mediterrâneo, a decisão unilateral da Arábia Saudita de utilizar meios militares no Iémen ou ainda, sobre as violações sistemáticas do direito internacional na Ucrânia ou as disputas marítimas entre a China e a sua vizinhança. A voz do secretariado da ONU, que deveria ser a expressão corajosa da legalidade internacional, transformou-se num murmúrio que mal se ouve, quando mesmo não se cala.

                O enfraquecimento das Nações Unidas deve deixar-nos preocupados. A organização foi criada para prevenir ou permitir a resolução pacífica dos conflitos. Vivemos num mundo instável, bem mais perigoso que no passado. Basta pensar no novo tipo de desafios assimétricos, provocados por redes violentas de fanáticos e de criminosos, na capacidade destrutiva dos novos armamentos e dos ataques cibernéticos, ou ainda na rapidez com que as crises se complicam. Perante isto, a conclusão só pode ser que o mundo de hoje precisa, não de uma governação sem garras, mas sim de um sistema internacional de paz renovado, credível e audaz.

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