Portugal é grande quando abre horizontes

14
Nov 19

Custa-me ver gente amiga politicamente fanática. Falo de amigos que andaram pelos bancos das universidades, fizeram boas carreiras profissionais, venceram, mais ou menos, na vida, mas que são excessivos e desvairados, quando se trata da política. Sobretudo quando se faz uma pontinha de crítica ao partido com o qual se identificam. Ficam fora de si. E fazem-me pensar que a política é algo de profundamente emotivo, que pouco tem que ver com a direcção mais correcta que deve ser dada à vida colectiva de um povo. Esses meus amigos lembram-me, então, que a política tem que ser ganha nos corações dos eleitores, não simplesmente nas suas mentes. Por isso, a narrativa tem que ter calor e alma, para poder ganhar o âmago de cada eleitor. Um discurso político meramente cerebral não leva muito longe. Fazer política e ganhar votos exigem uma grande proximidade e empatia com uma boa parte da população. A política é sobre o mel, não é sobre o vinagre.

 

publicado por victorangelo às 20:19

09
Nov 19

A luta política portuguesa ainda está debaixo da influência de escolas de pensamento totalitárias. Em ambos os lados, à esquerda e à direita, não estamos preparados para aceitar outros pontos de vista, para ver qualquer tipo de mérito nas opiniões de outras famílias políticas.

A maioria dos defensores das ideias de esquerda vê as outras correntes de opinião como inimigas do povo. Só eles é que têm razão, cada um na sua capela ideológica e entre os seus fiéis amigos. Se tivessem o poder, um poder absoluto, praticariam aquilo que Estaline e outros praticaram, quando se tratava de lidar com pessoas com um pensar diferente. Talvez a uma escala menor, que nós somos uns meia-tigelas, mas o princípio seria o mesmo: esmagar quem não pertence à nossa família política.

À direita, também se faz política assim. Os adversários são vistos como inimigos e os inimigos só podem ter um destino.

A intolerância e a incapacidade de dialogar e de chegar a compromissos têm muitos adeptos entre nós. Fomos formatados pelo fascismo e pelo outro lado da medalha, pelas ditaduras que invocavam em vão a classe operária e o proletariado. Ou seja, a nossa cultura política é uma cultura que procura excluir e derrotar, em vez de construir e harmonizar. É uma maneira de ver que não deixa espaço para um equilíbrio de interesses e para uma inclusão inteligente dos cidadãos, sobretudo daqueles que menos sabem de política e que, por isso, andam mais indefesos.

Toda esta intolerância revela uma grande imaturidade política. Sobretudo, ao nível de quem manda na política, dentro ou fora do governo, nos jornais, nas assembleias, na praça pública. Os actores políticos são infantis, apenas pensam na imagem da sua pessoa e na maneira de bater nos outros, forte e feio.

Há aqui uma revolução cultural que precisa de ser levada a cabo. O problema é que não vejo como se pode iniciar o processo.

 

publicado por victorangelo às 16:32

25
Set 19

O meu escrito sobre Greta Thunberg bateu o recorde de visualizações. E provocou vários tipos de reacções. Não estranhei, por ter visto nos jornais de hoje, um pouco por vários países, o tipo de comentários que Greta suscita. A verdade é que a jovem activista não deixa ninguém indiferente. Nem todos os comentários serão positivos. Alguns são mesmo cínicos e ofensivos, mal-criados num ou noutro caso. As redes sociais são assim e cada um oferece o que pode e expõe-se como melhor entende.

Mas que estamos num período de grandes movimentos de cidadania, nomeadamente sobre a crise do clima, não haverá maneira de o negar. Esses movimentos estão a mudar a maneira como se faz política. A democracia representativa, que tem sido o nosso modelo de democracia, tem que se adaptar às novas formas de expressão da vontade popular, ter em conta os líderes informais que vão surgindo – Greta é um exemplo desse novo tipo de liderança que brota para além das instituições tradicionais – bem como o poder das redes sociais.

A democracia representativa está no meio de uma grande transformação. Não tenhamos dúvidas.

publicado por victorangelo às 21:10

21
Ago 19

O SAPO anda por aí a perguntar a certas pessoas qual seria a sua prioridade número um, se fossem o próximo Primeiro-Ministro, após as eleições legislativas de Outubro. Acho que é uma boa iniciativa. Mais ainda, creio que cada português – homens e mulheres – se deveria interrogar da mesma maneira. Daí resultaria, certamente, um sentido mais apurado do que falta fazer no nosso país. Todos ganharíamos com esse exercício.

publicado por victorangelo às 21:00

19
Ago 19

Greta Thunberg está algures no Atlântico, a navegar em direcção à cidade de Nova Iorque. A travessia é acompanhada por um simbolismo muito forte. O veleiro que a transporta é neutro no que respeita à emissão de carbono. As grandes causas precisam de símbolos fortes. Greta sabe-o.

Falar de Greta Thunberg permite-me acrescentar que a nova geração, os mais novos, poderão mudar muitas coisas e transformar o mundo que nós construímos de modo insustentável, embora convencidos que estávamos no bom caminho. Tenho falado com vários jovens e vejo que são diferentes, mais generosos e menos egoístas do que nós. E isso dá-me uma certa esperança.

Para além de Greta, temos Emma Gonzalez nos Estados Unidos, Joshua Wong em Hong Kong, Malala Yousafzai no Paquistão e um pouco por toda a parte, Aruna De Wever na Bélgica, Trisha Shetty na Índia, a pró-democracia activista Lyubov Sobol na Rússia e tantos outros jovens que, através de movimentos de cidadania, estão na frente de combate por um mundo melhor.

Neste dia em que se celebra a causa humanitária, lembrar o papel dos jovens é refrescante e animador.

publicado por victorangelo às 22:14

12
Jul 19

Ontem, alguém que gostou da minha apresentação sobre o papel da sociedade civil na resposta às questões da geopolítica, que era o cerne da palestra que fiz na Casa da Cidadania, perguntou-me por que razão não falo mais vezes em público em Portugal. Sabia que o faço frequentemente no estrangeiro e estava admirada por o mesmo não acontecer por aqui.

Respondi que não queria incomodar os fazedores de opinião que primam em Portugal. É que eu falo com base na experiência vivida ao longo de quatro décadas, em muitos teatros de crise e de decisão, e não com base na leitura de textos escritos por outros. Mais. Falo directo, quer seja politicamente correcto quer não.

Isso não passa bem. Em privado, contei a história de um ex-ministro que esteve, há uns anos, num painel em que participei e que se sentiu atacado pela minha franqueza. Ficou nervoso e incomodado. Depois da conferência, moveu portas e travessas, e todas as influências que tinha, para tentar atacar o meu bom nome. É verdade que o não conseguiu. Mas ensinou-me uma lição. Em Portugal, não se atiram pedras ao charco em que vivem os que têm influência política e espaço na comunicação social. É perigoso. Os nossos sapos opinativos são, na verdade, príncipes encantados. Temos que os respeitar, fazer vénia e beija-mão.

Assim, muito por opção, deixo-os andar e vou, de vez em quando, falando aos cidadãos do dia comum. Foi isso que aconteceu ontem e a sala apreciou.

publicado por victorangelo às 21:24

11
Jul 19

A minha palestra de hoje em Lisboa, na PASC-Casa da Cidadania, foi sobre “geopolítica, ameaças e resposta cidadã”.

Falei sobre a sociedade civil e a sua capacidade de influenciar a agenda política, dei várias exemplos concretos, do #ClimateStrike ao #UmbrellaMovement de Hong Kong, passando pelo Sudão e a Rússia. No essencial, nesta parte da conversa, o objectivo era demonstrar que muitas das grandes mudanças políticas tiveram na base movimentos cívicos.

Depois, referi os grandes acontecimentos da década em curso, acontecimentos que influenciaram de modo determinante a agenda internacional. Comecei pela Líbia de 2011 e acabei com o lançamento pelo Facebook e mais 26 parceiros da Libra, que teve lugar a 18 de junho passado.

Foi então altura de falar do reequilíbrio dos poderes mundiais e da natureza dos novos conflitos, incluindo o novo tipo de armamentos.

Para fechar o debate que se seguiu, pedi aos participantes que evitassem respostas simples e lineares a questões complexas. Estamos num momento em as fontes de poder são variadas, não se limitam apenas ao controlo do Estado, das redes sociais, da banca ou das indústrias de armamento. Dar uma resposta simples a um período particularmente complexo da nossa história humana seria fazer o jogo dos populistas.

 

 

publicado por victorangelo às 21:30

09
Jul 19

No meu blog em inglês, escrevo hoje, de modo breve, sobre os movimentos de cidadania. Procuro resumir a análise a três pontos: a importância desses movimentos em termos de câmbio social; o uso das plataformas sociais e da comunicação social convencional; e as razões que explicam os sucessos que certos movimentos obtiveram.

O blog está disponível aqui:

https://victorangeloviews.blogspot.com/2019/07/the-critical-importance-of-civic.html

publicado por victorangelo às 23:00

08
Jul 19

É mais fácil chegar ao poder do que fazer bom uso dele e conseguir mantê-lo nas nossas mãos.

publicado por victorangelo às 20:08

21
Fev 19

O texto que ontem publiquei é mais uma prova da desconexão que existe, nas nossas democracias ocidentais, entre o cidadão comum e as elites. No caso referido, tratava-se das elites políticas. Mas poderiam ter sido outras, as intelectuais, as académicas, as económicas ou as que brilham nos media. O fosso também diz respeito a essas elites.

Um fosso crescente, por isso, preocupante.

Ao nível político, assistimos a um amplo desencontro entre as aspirações populares e a capacidade de resposta dos políticos. E não é apenas a resposta medíocre perante os desafios sociais. É a incompetência noutras áreas igualmente vitais, como a da gestão da macroeconomia, da educação para o Século XXI e, ainda, a segurança dos mais fracos e a justiça.

Tudo isto acaba por se traduzir numa agitação e num mal-estar sociais de proporções inéditas desde os tempos do pós-guerra. Quando 4 em cada 10 cidadãos dizem ser contra o sistema vigente, há que reflectir, há que tirar as necessárias conclusões.

Temos que forçar o debate público desta crise do nosso sistema. E defender, com toda a clareza, a argumentação contra as opções populistas ou as respostas legalistas e securitárias.

 

publicado por victorangelo às 12:53

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